Uma vida Barroca

Com o surgimento dos primeiros núcleos de povoação em Pernambuco e Bahia, a escravidão indígena aumentou e , como se não satisfizesse a alta burguesia, negros estavam a chegar da África. A estrutura social era praticamente baseada na diferença entre classes, raças e nacionalidades; fruto do imperante absolutismo monárquico europeu. Porém, um ex- desbravador comandava pontos de fugas para escravos, o que o transformou em um constante alvo de perseguições burguesas.

Pois bem, aquele que um dia fora súdito tornou-se marginalizado. Não apenas por um ideal libertário e humano, mas por amar uma mulher. Uma santa mulher que lhe mostrou a vida muito além de seu muro e que agora desaparecera.

Não existia sonho que passasse sem que ela estivesse presente. A religiosa movimentava sua cabeça, entretanto, Neji sabia que aquilo que deseja era muito mais do que poderia ter. Aquilo que o matava pouco a pouco não era como as constantes emboscadas de que escapava, mas era algo que fugia de seu controle, seus princípios, sua racionalidade. Era o puro versus o pecaminoso, a matéria versus o espírito, o prazer versus a dor. Realmente, seria um embate Neji versus Neji.

Por saber da brevidade de uma vida, o Hyuuga destinava metade de seus dias às orações a fim de trabalhar em uma fugacidade carnal. Sabia que caso a tocasse estaria ultrapassando limites, poderia viver na miséria devido à ira divina e isso seria chocante. Neji seria a imagem do lócus horrendus, seria mais um Gregório de Matos.

"Se Pica-Flor me chamais,
Pica-Flor aceito ser,
Mas resta agora saber,
Se no nome que me dais,
Meteia a flor que guardais
No passarinho melhor!
Se me dais este favor,
Sendo só de mim o Pica,
E o mais vosso, claro fica,
Que fico então Pica-Flor."

(Gregório de Matos)

Enquanto isso, no outro lado da cidade, a santa mulher encontrava-se absorta em seus estudos diários de Pe. Antonio Vieira, a fim de não pensar no homem que um dia tivera de combater. Para Tenten, mente vazia soava como a oficina do mal.

"Todas as estrelas estão por sua ordem, mas é ordem que faz influência, não é ordem que faça lavor. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte está branco, da outra há de estar negro; se de uma parte está dia, da outra há de estar noite; se de uma parte dizem luz, da outra hão de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão de estar sempre em fronteira com o seu contrário? Aprendamos do céu o estilo da disposição e também o das palavras. Como hão de ser as palavras? Como as estrelas. As estrelas são muito distintas e muito claras."

(Pe. Antonio Vieira)