História U.A. inspirada nos personagens de Saint Seiya.

Disclaimer: Saint Seiya e todos os seus personagens pertencem a Masami Kurumada. Este texto não possui qualquer caráter comercial

Capítulo 22 – Dor

Kanon estava no hotel para o qual se mudara após o rompimento com Sorrento, fazendo suas malas para a viagem. Ele ainda ouvia a voz do ex-namorado lhe dizendo que se ele não resolvesse logo aquela competição com Saga ele nunca iria conseguir se relacionar com ninguém. Que a vida estava longe de ser uma competição. Que se ele tivesse que passar a vida inteira brigando com a vida e competindo com Saga ele dificilmente venceria. Enfim, argumentos velhos mas que somente agora pareciam entrar definitivamente na cabeça de Kanon.

Em verdade ele somente ficara com Sorrento porque quase não havia possibilidades dele vir a conhecer Saga. Os círculos eram outros. Os hábitos eram outros. Os interesses eram outros. E ele nunca apresentara os dois. Ele não queria perder mais ninguém para a atração inexplicável que Saga parecia exercer sobre as pessoas. Não! Ele não queria voltar a se arriscar. Não depois de Afrodite. E assim Kanon simplesmente riscara Saga de sua vida. Ele se afastara por vários anos. Saga o procurara, mas ele não respondia suas chamadas. Não falava com ele se ele aparecesse. Em vários concertos ele vira Saga na platéia, mas sempre dera um jeito de fugir antes de Saga vir procurá-lo. E finalmente Saga entendera e parara de procurá-lo. Ele sabia que havia magoado Saga além do que ele seria capaz de suportar. Kanon sabia o quanto ele era importante para Saga. Mas há 4 anos isso não lhe importara. Saga merecia por tudo que o havia feito sofrer. Mas há alguns meses ele não queria mais isso. Ele sentia muito a falta de Saga e voltara a ligar para seu irmão. E finalmente tivera coragem de reencontrá-lo na boite.

E enquanto esvaziava a última gaveta, Kanon sentiu um mal estar súbito. Ele teve que se sentar na cama. Sua visão escureceu. Sua boca secou. E a sensação de um acidente iminente veio-lhe à mente sem que ele soubesse direito o porquê. Mas ele entendia o motivo... SAGA! Algo de ruim estava para acontecer com Saga. Ou ele estava para fazer algo ruim. Enfim, Saga precisava dele. Eles sempre tiveram essa ligação. Desde quando eram crianças. E Kanon saiu correndo em direção à casa de Saga. Telefonar nem passara pela sua cabeça.

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Milo e Saga saíram do supermercado carregados de sacolas cuidadosamente arrumadas por Saga. Produtos de geladeira com produtos de geladeira. Materiais de limpeza com materiais de limpeza. Latas com latas. Comida com comida. Enfim, verdade que Milo fora para o supermercado morrendo de fome e comprara uma quantidade anormal de comida. Agora que pensava no assunto, ele se lembrava que a última refeição que comera fora o almoço do dia anterior. Mas isso não importava! Ele estava meio tonto, mas comeria enquanto conversava com Saga e iria correndo para a casa de Kamus. Ele mal saíra e já sentia a falta de Kamus. Mas Milo não conseguia deixar de se divertir com o método de Saga de arrumar as sacolas do mercado. Segundo Saga, tudo ficaria mais fácil na hora de guardar. Saga era mesmo um sujeito engraçado em suas manias. E quem precisava guardar as compras do mercado? Eles não iriam usar e jogar as caixas no lixo de qualquer maneira? Na sincera opinião de Milo guardar as coisas era pura perda de tempo. Mas a casa era de Saga e cabia a ele se adaptar. Muito embora ele soubesse que jamais iria conseguir se adaptar à obsessiva organização de Saga. Mas, ainda assim, ele podia ajudá-lo a levar as compras para cima, enquanto o provocava quanto à desnecessidade de guardar as coisas. Ele sabia que aquilo deixaria Saga fora de si.

