O título do capítulo "Lunae Senium", em latim, significa: "A declinação da lua".
"Tão vazio quanto uma lousa antes de o professor entrar na classe..."
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SUB OCCASUM SOLIS
By Esmeralda Amamiya
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O.o.O Turingia, Alemanha...1880 O.o.O
Ele chegou na sonolenta cidade de Efurt com suas ruas íngremes e escuras, vazias de calor humano, ladeadas de olmos e com seus estabelecimentos caiados de negro, no ápice do inverno de 1880. Desceu a rampa de desembarque da estação municipal, curioso, à paisagem melancólica daquele fim de tarde. Certamente, pensou, poderia dedicar-se às suas anotações que lhe agitavam as veias, e aos mergulhos que pretendia dar em algum bar das redondezas.
A desculpa de que se ausentaria da Inglaterra a fim de fechar um negócio em nome de Edward McPherson, descendentes de alguns proprietários rurais, caíra-lhe bem. O próprio tipógrafo correspondeu-se com um dos estalajadeiros para abrigá-lo a cinco marcos por semana. E Radamanthys passou noites fantásticas no navio imaginando, nos menores detalhes, aquela terra nórdica e bárbara aonde a educação britânica não chegara.
Com as roupas regeladas pela neve espessa, apertou o sobretudo envolta do corpo, respirando com dificuldade. A boina, presente de McPherson (a sua estava em estado deplorável), pendia sobre os cabelos louros. Segurando uma pequena valise contendo algumas roupas de baixo, encaminhou-se pela estação deserta, embora ainda não fosse noite, em busca do endereço indicado.
Sem dificuldade, chegou a um dos poucos hotéis baratos da negra e cinza Efurt, informando-se, logo à entrada, de um quarto reservado em nome de McPherson.
- Deve ser o rapaz! – comentou o dono do estabelecimento.
Ele assentiu de cabeça. O proprietário era um homem alto e gordo, com uns olhos azuis claros e profundos. O bangalô, apesar de humilde (Radamanthys bem o notara!), era deveras confortável. A um canto, a lareira crepitava e enquanto escutava o enorme estalajadeiro enumerar-lhe o que era servido nas duas refeições de que dispunham por dia, o jovem inglês pensava se era possível rebaixar-se mais.
- O jantar está quase saindo! – volveu o homem, com um semblante mal-humorado – Se quiser descansar, posso lhe mostrar o quarto antes da refeição!
- Gostaria de comer em meu quarto! – anunciou o rapaz, o rosto contraído numa careta séria.
A noite fora, particularmente, agradável. Exceto pelo fato de uma forte nevasca desabar sobre a cidade, impedindo-o de sair, a cerveja quente, com um forte aroma de ervas, o deixou satisfeito, mas tampouco o inspirou. Não conseguindo formular uma única frase que fizesse sentido, atirou de lado o caderno de rascunhos, esticando-se sobre a barulhenta cama de molas, que rangia a cada movimento que ele fazia. Suspirou.
- Mas que inferno!
O quarto imiscuía-se, gradativamente, na escuridão.
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Acordou com o dia ainda escuro. Os flocos de neve apinhando-se no parapeito de sua janela. Vestiu-se e partiu, sob o olhar enfermiço do senhorio, sem ter querido comer. Pretendia livrar-se de seu objetivo, a causa, inclusive, de sua saída de Londres, malgrado as dívidas que possuía, a fim de pegar em algum dinheiro.
Enquanto esperava um bonde, tirou do bolso esquerdo um papel amarrotado abrindo-o e lendo para onde deveria se dirigir. Quando o veículo estacou diante dele, o rapaz galgou seus dois estreitos degraus e acomodou-se na última fileira que estava vazia. Nunca lhes parecera tão lisas e acolhedoras as estradas londrinas se comparadas com aquelas que se irradiavam a sua frente. Ou talvez a ausência de sua amada pátria o fez tornar-se mais sensível à vida de seu país. Deslizava, num silêncio extasiado, sobre suas superfícies tão negras e luzidias quanto retalhos de veludo.
