-O que? – Fred finalmente exclamou, porém a dor aguda de seus dentes o atingiu na boca como uma facada.

Frustrado, ele continuou ali, sendo fulminado pelo olhar divertido do irmão e seu sorriso debochado. Fred não sabia que seu rosto podia ser tão irritante e prometeu a si mesmo que iria começar a parar de lançar olhares cínicos para os outros. Bem, talvez só um pouco. Jorge acomodou o saco sobre a cabeça do irmão, imergindo o rosto de Fred sob aquele amontoado de tecido e neve.

-Você não existe, só isso. – Jorge jogou-se sobre a própria cama chutando suas roupas para o chão enquanto se acomodava.

Fred lutou contra o peso do gelo e tentou descansar o lado direito do rosto, onde a dor era mais aguda, na sacola. Seu coração martelava contra o peito: a forma com que Hermione o tocara, seus dedos gentis em seu rosto deixavam a lembrança de um carinho que ele antes nunca havia conhecido. Nem mesmo quando namorava Angelina ela o havia tratado daquele jeito, geralmente a garota não levava suas doenças e machucados a sério, achando sempre que havia uma piada por detrás daquilo. Esse era o problema: quando se tratavam dele e seu irmão, as vezes as palhaçadas não permitiam que os outros vissem as urgências pelas quais eles passavam.

Fred recordou do momento e seu estomago deu uma cambalhota em sua barriga. A possibilidade de continuar machucado para receber aquele tipo de atenção novamente era muito tentadora se ele não ficasse proibido de falar ou mover a cabeça.

-Hum! – ele estalou os dedos para chamar a atenção do irmão que fingia dormir – Falar...Hermione...Pedir...Poção! – e foi tudo que ele pode resmungar enquanto Jorge mantinha o sorriso de deboche.

-O.k., mas quando eu voltar e você resolver isso daí, vai me dizer o que fez com ela. – Jorge ignorou o grunhido que seu irmão soltou e o cutucou na altura das costelas enquanto ria – O que? Quando encontrei com ela, estava tão vermelha que jurei que ela havia comido uma de nossas balas apimentadas. Acha mesmo que sou burro ao ponto de não achar que você fez alguma coisa? – riu ele antes de deixar o quarto.

Enquanto se dirigia para o cômodo das garotas, Jorge remoeu a idéia: O que faria Hermione Granger, a imbatível, ficar envergonhada daquele jeito? Ele tinha certeza de que Fred fizera algo, porém considerava o irmão insano o suficiente ao ponto de tirar toda a roupa e dançar para a garota. Não. Se fizesse aquilo Hermione estaria aos berros pela casa toda. Sua cabeça estava tão focada no assunto que quando a encontrou na cama com o livro que a pouco pegara em seu quarto, as palavras saíram de sua boca antes que pensasse:

-O que Fred fez?

Gina, que estava concentrada demais em polir a varinha, ergueu a cabeça de um salto exatamente ao mesmo tempo que Hermione.

-Perdão...? – a garota disse fechando o livro.

-Nada, esqueça. Fred falou de uma poção...

-Ah, sim. – ela saltou da cama graciosamente e alcançou a mala onde suas coisas estavam em uma organização admirável.

Jorge tinha que admitir: Aquilo era um quarto! Arrumado, limpo e com um delicioso perfume no ar. Ele não avistou sequer uma única peça de roupa largada em canto nenhum se não no cesto que sua mãe pusera em todos os quartos para roupa suja. Ficou surpreso quando a garota estendia um frasco com um líquido branco de aparência leitosa dentro.

-Uma colher de chá a cada doze horas. – instruiu ela quando Jorge pegou o recipiente e analisou o conteúdo – Ele deve ficar bom amanhã pela noite, já que se tratam apenas de rachaduras.

-Você é uma santa, Mione. – Jorge abriu um largo sorriso para a garota. – O que seríamos de nós sem você?

Ela preferiu revirar os olhos a responder.

-E nada de comida consistente para Fred até ficar completamente bom. Água, sorvete e sopa sem pedacinhos de nada. Passe no coador antes de dar para ele. Amanhã dou uma olhada e vejo como ele está.

-É o que? Sorvete? Coador? – Gina riu da expressão confusa do irmão sem ter a decência de disfarçar.

