O título do capítulo, em latim, "Sacrificium divinum", significa: "Sacrifício divino". É o nome pelo qual também se designa MISSA no mesmo idioma.
...v...v...v...v...v...
"Como um planeta atordoado ao redor de um sol fulmegante..."
O.o.O
SUB OCCASUM SOLIS
By Esmeralda Amamiya
O.o.O
...v...v...v...v...v...v...v...v...v...v
O.o.O Londres, 2 meses antes O.o.O
A cerração desfazia-se no regelado céu londrino com a aproximação da alvorada, cinzenta e triste que sempre pesava sobre a cidade. O inverno saudava, agourento, o outono tristonho que roçava pelas folhas barulhentas das altas árvores de copas frondosas que cercavam a clareira. A vegetação rasteira, porém densa, mostrava a desolação do local, envolvido pelas altas montanhas da floresta às suas costas. Tudo estava quieto e apenas o pio do cantor funéreo, acompanhado do fino e ranhento rangido de aço, quebrava a solidão do ermo local.
- Desista, Radamanthys!
Berrou um homem, trajando calças e colete marrons, a camisa branca por dentro trazia marcas de lama que jazia no solo, ressequida. As botas, antes bem engraxadas, estavam pavorosas. Na mão, a espada era segurada com agilidade e desenvoltura. Peter movimentava-se elegantemente, mas com ferocidade. Aquele duelo, de fato, era uma insensatez.
- Jamais o perdoarei! – rosnou o adversário – Você era meu amigo!
E num movimento brusco, Radamanthys atirou-se sobre o rival, de espada em punho, grunhindo sons inaudíveis, o ódio tornando seus olhos acesos, como os de um tigre em noites sem luar. Estava vestido miseravelmente, as calças e o colete negro estavam gastos e a camisa de dentro mostrava que ele a trazia consigo há vários dias. Seus pés, outrora acostumados a bons calçados, eram apertados em botinas grosseiras e rotas. Até mesmo a espada que empunhava já não lhe pertencia mais.
- Desgraçado! – gritou – Eu tinha uma vida!
O aço entrechocava-se com fervor, numa dança frenética, atordoada, rasgando a madrugada com seu ranger tenebroso, pressagiando morte. A lua escondia, de pavor, a face. No céu, nuvens densas premeditavam um forte temporal.
- Vida? – Peter amparou uma estocada – Você é apenas um bêbado simplório que perdeu tudo que tinha no jogo!
Radamanthys atacava-o com violência, mas sabia que o outro era um rival á altura. Foram companheiros de infância e se conheciam o bastante para saberem qual seria o próximo golpe.
- O único desgraçado aqui é você! – completou Peter – Eu e a Lucy nos apaixonamos!
- Que homem pode se dizer honrado quando aceita a amizade de outro e lhe rouba a mulher no meio da noite?
O rapaz loiro berrava mo auge de sua amargura, já não mais importava brios de família. A única coisa em que pensava era em como poderia matar o inimigo a sua frente.
- Não, Radamanthys...- Peter golpeou-o, porém sem sucesso -...O sol brilhava quando sua mulher o deixou!
A luta desenvolvia-se num crescente, nenhum ousando arrefecer. O rancor envolvia-os por completo. Radamanthys explodiu. Num movimento preciso, arrancou a espada das mãos do rival, fazendo-o cair ao chão e sob os olhos aturdidos de Peter, jogou longe sua própria arma e atirou-se com fúria sobre seu amigo de juventude. Esbateram-se como duas feras.
- Fala de honra...- Radamanthys grunhia, enquanto acertava-lhe um soco -...Mas isso é algo que você nunca teve!
Peter com um chute o afastou, atirando-o por cima da relva. Radamanthys voltou a si, limpando o sangue da boca, mas era tarde. A ponta da espada de Peter encontrava-se já em sua garganta:
- Ora, meu amigo...- os olhos de Peter exprimiam cinismo; ele ofegava -...Não me culpe por não saber segurar sua mulher! Não posso fazer nada se preferia o pôquer a Lucy! Você não me deixou opção! Lá estava eu e lá estava você!
E no momento exato em que se preparava para o golpe final, Radamanthys, sorrateiramente, cravou suas unhas na terra e jogou um punhado de areia nos olhos do rival. Peter persignou-se, era a deixa. O jovem loiro sangrando, disparou pelo meio da relva espessa em busca de sua espada, com o adversário, já recuperado, em seus calcanhares.