Maldito Milo! Milo o traíra, era óbvio. Até com o cabelo molhado ele estava (ele já não dissera que senão secasse o cabelo Milo pegaria uma pneumonia?). Como Milo era irritante, nunca o obedecia! Ficava provocando-o dizendo que ele não devia guardar as compras de mercado. Tudo jogado? Por dias e dias sem guardar? E ele conseguiria dormir com toda aquela bagunça? Só de pensar naquilo Saga ficava ansioso e, discutindo, eles entraram no prédio e começaram a subir as escadas com todas as sacolas de compras. Saga, por força do hábito, pegara as sacolas mais pesadas para si. Mesmo que ele quisesse que Milo rolasse escadas abaixo, ele não conseguia deixar de protegê-lo. Mas ele faria Milo pagar pela traição. Mesmo que ele nunca mais pudesse ouvir aquelas risadas e provocações.

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Shion estava inquieto. Por algum motivo ele estava inquieto. Ele fizera tudo para se acalmar. Ele meditara. Ele aquietara a mente. Ele recitara seus mantras. Mas ele estava inquieto. Algo de muito ruim estava para acontecer. Se ao menos ele soubesse o que era. Ele odiava esses pressentimentos que assombravam sua vida. Sempre fora assim. Desde sua infância ele fora assombrado pelos pressentimentos. E ele nunca sabia exatamente o que ia acontecer. Mas algo sempre acontecia.

Bom, o melhor que ele tinha a fazer era ir ao hospital. Afinal, fora por causa dos pressentimentos que ele decidira ser médico, certo? Desde que ele acordara na Índia, sabe-se lá como... Desde que ele fora levado à Inglaterra pela família que o adotara... Os pressentimentos nunca pararam. E ele descobrira seu dom. O dom de curar e ajudar as pessoas. Logo, ele devia ir ao hospital. Pelo menos se algo realmente acontecesse ele estaria em posição de ajudar.

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1º. Andar

Milo iria pagar! Ele o traíra. É claro que ele e Kamus haviam dormido juntos. Milo iria pagar. Ele o faria sofrer. E Kamus sofreria junto. Por desobedecê-lo. Por querer o seu Milo. Por haver ganho o amor de Milo. Os dois iriam sofrer! E ele arrancaria à força aquele sorriso enviesado do rosto de Milo.

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Afrodite estava feliz como há algum tempo não se sentia. Desde que revira Saga a tristeza era sua companheira mais fiel. Bom, para ser verdadeiro, a tristeza e Kamus. Mas como Kamus também era companheiro da tristeza, eles formavam um trio parada dura! Afrodite, Kamus e a Tristeza. Quem sabe eles não deveriam formar um conjunto musical, uma banda? E Afrodite começou a repassar em sua cabeça que músicas o trio poderia tocar. Por óbvio, todas as músicas de Edith Piaf, a cantora mais fossa da França. Que voz! Mas que fossa! Ele não podia deixar de falar com Kamus a respeito. E, nesse caso, Kamus evidentemente ficaria com o vocal, já que as músicas seriam francesas. Mas, pensando bem, Afrodite não sabia tocar nada. E talvez Kamus houvesse deixado a tristeza de lado e houvesse finalmente se entendido com Milo. E, neste caso, a tristeza não teria o que fazer naquela banda! Bom... melhor esquecer essa história da banda e focar no que interessava: KANON.

Oras, por que ele esnobara Kanon por tantos anos? Que desperdício! Kanon era realmente divertido e tão bonito quanto Saga (evidente, Flor, afinal eles são gêmeos idênticos!). Mas ele iria resolver isso quando Kanon voltasse de viagem. Ele estava decidido a dar uma chance para Kanon. E a dar uma chance a si mesmo. Uma chance de ser feliz!

E os pensamentos de Flor continuaram nessa ordem ilógica ao longo da tarde.

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2º. Andar

Não! Ele sabia que Milo tentara desmanchar. E ele dissera a Milo que ele podia fazer o que quisesse! Milo não o havia traído. E Saga olhou para trás. Milo o seguia contente carregando um sem número de sacolas de mercado, sem nada desconfiar.

Onde ele arranjaria a coragem necessária para machucar Milo? Onde?