Estava exposto à beleza destroçada dos cenários que se desdobravam, imerecidamente, diante dele, o recalcitrante filho pródigo, fugido adorada e melancólica terra natal. De início, por um paradoxo de percepção esquecida, registrou o panorama das vielas alemãs com um choque de divertido desconhecimento, graças às suas caras recordações da juventude, no imenso castelo de Sussex, que jamais o deixara.
Mas à medida que avançava, esses resquícios de lembranças foram se tornando de cunho mais emocional ao avistar as estreitas faixas desniveladas, os telhados de casa de boneca, uma lenta efusão de desconsolo, um sol baixo em meio à névoa platinada, com um quente matiz de solidão impregnando o ar, se fundindo ao longe, na bruma amorosa.
Efurt era uma cidade seca, espargida de dor e desconsolo. Espectros masculinos vagavam pelos becos enlameados pelo acúmulo de gelo, incapazes de se sustentarem sobre as próprias pernas. Mulheres rotas, pesadamente pintadas, ofereciam-se abertamente nas calçadas, encostadas às esquinas e ninguém parecia se importar. O vazio que o destroçava encontrou eco superior naquelas terras gélidas aonde o prazer e a morte imperava.
Em uma carruagem de praça, que tomou após saltar do bonde, chegou diante de uma bem cuidada casa, talvez a única naquele estado em toda cidade. Desceu, entregando algumas moedas ao cocheiro e dirigindo-se ao portão alto e enegrecido a fim de atravessá-lo. Não teve dificuldade. O ferrolho enorme cedeu a primeira tentativa e ele voltou a trancá-lo após adentrar a propriedade.
- É uma bela casa!
Encaminhou-se pela estreita passarela rodeada por freixos de coloração sombria. Chegando diante da porta, puxou da cordinha pendente do sino. O repique agudo o fez enrijecer-se e não conseguindo explicar, um calafrio percorreu-lhe todo corpo. Sem que fosse preciso chamar uma segunda vez, a porta abriu-se, sorrateiramente, e dois olhos perspicazes o olharam do interior.
Uma fileira de árvores recortava o horizonte, o frio fugidio do princípio do dia sobre um imenso campo de neve, as nuvens vagamente delineadas no cinza enevoado, em que apenas os flocos brancos se destacavam nitidamente contra o fundo esmaecido. Um austero e sombrio céu prenhe de desespero à maneira de Goethe, o som fugaz de algum violino ao longe e de um lado e de outro, listras de água prateada, alternando-se com o marron implacável das árvores desnudas. Tudo isso se abrindo como em um leque em algum canto perdido da capital da Turingia.
Radamanthys quebrou o silêncio.
- Herr Schönkopf? – perguntou, tentando pronunciar corretamente as palavras.
- O que deseja? – volveu, rispidamente, o dono da casa.
- Eu sou Radamanthys McGreen! – anunciou – Venho em nome de...
- Entre!
O proprietário bradou, severo, antes que ele pudesse terminar a frase. Abriu-lhe a porta, dando-lhe passagem. Radamanthys, bastante afetado, obedeceu. Schönkpf era um homem alto e corpulento, já idoso, em seus 70 ou 75 anos, mas bastante rude em seu trato pessoal. Logo, o rapaz inglês descobriria o cinismo entre seus inúmeros defeitos. Morava sozinho.
- Viúvo há três anos...- respondeu incomodado -...E lhe digo que esposas só servem para enfeite! – encarou Radamanthys com severidade – Não há como a cortesã para satisfazer um homem!
- Casamento é uma invenção de Deus! – retrucou o jovem, criado no ortodoxismo inglês.
- Só que o diabo acrescentou o "Hahnrei"! – volveu o velho, num tom amargurado.
Radamanthys esboçou um sorriso pelo comentário, talvez ele também pensasse assim.
- O senhor é de que parte da Inglaterra? – perguntou o proprietário, tratando-o cortesmente.
- Londres! – respondeu o jovem, nunca gostara de ser interrogado.
- Casado?
Por um momento ele não soube o que responder. Não poderia dizer-lhe que fora traído e abandonado pela mulher! Seria estúpido e inútil! Decidiu-se por fim, quando seu silêncio ameaçou sua discrição:
- Não! Nem pretendo! – retrucou amargo – Mas não foi para isso que vim aqui! – esclareceu, de súbito, seu desconforto.