- Você me tirou a Lucy!
Berrou Radamanthys, de espada em punho, apontando-a, ameaçadoramente, para o homem diante de si.
- Eu lhe tirei tudo! – Peter saboreou as palavras – Suas terras! Seu dinheiro! Sua esposa...
O rosto de Radamanthys transfigurou-se numa cólera abafada, cruel, cega, fora de si. Seus lábios tremeram, suas mãos se crisparam...
- ...Exceto sua vida! – completou Peter.
E erguendo a espada num brusco movimento, jogou-se sobre o marido traído, para a estocada final. Mas algo saiu errado. Movera seu corpo alguns centímetros para fora da linha do corpo do rapaz. Se fosse outro inimigo, teria considerado o descuido desculpável, mas contra aquele homem, Peter soube que tinha sido fatal.
Dando as costas ao ex-companheiro, num movimento para sair do campo de ataque de sua espada, Radamanthys sentiu o aço que empunhava transpassar a carne humana e pela altura, havia sido no coração. Sentiu na nuca o bafo quente de Peter e puxando, vagarosamente, a espada, deixou que o corpo tombasse, agonizante, no chão. Ele virou-se para o moribundo com superioridade.
- Você não terá a Lucy! – gaguejou Peter, o sangue a escorrer-lhe pelo canto dos lábios.
- Essa mulher agora é sua! – decretou Radamanthys de forma amarga e arrogante – Só não sei que uso fará dela!
- Eu não queria lutar com você! – completou Peter, sentindo suas forças esvaírem-se.
- Mas aqui estou eu...- Radamanthys deixou que um sorriso sarcástico, conquanto entristecido, subir-lhe aos lábios -...E aqui está você!
Ele abaixou-se, arqueando-se sobre o corpo, roçando o aço de sua espada nas vestes do moribundo, estendido no chão, a fim de limpá-la do sangue. Erguendo-se, por fim, guardou-a na bainha, calmamente, virou-se de costas e caminhou até a larga pedra onde deixara o sobretudo, que havia pertencido ao seu pai e que empenhara para alimentar sua paixão pelo pano verde. Atirou-o por cima dos ombros e desapareceu dali com a bruma dissipando-se às suas costas.
...v...v...v...
- Chora por me ver bem ou por saber que seu amante está morto?
Radamanthys chegou em casa com a cinzenta alvorada. Para quem nascera em castelo, ter aquele casebre por teto, que agora já nem mais lhe pertencia, era no mínimo humilhante. Lucy caíra num pranto copioso, encolhendo-se num canto, o vestido amassado, os cabelos desarranjados, o rosto trigueiro envelhecido.
- O Peter morreu?
- A menos que o coração dele fique em outro lugar que não o lado esquerdo, acho que sim!
Ele pegou da garrafa de bebida em cima da mesa, após retirar o casaco e jogá-lo no chão. As poltronas haviam sido empenhadas na semana passada, de modo que não dispunham mais de cadeiras. Deu um grande gole em seu whisky escocês, tudo que lhe restara da antiga mobília e que certamente, agora, teria de pagar à família de Peter. Virou as costas à esposa olhando o apagado sol subir por detrás das montanhas através do vidro arranhado de sua janela.
- Ele era um homem bom! – dizia a mulher, tentando consolar-se – Queria apenas defender minha honra!
- E agora é um homem morto...
Radamanthys atirou na parede a garrafa que trazia na mão, espatifando-a. Voltou-se para a esposa com um sorriso cínico, conquanto irritado.
- ...E você continua desonrada!
Lucy levantou o rosto para ele, após recuperar-se do susto pelo objeto quebrado. O marido a encarou, mas, para surpresa desta, desviou seu olhar. Abaixou-se, pegou o sobretudo, vestiu-o desajeitado, abriu a porta e saiu, batendo-a atrás de si. Toda Londres acordava. Ele caminhava rápido, toda sua figura exalando uma profunda desolação.
Os cabelos desgrenhados mostravam sinais de falta de asseio há vários dias. Radamanthys entregava-se, conscientemente, à miséria humana. Com total abandono que não conseguia pensar sequer em como arranjaria dinheiro para saldar suas dívidas de jogo.
