Fantasmas vivem dentro de nós e não nos damos conta disso. Criados por nossos medos, por nossos temores, eles esperam as horas mais sombrias da noite para continuar a nos assombrar.
Não se falaram por vários dias. Aliás, apenas se viram numa reunião de oficiais de rotina, tão apreciada pelo General Yamamoto. E não mais do que um mero olhar que se cruzou, sabe-se lá por que maquinação do destino.
Será que deviam estranhar o fato de que, naquela mesma tarde, os dois tenham decidido prestar homenagens a seus mortos, Hisana e Gin?
Talvez tenha sido alguma coisa no olhar de Rangiku ou talvez de Byakuya. Talvez tenha sido em ambos, ou em nenhum desses olhares, mas o fato é que de alguma maneira um encarava o outro naquele cemitério, sob as flores de cerejeira. Ela, ajoelhada aos pés da lápide simples de Ichimaru; ele, com a mão direita repousando sobre o mármore do túmulo luxuoso de Hisana.
Fantasmas a seu redor.
Tanto o capitão quanto a tenente sabiam, desconfiavam de seu propósito ali. Sob a miríade de pétalas de cerejeira, sobre folhas amareladas, sob o sol frio daquela tarde, sobre a terra fria...
- Sempre me pareceu um tanto... paradoxal o fato da maioria dos Shinigamis de Gotei 13 não saberem lidar com a morte. – disse Byakuya, se aproximando de Rangiku, o olhar vagando entre a face de rangiku e a lápide de Ichimaru – Deuses da morte...
- Deuses de araque. – sorriu Matsumoto – Lidar com a perda nunca é fácil, Kuchiki-Taichou.
- De fato.
Essa resposta surpreendeu Matsumoto. A face de mármore continuava lá, mas... algo de sua rigidez havia sumido?
- De fato, a perda não é algo simples de se lidar. Mas é inegável a necessidade de nos mantermos plenos e superiores, quaisquer sejam as condições. Não podemos esquecer do nosso papel como shinigamis e...
Não. Com certeza, não.
- ...e mesmo assim, - interrompeu Matsumoto - volta e meia estamos enterrando alguém, nos lamentando por não termos chegado mais cedo, e brindando a saúde de vários que já se foram. Nós não somos deuses, não podemos fazer milagres nem nada do tipo, então...
- ...nós assumimos nosso papel como os "humanos deuses da morte".
Os humanos deuses da morte, que, embora mortais e falíveis, levam a morte e conduzem as almas; e que, em meio a tudo isso, acham alguma maneira para lamentar a perda dos seus.
- Verdade.
Filosofar com Rangiku Matsumoto. Eis algo que nem ele, nem ninguém poderia esperar fazer, em circunstância alguma. E no entanto...
- Estamos aqui. Talvez isso baste, tanto para os humanos quanto para os deuses. E quem sabe, também para os nossos fantasmas.
- Nossos fantasmas, Matsumoto-fukutaichou?
- Sim, Byakuya. Nossos fantasmas também. Afinal, se Gin estivesse falando com você e eu estivesse enterrada aqui, – e Matsumoto tocou com a palma da mão as folhas que cobriam o solo – eu acho que iria preferir que ele fosse feliz. E, claro, que volta e meia viesse aqui conversar comigo.
Byakuya manteve o olhar fixo na face de Rangiku, sem nem ao menos esboçar uma resposta. Embora tenha franzido o cenho, o que não era exatamente um bom presságio.
- E, não, - completou Matsumoto – eu não quis fazer nenhuma analogia a como o senhor devia agir quanto aos respeitos que presta a Hisana-san.
- Não estava pensando nisso. – disse Byakuya, a expressão imutável. Como sempre.
- Então...?
- Estava imaginando o porquê de ter me chamado pelo meu primeiro nome.
- Ah. Sim. – Rangiku não esperava por isso - Realmente, não...
- É tão grande assim a vontade de acabar com meu orgulho
- Afinal, foi você que me fez dizer tantas coisas que eu... jamais havia pensado em proferir em voz alta. É um comportamento intrigante, Matsumoto-fukutaichou.
Matsumoto se levantou, levemente irritada consigo mesma e com o homem a sua frente, capaz de entender tanta coisa de maneira tão errada.
- Eu não ligo a mínima sobre ferir ou não o seu orgulho, Kuchiki-taichou. – E Byakuya não apreciou a maneira como aquelas palavras foram ditas – Mas eu entendo alguma coisa sobre felicidade e sei que ninguém merece passar uma vida se lamentando MESMO – elevou o tom de voz para evitar a interrupção do capitão – que não demonstre isso. Todos devemos ter uma chance de deixar nossos fantasmas para trás, sem esquecermos deles.
- Felicidade? Você pisa no meu orgulho, fala coisas que nem o mais severo dos anciões de meu clã ousaria pronunciar na minha presença e... tenta me dar lições sobre felicidade? – perguntou o capitão do sexto esquadrão, o tom de voz glacial.
- Sim.
A resposta curta e direta o desconcertou um pouco. Apenas um pouco.
- És feliz, Rangiku?
Matsumoto não respondeu a pergunta de Byakuya, mas ambos sabiam que não havia necessidade. Ao invés disso, ela limitou-se a olhar para o outro lado, para a lápide de Gin.
- Desculpe-me.
- Desculpá-lo pelo que, capitão? Por ter me dito a verdade, ou ao menos, por tentar me fazer enxergá-la?
- Ambos.
- Não... Já estava na hora de que alguém me dissesse essas verdades.