- Claro! – murmurou o ancião, compreendendo as palavras que não foram ditas – Quanto ele quererá pelas terras?
- O acordo foi fechado em 2 mil libras, como bem trataram em cartas! – disse o jovem, tirando os documentos dos bolsos.
- Eu assinarei uma promissória e...
- Nada de promissórias! – bradou o rapaz, encarando-o – Queremos dinheiro vivo! A propriedade é vendida com certa urgência!
Pousou no ancião um olhar, tão autoritário, acompanhado de um tom severo, que seu interlocutor levantou-se, apoiando-se na bengala, pegou de uma pequena maleta negra e a entregou. Radamanthys a abriu e pôs-se a contar os maços de cédulas.
- Correto! – disse por fim.
- Aceita um whisky? – pegando dos papéis que ele lhe passava.
- Nö! Ich woll nicht! (Não! Eu não quero) Preciso ir!
E erguendo-se, fez um curto aceno de cabeça e retirou-se da casa como se o próprio demônio o tivesse expulsado de lá. Vez ou outra, na vastidão das planícies, imensas árvores avançavam em sua direção, se agrupando, amendrontadas, à beira da estrada. Ele adivinhava a curiosidade das amarelecidas folhas, que marcavam seu compasso. A estrada tremeluzia a sua frente. A terra marrom salpicada de sol pairava por um instante na névoa regelada, tal qual uma miragem. Enquanto avançava, começaram a surgir as primeiras pedras cobertas de musgos e logo após a misteriosa silhueta dos castelos medievais, seguida de escarpas vermelhas pontilhadas de loureiros.
Chegou à hospedaria em tempo de pedir uma refeição, substituindo o desjejum que não tomara. Sentou-se em uma das mesas e esperou, emburrado, pelo prato de comida e pela garrafa de aguardente que havia solicitado. Acostumado a pontualidade britânica, enfadou-se com a demora. Tateando os bolsos atrás dos cigarros, xingou mentalmente por haver lembrado de os ter esquecido em cima da mesa de cabeceira, ao lado da cama. Revirando-se para a mesa vizinha, onde um mal vestido homem lia, tranqüilamente, seu jornal, tomando seu cognac a goles regulares.
Chamado com um assovio, o senhor levantou os olhos sem erguer o rosto visivelmente irritado pela perturbação. Radamanthys, levando a mão na altura da face e fazendo com os dedos um gesto familiar indicando o fumo, recebeu deste um abano negativo, que em um lampejo malfadado, voltou-se para as suas notícias, abandonando o rapaz. Este afundou a cabeça nas mãos. O cheiro de repolho cozido impregnava, enlouquecedoramente, o recinto, misturado ao odor acre de ervas fermentadas, fazendo sua cabeça rodar.
- Aceita?
Uma voz forte, levemente enrouquecida, o fez erguer a cabeça, assustado pelo barulho oco de algo caindo sobre a madeira da mesa. Tentando concentrar a atenção, Radamanthys olhou do recém-chegado, a quem não conhecia, para o pequeno pacote diante de si.
- Prazer! – o estranhou homem estendeu-lhe a mão – Minos Amudsen!
O rapaz inglês o encarou, após fitar a mão estendida. Seu semblante, pálido, emoldurado espectralmente pelos olhos verdes embaçados, contraíram-se afetados. O sujeito a sua frente era alto, corpulento, com cabelos finos e claros, que lhe desciam até os ombros. Os olhos acinzentados eram amistosos e assim como ele vestia-se humildemente. Radamanthys ainda não se decidira a aceitar o cumprimento.
- Por favor! – Minos fez um sinal ao servidor da mesa, deixando a mão descair. – Duas cervejas para esta mesa!
E puxando a cadeira, sentou-se, com desenvoltura, diante do aturdido homem, que o olhava confuso. Voltou sua atenção para ele quando o jovem ajudante do estalajadeiro trouxe as bebidas.
- Você não é alemão, é? – indagou, tomando um grande gole do líquido negro.
- Não o convidei a sentar-se comigo! – retrucou Radamanthys, encarando-o severamente.
- Não preciso de ordens para sentar-me em uma cadeira!
