Título: Do As Infinity

Autora: Mila B.

Capa: Vide profile.

Sinopse: Existem muitos motivos para não se amar uma pessoa, mas apenas um para amá-la. (C. Drummond de Andrade). Veela!fic Vampire!fic.

Gênero: Romance/Comfort/Hurt/Drama.

Classificação: Slash/Nc-17.

Casal: Harry Potter e Draco Malfoy.

Trila Sonora: Set Fire to the Rain, Adele.

AVISO: Essa fanfic contém SLASH, relação homem x homem! Acha ruim, horrível, feio, nojento? NÃO LEIA. E alguém notou a ordem dos nomes no casal? Pois é, Draco UKE! Prefere ele seme? Acha um absurdo ele por baixo? Então é só clicar no X simpático no canto direito superior da página e ser feliz. :)


Capítulo 3

Beijos e Preocupações

Draco acordou com um carinho suave em seu rosto e abriu os olhos lentamente. Não saberia dizer em que momento apagara, nem por quanto tempo ficara dormindo, mas não se preocupou em descobrir tais detalhes ao vislumbrar as orbes verdes em meio à penumbra do aposento. A janela estava fechada, e apenas alguns feixes de luz escapavam pelas frestas da madeira. Seus olhos se encontraram com os do vampiro que sorriu de leve, com um ar um pouco cansado.

"Você não dormiu nada?" Draco perguntou, erguendo a mão para afastar os cabelos negros do rosto de Harry.

"Meu sono chega com o amanhecer. Já amanheceu há algumas horas, mas preferi te observar dormir." O vampiro sorriu ao ver a expressão levemente constrangida do rapaz frente ao seu comentário. Inclinou-se e roubou um beijo dos lábios dele. "Você é viciante." Sussurrou em um tom baixo e rouco.

"O que é isso?" Draco perguntou, erguendo o corpo ao ver uma bandeja com frutas frescas, pães e geleia sobre a cama. "Você me preparou um café-da-manhã na cama?"

"Sim," Disse Harry, aproximando-se e afastando os cabelos compridos e – apesar de haver recém acordado – extremamente lisos do pescoço do loiro, antes de depositar um beijo na nuca desnuda, causando um estremecimento no menor. Estavam ambos nus, e o lençol escorregara até a cintura de Draco quando ele se sentara de súbito. "Você precisa se alimentar. Aqui," Harry ergueu uma mão, e um frasco de poção que estivera repousando sobre uma das cômodas do quarto voou até a mão dele. "Beba isso."

Draco analisou o frasco com um líquido no tom vermelho claro com algumas espirais mais escuras que pareciam se movimentar livremente numa dança ritmada e lenta em meio ao fluido. Pegou-o, com as sobrancelhas erguidas.

"O que é?"

"Uma poção que estimulará seu corpo a produzir sangue com mais rapidez. Bebi de você por duas noites seguidas. Nesse ritmo acabará ficando anêmico." Harry disse, seus braços envolvendo a cintura estreita e trazendo-o para mais perto, enquanto seus lábios percorriam em toques suaves e vagarosos o pescoço de Draco. Era afetado demais pela beleza e pelo perfume natural do loiro; não conseguia manter-se longe dele por mais do que alguns segundos.

Draco gemeu baixinho com aquilo, sentindo um arrepio arrebatando-o de cima abaixo, e fechou os olhos, inclinando a cabeça para o lado para dar mais liberdade aos lábios frios do vampiro.

"Harry..." Draco suspirou, gemendo mais quando a mão do vampiro escorregou por seu abdômen e sumiu por trás do lençol para então tocá-lo de uma forma que o fez se contorcer nos braços do outro, fechando os olhos e revirando-os por trás das pálpebras. Com Harry, parecia-lhe que tudo – as sensações, os toques, o prazer – era dezenas de vezes intensificado, a ponto de seu corpo meramente humano mal ser capaz de suportar.

