Ato III – Capítulo IV – Um Dia a Mais

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Quando Shiryu se afastou, Shunrei ainda ficou mais algum tempo parada, como se não estivesse ali. Então ser beijada por um rapaz, ser amada por ele era tão bom assim?

Suspirando, ela abriu os olhos e encontrou os do soldado a fitá-la, um sorriso iluminado no rosto. Então, de repente, ela lembrou-se de que estavam no meio da rua e que precisava entrar, certamente o pai já estava preocupado consigo.

Soltou-se do rapaz e entrou rapidamente no café, indo encontrar o pai no balcão. Mal se sentou e Shiryu entrou também, indo se encontrar com Hyoga e Isaac que já iam embora do local.

-Está tudo bem, minha filha? – perguntou Dohko, percebendo que Shunrei parecia diferente, notando a mesma estranheza no jovem rapaz.

Shunrei apenas assentiu e se concentrou em comer, não queria conversar com ninguém naquele momento.

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Na calçada, Saori tratou de limpar suas lágrimas e estava indo embora quando foi interceptada por alguém.

-O que está fazendo aqui, sua sonsa? Por que não está com sua mãe, ajudando-a com as esmolas? – questionou seu pai, puxando-a com violência pelo braço.

-Não sou uma mendiga para ficar por aí, me humilhando por moedas!

-Ora, sua insolente!

Giovanni levantou o braço para bater em Saori, ela se encolheu de medo. Mas um dos homens de seu bando o interrompeu.

-Veja só, Giovanni, é o café onde aqueles estudantes se reúnem para discutir a revolução.

-Tem razão, Afrodite... – os olhos do homem brilharam – Imagine quanto dinheiro não têm e que podemos conseguir com esses trouxas! No final das contas, você estar aqui foi melhor do que pensava.

Soltou o braço de Saori e ganhou a rua com os companheiros, discutindo como fariam para se aproximar dos estudantes. A garota ajeitou sua túnica que estava torta e viu Shiryu sair do café, acompanhado de mais dois rapazes. E foi inevitável um suspiro de tristeza.

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Aérea, Shunrei logo terminou de jantar e correu para o quarto, queria ficar sozinha, revivendo em sua mente cada segundo e sensação do beijo trocado. Porém, com a pulga atrás da orelha, Dohko não deixaria a filha em paz.

-Shunrei? Será que podemos conversar?

-Claro papai... – ela concordou, sentando-se na cama. Dohko suspirou e se sentou também, apoiando os braços nas pernas.

-Aconteceu alguma coisa, minha filha?

-Como assim?

-Você não me parece bem, está diferente... Ficou assim depois que a senhora Hilda a mandou atrás de Kiki na rua.

-Não é nada, papai, fique tranqüilo.

Mas Dohko não estava tranqüilo e nem ficaria. Cruzando os braços, ele encarou a filha, começando a se sentir incomodado com o que diria e, principalmente, com a resposta que a garota lhe daria.

-Você não em engana, Shunrei... É algo a ver com aquele rapaz de cabelos compridos e negros, não?

Shunrei arregalou os olhos, será que o pai sabia de alguma coisa? Baixou os olhos, sem coragem de encará-lo.

-Eu... Eu gosto do Shiryu, papai. Ele é um bom rapaz, educado e...

-E o quê, Shunrei? – Dohko perguntou com um tom de irritação começando a despontar em sua voz.

-Ele foi comigo procurar pelo Kiki e quando voltamos, ele... Ele me beijou, papai.

-O QUÊ???

Irritado, Dohko deu um grito e um pulo, assustando Shunrei. Nervoso, começou a andar de um lado para outro do pequeno quarto, passando as mãos nervosamente pelos cabelos.

-Você ficou maluca, Shunrei? Como pôde deixar que aquele rapaz fizesse isso?

-Mas, papai...

-Não percebe que ela só quer te usar, minha filha? Se divertir e depois te descartar? É isso o que todos eles fazem!

-Papai, por favor, me escute...

-Nós nunca deveríamos ter saído do templo, Shunrei... Aliás, é para lá que vamos voltar assim que o dia amanhecer!

-Eu não vou voltar para aquele templo!

O grito de Shunrei fez com que Dohko se calasse, estancando o passo. A garota estava vermelha e de pé, encarando-o com os olhos negros brilhando de excitação.