Respondeu Minos, olhando-o com amizade. Com um dedo, ignorando o rosto irritado do interlocutor, indicou o outro copo, cheio de bebida exótica. Radamanthys aproximou sua cabeça de tal maneira que os cabelos dourados tocaram a madeira da mesa e o braço roçou pelo seu rosto quando limpou os lábios úmidos com as costas da mão. A névoa reluzente que pairava ante seus olhos fez com que tivesse dificuldade de focalizar o jovem a sua frente, e como tardasse em reagir, Minos começou a esfregar, impacientemente, as mãos nuas uma na outra.
- Vai ajudar a esquentar! – comentou com um ar sorridente – Os cigarros são do seu agrado?
Tornou o desconhecido, apontando o pacote que havia jogado sobre a mesa. Radamanthys olhou para o objeto, voltando a erguer os olhos impassíveis para o homem a sua frente.
- Prefiro os ingleses! – respondeu friamente.
- Logo vi que não era alemão! – comentou Minos; parecia entusiasmado com a descoberta. – A gente daqui desconhece o calor humano!
- Você é inglês? – Radamanthys franziu o cenho ao preferir a pergunta.
- Não! Sou do Norte! Oslo! – volveu Minos, servindo-se da cerveja.
- Logo vi! – o rapaz inglês retrucou com um ar de sarcasmo irritado – A gente de lá desconhece a educação!
E contra todas as suas expectativas, o norueguês caiu numa gostosa gargalhada, para desespero do companheiro, que sentiu vontade de esmurrá-lo. Ele ansiava por algum milagre, o fim do mundo iminente pondo-se em prática, Lucy em seus braços.
- Os britânicos...- Minos voltou a si -...Sempre tão hospitaleiros!
Radamanthys fez menção de levantar-se, mas Minos com um gesto de mão o impediu de completar a ação. O inglês olhou-o já controlado. Encarou-o, entorpecido, vencido, rendido e então, repentinamente, a face pálida contraiu-se numa estranha careta de dor. A mão branca tocando as costelas do lado esquerdo, onde uma vértebra ainda lhe incomodava.
- Minha intenção não é perturbá-lo! – disse o norueguês – Só achei que podíamos nos fazer companhia!
- Se eu quisesse companhia...- volveu o inglês -...Procuraria uma feminina! Mais condizente à minha natureza!
- Agora falamos a mesma língua! – sorriu Minos, malicioso.
- O que pretende? – explodiu o inglês, perdendo a paciência.
Um misto de ingenuidade e hipocrisia, encanto e vulgaridade, de amuos sombrios e róseas risadas. Minos não estava preparado para seus ataques de tédio, suas reclamações intensas, o mau humor cortante, os olhos baixos, o semblante sarcástico, fazendo pose de superior.
- Nada! – Minos ergueu os braços, como rendendo-se – Apenas jogar conversa fora! Está aqui há muito tempo?
Radamanthys desfez um pouco o semblante carregado. Talvez ter alguém com quem pudesse conversar o impediria de se jogar à bancarrota. Pegou da aguardente que o garçom havia trazido, juntamente com a refeição, e abrindo-a, bebeu quase até a metade pelo gargalo.
- Desde ontem! – respondeu, pousando a garrafa na mesa. – E você?
- Há seis meses! – volveu Minos – Mas não diria que vivo! - suspirou – Morar aqui é morrer para o mundo!
- Notei a profunda desolação! – retrucou o inglês, já amistoso, comendo do chucrute – Parece que a Dor roça por nós seus dedos macilentos!
- Essas pessoas estão embrutecidas! Sem esperanças! – comentou Minos, desesperançoso – Mas não é bem assim! – olhou o rapaz – Efurt pode ser bem interessante quando se sabe aonde ir!
- Por exemplo? – Radamanthys o fitou, desconfiado.
- Die Leidenschaft! – murmurou, quase num sussurro, o norueguês.
Radamanthys precisou parar de mastigar e aproximar o rosto de seu interlocutor a fim de entender o que falava.
- Die Leidenschaft?! – repetiu, sem compreender, as palavras.