Entrou por uma estreita porta em cujo umbral uma placa anunciava: tipografia. Dentro, objetos de trabalho para impressão e um único ocupante que, à entrada do jovem inglês, mirou-o enfadado, dos pés à cabeça, reprovando aquela situação vergonhosa. O rapaz retirou o gorro dos cabelos e aproximou-se do balcão.
- Mr. McPherson, eu...- começou com uma voz sibilante.
- Se veio me pedir mais um prazo, esqueça! – sentenciou o velho, de óculos redondos na face esquálida e bem barbeada.
- Mas desta vez eu lhe garanto que o entrego até com um dia de adiantamento! – o jovem deixou que o nervosismo tomasse de seu ser.
- Mesmo? – o homem parecia incrédulo – Diga, meu rapaz! O que fez com o dinheiro que lhe dei adiantado, mesmo sem você me ter entrego os originais?
McPherson, apoiando as mãos na madeira do balcão, encarou o jovem nos olhos, um tom severo no semblante. Este abaixou o olhar por um momento, reconhecendo o desastre, mas voltou a pousá-los no rosto sério do tipógrafo, com uma nota de súplica corroendo-lhe os traços.
- Escute...- Radamanthys engoliu o orgulho -...Eu preciso desse dinheiro!
- Para jogar? – retrucou o senhor, erguendo uma sobrancelha.
- Preciso saldar minhas dívidas! – bradou o jovem, ressentido – Posso ter perdido tudo, mas ainda não perdi minha honra!
- Entregue os manuscritos e lhe darei uma bonificação! – decretou o tipógrafo, virando-se de costas e dando o assunto por encerrado.
- Mas ainda não estão prontos! – Radamanthys impediu-o de partir – Preciso de mais algum tempo para terminá-los!
- Tempo?! – o velho deu uma risada sarcástica – Radamanthys, da última vez dei-lhe um ano quando deveria ter concedido apenas seis meses e ainda vem me pedir tempo!?
- O senhor não vai se arrepender! – o jovem parecia entusiasmado – Vai ser o melhor livro já escrito!
- Os seus livros são sempre um fracasso! – comentou o velho, já irritado pela discussão – Só os imprimo porque você me custa barato e por solidariedade para com um nobre! – completou com ironia, sublinhando a última palavra.
- Posso estar na bancarrota, Mr. McPherson, mas ainda assim sou o conde McGreen! – relatou, orgulhoso, o rapaz.
- Filho...- o tipógrafo o olhou realmente penalizado -...Todos na cidade sabem que nem mesmo este título lhe pertence mais! Até ele você apostou!
- Mas nas minhas veias corre sangue nobre! – ratificou, com convicção, o jovem – O sangue dos McGreen!
- Que agora pertence a Peter Barridge! – completou o velho, cinicamente.
- Peter Barridge...- o rapaz deixou o cinismo contagiá-lo também -...Está morto!
McPherson empalideceu. Encarou o jovem a sua frente, que segurou seu olhar com assombro. Parecia tomado por uma estranha insanidade.
- Acha que ficará incólume? – interrogou, ainda abismado, o ancião.
- Claro que não! – respondeu Radamanthys – A família dele virá atrás de mim já que não sou um canalha!
E apertando a boina entre as mãos, por fim a pôs na cabeça, com um suspiro de enfado. Relanceou os olhos ao tipógrafo e sem nem ao menos cumprimentá-lo, partiu pelos becos estreitos e malcheirosos do subúrbio londrino. O que estariam esperando para caçá-lo?
...v...v...v...
Voltou para casa por volta do meio dia. Nenhum dos agiotas ou banqueiros da cidade lhe quiseram emprestar dinheiro. Radamanthys via-se num beco sem saída, sufocado, encurralado pelos credores. Mas não queria pensar nisso agora. A morte de Peter lhe serviria como um ganho de tempo. Poderia ainda vender a fazendo em Sussex, antes que a família do rapaz assassinado a viesse reclamar também.
Entrou, fechando a porta atrás de si. Todo barraco estava tomado pelo silêncio. Ele franziu o cenho, relanceando um olhar pelo ambiente úmido e vulgar. Ao escutar ruídos perdidos de portas sendo abertas e prontamente fechadas, encaminhou-se para o quarto.
Lucy estava arrumada, o único chapéu que lhe sobrara estava posto, cuidadosamente, sobre os cabelos louros. Pressurosa, arrumava em uma mala suas, agora, pouquíssimas roupas. Pegando de um rico vestido de baile, o primeiro que usara ao casar-se com o conde McGreen, sorriu, saudosa, relembrando os outros que fora obrigada a vender para que ele perdesse no jogo.