"Beba," Harry disse naquele tom baixo, mas grave, que não abria espaço para contestações. Com a mão trêmula, já quase chegando ao ápice sob os estímulos do vampiro, Draco levou o frasco aos lábios e bebeu a poção que desceu adocicada por sua garganta. Depois disso, Harry segurou seu queixo e virou seu rosto, antes de afundar os lábios nos seus. Ele gemeu daquela forma meio rosnada, como se se segurasse para manter o controle enquanto sorvia o gosto da boca do outro, e aumentava o ritmo da mão, deixando Draco ainda mais trêmulo e entregue.

Harry parou os movimentos e o abraçou ao sentir Draco desfalecer em seus braços, depois de um gemido mais alto que soltara dentro da boca do vampiro. Harry sentiu que sua vida poderia se resumir a dar prazer ao loiro em seus braços. Como podia sentir tanto em tão pouco tempo? Agora entendia quando diziam que vampiros eram criaturas passionais e instáveis, arrebatadas pela magnitude e amplificação de seus sentimentos. Já experimentara a raiva extrema, a dor, o desespero e a solidão naquelas proporções assustadoras, mas paixão era a primeira vez – e era algo que ele não queria deixar escapar.

"Já transamos boa parte da noite," Disse Draco com os olhos ainda fechados e a cabeça apoiada no ombro do vampiro. "Quer que eu acabe desmaiando de cansaço novamente? Eu deveria estar no trabalho a essas alturas..."

"Não," Harry o interrompeu de imediato. "Fica comigo hoje." Sussurrou perto do ouvido de Draco, fazendo-o morder os lábios, e Harry pensou que seria ele quem acabaria mordendo aqueles lábios se Draco continuasse com aquilo. "Prometo não te cansar muito."

"Uhum..." Draco murmurou em um ar descrente, abrindo os olhos e virando o corpo para fitar Harry, que alcançou uma uva graúda sobre a bandeja do café da manhã e aproximou-a da boca do loiro; seus olhos brilharam quando Draco entreabriu os lábios, aceitando a fruta. Puxou-o para um beijo assim que ele terminou de mastigar e engolir. "Como você pode ser tão bonito?" Harry perguntou, admirando novamente os traços delicados e sem defeito algum do menor.

Draco desviou o olhar, não parecendo muito contente com o comentário.

"É minha descendência veela, sabe disso." Falou, alcançando mais uma uva e levando-a à boca. "Não é algo do qual eu me orgulhe..." Resmungou baixinho, esquecendo-se de que estava ao lado de um vampiro, que o ouviria mesmo se houvesse murmurado aquilo a quilômetros de distância.

"Por quê?" Harry perguntou, apoiando a mão no colchão e olhando para o loiro que se afastara de seu contato. "Não vejo razão para se envergonhar disso." Estendeu a outra mão para tocar o rosto de Draco, mas ele a afastou, levantando-se da cama em seguida.

"É, mas não foi nisso que eu fui ensinado a acreditar durante vários anos da minha vida." Falou baixo, seco, sentindo-se sujo de repente, sufocado naquele quarto iluminado apenas por velas. "Preciso ir trabalhar." Completou, procurando por suas roupas. Era melhor voltar para o meio dos muggles que não lhe distinguiam por sua genealogia, não apontariam dedos e lhe enxergariam como algo vergonhoso que precisava se esconder. Não importava que estar em meio a eles fosse uma espécie de fuga. Uma fuga covarde, como ele era, e sempre fora.

Harry não entendeu o que causou aquele súbito comportamento arredio; não queria utilizar-se de seus poderes de vampiro para ler a mente dele, mas não resistiu – às vezes eles escapavam ao seu controle, e logo viu-se perdido entre lembranças da infância de Draco que pareciam sair da mente do loiro e flutuar até seus olhos, numa procissão forte de sentimentos.

