História U.A. inspirada nos personagens de Saint Seiya.

Disclaimer: Saint Seiya e todos os seus personagens pertencem a Masami Kurumada. Este texto não possui qualquer caráter comercial

Capítulo – Voltando para casa

- Saga! Saga!

- Não é assim, doutor! É assim: Saagaa!

Saga estava tentando dormir, mas duas pessoas o estavam chamando. E ele sabia que essas pessoas tinham ficado com ele quando ele precisara. Uma onda de carinho o inundou. Essas pessoas ficaram com ele quase que a noite inteira. Ele tinha que acordar e falar com elas. E, com um tremendo esforço, Saga abriu os olhos, a despeito da forte dor de cabeça. E ele se deparou com alguém debruçado sobre si. Saga demorou um pouco para compreender o que se passava. Aquele alguém era idêntico a ele mesmo. E a conhecida sensação de se olhar no espelho tomou conta dele.

KANON! Kanon estava ali. Aliás, onde seria ali? E Saga vagou os olhos por onde estava para se deparar com os olhos roxos do Dr. Shion voltados em sua direção. Dr. Shion! E tudo voltou para sua cabeça. A escada. Milo rolando escada abaixo. Ele apertando o braço de Milo. Milo desmaiando. O trajeto até o hospital. Ele passando mal vergonhosamente. Mas, Kanon... Kanon não se encaixava em suas lembranças. Notando a confusão de Saga, o Dr. Shion resolveu assumir a cena:

- Saga? Você está no hospital. Será que você se lembra do que aconteceu? - O Dr. Shion sorria como sempre mas, estranhamente, daquela vez o sorriso não o incomodou.

- O Milo... ele está bem? – o sorriso do Dr. Shion alargou-se. Ele ficou aliviado por notar que Saga se lembrava do que tinha acontecido.

- O Milo está bem, sim. Ele está aqui perto. Ele se machucou um pouco, mas em 15 dias estará como novo!

- Eu .. posso ver ... o Milo? – mas Shion notou que Saga não tirava os olhos de Kanon, como se não entendesse o que ele fazia ali.

- Depois, Saga! O Kanon ficou com você a noite inteira – e o Dr. Shion tocou a cabeça de Saga, que melhorou consideravelmente.

- ... Kanon... ? O que você ... faz aqui?

- Eu vim cuidar de você, Saga – a voz de Kanon estava tão anormalmente carinhosa que Saga estranhou. Afinal, Kanon nunca se dirigia a ele naquele tom.

- Cuidar ... de mim? Dr. Shion? – algo estava terrivelmente fora de lugar, só podia ser isso. Mas Shion retirou a mão de sua cabeça e se preparava para sair, de forma que a dor de cabeça voltou com muita força.

- Saga, eu vou ver como o Milo passou a noite.

- Eu ... também ... passei a noite aqui?

- Sim, mas hoje você vai para casa. O Kanon te explica tudo. Eu já volto.

E o Dr. Shion saiu. Algo lhe dizia que aqueles dois precisavam conversar. Kanon passara a noite inteira no hospital e conversara longamente com Shion, que lhe contara tudo o que sabia sobre o acidente, omitindo a parte que ele mesmo ouvira Saga ameaçar Milo. Ele achou que não lhe cabia se meter na vida de Saga a este ponto. E ele notou que Kanon, aparentemente, mal sabia sobre a atual vida de Saga. Mas ele seria insensível se não notasse o desespero de Kanon, ao ver Saga com a cabeça enfaixada e com grandes curativos nas mãos e joelhos. Na opinião de Shion, isso indicava que existia grande amor entre eles. Possivelmente eles tinham brigado e aquela era uma chance de ouro para que eles se acertassem, pensou Shion, enquanto via um abatido Kamus sair da baia de Milo, que ainda dormia.

- Kamus? Você não vai esperar Milo acordar?

- Non, docteur! É melhor que ele não me veja aqui.

- Por que isso, Kamus?