Ele abriu a porta, que estava apenas encostada, e com faces desgastadas, sem compreender (ou não queria?) as ações da mulher, entrou no aposento, observando-a terminar uma mala e começar outra. Lucy não o olhou, continuando sua tarefa como se ele não estivesse presente.
- O que está fazendo? – perguntou Radamanthys, por fim.
- Eu vou embora! – respondeu Lucy sem olhá-lo; sua voz era seca e sem expressão – Vou para casa de meus pais em Hampshire!
Os lábios do jovem crisparam-se. Ela jogara-se em seus braços quando era um homem rico e agora o abandonava quando mais precisava de apoio. Ele, que lhe havia desposado mesmo contra as ordens do pai!
- Você nunca me amou! – começou ele, tentando controlar a voz – Meu pai tinha razão! Você não passava de uma ordinária! Quando me abraçava, era no meu dinheiro que você pensava...
Lucy, pela primeira vez, desde o início daquela entrevista, deu-lhe atenção. Parou, por um momento, o que fazia e encarou-o na face. Estava bastante séria. Ela lhe lançou um olhar de desânimo, porque as mulheres são as únicas que conseguem pôr, em um único olhar, desprezo e crítica ao mesmo tempo. Ela jamais acreditara que ele, sem qualquer outra intenção, quisesse apenas enfiar o rosto entre aquelas pernas cálidas, cor de mel e acetinadas.
- Talvez seu pai tivesse razão! Mas saiba que se não fosse eu seria outra! Você é apenas um garoto mimado que acha que sabe algo sobre o mundo! – disse com aspereza – Acha que sou a única mulher que sonha com uma vida melhor?!
- Não escutei reclamação quando a tirei da condição de "a filha do carpinteiro"! – Respondeu ele, sarcástico, o ódio a explodir em seu interior.
- Sabe...- ela cruzou os braços, cínica -...Eu e Peter vivíamos felizes em nosso amor e você na sua ignorância!
A partir daí deixara de conter a voz e se pusera a sarcástica, utilizando aquele tom que o feria tanto. E o que mais o machucava era que, durante todo o tempo, ela o fitava de modo cortante, onde se entrechocavam o gélido ódio e as lágrimas fervidas, que ela sustentava com fervor. Àquelas palavras, Radamanthys desferiu um tapa com as costas da mão que acertou em cheio a maçã quente do rosto feminino.
- Não se iluda! – Radamanthys a fitou com desprezo – Eu não era feliz e tampouco ignorante! Eu sabia do seu outro amante antes de Peter Barridge!
E ela o fitou como se de repente tomasse consciência do fato incrível e de certo modo tedioso, perturbador, desnecessário, de que aquele homem amava cada poro, cada folículo de seu corpo.
- Perdoe-me, alteza! – ela desculpou-se com falsa resignação, tecendo-lhe uma teatral reverência – É que a mistura de pobreza comigo não é a melhor receita de fidelidade!
Radamanthys voou para ela, agarrando-a pelos pulsos magros, fazendo-a encará-lo. Lucy quedou-se assustada, sabia reconhecer quando havia ido longe demais.
E nos seus olhos de um cinza lavado, por trás de um inusitado muro que ela havia erguido, Radamanthys viu o amor que ela lhe tivera refletido por um instante, mas que descartara, como uma crosta de lama seca que então, recobriria seu passado.
- Você não irá sair daqui! Não permitirei que jogue meu nome na lama, sua vadia!
Rosnou ele, entre dentes. A voz tremia-lhe pela fúria que crescia em seu interior. Lucy o encarava, as curvas francas de seus seios pequenos e macios era acentuadas pelo ambiente mal iluminado por sob as rendas que lhe cobriam o torso.
- Você mesmo o fez! – ela, num arranque, puxou os braços das mãos do marido, soltando-se – Até o dinheiro que aquele tipógrafo idiota lhe deu, e que seria nossa sobrevivência, para você significou fichas de pôquer!
Sentenciou ela, num tom de voz que começou baixo para terminar numa explosão. E lá estava ela com os braços a apertar-lhe, irradiando um fulgor diabólico que o possuía. Aqueles olhos nodosos e lunares, aquele calor singular que emanava dela...
- Se é dinheiro que o quer, eu arranjo! – bradou ele no mesmo tom.