Era difuso, mas viu uma lembrança de um Draco criança, espiando por trás da porta Lucius Malfoy brigar em um tom controlado com a esposa, acusando-a de não lhe ter contado que não era puro-sangue, que era suja, com genes veela, antes de se casarem. Acusando-a de não lhe dar um filho normal. Viu a indiferença e frieza que Lucius dispensou à esposa e ao filho por esse fato, ainda que os amasse e protegesse – principalmente quando do retorno de Voldemort. Viu as drogas a que Draco foi submetido, para que suas características veelas não aflorassem com o passar dos anos. Viu o temor constante de Draco em ser descoberto em sua sujeira pelo Lord e em como se esforçou para aprender legilimência para que tal fato não ocorresse. Viu a vergonha constante que ele sentia com a possibilidade de descobrirem a verdade, tanto seus amigos, quanto os comensais, que passariam a rejeitá-lo e desprezá-lo. Harry não sabia, mas bruxos com descendência veela eram vistos pelos pureblood como algo tão imundo e repugnante quanto um muggle-born.

E Draco fora obrigado a menosprezar e apoiar uma crença que incluía a si e a sua mãe entre a escória do mundo bruxo. Viver com medo disso. Nojo e ódio de si próprio. Culpar-se por não atingir as expectativas do pai. E então fugir antes de virar um comensal, por simplesmente não ser mais capaz de aguentar tudo aquilo. A falta de lógica em sua vida marcada por tanta angústia, tanto medo. Harry simplesmente não fazia ideia de que aquele garoto sempre tão nariz empinado e arrogante escondesse tanto já na época de Hogwarts. Entendeu que fora a forma que ele encontrara quando mais novo para fingir, esconder-se do mundo. Mesmo que não houvesse encontrado uma forma de se esconder de si mesmo. Harry desejou abraçá-lo e dizer-lhe que ele não era errado, nem sujo; que não havia razão para se esconder.

Que o amava.

E foi isso que fez. Em um segundo já o tinha em seus braços, e segurava-o com força, murmurando aquelas palavras perto do ouvido dele. Draco arregalou os olhos e se afastou para mirar-lhe a face quando Harry disse que o amava. Pôde ouvir o coração dele acelerando, e quase temeu que ele se afastasse mais, e o repudiasse por isso. Os pequenos pontos azuis em meio ao tom cinzento brilharam com mais força, como estrelas de cor anil.

Mas no lugar disso ele voltou a abraçá-lo, escondendo o rosto em seu peito largo, o corpo pequeno sacudindo-se em risadas baixas e leves.

"Vocês vampiros e seus malditos sentimentos exacerbados." Draco disse entre os risos, deixando-se envolver pelo corpo frio do outro antes que suas risadas lentamente se transformassem em soluços, e então em choro; as lágrimas a escorrer por seu rosto, alcançando a pele de Harry, que o abraçou com maior alento. Duas almas que já haviam sofrido tanto, buscando algo diferente uma na outra.

Ainda tinha alguma alma? Harry se perguntou, escondendo o rosto na dobra do pescoço do menor e sorvendo o aroma dele, como que em busca de algum consolo, até que o loiro se acalmasse. Draco então se soltou, voltou para a cama e jogou-se de costas nela, com uma expressão ausente.

"Não quero que leia mais a minha mente, Potter." Ele demandou de repente, e Harry olhou para o corpo esguio, nu, estendido na cama, com seus fios loiros espalhados por quase todo o colchão. Lindo. Sua boca salivou, enquanto voltava também para a cama.

"Você estava jorrando suas memórias para mim. Não pude evitar." Disse Harry, deitando-se sobre Draco, apoiando as mãos uma de cada lado do corpo dele, encaixando-se entre as pernas dele e fazendo-o ofegar.

"Não queria que soubesse sobre isso. Não quero que sinta pena de mim." Ele murmurou com evidente desgosto, encarando o vampiro diretamente nos olhos. Harry balançou a cabeça.

"Se eu sentisse pena de você, deveria também sentir pena de mim mesmo. Não sinto." Falou convicto. "Eu apenas compreendo." Olharam-se longamente, até que Draco estendesse as mãos e lhe segurasse o rosto, erguendo-se um pouco para dar-lhe um beijo suave.