- Nós já conversamos, docteur. Je pense1 que o Saga pode machucar mais o Milo se eu ficar me metendo na vida dele.

- Kamus, pensa no que você está fazendo, por favor! Pensa no Milo!

- Eu já pensei, docteur. Pensei a noite inteira. C'est decidé. C´est le meilleur2

- Kamus, na minha opinião você está fugindo da sua chance de ser feliz!

- Dr. Shion, com todo respeito, eu acho que este assunto não é do seu interesse. – e Kamus se virou, deixando o Dr. Shion sozinho no corredor.

Não, Kamus! Você está enganado. Esse assunto é totalmente do meu interesse, pensou Shion.

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- Saga, você está bem? Dói em algum lugar?

- Minha cabeça .. dói muito.

- Ah! É que você bateu a cabeça quando rolou a escada. Você até desmaiou. Mas os exames não apontaram nada relevante, por sorte.

- E como ... você veio para cá ... Kanon?

- Eu estava no hotel arrumando as minhas coisas para a viagem, quando eu senti que você precisava de mim. Como quando nós éramos crianças, lembra, Saga?

- Humhum...

- E daí eu fui para sua casa e comecei a ligar para você. Depois de muito tempo você atendeu e o Dr. Shion me disse onde você estava e eu estou aqui desde então.

Kanon falava tudo de um fôlego só, com se sentisse que Saga podia interrompê-lo a qualquer momento. Ou pior! Que ele perdesse a coragem de falar para Saga tudo o que ele queria. Não! Dessa vez ele falaria. Dessa vez ele resolveria aquilo. Ele queria que Saga voltasse para sua vida. Ele precisava voltar a ter seu irmão em sua vida. E Kanon continuou, já que Saga não falava nada.

- E eu vou cuidar de você até você poder voltar a trabalhar. O Dr. Shion acha que você deve ficar três dias em casa e eu vou ficar com você. E parece que o Milo também precisa de ajuda. Então, vou me mudar para casa hoje mesmo. – E Kanon pegou a mão de Saga que estava livre do soro. Saga não fez nenhum movimento para retirar a própria mão da mão de Kanon.

- Mas... e sua viagem?

- Vou ligar para o Julian Solo daqui a pouco. A orquestra é dele! Ele que cuide dos seus negócios para variar. Estou cheio de carregar o piano e os outros instrumentos para ele – e Kanon sorriu. Era uma piada medíocre, já que ele era regente de uma orquestra, mas ele estava tão nervoso com o silêncio de Saga que não sabia mais o que falar... Mas Saga sorriu levemente.

- Não precisa ... Kanon.

- Precisa, Saga. Eu preciso cuidar de você. Eu preciso saber que você está bem. Eu preciso que você saiba o quanto eu gosto de você. Eu preciso que você me aceite de volta. E eu preciso que você me perdoe. Eu preciso de você. Eu preciso de tanta coisa, Saga. Me ajuda, por favor.

E Kanon abaixou o rosto até a mão de Saga e começou a chorar. Aquilo pegou Saga absolutamente de surpresa. Ele não se lembrava de quando fora a última vez que conversara com Kanon sem brigar. Eles passaram a vida inteira competindo, se estranhando, fugindo um do outro, se reencontrando, se machucando, discutindo, brigando, fugindo novamente, se machucando novamente. Tantas coisas não foram ditas. E havia tanto a dizer. Justo agora que ele não conseguia falar direito, Kanon resolvia falar tudo de uma vez. E ele não conseguia falar o que ele tinha a dizer para Kanon. Sua cabeça doía. Ele estava ligeiramente confuso, mas ele sabia que Kanon, seu irmão, estava ali pedindo perdão e chorando em sua mão. E o nó em sua garganta finalmente se desfez e também Saga chorou.

- Saga? Desculpa! Eu te fiz chorar. Dói em algum lugar? – Kanon parecia tremendamente preocupado.

- Não... quer dizer, sim... quer dizer... Kanon, eu te amo! A gente ... tem que encontrar um jeito de se entender ... porque eu não quero mais ficar ...sem você!