- Como? – ela levou as mãos à cintura – Fazendo-me empenhar o restante das minhas jóias? Ou irá me apostar desta vez, Radamanthys?
- Não permitirei que manche minha reputação! – ele completou com seriedade – O nome da minha família não irá para a lama!
- Isso não é mais problema meu! – Lucy decretou – Talvez você devesse apostar, quem sabe não ganha um pouco de sensatez!
E fechando a última mala, recolhendo as poucas jóias que lhe sobrara, embalando-as num pedaço de veludo negro, depositou-as na valise e pegando tudo firmemente, olhou para o marido pela última vez.
- Adeus! – falou ela com secura.
- Você me deu prazer algumas vezes! – disparou ele com superioridade.
Lucy deixou um sorriso malogrado aflorar aos lábios. Os olhos dela pareciam zombar dele, com aquele brilho vaporoso e cruel.
- Você nunca me deu prazer!
E disparou pela porta com passos rápidos e resolutos. Radamanthys permaneceu parado, no meio do quarto, a cabeça dando voltas. Sua tragédia ainda se mostraria pior. Varrida a neblina de seu ser, só lhe restava aquela terrível lucidez. Baixando a cabeça, aterrorizado, enfurecido pelo ciúme, seus olhos percorreram todo o malogrado quarto. O espelho o fitava fixamente com seus olhos esfumaçados e através deles, ele viu passar um lampejo da traição que ignorava. Tudo em sua tinha a essência do impenetrável.
...v...v...v...
Radamanthys deixara-se cair sentado na beira daquela cama abissal, levantando modorrentamente a perna para retirar a bota. Passava das dez da noite e o velho relógio na parede da cozinha parecia ter enlouquecido. Suas badaladas tenebrosas pareciam fazer eco ao seu estado de espírito. O silêncio, entrecortado pelo repique incessante dos minutos, era visível. Se sua solidão pudesse falar, teria enchido toda Londres com um urro ensurdecedor.
Batidas discretas na porta chamaram sua atenção. Quase precisou carregar-se para a sala, o corpo tremendo (adquirira este espasmo devido às bebedeiras à que, constantemente, se entregava), murmurando palavras desconexas em tom arrastado, num arrulho monótono, cambaleante, sonolento, a cabeça pendendo para frente, os olhos se apagando. Sua mão vacilante encontrou o trinco e o rodou. A porta abriu-se.
Mal tivera tempo de observar quem o perturbava em sua desilusão, quando sentiu duas mãos agarrá-lo pelo colete, empurrando-o para o interior da casa. O agressor, com um potente soco, o jogou sobre a frágil mesa de madeira, o único móvel de proporções grandes em toda abjeta sala. Sem deixá-lo pensar, o recém-chegado puxou-o pela camisa, segurando-o com firmeza e fazendo-o encará-lo.
- Quero que me pagues o que me deves, agora! – grunhiu, feroz, o homem alto e corpulento, com um bigode curto.
- Não vou lhe pagar nada! – berrou Radamanthys, tentando libertar-se – Como ousa invadir a casa do conde McGreen? Eu deveria açoitá-lo, escravo!
- Escute aqui, desgraçado...- o espadaúdo invasor principiava a perder a razão -...Ou me entrega o que é meu ou te mostro o que faço com condes que não honram suas dívidas!
Radamanthys tentou acertá-lo, mas suas mãos vacilantes só encontraram o ar. Lá fora, desabando peremptoriamente sobre a cidade, uma forte chuva aumentou o frio atroz da noite londrina.
- E então...- o grandalhão interrogou-o com rispidez -...Vai me pagar por bem ou terei de me rebaixar a usar a força contra um bêbado que pensa que é a Excalibur do rei Arthur?
- Eu acho que alguém vai se machucar! – refutou Radamanthys, com um ar de deboche na face, irritando ainda mais o adversário.
O homem estremeceu de cólera ante aquele tom nefasto. Arrastou-o, como um saco vazio, para fora da propriedade, a chuva descendo sobre eles como plumas de chumbo. De um soco, o forte homem derrubou-o no chão, quase desacordando-o e, freneticamente, atirando-se sobre ele, esmurrou-o até satisfazer-se com a quantidade de sangue que manchava as efêmeras brancas de vermelho, que brotavam naqueles arredores do condado.
- Eu disse que alguém ia se machucar! – gaguejou o rapaz, estirado no chão, procurando oxigênio.