Minos com um dedo fez um sinal para que se calasse, relanceando o olhar ao redor. O velho, a quem Radamanthys perguntara pelos cigarros, erguera os olhos desconfiados para eles, à menção daquela palavra.
- Não pronuncie este nome alto! – advertiu Minos, num sussurro.
- Do que se trata? – indagou Radamanthys, no mesmo tom, bastante curioso.
Minos, com um gesto, o fez aproximar-se.
- É um bordel! – explicou – Dizem que é amaldiçoado!
Radamanthys, sem saber por quê, sentiu-se estremecer. Encarou o homem à sua frente com incredulidade. Minos o fitava bastante sério.
- Dizem...- o norueguês deu uma nova vista d'olhos pelo ambiente -...Que um fantasma habita as catacumbas do antigo teatro!
- Não acredito nessas coisas! – retrucou Radamanthys, enfiando uma poção de comida na boca.
- Eu também não acreditava! – Minos o encarou – Até vê-lo!
- O fantasma? – Radamanthys ergueu uma sobrancelha, sarcasticamente.
- Todas os dias, exatamente à meia noite, ele senta-se na mesa número 3 para vê-la! – a voz do nórdico era sombria; seus olhos exprimiam temor.
- Vê-la?! – o inglês franziu o cenho – Ver a quem?
- La mademoiselle triste coeur!
A voz de Minos saboreou as palavras, fechando os olhos num enlevo e deixando que um sorriso enigmático lhe aflorasse aos lábios. Acendeu um cigarro, fechando as pálpebras para impedir que o calor do ambiente se dissipasse em suas retinas.
- Quem é essa? – Radamanthys perguntou, secamente.
- A mais bela mulher que a Alemanha já viu! – tornou Minos, encarando-o.
- E o fantasma é apaixonado por ela!? – deduziu o inglês, com um sorriso cínico nos lábios sensuais. – Há prazer depois da morte!
- Não brinque! – Minos repreendeu-o – Muitos homens desapareceram ao tentar aproximarem-se dela!
- Desapareceram?! – o inglês trazia um tom de troça nos olhos verdes. – Como assim?
- Não se sabe! – Minos deu os ombros – Simplesmente desapareceram da face da terra!
- Ora...- o jovem tentava entender -...Se homem algum pode chegar perto dela, como ela "trabalha"? – sublinhou a última palavra.
O rosto de Minos iluminou-se aterrorizadamente, fazendo o companheiro perder um pouco do traço brincalhão, olhando-o com cuidado. A voz tremia-lhe pela ânsia que crescia em seu interior. Radamanthys o encarava, as curvas francas das maçãs de seu rosto eram acentuadas pelo ambiente mal iluminado. Aproximando seu rosto do dele, o norueguês respondeu com admiração.
- Essa é a questão fascinante! – tomou um gole de sua bebida – Dizem que ela é virgem!
O inglês considerou o rapaz por um instante, mas foi impedido de fazer qualquer comentário pela chegada inesperada de um terceiro homem. Minos ao reconhecê-lo levantou-se alegremente para recebê-lo, abraçando-o com efusão, palmadinhas nas costas. Com um gesto, convidou-o a unir-se à mesa, fazendo um sinal ao garçom que prontamente trouxe mais uma caneca de cerveja.
- Aiacos Shipal...- apresentou Minos -...Oriental, "morrendo" aqui...- grifou, cinicamente, o verbo -...Há 9 meses!
- Radamanthys McGreen!
Respondeu o inglês, apertando a mão do jovem recém chegado e também a do nórdico, a quem ainda não havia dito seu nome. Aiacos era moreno, da mesma altura dos companheiros à mesa. Trazia um pesado sobretudo de tom claro por cima dos ombros, tão desgastado quanto os dos presentes. Os cabelos eram escuros, de tamanho mediano, e os olhos com características de seu povo: ligeiramente repuxados, conferindo-lhe um ar exótico.
- Sobre o que conversavam? – perguntou, acomodando-se na cadeira.
- Da Mademoiselle triste coeur! – respondeu Minos, sorrindo.
- A virgem negra! – completou Aiacos, acompanhando o amigo no tom cínico.
- Estava a contar a ele sobre o fantasma! – tornou o norueguês; Aiacos fitou Radamanthys.