Ah! Ele falara de forma tão atrapalhada. Tão diferente do jeito articulado que ele sempre tinha de se colocar. Maldita dor de cabeça. Mas Kanon não pareceu se importar. Ele beijou a testa de Saga e ficou ao seu lado de mãos dadas, como se nada mais precisasse ser dito. Algo na mente de Saga se suavizou. Algo em seu peito deixou de doer. E Saga teve a nítida impressão de que aquilo não teve nada a ver com o hospital, com os remédios ou com os cuidados do Dr. Shion.

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Caramba! Finalmente ele iria conseguir ver Saga! Ele pedira, implorara, chantageara, mas ninguém, ninguém mesmo, concordara em levá-lo para ver o seu companheiro de acidentes. Mas agora que ele estava deixando a baia de cadeira de rodas (bicho antipático aquele), empurrado por três enfermeiras (por que três?), Milo finalmente, achou a baia de Saga. Ele realmente estava preocupado com Saga. Mas o que mais ele podia fazer? Ele estava com o braço direito e a perna esquerda imobilizados. Sabe Deus o que deram para ele à noite que ele desmaiara daquele jeito. Mas fosse o que fosse dera-lhe sonhos maravilhosos. Ele sonhara a noite inteira com Kamus, seu anjo! Mas agora ele precisava, simplesmente precisava, ver Saga, assegurar-se que ele estava bem, agradecê-lo por ter se arriscado tanto por ele. Uma das principais características de Milo era ser extremamente agradecido, afinal ele era escorpiano e a lealdade dos representantes deste signo é praticamente compatível com o Código de Honra da Máfia.

E assim, Milo, a cadeira e as enfermeiras adentraram a baia de Saga. Kanon que estava aguardando a liberação sentado ao lado de Saga de mãos dadas finalmente o conheceu. Sua primeira impressão foi inesquecível. Milo e sua cadeira bateram em praticamente todos os parcos móveis e paredes inexistentes da baia, bem como nele próprio umas duas vezes. Milo e as três enfermeiras (Meu Deus, por que três?) riam-se sem parar da incapacidade de Milo de manobrar a tal cadeira (antipática!) e até mesmo Saga que estava com dor de cabeça se pôs a sorrir da confusão causada por Milo. E Kanon formou sua primeira impressão de Milo. Ele era divertido, engraçado, simpático e parecia pintado somente em cores fortes. Realmente tons pastéis não foram usados em Milo! Quando ele finalmente parou de destruir a baia, ele notou a presença de Kanon:

- Ahá! Eu devo ter batido a cabeça mais forte do que eu pensei! Tem dois de você, Saga! – Saga sorriu. Somente Milo poderia estar todo quebrado e, ainda assim, naquele bom humor.

- Esse é Kanon ... meu irmão gêmeo, Milo.

- Prazer, cara! O Saga sempre fala de você! – e Milo estendeu o braço engessado. Saco! Ele não ia conseguir cumprimentar ninguém com aquele braço engessado.

- E você deve ser o Milo!

- Opa, você me conhece! Deve ser da TV! – mas Milo desviou a atenção para Saga - Saga? Você está bem? Eu tentei, tentei muito vir te ver, mas essas aqui – enfermeiras riem histericamente – resolveram me prender na cama – enfermeiras soltam risinhos assanhados.

- Eu estou bem, Milo. E ... você? - ver Milo todo quebrado fazia o remorso corroê-lo ainda mais.

- Ah, Saga! Eu estou bem! Quer dizer, já estive melhor. Mas pelo menos a dor melhorou muito. Elas disseram que eu vou ter que andar de muleta. E eu mal consigo andar com duas pernas. Imagina eu de muletas. Vai ser um desastre! E eu estou preocupado com você! Kanon, ele está bem?

- Bom, a gente vai para casa e ele vai ficar 3 dias de repouso – Kanon respondeu de imediato.

- Oh, Saga. Que bom! Eu estou morrendo de remorso pelo que te aconteceu. Se eu olhasse por onde eu ando. Você pode me desculpar? Por favor?