-Eu não vou voltar a viver presa, como se fosse um passarinho na gaiola! Eu quero viver na cidade, quero ficar aqui com a senhora Hilda e poder ver o Shiryu e...

Não terminou o que dizia, foi calada por uma sacudida de Dohko, que agarrou os braços da filha, assustando-a novamente.

-Pare com isso, Shunrei! Será que não percebe que aquele rapaz quer te tirar de mim? E se isso acontecer, eu não vou suportar, minha filha... Eu não vou suportar...

Seus olhos se encheram de lágrimas e ele largou Shunrei, sentando-se na cama. A cabeça girava e pesava, Dohko não sabia o que fazer ou como agir. Foi então que sentiu os braços carinhosos da garota a envolvê-lo, em um abraço quente e protetor.

-Não diga uma coisa dessas, papai... Eu nunca vou deixar o senhor... Nunca!

Deixando-se levar por aquele gesto, Dohko largou-se no abraço, apertando forte o corpo da filha. Não importava quem fosse, não permitiria jamais que a levassem embora.

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O dia amanheceu cinzento, sem sol e com nuvens pesadas. Hyoga acordou sentindo-se estranho, o pressentimento que algo ruim estava para acontecer. Seu semblante era o contraponto perfeito de Shiryu, animado e cheio de expectativas por mais um dia de reuniões no café. Queria rever seu anjo, quem sabe teria chance de repetir o ocorrido da noite anterior.

Shion também acordou com a mesma sensação que Hyoga, mas logo deixou isso de lado. Besteiras. Devia estar ficando velho e caquético, onde já se viu se deixar levar por pressentimentos ruins?

Chegaram quase ao mesmo tempo no café, os demais estavam presentes e já discutiam estratégias para a revolução.

-Onde está Isaac? – perguntou Hyoga, puxando uma cadeira e se sentando, Shiryu fez o mesmo.

-Virá mais tarde, parece que houve um problema no gabinete dele lá na sede do partido. – respondeu Aioria, que terminava de anotar alguma coisa em um livro.

Puseram-se a conversar, Shiryu distraiu-se observando Shunrei, que estava ao balcão servindo chá a um senhor idoso. Sorriu ao vê-la mirar seu olhar, era tão linda a sua pequena. Dohko, que desta vez estava no salão, mas em um canto mais afastado, não tirava os olhos do rapaz, ainda teria sua chance de conversar a sério com aquele petulante!

Então, todas as conversas e distrações foram interrompidas por um afoito Kiki, que entrou correndo pelo café, derrubando uma cadeira pelo caminho. Só parou quando se postou diante de Aioria, ofegante.

-O que foi Kiki? Por que tanta correria?

-Isaac foi assassinado!

Surpresa, murmúrios de indignação, Hyoga deixou cair uma xícara que segurava entre as mãos. Levantou em um pulo, segurou Kiki pelo braço e começou a sacudir o garoto, querendo saber mais detalhes do ocorrido.

-Fale Kiki, como foi? O que aconteceu com o Isaac?

-Pá-pára de me sa-sa-cu-di-dir qu-que eu fa-falo!

Hyoga o soltou com tudo, os estudantes, Shion e até Dohko passaram a prestar atenção no menino.

-Foi uma emboscada! Isaac foi chamado em seu gabinete e, quando saía de casa para ir até a sede do partido, foi pego por dois homens na rua. Eles o mataram a tiros, nem se importaram com as pessoas ao redor.

O loiro caiu sentado no chão, perplexo com as palavras de Kiki sobre o assassinato de seu amigo. Os estudantes começaram a falar alto, praguejando e gritando entre si, Shion ficou calado em seu canto, pensativo. Então os figurões tinham arranjado a desculpa perfeita para um levante dos estudantes, tudo o que precisavam para dar cabo deles.

-Acalmem-se, todos! Precisamos esfriar a cabeça, pensar no que faremos daqui para frente!

-Pensar no que, Aioria? Não vê que esta é a chance que temos de nos levantar contra esse maldito partido, fazê-los pagar por tudo e pela morte de Isaac?

-Ikki, isso não é...

-Eu concordo com Ikki! – Hyoga gritou de repente, todos se silenciaram – Vamos pegar em armas e mostrar para esse bando de abutres que não somos brinquedos, que temos nossos direitos!

Shiryu arregalou os olhos, quem era aquele Hyoga que desconhecia? O amigo estava nervoso, sua aparência era febril e insana. Raiva, dor, revolta, todos esses sentimentos estampados nos olhos azuis do rapaz.