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Aldebaran voltava para casa muito contente consigo mesmo! Era por essa e por outras que seus amigos no Brasil o chamavam de touro. Cara! Ele era bom! Ele era demais! Ele era o tal! E quer saber do que mais? Ele definitivamente era o máximo! Mas agora ele precisava descansar... E sua cama esperava.

Tomara que Shaka e Mú já tivessem feito o que tinham que fazer e tivessem se livrado daquela tensão sexual. Ele gostava muito dos dois e, sinceramente, estava muito feliz que eles finalmente se arranjaram. E Mú merecia ser feliz! Ele nunca se esquecera da forma como o vira na boite depois que ele brigara com Shaka... Tanta dor. E ele se abraçava tentando de alguma forma impedir de ser atingido de novo.

Ele odiaria interromper os dois, mas ele realmente tinha que descansar. Mais um pouco e ele morreria em pé. Ele precisava de sua cama! E finalmente Aldebaran viu seu prédio.

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3º. Andar

Ele tinha que parar de ser tão sentimental! Era óbvio que Milo o traíra! E o seguia com aquele sorriso bobo nos lábios, provavelmente pensando no maldito francês! Ele finalmente parara de provocá-lo com a sua mania de empacotar as compras organizadamente. Sim, Milo iria pagar. Era definitivo. E ele veria Milo cair e não faria nada para impedir. Mas por que Milo tinha que ser tão bonito e divertido?

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Dio mio! Parecia que ele estava de volta a Roma. Spaghetti alla carbonara. E melhor que o da mamma (que ela não o ouvisse!). Se tinha uma coisa que MdM odiava em Londres era a comida! Aquela comida horrível não servia nem mesmo para alimentar os porcos! E ele não era um porco (bom, há controvérsias, pensou MdM para ser justo)! Ele era italiano! E comida para ele era quase tão importante quanto o futebol ou a Ferrari. Ou mais! Ah! Que saco aquele dilema de novo. Futebol? Comida? Ferrari? Não! Ele achara algo que gostava mais do que futebol, comida ou a própria Ferrari! SHINA!

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4º andar

Ele daria um jeito de apagar aquele sorriso bobo dos lábios de Milo. Se dependesse dele, Milo nunca mais sorriria. Se não fosse para sorrir para ele e por ele, era mesmo melhor que Milo nunca mais sorrisse. Estava decidido.

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Shaka se encontrava em compasso de espera. O sábado havia sido maravilhoso. O "próximo passo", como Shaka gostava de falar, havia sido perfeito... Mas agora batia aquele desespero de final de feriado. Aldebaran devia voltar a qualquer momento. Aquele sentimento de que tudo-de-bom-nunca-mais-iria-voltar o dominava. Ele não podia se deixar contagiar pelo pessimismo. Ele e sua mania de analisar tudo sempre acabavam escorregando de forma imperceptível para o pessimismo. Ele não podia deixar isso acontecer. Ele tinha que ser interessante, divertido, bom amante, perfeito... PERFEITO!

E, enfim, nada mais fazia Shaka deixar de ser interessante, divertido e perfeito do que essa sua cobrança pela perfeição! Mas ele não conseguia se livrar disso. Ele tentava e tentava, mas a mania de perfeccionismo sempre o pegava pela perna e fazia seu mundo perder a cor. Dessa vez ele não podia deixar isso acontecer. E Shaka fechou os olhos e se colocou em posição de Flor de Lótus, para tentar afastar a ansiedade que se avizinhava.

E, enquanto esses pensamentos passavam pela cabeça de Shaka, Mú lia-os perfeitamente, sem que Shaka tivesse a mínima idéia de como Mú o compreendia. Mú queria ajudá-lo. Muito! Mas também Mú estava desanimado... Quando seria a próxima vez que os dois conseguiriam ficar sozinhos? Um hotel parecia ser uma boa solução, não fosse o fato dos dois serem tão absolutamente quebrados... Não! Hotel servia para Aioria que não parecia ter problemas financeiros, mas Mú e Shaka não tinham essa possibilidade... Shaka morava com um tio aposentado e implicante que nunca saía de casa. Mú morava com três amigos igualmente quebrados. Qual seria a solução para que os dois pudessem achar seu espaço? Ah! Se em Londres houvesse motéis como os descritos por Aldebaran... Lá no Brasil, sim, as pessoas sabiam abrir negócios que supriam os desejos da população... Mas em Londres ninguém havia ainda explorado este nicho de mercado... E Mú também se colocou em posição de Flor de Lótus. Ele tinha que voltar a viver o presente e parar de temer pelo futuro!