A verdade era que Jorge estava apavorado: se sua mãe soubesse, bom, provavelmente mandaria Jorge para uma visita rápida até St. Mungus porque duvidava que ela fosse capaz de magia curativa para ossos e dentes e ele não queria vê-la sendo obrigada a internar um filho quando o próprio marido já estava lá. Além do que, se soubesse o que acontecera, Rony seria morto antes que os gêmeos pudessem se vingar. Hermione o avaliou por um momento e conseguiu imaginar o que se passava pela cabeça de Jorge. Com um suspiro cansado, disse:

-Olha, façamos o seguinte: apenas se certifique de dar a poção nas horas certas. Infelizmente não tenho nada para dor, então mantenha ele sempre com gelo para evitar inchaço. – sentindo que iria se arrepender, completou – Eu cuido das refeições do Fred. Quando tirei os sisos, meus pais preparavam esse tipo de coisa, sei o que fazer.

Até mesmo Gina ficou surpresa quando Jorge abraçou Hermione com força, o que foi engraçado pois o rapaz era incrivelmente alto perto da garota, então a levantou poucos centímetros do chão antes de soltá-la.

-Estou lhe devendo uma vida, Hermione. – disse ele segurando ambas as mãos da garota – Se qualquer dia precisar de alguma coisa, nem que seja um companheiro de estudos, eu juro...

-Jorge, vá cuidar do seu irmão. – interrompeu ela com a voz seca.

O rapaz disparou pelo corredor fazendo um barulho desnecessário. Hermione resmungou qualquer coisa sobre o estardalhaço e quando voltou sua atenção para o interior do quarto deparou-se com mais um par de olhos castanhos a fuzilando com um olhar maldoso. Gina a fitava da mesma maneira com que olharia para um aluno que elogiava os casaquinhos de Umbridge.

-O que? – ela perguntou tentando se livrar dos Weasleys para terminar aquele maldito livro.

-Não, não, nada. – cantarolando qualquer coisa, Gina fingiu voltar sua atenção para a varinha já brilhando.

-Gina, por favor. Quanto mais cedo você falar, mais cedo vamos concluir essa conversa e mais cedo vou terminar isso aqui. – Já frustrada, Hermione sentou-se de modo que pudesse ficar cara a cara para a mais nova dos Weasleys.

De uma maneira muito lenta, deliciando-se com a tortura, Gina deu um último retoque na varinha, a guardou sobre as vestes e sentou-se de frente para Hermione.

-"Vejo como ele está."?, "Eu cuido das refeições de Fred."? Por favor, Hermione. Nem quando Harry perdeu os ossos do braço há três anos você deu tanta atenção a ele. – Gina piscou de maneira marota para a amiga. – O que está havendo? Quando você chegou aqui parecia havia sido assediada por toda escola: vermelha, ofegante, dispersa... Você só fica assim quando a Mcgonagall elogia seu dever de casa e o chama de "perfeito".

Oh, Hermione conseguia se lembrar de todas as vezes que sua professora fizera aquilo: fora mágico. Mas ainda tinha que lidar com Gina naquele momento antes de devanear.

-O que há de errado? Ele pediu por ajuda e eu estou sendo gentil.

-Ai é que está. Eu estou com os gêmeos há catorze anos e eles nunca fizeram tanta questão da ajuda de ninguém. Geralmente eles davam um jeito para cuidar um do outro, acredita que até hoje Jorge tem a ponta de um lápis enfiada na mão? Os dois nunca deixaram alguém se embrenhar tão fundo no mundo deles e agora Jorge pede "Por favor, estou implorando" para você cuidar do irmão dele? – Gina riu da situação. – Isso nunca aconteceu.

-Pode ser que dessa vez eles realmente não saibam o que fazer. Jorge está muito preocupado. Ou eles podem estar querendo se aproximar de mim e do Harry já que estamos sempre todos juntos.

-É, mas Fred não foi até o quarto onde ele e Rony estão dormindo e roubou o material escolar de Harry, foi? – sem falar que certa vez, durante um experimento, as vestes de Fred pegaram fogo e ele ficou com boa parte do braço queimado. Os dois conseguiram esconder o acidente da sua mãe e deram um jeito para curar as cicatrizes.

-N-Não, mas ele só queria implicar...

-Hermione, você ficou mais algum tempo com os dois lá e o Jorge entrou aqui perguntando "O que Fred fez?"... Preciso refazer a pergunta?