Pouco a pouco, os demais foram se juntando a Hyoga e Ikki, estava decidido por maioria: Mao e seu partido iriam conhecer a fúria que reinava naqueles corações juvenis.

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Assim que ouviu o parecer dos estudantes, Dohko alarmou-se. Aquele café, provavelmente o bairro e até toda cidade se transformariam em uma praça de guerra. Com medo, por causa de Shunrei, subiu correndo a escada de acesso aos quartos, arrumaria suas coisas e da filha e iriam embora o quanto antes.

No salão, Shiryu tentava conversar com Hyoga, mas o amigo estava decidido. Sua camisa estava toda molhada pelo suor da excitação que sentia, Ikki já lhe arrumara uma espingarda que engatilhava.

-Hyoga, nós precisamos conver...

-Já sei o que vai me dizer e saiba que a resposta é não, Shiryu. Eu não vou voltar atrás... Esses malditos mataram meu amigo de infância, não vou deixar barato!

Shiryu suspirou, ponderando por um momento. O que fazer? Pensou em Shunrei, na amizade que tinha por Hyoga e então tomou sua decisão.

-Conte com minha ajuda, Hyoga... Eu não vou te abandonar, meu amigo. Só preciso fazer uma coisa antes de me juntar a vocês.

-Certo, então nos encontre mais tarde, mas não aqui. Logo montaremos a barricada no limite da rua, esteja lá.

Apressado, o rapaz deixou o café. Nem percebeu que Shunrei ouvira a conversa e tinha os olhos cheios de lágrimas. Bem nessa hora, Dohko desceu a escadas e a chamou, apreensivo.

-Shunrei, suba e pegue as suas coisas, nós vamos embora antes que esse lugar vire uma baderna.

Ela assentiu e passou correndo pelo pai, mas Dohko notou que Shunrei parecia chorar. O que estava acontecendo com sua princesa? Subiu atrás dela, preocupado. E, enquanto isso, Shion repassava mentalmente seus planos, completamente mudados por conta da morte de Isaac. Agora, teria no máximo até o fim da noite do dia seguinte para entregar os líderes à polícia, precisava de alguma boa estratégia para atingir seu objetivo.

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Rapidamente, a notícia da morte de Isaac correu pela cidade, de boca em boca, de café em café. Por todo canto, estudantes se reuniam, montavam barricadas e levantes em diversos locais e bairros.

Desviando-se das pessoas que corriam, tentando se esconder ou fugir para um lugar seguro, Saori tentava entender o que estava acontecendo. Seus olhos percorriam cada rosto, cada barricada, ouvia atenta os discursos inflamados de um ou outro. Foi então que sua mente deu um estalo, era uma revolução!

Lembrou-se da reunião que vira Shiryu participar no café, será que o rapaz estava envolvido naquilo? Nervosa, Saori decidiu ir atrás dele, saber mais a respeito. Não o deixaria sozinho em uma hora dessas.

Enquanto isso, Shiryu retornava do quartel, onde estivera para pegar algumas coisas que precisaria e também uma carta que tinha acabado de escrever. Rumou ao café, precisava conversar com Shunrei antes de ir ao encontro de Hyoga.

E, no café, Dohko conversava com Hilda, decidira que ele e Shunrei iriam para casa da irmã da mulher, que morava fora de Pequim. Entrou no quarto para dar a notícia à Shunrei e encontrou a filha arrumando suas coisas, chorando.

-O que foi Shunrei? Por que chora?

-Ah, papai... Shiryu...

-O que tem ele?

-Ele vai lutar papai... Vai lutar ao lado dos amigos... E se ele morrer, o que eu vou fazer?

Dohko ficou sem ação, era difícil ver sua pequena chorando. E foi então que constatou de vez o que mais temia: Shunrei estava mesmo apaixonada por aquele rapaz.

-Não fique assim, minha filha... Vai ficar tudo bem...

Ele a abraçou, o choro de Shunrei tornou-se mais forte e sentido. Precisava fazer algo por sua princesa, ela não poderia sofrer. Não podia permitir que algo assim acontecesse.

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Shiryu estava quase chegando ao café quando avistou uma tropa de Mao rumando para a rua onde seus amigos estariam. Precisava correr e se juntar a eles antes que fosse tarde. Mas e Shunrei? Precisava falar com ela. Porém, sua salvação veio ao seu encontro, afoita e preocupada.