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5º. Andar

Será que Milo não tinha o direito de ficar com quem ele quisesse? Saga sabia que ele queria Kamus. Ele vira o jeito como Milo o olhara antes de desmaiar. Ele sabia que quando estava doente Milo chamara por Kamus. E ele vira a dor que causara a Milo quando ordenou que o francês ficasse com alguém na frente de Milo. Quem dissera que Milo seria seu? Nem mesmo Milo lhe dissera isso. Aliás, ele quisera desmanchar e Saga lhe dissera especificamente para que ele fizesse o que quisesse. Tecnicamente eles não estavam mais juntos.

O que ele devia fazer?

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Marin estava feliz como nunca fora em toda a sua vida.

E não é que o seu leão finalmente dormira? E como ele era lindo dormindo. Marin contornou os músculos das suas costas. Tão forte! E assim dormindo ele era tão indefeso! Parecia mais um gatinho! Com aqueles olhos verdes maravilhosos. Aquele cabelo castanho brilhante. Tão lindo! E fora se interessar justamente por ela. Tão sem graça. Tímida. O que será que ela fizera de tão bom na outra vida para ganhar um prêmio tão grande nessa?

Bom, não importava! O que realmente importava era que se alguém chegasse perto do seu gatinho e tentasse roubá-lo dela, esse alguém sentiria as garras de Marin! Quem poderia desconfiar que Marin podia ser tão agressiva?

Aioria sorriu. Ah! Marin era tão bobinha! Ela achava mesmo que ele dormiria com ela passando as mãos sem suas costas daquele jeito? Ela o enlouquecia. Tão linda, sem fazer a mínima idéia do quanto era atraente. Com aquele jeito tímido adorável e o ar de desprotegida. Ele daria a vida para protegê-la. Ele faria tudo por ela. Ele faria tudo para que ela nunca mais chorasse na vida (apesar dela ficar linda, é claro!). E ele precisava arranjar, de algum modo, a sabedoria necessária para nunca magoá-la. Ele queria Marin para o resto de sua vida.

E Aioria aproveitou o carinho, sem abrir os olhos. Marin lhe dava paz, algo com o qual ele sempre sonhara.

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6º. Andar

Não! Ele não podia machucar Milo. Ele sabia que nunca conseguiria. Desde o começo ele soubera que jamais teria coragem para tanto. Uma coisa era agarrá-lo, outra ameaçar o francês (maldito!). Mas coisa bem diferente seria deliberadamente empurrar Milo escada abaixo. Ele não tinha essa força. E a verdade era que ele nem queria ter esse tipo de força.

Mas talvez, por tanto pensar no assunto, a sacola com os materiais de limpeza que Saga segurava arrebentou e o limpa vidros abriu e vazou escada abaixo. Saga se virou e gritou para Milo tomar cuidado, tentando segurá-lo. Mas Milo, distraído como sempre, não prestou atenção e escorregou, jogando as sacolas para cima e caindo dolorosamente por cima do próprio braço. Saga ouviu Milo gritar de dor e, em uma fração de segundos, Saga decidiu o que fazer... jogou-se escada abaixo e se abraçou a Milo, rolando junto com ele.

Milo não gritou mais. Ele nem mesmo se mexia mais. Quando eles acabaram de rolar a escada, Milo estava deitado de bruços por cima de Saga, com os cabelos espalhados pelo peito de Saga. Ele estava tão imóvel que Saga achou que Milo estivesse morto.

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Kamus estava dormindo tranquilamente quando algo intangível o envolveu. O medo. A escuridão. O ar parado. Um sussurro que lhe falava em desastre, acidente. E sua respiração ficou difícil. Ele tinha medo de se mexer e antecipar a ocorrência do acidente. E, finalmente, a certeza veio. Algo de muito ruim acontecera. E Kamus saiu daquele estado de alerta entre o sono e a consciência. Ele se sentou na cama e chamou por Milo, desesperado. Ninguém respondeu. Ele acendeu a luz. Milo não estava lá.