"Obrigado." Sussurrou o loiro, abraçando-o e puxando-o para si. "Me faz seu." Completou quase inaudível. Harry sentiu o corpo queimar com aquelas palavras, com aquela voz suave sussurrando contra seus lábios. Tomou a boca de Draco em um beijo ávido, e suas mãos deslizaram pelo corpo dele, até segurarem a parte de trás dos joelhos e colocá-los sobre seus ombros. Descendo os lábios para o pescoço do menor, Harry murmurou um feitiço que lubrificou o loiro. Desde que virara vampiro, não precisava mais usar uma varinha para usar magia. Seu poder mágico aumentara tanto quanto seus sentidos, tornando-o um bruxo verdadeiramente poderoso.

Os bruxos eram os únicos seres capazes de se transformar em vampiros com consciência, capazes de manter as memórias e as lembranças da vida passada. A magia convertia o vírus da morte em algo que lhes engrandecia o poder, no lugar de degradar o corpo e a mente. Os muggles, caso mordidos, acabavam transformando-se em vampiros como o que ainda deveria viver no porão d'A Toca, pois seus corpos desprovidos de magia eram incapazes de tolerar a transformação a que eram submetidos. Por isso, poucos como Harry existiam, e os que existiam, eram temidos por seu poder avançado.

"Meu Deus… Eu não aguento isso." Draco falou com a voz falha, fechando os olhos e gemendo mais alto enquanto Harry o preparava. Suas unhas, mesmo curtas, afundaram-se na carne dos ombros do vampiro, e sua respiração alterada pareceu preencher todo o quarto.

Harry quase perdeu o controle ao ver o rapaz suspirando e mordendo os lábios a ponto de reabrir o corte da noite anterior no momento em que o penetrou, e um filete de sangue escorreu da boca inchada. Harry fechou os olhos com força, impulsionando-se contra o corpo menor, suas narinas se dilatando com o cheiro escarlate; sua mão segurou os cabelos da nuca de Draco e sua boca desceu contra a dele, sugando o líquido, lambendo a pele sem parar de mover o corpo, a cada segundo mais rápido, numa cadência fora dos padrões comuns. Draco quase chorava de prazer a cada estocada. Era demais. Para ambos. Mas no lugar de parar – e a ideia sequer passara pela mente do vampiro – Harry foi mais fundo. Seus lábios desceram até o pescoço pequeno e macio e seus dentes se afundaram na pele de Draco, que soltou uma nova exclamação choramingada, palavras desconexas começando a escapar e se perder em meio à ondulação fraca da luz das velas.

Harry sentiu o corpo de Draco arquear e tremer, e apertar-se mais ao redor de seu membro, e com mais uma, duas estocadas, seu corpo seguiu o mesmo caminho. Afastou os dentes do pescoço dele e lambeu com carinho o local, fechando os pequenos furos. Draco gemeu baixinho, já quase adormecido, exausto. A boca e os lábios de Harry latejavam pelo sangue que acabara de experimentar, e seu corpo sentiu-se renovado, mais poderoso, forte. Aos poucos, ficava mais fácil resistir à tentação de continuar bebendo até que o sangue se esvaísse por completo do corpo de Draco, ainda que continuasse a usar boa parte de seu autocontrole para isso.

Saiu de dentro do loiro, também um pouco trêmulo, e puxou-o para seus braços, envolvendo o corpo menor e quente de forma protetora.

"Harry..." Draco resmungou, com os olhos fechados, prestes a se render novamente ao cansaço. "Diga de novo... Só mais uma vez." Ele pediu com o rosto escondido no peito do vampiro. Harry aproximou os lábios do ouvido dele e sussurrou, em um tom grave e rouco.

"Eu te amo, Draco. Eu quero você para mim para sempre."

Xxx

"Vai me contar o que aconteceu, ou vai continuar a fazer segredo?" Monique perguntou subitamente, assim que Draco entrou na cozinha com um sorriso bobo no rosto. O loiro logo se aprumou, voltando a uma expressão séria e impassível. Já havia alguns dias desde que começara a se relacionar com Harry, e a atenta amiga logo percebeu a mudança de humor do jovem. Ele parecia mais vivo, luminoso – o que fizera a clientela aumentar ainda mais. Por mais que gostasse de Monique, Draco não queria entrar em detalhes. Em verdade, o melhor era não comentar nada.

"Não estou fazendo segredo de nada." Comentou com descaso, mas um breve sorriso travesso escapou e surgiu no canto de seus lábios.