Saga olhou para aqueles grandes olhos azuis com estranheza. Milo pedia desculpas a ele. A ele! Ele, sim, precisava pedir perdão a Milo! Ele que quisera machucá-lo de qualquer forma. Que tipo de verme ele era? Se ele conseguisse organizar seus pensamentos e falar o que lhe ia pela cabeça... Mas como? Ele estava com dor de cabeça e ligeiramente confuso. Kanon estava a seu lado, arrependido, Milo à sua frente, igualmente arrependido, e as três enfermeiras riam sem parar. Ele não conseguia organizar seus pensamentos. E as presenças de Milo e Kanon o emocionavam muito. Ele estava tão emotivo! O que estava acontecendo com ele?

Mas finalmente o Dr. Shion pareceu se dar conta da zona que tomara conta da baia de Saga e colocou Milo e as enfermeiras para fora até que ele conseguisse prescrever os remédios para Saga.

- Milo! Vai esperar pelo Saga e pelo Kanon na recepção.

- Mas doutor...

- Milo, vai! E passa amanhã na minha sala para trocar os curativos, OK?

- Ah! O senhor não quer passar na aula do Prof. Dohko de novo? – Milo sorria divertido.

- Não, Milo. Agora vai! – mas Shion também sorria. Ele não cansava de se admirar com a alegria de Milo. Milo faria tão bem a Kamus. Se ao menos Kamus não fosse tão cabeçudo!

Milo se foi, seguido pela revoada de enfermeiras, instalando-se o silêncio onde antes era o caos.

- Saga, você vai ficar três dias em casa, de repouso. Se você desmaiar, tiver náuseas, tonturas ou se a dor de cabeça não passar, eu preciso ser avisado imediatamente.

- Mas... doutor eu tenho que ...trabalhar.

- Depois de três dias! – a voz de Shion definitivamente possuía aquela entonação médica que não admitia argumentação e Saga se calou. – quem vai ficar com você?

- Eu vou, doutor! – respondeu Kanon.

- Kanon... você precisa trabalhar. – Saga tentou novamente.

- Depois de três dias, Saga – quando a voz de Kanon adquirira a mesma entonação da de Shion? E Saga se calou novamente.

- Kanon, você consegue cuidar do Saga e do Milo?

- Claro, doutor! Só vai ser complicado subir as escadas!

- Eu vou com vocês, então. Já está quase na hora de sair, mesmo. – Shion falou isso olhando diretamente para Saga. Ele tinha receio que Saga considerasse uma grande invasão, mas Kanon não conseguiria levar os dois. Saga estava tonto e Milo, com certeza, iria se desequilibrar com suas muletas – Nós saímos em 40 minutos.

- Obrigado, doutor! – Kanon estava impressionado com a gentileza de Shion e disse isso para Saga tão logo Shion saiu da baia. – Médico legal esse, hein, Saga?

- É...

- Você não gostou dele?

- Bom, não... – mas Saga tinha mudado bastante o conceito que tinha do Dr. Shion. E ele tinha uma mão mágica!

- E eu gostei bastante do Milo, Saga! Vocês estão juntos, não estão? O Dr. Shion me contou.

- Eu ... não sei, Kanon...

Saga estava estranhamente vago. Deve ser a batida na cabeça, pensou Kanon. E em pouco tempo, Saga, Kanon, Milo, Shion e duas muletas deixaram o hospital de táxi, rumo à casa de Saga, sendo que uma alegre comitiva composta por enfermeiras, recepcionistas e plantonistas acenava alegremente para eles.

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Shaka andava a passos largos pela sala. Bom, em verdade não tão largos assim, já que a sala do apartamento de Mu era bem pequena. E além de ser pequena, encontrava-se cheia quase que à sua capacidade total, com a presença de Mu, Shina, Aldebaran (que ocupava uns três lugares) e dele mesmo, Shaka. Mas era imperativo que a força-tarefa começasse a agir. Eles tinham que conversar!