Deixando-o quase morto, o agressor ergueu-se, ajeitou o casaco e partiu, desaparecendo na escuridão. Radamanthys, olhos cerrados, nariz e boca cortados, sentiu os potentes chutes que levara e certamente um deles lhe varara uma das costelas. Não ousou movimentar-se. Talvez a morte fosse a única saída honrosa para aquela situação. Afinal, ali estava ele e ela, certamente, o estava espreitando.
...v...v...v...
- Achei que fosse dormir para sempre!
Comentou McPherson ao vê-lo abrir, sorrateiramente, os olhos. Um deles exibia uma grande mancha roxa, o outro, precisara de uns pontos. O rapaz franziu a face num espasmo de dor ao tentar erguer a cabeça. Pesava-lhe como pedra. A mão, regelada, sentiu a face. Os lábios estavam cortados, os recantos feridos, o nariz arrebentado e muitos pontos inchados pelo restante do rosto. Tocando o supercílio esquerdo, notou um curativo. Com esforço sentou-se, encolhendo-se de frio. Notou que estava apenas de calças e a camisa branca de dentro, sem mangas. Os suspensórios estavam abaixados.
- Onde estou? – perguntou, confuso.
Fez uma careta ao tentar curvar-se para frente. Sua mão encontrou o torso, ligeiramente à esquerda.
- Em minha casa! – respondeu McPherson com enfado – Aonde esperava está? No Palácio de Buckham?!
- E por que estou aqui? – indagou o jovem novamente, fitando o tipógrafo com desconfiança.
- Porque estava derretendo na chuva, sangrando feito um animal! – completou o velho. – Se o tivesse deixado naquilo que chama de casa, certamente estaria morto!
- Há quanto tempo estou aqui? – Radamanthys tentava pôr as idéias no lugar.
- Há uns cinco dias!
- Foi o senhor que me trouxe?
- Não! Um gari o achou e como sabia que eu imprimia seus livros, sim, porque só um louco para fazê-lo, trouxe-o para cá!
Comentou o velho, sem importância, enquanto sentava-se na poltrona defronte ao rapaz, com uma xícara fumegante nas mãos. Outra, igual a que segurava, foi posta em cima do pequeno centro.
- Não espere que eu o agradeça! – bradou Radamanthys, fitando-o emburrado.
- Jamais esperaria isto de você! – volveu o homem – Você deve ter apostado toda sua gratidão! – e tomou, tranqüilamente, um gole de seu chá.
- Minha costela está fraturada!
Comentou o rapaz, contorcendo o rosto, ao sentir uma forte pontada quando tentou levantar-se.
- Acredite, ela está quase boa! – disse McPherson – Vai sobreviver!
- Eu preciso sair daqui!
Falou Radamanthys, erguendo-se com dificuldade, levando as mãos à cabeça ao sentir-se tonto e pegando do casaco que encontrara a servir-lhe de travesseiro. Apalpando-o, notara que estava manchado e cheirando a mofo. Enfureceu-se.
- Por que está molhado?
- Porque você vomitou nele! – retrucou o tipógrafo, olhando-o ternamente.
O jovem anuviou-se e vestindo-se, preparou-se para sair.
- Eu lhe aconselharia a ficar! – disse McPherson.
- Por que deveria? – volveu Radamanthys, em seu tom irritadiço que o caracterizava.
- Porque sua cabeça está a prêmio! Suas dívidas estouraram todas de uma vez!
O jovem o encarou, vasculhando a mente atrás de uma boa resposta, mas não achou qualquer coisa para dizer.
- Eu sou o conde McGreen! Dar-me-ão algum tempo! – e fez menção de sair.
- Quando vai aceitar a realidade? – McPherson ergueu-se, pousando o copo na pequena mesa – Nem mesmo estes trapos que traz no corpo são seus!
- Pode sorrir! – Radamanthys o encarou, insano – Sente-se vingado, não é! Sempre teve inveja do meu pai!
- Não tolerarei disparates em minha casa! – rosnou McPherson, severamente – Você deve sua vida a mim, seu moleque!
E pegando, como pegaria a um filho desobediente, fê-lo encarar a própria imagem devastada e vergonhosa no espelho. O rapaz tentou safar-se, mas o irado homem o mantinha preso com o rosto estatelado contra o vidro.