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O que Saga estava gritando agora? Que ele parasse de atormentá-lo com visões da cozinha bagunçada? Mas Milo havia se perdido (novamente!) nas lembranças de Kamus, do corpo de Kamus, dos olhos de Kamus. Fora tudo tão perfeito. Os beijos, os carinhos, as palavras. Je t'aime. E aconteceu. Foi tudo tão rápido. Um passo em falso, a dor no braço, um grito de dor e surpresa. A certeza de que aquele grito saíra de sua própria boca. Tudo começou a rodar e a cada volta uma parte diferente de seu corpo sentia a dor. A cabeça. Ele tentou puxar os braços para defender o rosto, mas o braço direito não obedeceu a ordem e doeu. Doeu demais. A canela esquerda bateu muito forte em algum lugar e, a seguir, foi a vez de uma costela. Qual? As costas! Algo o atingira pela altura do ombro direito. Tudo doía. Milo já não conseguia mais se proteger e foi, aos poucos, se entregando à dor. E, então, alguém o envolveu em um abraço, e rolou junto com ele até o andar de baixo.

E finalmente ele parara de cair. Milo estava atordoado. Zonzo. Desorientado. Ele devia ter batido a cabeça forte demais. Tudo rodava. Nada fazia sentido. Ele não sabia o que tinha acontecido. Ele só sabia que queria parar de sentir dor e que a escuridão o chamava. Ele queria ir em direção à escuridão. Provavelmente não haveria dor na escuridão. Seu braço não iria doer. Sua cabeça pararia de latejar. Sua perna iria parar de incomodá-lo. A escuridão estava chegando e ele agradecia a sua chegada. Ela o livraria da dor. Mas ele ouviu a voz de alguém chamando por ele:

- Milo! Milo! Miloooo!

Não! Ele não podia se entregar à escuridão. Alguém chamava por ele. Ele queria ignorar, mas não conseguia. E a escuridão foi se afastando. Ele lamentou, mas ela estava longe, longe demais. Com ele só a dor ficara. E, com dificuldade, Milo abriu os olhos, para encontrar Saga abaixo de si, tentando pegar seu rosto, com expressão de desespero. Saga? Saga também caíra? E Milo se lembrou de Saga tentando segurá-lo e, em não conseguindo, se jogando escada abaixo... Qual o problema de Saga? Ele era louco? Jogar-se escada abaixo! Mas o gesto de Saga o comoveu. Ele se arriscara para ajudá-lo.

- Saga! Você é maluco? Você podia ter morrido! - a voz de Milo saía de forma dolorosa, mas de alguma forma, ele precisava falar com Saga. Ele precisava tirar o desespero do seu rosto. Saga se arriscara demais por sua causa.

- Milo! Você está bem? Você consegue se levantar?

O alívio na voz de Saga foi perceptível até mesmo para o atordoado Milo e, então, Saga virou a cabeça para o lado e falou com alguém. Milo começou seu dolorido percurso até a parede mais próxima que estava a mais ou menos meio metro de onde ele estava deitado. Meio metro que parecia meio quilômetro, pensou Milo sentindo a dor no braço irradiar-se para o resto do seu corpo. A cada latejada da cabeça, tudo parecia escurecer e clarear novamente. Seu coração batia descompassado, mas a cada batida, seu corpo parecia responder com mais dor. Chegando à parede, Milo tentou se levantar, apoiando as costas e se empurrando contra a parede. E, quando ele ficou em pé de forma absolutamente desequilibrada, ele se deu conta que Saga estava conversando com várias pessoas. E que as compras estavam todas espalhadas ao longo da escada. Ele não conseguia entender o que Saga e aquelas pessoas estavam falando, mas aparentemente eram vizinhos que ouviram o barulho e saíram para saber o que tinha acontecido. Saga parecia bem. Bem melhor do que ele, pelo menos.