- Bom, pessoal! Como todos sabem, o Kamus encontra-se apaixonado pelo Milo!

- Como? – Aldebaran não podia estar mais surpreso Com tantos homossexuais naquela faculdade, como ele demorara tanto para pegar mulher?

- Ma che3 O Milo é viado? – Shina quase caiu da cadeira. Mas tudo bem! Agora ela já estava muito bem arranjada com o MdM (que aliás se chamava Giancarlo).

- Não, meu amor. O Kamus está de caso com o Afrodite. – Mu, sempre tão desligado! E quando falava daquela forma suave desconcentrava Shaka inteiramente, que tinha ganas de beijá-lo, agarrá-lo, levá-lo novamente para o quarto e... Foco, Shaka, pensou o líder da força-tarefa.

- Vocês nunca notaram nada?

- NADA! - os três responderam em uníssono! (verdade que Shina falara "niente").

Shaka balançou a cabeça descontente, chacoalhando os longos cabelos loiros. Aquela operação não seria nada fácil!

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É, subir fora complicado... Milo insistira em ir sozinho e quase caíra umas ... 25 vezes? Até que Kanon, a pedido de Saga, segurou Milo, contra a vontade deste. Shion, então, passou a ajudar Saga, que ainda estava tonto. Segundo o Dr. Shion, aquela tontura devia passar até amanhã. Mas, naquele momento, Saga encontrava-se tristemente dependente da ajuda do Dr. Shion.

E, depois de vários e vários minutos, eles finalmente chegaram ao 6º andar, o local do acidente. Saga, emotivo como estava, não pode evitar uma lágrima de arrependimento, flagrada pelo Dr. Shion, para cúmulo do desgosto de Saga. Já Milo, nem notou e subiu direto (sempre auxiliado por Kanon) para o sétimo andar, no qual ficava o apartamento. E finalmente eles entraram, todos extenuados pelo esforço, alguns deles com mais fome que os outros. Shion auxiliou Saga a se deitar em sua cama. Ele não queria mais se meter na intimidade de Saga, vez que o desconforto deste com sua presença era evidente. Kanon colocou Milo no mesmo quarto porque, segundo ele, ficaria mais fácil ficar de olho nos dois se eles estivessem juntos.

Shion já ia embora quando Kanon pediu que ele ficasse mais 2 minutos, pois ele iria até o vizinho que guardara as compras para Saga, para poder fazer o almoço. E Shion, é claro, teve que aceitar. Quando Kanon voltou com as compras e com o celular de Milo, que caíra do seu bolso durante a queda, Shion decidiu que ia embora, apesar da insistência de Milo e Kanon (que estavam se dando maravilhosamente bem) para que ele ficasse para o almoço. Saga, é claro, omitiu-se completamente. Mas o que ele queria? Ele se metera insuportavelmente na vida de Saga, inclusive dando-lhe ordens. Ele deveria ser a última pessoa do mundo que Saga queria ter cuidando de si. Agora ele se encontrava na casa de Saga e o flagara chorando enquanto subia. Não! O melhor que ele tinha a fazer era ir embora. Mas finalmente Saga resolvera falar alguma coisa a respeito:

- Por favor, ... Dr. Shion... almoça conosco. Senão eles ... nunca mais vão me deixar... em paz!

Ok, não fora exatamente um convite. Mas ele aceitara. Afinal, a opção era ir para casa e almoçar sozinho. E assim ele poderia ficar de olho em Saga, saber se as tonturas diminuíram, auxiliá-lo se a dor de cabeça voltasse... Ora, pára com isso, Shion! Afinal, a quem você quer enganar? Shion sabia que ficara fascinado por aquele estranho charme de Saga, desde que o vira bebendo sozinho no bar da boite! E ele o seguira quando ele fora à pista de dança e ouvira aquela surpreendente conversa com Kamus. Aquele jeito ambíguo e misterioso definitivamente chamara a sua atenção. E ele queria, pelo menos, ter a certeza de que Saga ficaria bem em casa. O almoço só não foi mais divertido porque após a volta de Milo do terraço, para onde saíra com o celular e um maço de cigarros, Milo ficara estranhamente quieto e entristecido. Kamus, sem dúvida, pensou Shion. Mas ele ficou com Saga que lhe pedira para que ele ficasse com ele até que sua dor de cabeça diminuísse.