A garota estremeceu ao se lembrar do ocorrido. Olhou para os dedos e não ficou surpresa como ainda podia sentir os lábios de Fred ali, a maneira como ele sorriso, seus olhos brilhando...

-E-Eu estava de saída. Quando ia me levantar ele segurou minha mão e a beijou. – sussurrou ela tendo certeza de que estava voltando a corar violentamente.

Hermione achou que naquele momento Gina iria saltar e gritar absurdos sobre um romance secreto, flerte, como o seu irmão e sua amiga podiam estar juntos, porém Gina sempre seria Gina, então a jovem Weasley apenas mordeu o lábio inferior de maneira pensativa, levantou-se, pegou o caderno de Transfiguração e começou a fazer seu dever de casa. Hermione aguardou por algum tempo achando que se tratava de alguma armadilha, que logo a paz pela qual ela tanto lutara seria interrompida, porém Gina parecia realmente compenetrada na própria escrita. Ainda receosa, Hermione voltou a deitar-se e abriu o livro. Ficou completamente chocada quando alcançou a última frase do capítulo final e nenhuma palavra havia sido dita.

O bater na porta foi tão repentino que ela deu um pequeno grito de surpresa. Não querendo atrapalhar a concentração da amiga, Hermione abriu a porta e deparou-se com Harry.

-Oi. – saudou ela com um sorriso. – Veio falar comigo ou com Gina?

-Hum...Não tinha exatamente planejado falar com qualquer uma das duas. – respondeu ele. – Só que Rony acabou de voltar da cozinha e se largou na cama fedendo a melado e suor e está roncando como um porco.

-O.k.. Vamos para a sala de jantar e conversamos um pouco. Gina está estudando. – fechando a porta atrás de si, Hermione guiou Harry até o primeiro andar tentando evitar olhar para o quarto dos gêmeos quando passaram pela porta do cômodo.

A casa ainda estava silenciosa, o que era muito estranho, geralmente os adultos estavam sempre correndo para cima e para baixa nas escadas limpando, organizando, dando ordens ou preparando coisas da própria Ordem. Agora não haviam passos apressados, os gêmeos estavam impossibilitados de aprontar qualquer coisa até o dia de amanhã, então o ser mais barulhento na casa era Monstro, surgindo ocasionalmente pelos cantos e resmungando qualquer coisa sobre intrusos na preciosa casa de seus patrões e sangues-ruins vivendo naquelas paredes.

-Não podemos nem ao menos sair e fazer um boneco de neve. – Harry finalmente suspirou qualquer coisa querendo puxar um assunto.

-Ou bolas de neve. – riu Hermione lembrando-se de casa.

Os dois eram os únicos que tiveram a infância construída no mundo trouxa, então sobre certos assuntos só podiam partilhar da companhia um do outro.

-Quando passava o Natal com os Dursleys, era apenas receber os ataques de Duda e sua gangue. – Harry sacudiu os ombros de maneira infeliz – sete contra um. Com ou sem neve.

Natal junto ao povo não mágico rendeu uma conversa agradável e suave, envolvendo a ambos para longe de seus próprios problemas. Hermione se preocupava muito com o fato de Harry estar tendo sonhos de natureza tão maléfica e de como sua mente podia estar aberta para Aquele-que-não-deve-ser-nomeado. As vezes ela via uma sombra terrível perpassar pelos olhos verdes do amigo e notava quando ele esfregava a cicatriz de maneira distraída, mas preferia não tocar no assunto: Harry já deveria estar com a cabeça cheia demais para ouvir ainda mais sermões.

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N.A.: Hey, Cheff! Bom, mais um capítulo (e cada vez mais eles aumentam). É meio frustrante escrever uma fanfic Fred/Hermione, afinal James Phelps é simplesmente adorável, mas acho que Hermione é boa o bastante para ele...Na verdade, seria o equilivrio hilário entre a seriedade e...Bom, os Weasleys, mas fazer o que? Não sou J.K. Rowling...Obrigado aos que estão deixando Reviews, amo entrar na minha caixa de e-mail e ver que um novo comentário foi postado e, Oh, como meus olhos brilham ao ver pessoas de tão longe lendo essa história (principalmente o pessoal do Canada, local amado onde morei por uns tempos e se tornou minha "menina dos olhos" *0* Adoro neve e adoro o sossego de lá)

Anyway, obrigada a todos (não importa de onde sejam)

Bjão e um abraço.