Ótimo! Saga estava bem. Agora ele tinha que dar um jeito de ir para a casa de Kamus. Ele não podia se entregar à dor. Ele não queria que Kamus ficasse sozinho. Ele tinha que ir para a casa de Kamus. E Milo soltou-se da parede e começou a andar como um bêbado até a escada do quinto andar. Depois ele falaria com Saga. Ele estava completamente desorientado, mas ele precisava ir à casa de Kamus. E, a cada passo, ele sentia a dor se espalhar por seu corpo. Sua cabeça latejava. Por quê? Por que ele era tão distraído? Que saco! Mas ele iria para a casa de Kamus e de lá ele resolveria o que fazer. Kamus iria ajudá-lo. Ele não podia deixar Kamus sozinho. E se ele ficasse com Afrodite de novo? Com Misty? Com um outro alguém? Não dava mais para tentar pegar Kamus entre um caso e outro. Kamus era dele, oras. Ele não podia facilitar. Ele errara muito em deixar Kamus sozinho.

Foi aí que um vizinho mostrou a Saga que Milo estava tentando descer a escada. Ele era maluco? Naquele estado ele somente conseguiria rolar por outro lance de escadas! Saga foi até onde Milo estava e somente, então, notou que também estava machucado. Suas costas doíam, seus joelhos, suas mãos e, principalmente, sua cabeça. Ele devia tê-la batido na escada... Mas isso não importava! Saga posicionou-se à frente de Milo e começou a falar algo incompreensível. Milo o olhava, mas seu olhar estava completamente vazio. Ele estava tão atordoado que parecia não entender que Saga lhe falava que seria perigoso descer a escada naquele estado. Notando que suas palavras não atingiam Milo, Saga segurou-o pelos dois braços, apertou-os e chacoalhou Milo de leve para tentar botar um pouco de juízo naquela cabeça vazia. Saga estava praticamente descontrolado. E foi aí que Milo realmente sentiu a dor em seu braço direito. Nada o preparara para aquela dor. Era lancinante! Forte! Insuportável! E Milo não agüentou. Ele gemeu e estremeceu violentamente. Desculpa, Kamus! Eu não vou conseguir voltar, pensou Milo antes que tudo escurecesse de forma abrupta. Era como se a luz tivesse apagado de repente, como num blecaute. Dessa vez a escuridão o engolira completamente. A dor sumiu. E Milo tombou para frente, sendo amparado por um perturbado Saga. O que ele fizera com Milo desta vez?

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Saga estava prestes a cruzar a linha entre a sanidade e a loucura. Ele nunca se sentira tão culpado ou arrependido em toda a sua vida. A culpa era dele. Ele planejara tanto empurrar Milo escada abaixo que quando resolveu não fazer, a sua vontade deu um jeito daquilo acontecer. Só podia ser isso. Sua vontade. Seu egoísmo. Sua maldade. Sim, fora a sua vontade de dominar Milo junto com a sua obsessão por ele. Fora isso que causara o acidente. A culpa era dele. Dele. Ele precisava ter a certeza de que Milo ficaria bem. Ele precisava contar para Milo que ele quisera que aquilo acontecesse. Saga ficava reprisando a cena em sua cabeça incansavelmente para determinar se fora ele quem fizera a sacola cair, o limpa-vidros vazar, Milo escorregar. Mas ainda que ele não tivesse cometido aqueles atos decisivos, a culpa ainda assim era dele. Ele quisera machucar Milo momentos antes do acidente. E isso fazia dele culpado, não fazia? Ainda que ele não tivesse realmente causado aquilo, a culpa ainda assim era dele. E sua cabeça que não parava de doer? Saga estava prestes a cruzar a linha entre a sanidade e a loucura.

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Aldebaran finalmente chegou em casa! Mas bastou entrar para ver os dois na sala de pernas cruzadas, meditando. Dava para sentir o clima zen... Xi!... Será que eles não haviam resolvido aquele problema? Caramba! Ele tinha que ajudar! Eles eram seus amigos:

- Mú! Shaka! Cheguei!

Os dois abriram os olhos (claro que o abrir dos olhos de Shaka causou o impacto usual). Mú sorriu, mas Shaka parecia miseravelmente infeliz! Aldebaran iria resolver aquilo:

- Gente! Eu preciso dormir. Por que vocês não ficam no meu quarto que eu vou dormir na cama da Marin? Só não fiquem na minha cama, OK?