"Seja o que for, querido, estou contente por ter acontecido. Como eu queria ver algum brilho nesses seus olhos!" Ela caminhou até Draco, segurou-o pelas bochechas e puxou-o para dar-lhe um beijo na testa. "Só tome mais cuidado com os clientes. Eles parecem ainda mais hipnotizados do que o normal quando você sorri de verdade."

Draco soltou uma risada leve.

"Certo. Ah, e sobre aquele dia que eu faltei ao trabalho, você quer que eu compense nesse domingo?"

"Não seja bobo." Monique repreendeu, dando um tapinha do rosto do garoto antes de voltar aos seus afazeres e dar algumas ordens aos outros dois cozinheiros que estavam, literalmente, com a mão na massa. "Você sabe que tem regalias comigo. Além do mais, depois de ficar tanto tempo sem faltar nenhuma vez ao trabalho e chegar mais cedo que todo mundo, você tem umas horas de folga acumuladas." Ela piscou.

"Huum... Vou guardar com cuidado essa informação." Draco sorriu de lado e saiu da cozinha com o que viera buscar em mãos. Já passavam das seis horas da tarde, e aos poucos o céu ia escurecendo. Draco sentiu uma pontada de ansiedade ao olhar por uma das janelas e já não encontrar o sol à vista.

Ficou tão distraído pensando nisso que não percebeu um muggle, que recém entrara no estabelecimento estacou, observando-o com os olhos levemente arregalados, e então começou a se aproximar, completamente enfeitiçado pelo encanto veela do rapaz. Draco tomou um susto quando o homem segurou um de seus ombros e tentou se aproximar para beijá-lo. Já deveria estar acostumado com isso, acontecia com uma razoável frequência, mas dessa vez sentiu-se quase desesperado quando se viu prensado contra uma parede.

"Você é tão bonito... Só um beijo, eu só quero..." O muggle começou a murmurar enquanto tentava vencer a distância. Draco tentou empurrá-lo para longe, a cabeça virada para o lado para que ele não grudasse seus lábios.

"Alguém pode tirar esse idiota de cima de mim?" Gritou frustrado, ao que algumas pessoas que olhavam abismadas para a cena se levantaram e foram ajudá-lo. Assim que se viu livre, Draco suspirou. "Por favor, levem-no lá para fora para que ele possa se recompor." Pediu, pois o homem continuava com o olhar vidrado tentando se aproximar novamente.

Draco se aprumou assim que o homem foi tirado do Café.

"Engraçado, também senti essa vontade de prensá-lo contra a parede na primeira vez em que o vi." Draco tomou um susto ao ouvir a voz de Harry perto de seu ouvido. Deu um pulo para o lado, sentindo toda a pele arrepiada, e deparou-se com a figura alta e sombria do vampiro, mas que no momento tinha um leve sorrisinho de deboche nos lábios.

"Você viu aquilo e não fez nada?" Draco se indignou, fuzilando Harry com o olhar, mas perdeu toda a pose quando o outro começou a se aproximar, a passos largos, fazendo-o cambalear para trás até que suas costas se encostassem ao balcão do Café.

"Queria ver o que você faz quando isso acontece. Mas não se preocupe, se ele o tivesse tocado, seria um homem morto agora." Harry falou enquanto terminava com a distância entre os dois e segurava o loiro pela nuca, antes de afundar os lábios nos dele. Draco arregalou os olhos, mas quando o corpo frio do vampiro se colou ao seu, e ele o envolveu completamente em um abraço forte, ainda segurando sua nuca e aprofundando o beijo, não pôde fazer outra coisa que não segurar os cabelos negros e revoltos e se entregar àquilo.

"Harry... Aqui não." Draco murmurou com grande esforço, quando o vampiro começou a beijá-lo no pescoço – a ponta da língua fria lançando arrepios por todo seu corpo. Harry se afastou um pouco quando alguém pigarreou. Os dois viraram o rosto e viram Monique observando-os com uma expressão entre repreensiva e divertida.

