Encarando a prosa
Assim que saltou do trem, Tenten percebera que uma das conseqüências de sua escolha seria o contentamento com a solidão.
Apesar de ter sido uma religiosa com tamanha influência em movimentos civis e políticos, seu afastamento da cidade seria a melhor medida a ser adotada. Contudo, ainda não havia compreendido a súbita vontade de ter largado o hábito em tempos mais amenos; em tempos onde a nação buscava, por si, um enriquecimento cultural.
O campo, sem sombra de dúvidas, esclareceria seus pensamentos.
Enquanto, a procura pela chácara que uma das irmãs a havia encaminhado à trabalho, carregava sua pequena mala pelos prados, alimentava uma, conturbada, conversa com seu coração sobre o estar e o não estar ali.
"Coração, por que tremes?"
Ao aproximar-se da porteira, não pôde deixar de notar a esguia figura esbranquiçada e portadora de longas melenas que, espantosamente, a encarava; o homem, pasmo, próximo a entrada da chácara a perturbava, mas, ainda assim, ela não compreendia o porquê.
- Boa tarde, sou a mulher indicada pela irmã Rita, do Rio de Janeiro. Me chamo Ten...
-Conheço, perfeitamente, seu nome, Mitsashi Tenten – ele estendeu a mão para retribuir-lhe o cumprimento – talvez, a senhorita se lembre de palavras como :
"Ama o povo; abomina a tirania;
Defende o fraco; lida com a maldade
Sem tréguas nem perdão, filho! Confia
Na justiça, No Amor e na Verdade"
(Lúcio de Mendonça)
- Não é possível...Você? - Tenten reagiu exatamente como ele esperava.
- Suas palavras, realmente, são capazes de mudar a natureza humana, sabia? Honestamente, acho que devas tomar cuidado com as que serão, futuramente, proferidas.
- Se for por uma boa ação, não vejo o porquê de evitá-las- ela concluiu
- Tem razão, tem razão...Venha! Vou mostrar-lhe seu futuro aposento
- Perdoe-me capitão, mas não acho que devo.
- Responda-me, Tenten, como uma mulher de ditos tão justos e, simultaneamente, tão ferinos pode ter um raciocínio tão lento?
- Oras, quem o senhor pen...
- Calma, Srta. Ex-irmã! Estava apenas brincando – tentava contornar a situação enquanto caminhavam pelos aposentos – A verdade é que, agora, sou fazendeiro. Portanto, o campo é minha morada, minha esposa, ou seja, não se preocupe. Acredito que ninguém irá procurá-la durante a noite.
- Espero o mesmo do senhor, ex- capitão Hyuuga Neji.
- Tenten, venha! Quero que conheça um lugar!
Ao adentrar no aposento o qual fora indicado pelo homem do campo, Tenten não pôde deixar de reparar no quanto ele havia caprichado na composição do local; era tudo tão rústico, tão sereno, tão campestre.
Ambos se encontravam absortos em uma linda biblioteca particular.
- E então? É de seu agrado – Neji não se conteve, pois notara um brilho atípico nos olhos da mulher.
- Que interessante saber que o senhor lê Visconde de Taunay.
- Por que?
- Bom, não me julgue mal, mas apesar de seu romantismo não tão fantasioso, posso ousar dizer que é um tanto feminino. – percebendo a intrigada expressão do moreno, continuou – por exemplo, o que me diz desse trecho – preparou-se para recitá-lo enquanto folheava as páginas do livro "Inocência".
" ...Ainda há pouco me disse que quisera ter nascido princesa...Eu lhe retruquei : E você sabe o que é ser princesa? Sei, me secundou ela com toda a clareza, é uma moça muito boa, muito bonita, que tem uma coroa de diamantes na cabeça, muitos lavrados no pescoço e que manda nos homens...Fiquei meio tonto. E se o Sr. visse os modos que tem com os bichinhos?!...Parece que está falando com eles e que os entende...Uma bicharia, em chegando ao pé de Nocência, fica mansa que nem ovelhinha parida de fresco..."
E Tenten continuou a provocá-lo. De fato, este aparentava ser seu passatempo favorito.
- Se eu não conhecesse sua fama masculina no período em que eras capitão, diria que não passa de uma garotinha aos pés da adolescência – precisou abafar um tímido e presunçoso riso
- Pois bem, Sr. Culta. Confesso que nos tempos em que servia à Corte Portuguesa, preferia algo como :
"Ah! Vem pálida virgem, se tens pena
de quem morre por ti, e morre amando,
Dá vida em teu alento à minha vida,
Une nos lábios meus minh'alma à tua!"
(Álvares de Azevedo)
- Ardiloso, Neji...Muito ardiloso. Então, porque largaste esse caminho? – comentava enquanto, com um livro em mãos, o rodeava.
- Porque, hoje, aquilo o que encanta meus pensamentos e meus atos está em
"Da natureza inteira que aviventas
Todos os elos a teu ser se prendem,
Tudo parte de ti e a ti se volta;
Presente em toda a parte, e em parte alguma,
Íntima fibra, espírito infinito,
Moves potente a criação inteira!
Dás a vida e a morte, o olvido e a glória!
Se não posso adorar-te face a face,
Oh! basta-me sentir-te sempre, e sempre!"
(Fagundes Varela)
- Muito poético – Tenten concluiu – Também, não posso negar que os anos afastados lhe fez bem, culturalmente.
- Apenas poético? – Neji a persuadiu
- O que mais seria ? – perguntou enquanto sentava-se à mesa no centro da biblioteca e , nessa, pousou os cotovelos – Uma tentativa de entrar para o Magistério?
- O que me diria se – aproximou-se da mulher e capturou-lhe o queixo – eu me revoltasse com seu mau comportamento e , subitamente, resolve-se lhe roubar os lábios até sentir a invasão do seu sabor adocicado transbordar por minha boca, até deixar que seu cheiro entorpecesse meus sentidos e eu perdesse a razão, hein?! O que diria?
- Que o senhor não sabe o que diz
- Não se faça de desentendida, Tenten. –sentou-se ao seu lado e tampou os olhos – Há quanto tempo você tem lutado contra o desejo? Será que há tanto quanto eu?
"Provavelmente"
Espero que tenham gostado desse capítulo, apesar de minha demora para atualizar a fic!
Os próximos capítulos não irão demorar!