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Oba! Oba! Oba! Finalmente ele recuperara o celular e o telefone de Kamus. Agora ele só tinha que se arrastar junto com suas duas muletas, um maço de cigarros e o celular para o terraço para contar a seu anjo porque ele não voltara! Será que ele ficaria chateado? Será que ele entenderia? Claro que ele entenderia, oras! Ele realmente ficara preso no hospital e tinha como provar. Afinal, ele estava todo quebrado! E claro que Kamus não teve tempo de trocá-lo por alguém em tão pouco tempo! E ele sonhara com Kamus a noite inteira, como se Kamus tivesse estado com ele. Aquilo só poderia significar que eles tinham uma ligação muito forte! E, pensando assim, Milo finalmente ligou para Kamus e começou a falar atabalhoadamente tão logo Kamus atendeu:

- Kamus? Você está bravo por que eu não voltei? É que eu... – Kamus sentiu o ar parar no peito ao ouvir a voz de Milo. Ele sabia o que tinha que fazer, mas era tão difícil...

- Quem é? - a voz de Kamus estava fria e Milo engoliu em seco. Kamus não se lembrava dele.

- Sou eu, Kamus! Milo. – sua voz saiu como que engasgada.

- Ah! Salut4, Milo! – fria, muito fria.

- Oi Kamus. Eu ... queria pedir desculpas por não ter voltado ontem à noite, é que eu...

- Pas de problème5, Milo. Eu também odeio passar a noite com quem eu não conheço. Foi melhor assim. Para nós dois. – Milo não sabia o que magoava mais: a voz ou as palavras.

- Mas, ... você encontrou meu bilhete? – ah! Tomara que ele não tivesse encontrado! Quem mandou escrever que o amava? Todas as vezes em que ele esquecera seu orgulho ele se dera tremendamente mal, pensou Milo em desespero.

- Encontrei, sim, Milo. Mas je te comprends6. Eu também falo para todo mundo que fica comigo que eu amo. E eu realmente amo naquele momento! Ajuda a quebrar o gelo! Você não achou que eu ia acreditar, n´est pas? Foi por isso que você ligou?

- É... foi sim. Mas se está tudo certo, vou desligar.

- Legal, Milo. E quando você quiser repetir, conta comigo. Foi muito bom!

- Tá, Kamus. Quem sabe outro dia?

Quem sabe no dia em que o inferno esfriasse, pensou Milo arrasado, enquanto desligava o telefone e enxugava uma lágrima que teimava em cair. O ar parecia tê-lo abandonado e ele se sentia sufocado. Milo encostou-se na amurada, respirando profundamente. Não! Ele não choraria mais por Kamus. Alguém como Kamus não merecia isso. Se ele pudesse, ele veria Kamus morrer à sua frente, sangrando sem parar. E Milo entrou novamente. Por sorte aquele analgésico poderoso que ele tomaria até a manhã de 3ª feira o deixava meio amortecido. Quem sabe o remédio não amorteceria também a dor de ter se apaixonado pela pessoa errada?

Kamus ouviu o silêncio do telefone e só então ele se entregou à dor. Ele sabia que magoara Milo. Ele ouvira a mágoa e a incredulidade na voz de Milo. Ele sabia que passara a idéia de que ele era um canalha. Um canalha que usara Milo desavergonhadamente. Um canalha que não tinha um pingo de moral ou de sentimentos. Um canalha que pisara no amor de Milo.