-Shiryu!

-Saori? O que faz aqui?

-Eu... Eu precisava falar com você, soube da revolução... Vai lutar?

-Sim... – ele disse, com certo pesar – Não posso abandonar Hyoga e os outros.

-Então eu lutarei também, Shiryu! Onde estão acampados?

-Não, eu preciso que faça um favor para mim, Saori...

Dizendo isto, o rapaz tirou do bolso de sua calça uma carta, que entregou à Saori. Ela pegou o envelope o olhou para ele, como se questionasse o que aquilo significava.

-Lembra-se do café aonde eu ia com Hyoga encontrar os estudantes? – ela assentiu – Preciso que vá até lá e entregue esta carta para uma jovem chamada Shunrei. É muito importante que faça isso por mim, Saori.

Ela entristeceu por um momento, então tinha mesmo perdido qualquer chance de conquistar Shiryu? No entanto, ainda se sentindo triste, Saori concordou, o que deixou o soldado feliz por um instante.

-Obrigado Saori, eu nem sei como lhe agradecer por me ajudar!

Sorrindo meio amarelo, a garota despediu-se de Shiryu e rumou ao café. Mesmo não querendo, faria o que ele havia pedido.

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Com tudo arrumado, Dohko desceu ao salão, estava apenas esperando por Hilda e Shunrei para que pudessem partir. Sentou-se em uma cadeira, o pensamento longe. O que faria para acalmar o coração de sua pequena? Doía-lhe vê-la sofrer daquela maneira.

Acabou tendo seus pensamentos interrompidos pelo barulho da porta, levantou o olhar e viu uma jovem de melenas lilazes entrar. Parecia procurar por alguém.

-Pois não, senhorita? Posso ajudar em alguma coisa?

-Eu... Eu procuro por uma garota chamada Shunrei, tenho algo a entregar para ela.

-Ela está lá em cima, mas deixe o que trouxe comigo, eu entrego.

Saori apertou o envelope contra o peito, deveria confiar naquele homem? Dohko percebeu sua hesitação e então suspirou meio resignado.

-Pode deixar o envelope comigo, eu lhe asseguro que esta carta chegará às mãos de Shunrei.

A garota ainda pensou por alguns instantes, e então entregou a carta ao homem. Na verdade, queria era procurar por Shiryu, estar ao seu lado durante a luta. Rapidamente, saiu do café e Dohko aproveitou que estava sozinho para abrir a carta.

"Minha doce Shunrei

Enquanto estiver lendo esta carta, estarei partindo para a luta... Não posso abandonar meu amigo Hyoga sozinho, mas também... Também não posso te deixar. Apesar do tão pouco tempo que nos conhecemos, sinto que a amo de todo meu coração.

Reze por mim, minha princesa. Reze para que volte vivo e para teus braços. E lhe juro que, quando tudo estiver acabado, eu falarei com teu pai, pedirei a ele permissão para nos casarmos.

Nós seremos felizes, Shunrei, eu juro.

Do seu...

Shiryu"

Ouviu passos no andar de cima, Shunrei e Hilda estavam descendo para o salão. Guardou a carta rapidamente em seu bolso e voltou-se para a filha, ela ainda tinha os olhos vermelhos.

-Estamos prontas, senhor Lyu-Ban... Podemos ir.

-Vá na frente com Shunrei, senhora Hilda. Tenho uns assuntos pendentes para resolver, eu as encontrarei mais tarde.

-Papai, o que vai...

-Por favor, não me faça perguntas, Shunrei... Apenas vá com a senhora Hilda... – Dohko a abraçou, beijando sua testa - E não esqueça de que é preciosa para mim e o quanto eu te amo...

Shunrei não entendeu bem as palavras do pai, mas sorriu. Então, acompanhada da senhora Hilda, deixou o café. Poucos minutos depois, Dohko também saiu, disposto a ir ao encontro dos estudantes, onde quer que estivessem amotinados.

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E aqui chega ao final mais um capítulo, como sempre betado pela minha querida Themys... Os acontecimentos já estão se encaminhando para o fim, e para as lágrimas também...

"Um dia a mais", canção que fecha o primeiro ato do musical "Les Misérables". Foi tema da campanha presidencial do democrata Bill Clinton, quando tentava seu primeiro mandato.