- Dê uma boa olhada na sua cara! – grunhiu o tipógrafo – O seu pai haveria de morrer de desgosto se a tuberculose já não o tivesse matado!
Radamanthys entregou-se, sentindo as mãos ásperas afrouxarem sobre seus ombros, largando seu colarinho. Desolado, deixou-se cair de joelhos, afundando a cabeça nas mãos, nervosamente, mas até as lágrimas negavam-se em traição.
- Por que está fazendo isso comigo? – interrogou do fundo de seu ferino orgulho.
- Porque um dia seu pai me ajudou...- suspirou McPherson -..E eu...- sublinhou o pronome -...Sempre pago o que devo!
O rapaz ergueu seus olhos esverdeados para ele, aturdido. Estava disposto a concordar com tudo, contanto que lhe dessem uma solução para os seus problemas.
- Onde está sua mulher? – perguntou McPherson.
- Foi embora! – Radamanthys sorriu malogrado, relembrando seu infortúnio – Endividado, traído e abandonado! Existirá um homem mais infeliz do que eu?
- É próprio dos insensatos cavar suas desgraças!
Advertiu o tipógrafo, sentando-se, pensativo, na poltrona.
- Mas vislumbro uma esperança!
- Qual? – o rapaz o encarou surpreso.
- Fugir!
- Não! – Radamanthys ergueu-se pressuroso. – Eu ainda tenho minha honra!
- E o que fará com ela depois de morto!? – McPherson o fitou, arqueando uma sobrancelha.
- Se eu fugir, estarei assinando minha decadência! – o jovem desesperou-se – Meu nome na lama!
- Pelo menos viverá! – McPherson abriu os braços – Viver! Dê á você mesmo paz de espírito, meu rapaz!
Radamanthys quedou-se pensativo por alguns minutos e voltando a encarar o homem a sua frente, decidiu-se por fim:
- Para onde irei?
- Você sairá do país! – sorriu o tipógrafo – Ficará longe da Inglaterra até que as coisas se acalmem!
- Exílio!? – refutou Radamanthys.
- O mundo é vasto! – comentou McPherson.
- Não há mundo fora da Inglaterra! Aqui é a civilização! Ser banido daqui é ser banido do mundo!
- Não discuta! – pediu o homem – Prometo-lhe que voltará com mais alegrias do que tristezas que exalas ao partir!
- Onde ficarei esse tempo?
- Na Alemanha! – bradou McPherson – Eu tinha de ir até Turingia para vender uma velha propriedade que adquiri há alguns anos! Você irá em meu lugar!
O homem tirou um pequeno envelope de dentro de uma gaveta, na escrivaninha, ao lado da lareira, onde as últimas brasas queimavam. Passou-o ao jovem.
- Acho que este dinheiro dá para dois meses! – disse.
- Como viverei? – tornou o rapaz, averiguando a quantia.
- Com dificuldade! – o tipógrafo balançou a cabeça afirmativamente – Eu tenho um amigo que possui uma pequena pensão! Ficará lá por um preço módico! Eu já escrevi a ele!
- Pelo menos terei tempo para terminar o meu livro! – comentou o jovem.
- Espero que os novos ares melhorem sua inspiração! – disse, em tom jovial, o ancião.
- São tão ruins assim? – o rapaz desconsolou-se.
- Não é essa a questão! Escreves sobre coisas que não interessam a pessoa alguma!
- Sempre achei que a árvore genealógica dos McGreen devesse interessar a todos! – volveu Radamanthys, com orgulho ferido.
- Amor, meu jovem! – bradou o homem – É isso que atrai público! Escreva sobre o amor!
- Como posso escrever sobre algo que não conheço!?
Pela primeira vez se encararam com cumplicidade. McPherson bateu-lhe, amistosamente, no ombro. Sob uma careta de dor deste, fez um gesto de desculpas rapidamente.
- Se queres conhecer o amor, corteje a beleza! – sorriu o velho – E prepara-te...- fitou-o com praticidade -...Embarcarás ao pôr do sol!
E deixando-o sozinho, McPherson dirigiu-se aos seus afazeres diários. Uma chuva caía violenta sobre a cidade. Radamanthys suspirou. O que seria de sua vida dali por diante? Não sabia! Mas sentia que o que adviria de tudo aquilo iluminaria seu coração frio e escuro com uma luz incandescente, que crepitaria e se apagaria para toda a eternidade.
O.o.O Continuus O.o.O