Mas Kamus também sabia que somente assim Milo conseguiria odiá-lo completamente. E que somente se o odiasse deste modo é que Milo conseguiria esquecê-lo rápido. E que somente assim Milo não sofreria como ele próprio estava sofrendo. E Kamus entregou-se à dor, abraçado a seus joelhos, sentado no chão da sala, amassando o bilhete de Milo nas mãos. Aquela seria a sua única recordação. Ah! Como ele queria morrer congelado, para que a dor passasse. Como ele queria descer aos infernos, para fazer a dor desaparecer. Mas seu destino era ficar neste mundo, olhando para Milo, zelando para que ele não se machucasse mais, torcendo para que, ao menos Milo, fosse feliz!

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Kanon estava muito feliz! Ele e Saga pareciam se entender, como não se entendiam há anos. Ele ligara para Julian Solo e o mandara reger sua própria orquestra (e falara outras coisas também! Cara folgado!). Ele ligara para Afrodite e avisara que ficaria em Londres, já que o irmão e Milo haviam se machucado. Ele estranhara quando Afrodite gritara o nome de Milo, mas não encanou. Realmente importante fora que Afrodite não gritara pelo nome de Saga, certo? Tudo estava dando certo para ele, afinal!

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Saga tentava dormir após o almoço, mas não conseguia. Durante o almoço ele notara a tristeza de Milo e a tristeza não combinava com Milo. E, é claro, que a culpa era sua. Ele tinha, simplesmente tinha, que obter o perdão de Milo. Era inadmissível que Milo se sentisse culpado pelo que ocorrera. Era inadmissível que Milo pedisse desculpas a ele pelo que ocorrera. Saga não tinha como se enganar... O culpado de tudo era ele mesmo. E ele, mais uma vez, magoara e machucara Milo. Ele era a pessoa que tinha que pedir perdão. Que raio de amor seria aquele? Não era possível que ele amasse Milo e o tratasse daquela forma. Não! Ele não devia amar Milo. Ele simplesmente queria ser proprietário de Milo. Ele queria ter poder sobre Milo. Ele queria dominá-lo, possuí-lo e manipulá-lo. Aquilo não era amor. Era obsessão. E Saga tentou falar com Milo, que estava na cama ao lado, possivelmente tentando dormir sem conseguir:

- Milo?

- Oi, Saga! Achei que você estivesse dormindo! Você está bem? - por que Milo se preocupava com ele, pensou Saga.

- Milo, eu ... preciso falar com você! – para seu espanto, Milo saiu da cama e se sentou ao lado da sua própria cama, agradando seus cabelos. Aquilo definitivamente seria difícil, pensou Saga.

- Fala, Saga! Mas antes eu preciso te agradecer de novo por ter se arriscado tanto por minha causa. – Saga sentiu um grande nó na garganta se formar. Ele não merecia a gratidão de Milo.

- Milo... me deixa ... falar! A culpa ... é minha! – pronto! Ele falara!

- Culpa do que, Saga? – por que Milo continuava agradando seu cabelo e tentava não entender?

- Do acidente... Milo! A culpa ... é minha!

- Não fala bobagem, Saga. Você está confuso!

- Não, Milo! Eu ... queria te machucar! Eu... achei que ... você havia passado ... a tarde com a pessoa ... de quem você gosta! Mas... eu juro que eu ... não fiz nada ... para aquilo acontecer... – e Saga começou a chorar. Era tão difícil falar sobre aquilo. Sobre seu lado feio, seu lado mau.

Milo ficou surpreso. É claro que a culpa não era de Saga. E Saga jogara-se escada abaixo para ajudá-lo e saíra mais machucado do que ele próprio, pelo visto. Saga estava tão diferente, frágil, emotivo. E ele se sentia culpado. Milo iria resolver aquilo. Mas ele não conseguia deixar de se surpreender com o fato de Saga ser tão ciumento e descontrolado. Ele nunca diria que Saga, tão cuidadoso, controlado e seguro, poderia sentir ciúmes a esse ponto. Mas ele se enganara com Kamus, por que ele não poderia se enganar com Saga?

- Saga? Se você não fez nada, é óbvio que a culpa não é sua! Você nunca quis matar o Kanon quando era criança?