O sexto capitão ficou levemente surpreso com o que Matsumoto disse. Mas, como já era esperado, não demonstrou.
- Entendo. Então me procuraste para que fosse eu a dizer essas... "verdades" para você. E, ao mesmo tempo...
- Dizer umas quantas outras verdades para você.
Byakuya já estava conformado com a forma de tratamento completamente informal que essa conversa estava seguindo. Mas, estranhamente, não se importou tanto com isso.
- Nem Gin nem Hisana vão voltar.
- É verdade.
- Já tentou dizer isso em voz alta, Matsumoto-fukutaichou?
- Não.
E ela continuava olhando fixamente para aquela lápide, aquela maldita lápide.
Pétalas de cerejeira eram sopradas pelo vento, poucas é verdade, mas o contraste delas com o azul do céu era estranhamente inquietante.
- Hisana não vai voltar. – E Byakuya quase sentiu sua voz falhar ao proferir aquelas palavras, aquele... exemplo. Anos de prática reprimindo quaisquer manifestações de seus sentimentos o auxiliaram muito a não vacilar.
- Gin não vai voltar.
Duas lágrimas se misturaram as pétalas de cerejeira.
Dedos se entrelaçaram, num gesto de apoio mútuo. Era tudo que podiam fazer um pelo outro, naquela hora, naquelas condições.
- Apenas dizer – a voz de Matsumoto estava estranhamente rouca – que eles se foram não é o suficiente, não é?
- Não. Talvez seja só o primeiro passo.
- O senhor fala como se conhecesse os demais. – Matsumoto sorriu.
- Creio que ambos conheçamos os passos. Apenas não estamos confortáveis com a idéia de olhar para o caminho de uma vez só.
- Ou de percorrer o caminho... sozinhos?
- Quem sabe.
E não havia sido uma pergunta. Estranhamente, não havia sido uma pergunta.
- Matsumoto-fuku...
- O senhor pode me chamar de Rangiku, taichou.
- Rangiku... – repetiu Byakuya, como alguém que se acostuma com o som de uma palavra antes de usá-la – Isso é altamente inapropriado, mas...
Matsumoto finalmente dirigiu o olhar para o líder do clã Kuchiki e, nem ela mesma sabe como, fez com que ele se calasse.
- Que seja, então. Chame-me de Byakuya. E sim, estou ciente de que isso é totalmente alheio a qualquer protocolo, mas nesse caso trata-se de uma necessidade de retribuir uma gentileza.
- Byakuya... – disse Rangiku, saboreando a palavra.
- Hitsugaya-taichou... – Um tenente do sexto esquadrão, com a cara enfiada no meio de arbustos de aparência suspeita parecia se lamentar.
- O que foi, Abarai? – foi a réplica já irritada de Toushiro, esperando que Renji pedisse a mesma coisa.
- O senhor acha que ainda temos que ficar aqui olhando? Por que eu não acho que Kuchiki-taichou vai matar Matsumoto-san...
E o inexplicável aconteceu.
-...
Renji não tinha mais nada para dizer.
-...
E poder-se-ia dizer a mesma coisa de Hitsugaya.
Afinal, não era sempre que alguém insanamente parecido com Rukia Kuchiki aparecia na sua frente e sem uma palavra, levava o dedo indicador até os lábios, num claro gesto de quem pede silêncio.
E ainda mais incompreensível foi o fato de que tanto o capitão quanto o tenente foram puxados um pouco para trás para mais perto de uma pessoa maniacamente parecida com Ichimaru Gin.
- Oi, vocês dois... Melhor deixarem Ran-chan e Kuchiki-san conversarem em paz, eh? Senão...
Um sorriso que lembrava vagamente uma raposa contorceu-se em feições supremas de ira e danação e olhos que se mantinham quase cerrados deram espaço a dois fulgores vermelhos.
E Renji e Hitsugaya, apesar do status de deuses da morte, de shinigamis e de soldados, capazes de lidar com a morte diariamente e de entender que tudo não passava de um primeiro passo no grande esquema das coisas... gritaram.
E como fantasmas não existem, tanto Renji quanto Hitsugaya tiveram um sério problema em suas mãos tentando explicar o que estavam fazendo na "porcaria da maldita moita" – nas palavras de Matsumoto – "numa conduta claramente não condizente com as diretrizes de Gotei 13" – segundo Byakuya.
Notas no final que é pra não assustar ninguém logo de cara (na verdade, é um imbecil que não sabe editar/usar o site/não ser um macaco e não quer upar capítulos de novo):
- Bleach não é meu. Até porque, como bom brasileiro, eu uso Qboa, Omo ou Confort. E não, outras coisas me dão alergia e... Do que estávamos falando?
- O casal não surgiu do acaso. Surgiu de algumas fics em inglês que catei no e... que espero que não tenham sido feitas ao acaso. suspira
- Eu gosto de ver o Renji quebrando a cara.
- Essa fic pertence ao concurso há muito esquecido do Panbox sobre fantasmas e que eu solenemente declaro ter perdido por falta de tempo e dedicação para acabar em menos de seis meses. Enfim, foi divertido. O importante é competir. E entregar, eventualmente. Porque não dá pra ser que nem o Rubinho que começa a correr e... Bom, ele compete. Entenderam?
E agora...
Shinigami zukkan!! GOLDEN!!
- Anoo, Taichou... o que estava fazendo com Matsumoto-san naquela hora? O senhor sabe, com a espada...
E Byakuya dirigiu um olhar literalmente glacial para Renji.
- Ela gosta que eu pegue pesado.