"Meninos, sinto dizer que aqui não é lugar para esse tipo de coisa." Ela falou, dando uma rápida olhada para o restante do Café. Draco seguiu o olhar dela e reparou que a maioria das pessoas observava a cena entre chocadas e fascinadas. Olhou para Monique com um sorrisinho constrangido. "Sai mais cedo hoje, querido. Vão, vão." Ela os enxotou antes que Draco pudesse abrir a boca para protestar – não que ele realmente estivesse pensando em discordar da ideia.

"Obrigado, senhora. Pode deixar que eu vou cuidar bem dele." Harry garantiu com um sorriso amplo e um tanto predatório antes de começar a puxar Draco para fora do lugar. O loiro olhou para Monique uma última vez enquanto se deixava levar e, pela expressão esperta no rosto maduro, ela acabara de entender muito bem o que acontecera com Draco naqueles últimos dias.

Harry o arrastou em direção ao Castelo de Sant'Angelo e parou apenas quando estavam sobre a ponte em frente ao castelo, o rio Tibre correndo logo abaixo, refletindo as estrelas que começavam a despontar lá no alto. Harry se encostou na mureta da ponte e puxou Draco para seus braços, abraçando-o pela cintura.

"Fiquei com saudades." Ele falou com um sorriso de tirar o fôlego, os olhos verdes cintilando cravados no menor.

"É o que você sempre diz." Desconsiderou Draco com um sorriso de escárnio, as mãos pousadas nos ombros do vampiro. "Desde então, não tenho mais nenhuma noite de descanso." Revirou os olhos.

Harry ergueu as sobrancelhas, encarando-o com óbvia descrença, e acariciou o rosto do loiro, a parte de trás dos dedos escorregando lentamente até o pescoço delicado. Draco tentou reprimir o frêmito que o gesto simples causou-lhe, e mordeu o lábio inferior quando Harry sorriu sarcástico.

"Vou fingir que você não gosta de acabar suas noites exausto e propor que façamos algo diferente hoje." Harry disse sem deixar de acariciar o rosto de Draco com o polegar.

"Sabe, eu me lembro de uma época em que eu costumava ser o presunçoso." Draco ponderou em um tom de voz arrastado. "Mas vou desconsiderar sua arrogância e ouvir o que você tem em mente."

Harry riu de leve antes de fechar os olhos quando uma brisa suave começou a soprar. Draco se sobressaltou quando algumas finas lágrimas de sangue começaram a escorrer pelo rosto que ficara subitamente rígido e carregado.

"Harry...?" Draco perguntou inseguro, erguendo a mão para tocar a face contraída. Ofegou quando Harry segurou seu pulso com força, quase o quebrando, e então, em um movimento rápido, inverteu as posições, prensando-o contra o muro. Draco esperou com o coração acelerado até que a expressão do vampiro voltasse ao normal. Quando ele abriu os olhos, encarou-o preocupado.

"Desculpe." Pediu em um tom culpado. "Você está bem?"

"É claro que estou, Potter. Não sou feito de porcelana." Draco falou, mas não de forma agressiva, enquanto tentava puxar o pulso machucado e escondê-lo das vistas do vampiro. Mas Harry evitou que ele se afastasse e mirou o local em que o segurara e que agora estava completamente roxo.

Harry pareceu ficar furioso ao ver aquilo e se afastou bruscamente, caminhando até a mureta oposta da ponte enquanto limpava o rosto sujo de sangue. Inclinou-se sobre ela, tentando recuperar o controle. Não aguentava aquilo – a quantidade de roxos e hematomas que já deixara em Draco em tão pouco tempo devido às suas súbitas perdas de controle o deixavam extremamente frustrado e irritado consigo mesmo. Não bastava beber do sangue do loiro para satisfazer sua natureza primitiva, mesmo sabendo do risco que ele corria todas as vezes, pois sempre lhe era difícil parar, ainda o machucava daquela forma?

"Harry?" Draco se aproximou do vampiro, mas parou quando ele se voltou para olhá-lo, a expressão feroz.