- ...?

- Saga, quem não age não tem culpa. Planejar, ter vontade, ter raiva, ter ciúmes... Isso não é crime! Isso é ser humano.

- ... Você está falando isso... só para eu me sentir melhor...

- Saga, eu falo isso porque é verdade! Pára de se culpar. Eu sou distraído. Eu sempre me arrebentei. A culpa NÃO é sua!

- Milo, me desculpa!

- Só se você me desculpar, Saga. Me desculpar e dormir. Eu vou ficar aqui até você dormir, OK? - por que Milo continuava a agradá-lo? Ele era desprezível!

- Obrigado, Milo!

- Obrigado a você, Saga. Obrigado por ter arriscado sua vida por mim! – e Saga foi novamente vencido pelo sono, antes de conseguir contar a Milo sobre seus outros erros.

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- Kaaamuuus! Pode abrir essa porta que eu sei que você está aí!

A campainha tocava, a porta era esmurrada e o telefone também tocava. Tudo ao mesmo tempo. Quem mais poderia fazer tanto barulho? Quem mais podia berrar o nome dele assim? Fleur, é claro! Parbleu! Como ele descobrira que ele estava mal? Ele tentara não arrastar mais o Fleur para a sua miséria! Não era justo. Mas ele já estava fingindo que não estava em casa há mais de meia hora e Fleur não desistia. Era melhor atender de uma vez. E Kamus se levantou do canto no qual estivera largado pelas últimas duas horas e atendeu a porta.

- Oui, Fleur? A que devo esta algazarra?

- Kamuus! Meu lindo! O que aconteceu?

- Bom, eu estava tentando dormir, quando ouvi tudo tocar ao mesmo tempo e ...

- Pode parar, francesinho. EU SEI! Então me conta só os detalhes que eu não sei para poupar tempo, vai?

- Fleur, eu não quero mais te arrastar para os meus problemas.

- Ah, querido. Seus problemas são meus também. Você é meu amigo, não é?

- Bien sûr, Fleur7. – Flor era seu melhor amigo no mundo, disso não havia dúvida. Claro! Havia Shaka também. Mas Kamus só conseguia se abrir com Flor.

- Viu? E eu não tenho outro amigo que fale francês com biquinho. Então me conta tudo que a gente tenta resolver junto.

- Fleur, você é muito bom pour moi!

- É que a gente vai fazer uma banda, Kamus. Já resolvi tudo!

- Uma banda? – Kamus o olhava sem entender nada.

- É isso aí, Kamus. E a gente só vai cantar músicas da Edith Piaf!8

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Gente, acho que nem preciso dizer como eu estou mal por ter machucado o Saga, não é? Coitado! Tão lindo, forte, poderoso, gostoso e... (bom, já deu para pegar a idéia!). E agora ele está tão ... frágil! Mas tem gente que só aprende assim! Fazer o que?

Saga: Virgo-chan, por que ... você está fazendo isso ... comigo?

Virgo-chan: Bom, Saga! É claro que eu poderia dizer que é importante para o desenvolvimento da história, que assim você aprende a deixar de infernizar o Milo e o Kamus e que isso facilitou a sua reconciliação com o Kanon, mas... isso não é verdade!

Saga: Qual ... a verdade...?

Virgo-chan (abraça Saga fortemente): É que assim você não consegue fugir de mim!

Gostaria de agradecer às reviews que recebi da Sirrah-san, Nuriko-riki, Dionisiah, Dark Ookami, Hikaru, Tsuki-chan, Tsuki Torres, Musha, Gigi, Haiku e Dana. Muito obrigada!

E um agradecimento especial à minha beta fofa, a Nuriko-riki, cuja fic eu mais do que recomendo.

Beijos da

Virgo-chan

Set/06

1 Eu acho.

2 Está decidido. É o melhor.

3 Expressão de surpresa.

4 Olá

5 Sem problema.

6 Mas eu te entendo

7 Certamente, Flor.

8 Referência aos pensamentos de Flor no capítulo "Dor".