- Dizem que quando ele está por perto, um forte odor de Morte pode ser sentido! – falou o oriental. – Muitos comentam que se trata de um Deus!
- Vocês querem mesmo que eu creia que um fantasma esteja apaixonado por uma prostituta virgem!? – bradou o inglês, de forma fervorosa.
- Se acreditamos na existência da eletricidade, um fenômeno desconhecido, por que não admitir a existência de espíritos? – interrogou Aiacos.
- Porque sempre que atritarmos lã e resina, por exemplo, vamos fabricar um fenômeno reconhecível!
Radamanthys parecia perplexo pela ousadia da pergunta e a obviedade da resposta.
- Mas em um passe de mágica...
- Por que não vamos até lá esta noite? – convidou Aiacos, acolhendo aos dois homens num só olhar.
- Hoje é aniversário do teatro! – completou Minos – Eles sempre fazem algo especial em datas importantes!
- O que acha? – o oriental encarou o inglês – Tem coragem de atravessar os umbrais do Leidenschaft?
- Não só de atravessar, como também de sentar-me na mesa número 3 e apreciar esta tal mulher, capaz de conquistar até os deuses!
...v...
Era por volta das onze horas da noite quando Radamanthys entrou na carruagem ocupada pelos seus novos amigos. Aiacos, refestelado no canto, ofereceu a garrafa de vinho, prontamente aceita pelo rapaz. O jovem inglês sorveu um grande gole e acomodou-se no interior do coche. Sob a ponta de seus dedos corria, eriçada, a pelugem de suas grossas luvas. Ficou-se perdido no calor acre, mas saudável que subia daquele líquido, como uma névoa de verão.
- Hoje ela não me escapa! – comentou o oriental.
Minos não conseguiu conter o riso, fazendo o cigarro tremeluzir entre seus lábios. O fósforo aceso encontrou a palha na extremidade do fumo.
- E você, por acaso, tem cacife para tê-la? – perguntou.
Radamanthys limitava-se a observá-los, sentindo os flocos de neve baterem em seu rosto pela janela. Aiacos sorriu e arqueando o corpo quase erguendo-se dentro do carro, tateando os bolsos, trouxe à vista dos amigos um pequeno estojo de veludo negro, abrindo-o, orgulhoso, diante dos olhos dos companheiros.
Um esplendoroso colar cravejado de diamantes estava alojado em seu quente interior. Radamanthys surpreendeu-se e Minos assobiou alto pela brilhante contemplação.
- Roubou um banco? – indagou, cinicamente, o norueguês.
- Tenho meus métodos! – tornou o oriental, sorrindo misterioso.
E fechando a caixinha, recolocou-a novamente na algibeira. Radamanthys considerou o amigo, bastante intrigado.
- Vocês me disseram que ela é virgem! – tentou entender – O que significa, obviamente, que não se deita com homem algum...
- Ela não se deita...- Aiacos entendeu aonde ele queria chegar -...O que não significa que não a possamos visitá-la em seu boudoir!
- Então podemos vê-la a sós? – indagou o inglês.
- Claro! – respondeu Minos – Se puder pagar o preço!
- Este, meu amigo...- Aiacos apalpou o valioso presente -...É a oferenda para que possamos tocar seus cabelos, roçar de leve em sua pele, aspirar por um breve instante o seu perfume...
E lambia os lábios, enlevado, com um apaixonado reconhecimento. Radamanthys preferiu manter-se calado. Que tipo de ser era aquele que reverberava tamanha adoração?
- Afinal...- Minos sorriu malicioso -...Os diamantes são os melhores amigos da mulher!
Quando chegaram á entrada do fantasmagórico bordel, um vapor frio, misturado ao pó gelado que o vento varria dos cemitérios, trouxe até Radamanthys o cheiro de perfume fugaz, embriagador, que o fez sentir-se amedrontado e excitado, ao mesmo tempo. E após revirar seus olhos pelo antigo teatro alucinadamente assombrado, como se o pálido estandarte da Morte houvesse distendido sobre ele seu pendão, ele entrou, alucinadamente perturbado, através das portas seculares do Leidenschaft pela primeira vez.
O.o.O Continuus... O.o.O