A expressão de felicidade dos dois compensou o desconforto que seria dormir com os pés para fora na minúscula cama da Marin. Mas quem sabe? Um sorriso se espalhou no rosto de nosso amigo taurino. A Shina podia voltar e dormir com ele... Não! Ele não agüentaria naquela noite... E Aldebaran se fechou no quarto das meninas.

Shaka e Mú se olharam felizes. Mú imediatamente se atirou por cima de Shaka, que o abraçou e beijou de forma apaixonada. Eles ganharam mais algumas horas. Realmente eles tinham que saber aproveitar o presente sem se desesperar pelo futuro. O futuro podia guardar presentes preciosos.

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Quando Milo acordou ele estava num táxi, com a cabeça apoiada no ombro de alguém. Em verdade ele acordara porque gotas de água rolavam por sua testa e um irritante toque de celular se fazia ouvir. Ele demorou alguns segundos para saber o que estava acontecendo, ou saber quem estava com ele. Mas agora sua mente estava bem mais clara. Infelizmente, porém, junto com a consciência voltara a dor. Isso era inquestionável. Mas ele se lembrava de tudo. Ele se lembrava que rolara escada abaixo como uma ostra em coma com paralisia cerebral. Era isso que ele era! Custava olhar por onde andava? E ele não conseguira voltar para Kamus... E o pior era que Saga se jogara escada abaixo para ajudá-lo e devia estar machucado também.

Saga! Saga o abraçava com um braço e, com a outra mão, segurava seu pulso esquerdo, como se tentasse controlar sua pulsação. A mão de Saga estava gelada e ferida, os nós de seus dedos completamente esfolados e sangrando. A calça de Saga estava rasgada pela altura dos dois joelhos. A cabeça de Saga estava apoiada na sua própria cabeça e Saga parecia estar chorando. Por isso as gotas de água! Um irritante barulho de celular se fazia ouvir e Saga se mexeu um pouco para tentar pegá-lo, mas ele gemeu e desistiu, como se sentisse muita dor. Milo tentou erguer a cabeça, o que lhe rendeu uma forte latejada e um gemido fraco. Finalmente Saga se deu conta que ele acordara:

- Milo? Você está acordado? Nós estamos a caminho do hospital! Você me entende?

- Saga! Você está machucado! – falar ainda era dolorido, mas Milo precisava falar com Saga.

- Não é nada, Milo. Dói muito? Eu não devia ter apertado o seu braço. Me perdoa. Eu não notei que seu braço estava machucado... – Saga falava rápido, com a respiração entrecortada. Ele parecia sentir dor. E ele estava nervoso como Milo nunca o vira.

- Saga, você se jogou escada abaixo para me ajudar... Acho que depois disso tudo o mais perde a importância, não é?

Milo até tentou forçar uma risada, mas sentiu uma dor forte em algum lugar e a risada foi substituída por mais um gemido. Ele não sabia determinar onde doía. A cabeça, o braço, a perna, as costas. Parecia ser impossível determinar de onde vinha a dor. Então Saga tentou acomodá-lo melhor, mas terminou gemendo também. Bom, pelo menos sua mente estava mais clara, pensou Milo para se consolar. Mas ele não conseguira voltar para Kamus. E Saga estava machucado.

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Kanon chegou à casa de Saga e abriu a porta. Ele ainda tinha a chave. A aflição pesava em seu peito. Kanon percorreu rapidamente o pequeno apartamento somente para constatar que Saga não estava em casa. Então Kanon notou que tudo estava meticulosamente arrumado, como sempre, com exceção de seu próprio quarto. Deviam ser os tais estudantes que estavam morando com Saga. Mas eles também não estavam. Onde Saga estaria? Kanon pegou o telefone e discou para o celular de Saga, mas Saga não atendeu. E Kanon sentou-se no chão, em desespero:

- Saga, onde você está? Você está bem? Você precisa de mim, não precisa?

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Shion chegava ao hospital, quando notou um táxi parado com dois passageiros tentando sair. O primeiro saíra com dificuldade, mas o segundo realmente parecia que não iria conseguir. Shion olhou mais atentamente e por fim reconheceu Saga. Saga! E estava machucado. Com quem ele estaria? Que não fosse Milo, por Deus. Ele não deveria ter provocado Saga tanto... Saga fizera alguma besteira. Shion entrou correndo no hospital, chamou uma enfermeira, pediu para que ela levasse uma cadeira de rodas para fora e saiu correndo em direção ao táxi. Em pouco tempo Shion e Saga finalmente conseguiram tirar Milo do táxi, mas ele resistia em sentar na cadeira de rodas, até que Shion e Saga falaram em uníssono:

- Senta logo, Milo!

Possivelmente só neste momento Saga e Milo notaram que o médico que estava com eles era o próprio Shion. Milo ficou feliz. Já Saga, nem um pouco feliz, para dizer o mínimo, pensou Shion sorrindo como sempre:

- Bom, bom, Milo... O que te aconteceu?

- DR. SHION. Que ótimo! Bom, dessa vez eu rolei escada abaixo! Eu faço tudo para chamar a sua atenção! E dessa vez o Prof. Dohko vai acabar comigo! – o rosto contorcido de dor; a respiração cortada... impressionante como Milo não perdia o bom humor, pensou Shion.

- Então, enfermeira, por favor, leve-o para a ortopedia com urgência que eu já encontro vocês lá.

- Dr. Shion – Milo o chamou enquanto era empurrado pela enfermeira – Por favor! Cuida do Saga. Ele também caiu da escada, mas fica fingindo que está tudo bem! – e Milo se foi, deixando Shion com Saga. Shion, então, virou-se para Saga sorrindo aliviado:

- E então, Saga? Vai me contar o que aconteceu depois de nosso alegre café da manhã?

Maldito sorriso e maldito Shion! - pensou Saga. Sessenta milhões de habitantes na Grã Bretanha, e ele só encontrava Shion! Mas Saga não teve tempo de responder nada. Sua cabeça pareceu rachar. O mundo a sua frente rodou 30 graus para a direita. O enjôo violento o pegou de surpresa. E Saga caiu de joelhos. Para sua humilhação foi Shion quem segurou a sua cabeça enquanto ele passava mal. E foi um Shion não sorridente quem o amparou até o hospital, enquanto ele cambaleava, completamente tonto. Ainda na entrada Saga chamou por Milo, mas Shion foi definitivo:

- Antes de tudo você vai fazer uma tomografia de crânio, Saga. 000000000000000000000000000000000000000000000000

Ficou imenso, eu sei... Mas cortar a narrativa por andar foi a única forma que eu encontrei para realmente demonstrar o dilema do Saga (lindo, maravilhoso, gostoso):

Kanon: Virgo-chaaannnn! Você não havia dito que esse capítulo seria meu?

Virgo-chan: Eu sei, Kanon. Mas o acidente ocupou muito espaço, eu tinha que tratar dos outros personagens, fiquei com medo que o capítulo ficasse maior ainda e achei que ...

Kanon: Ok, Ok, Chega! Deixa para o próximo! Mas pára de falar.

Virgo-chan (falando sozinha): Eu sabia que um dia desses essa minha mania de falar muito iria me ajudar!

Bom, eu gostaria de agradecer às maravilhosas reviews que recebi da Hikaru e da Tsuki-chan (a música do Jay Vaquer tem tudo a ver com o Saga! E vocês duas são as Antares Sewers', certo?), da Musha (preciso dar mais atenção ao nosso casal, eu sei!), da Patin (se eu soubesse escrever espanhol como você escreve português eu ficaria muito feliz!), da Elena (obrigada por voltar a comentar), da Dark Ookami (juro que em breve tratarei do Flor!), da Tsuki Torres (doeu demais machucar o Saga!), da Dionisiah (alerta é mesmo o máximo!), da Gigi (obrigada por mais essa review fofa), da Dana (juro que vou dar mais atenção ao Aioria) e da Nuriko (sábado inteiro lendo? A fic está imensa... Obrigada!). Muito, muito obrigada a todas!

Beijos da

Virgo-chan

Ago/06