"Sabe, você deveria tentar correr como naquela noite em que invadi seu apartamento. Você ainda é um veela, eu ainda sou um vampiro e, em qualquer momento, meus instintos podem falar mais alto." Disse com a voz dura, experimentando um aperto no peito com a ideia de que Draco seguisse seu conselho.

Mas mesmo com aquele conselho, não saberia, na verdade, se conseguiria deixá-lo ir caso assim o loiro escolhesse.

"Eu sei." Draco afastou do rosto alguns fios de cabelo que eram curtos demais para ficarem presos na trança. "Mas gosto de pensar que isso me faz mais corajoso, sabe? Desafiando o perigo e tudo o mais." Deu de ombros. Harry suspirou, sentindo como se um peso exorbitante houvesse sido tirado de suas costas. Draco definitivamente não deveria brincar com um assunto tão sério, mas Harry admitia que se sentia melhor quando ele desdenhava suas preocupações com aquele tom despreocupado.

"Bem, então, o que você me diz de irmos ao Teatro dell'Opera essa noite? Escutei várias pessoas elogiando a nova peça." Comentou, voltando a caminhar em direção ao loiro, segurando-o pelo rosto e tomando-lhe a boca em um beijo ansioso, mal dando tempo do loiro responder à pergunta, sua língua buscando a do menor com ardor e arrancando dele um gemido baixo. Quando o soltou, Draco estava ofegante, os olhos fechados e os lábios entreabertos, avermelhados. Por Merlin, ele era uma pintura da perfeição e da sensualidade, pensou o vampiro.

"Acho ópera uma boa ideia." Draco falou, então abrindo os olhos. "Faz tempo que não vou a uma, mas... Acho interessante, sabe, se tivermos um camarote particular." Ele sorriu de lado, com malícia. "A vista para o palco é melhor, entende?"

"Perfeitamente." Harry sorriu também, mirando o loiro de uma maneira completamente apaixonada, antes de segurá-lo pela mão e voltar a andar, dessa vez em direção ao teatro.

XxX

Observou o loiro apoiado ao parapeito do camarote – o melhor do lugar – admirando o desenrolar da peça com uma expressão suave no rosto delicado. Parecia imerso em recordações. Harry não conseguia prestar muita atenção à peça, pois Draco atraía toda a sua compenetração.

"Algumas pessoas o reconheceram antes. Você costumava vir muito aqui?" Perguntou, erguendo-se da cadeira em que estivera sentado e inclinando-se por trás do loiro, seus braços circundando o corpo delgado e se apoiando ao lado dos dele. Draco sorriu um pouco mais.

"Pode-se dizer que sim." Ele soltou um suspiro baixo quando Harry o beijou no pescoço. "Eu participava das peças."

O vampiro franziu a testa.

"O que quer dizer? Fazia parte da ópera, como aquele homem agora no palco?" Harry se referiu ao homem que cantava em tom grave no palco, desesperado porque sua amada acabara de falecer. O vampiro estremeceu, rapidamente perguntando-se o que faria caso alguma coisa acontecesse com Draco.

"Não. Eu era parte da orquestra. Tocava violino." Draco contou, colocando os braços sobre os de Harry, e como sempre sentindo falta de algum calor. Ainda não conseguira se acostumar com a frieza da pele do vampiro, mas, ainda assim, ser abraçado por ele era reconfortante; era como sentir-se protegido em meio a um campo de batalha. "Diziam que eu tocava muito bem." Completou com um sorriso presunçoso.

Harry estava surpreso com aquilo.

"Por que não me contou nada sobre isso?" Perguntou, abraçando o loiro com mais força. Havia tanto sobre ele que ainda desconhecia. Apesar da conversa inicial que haviam tido, Draco ainda tinha dificuldades em entregar-se por completo. Confiar de corpo e alma. Harry ansiava por isso, mas conseguia entender, pela infância e adolescência que vislumbrara aquela noite nas lembranças do loiro, o porquê daquele fechamento, daquela barreira que ele impunha entre ele e o mundo.

"Porque você não perguntou, é claro." Draco retorquiu dando de ombros.

Harry aproximou os lábios do ouvido dele, sentindo-o estremecer de leve, enquanto lá embaixo, no palco, o homem terminava sua canção sofrida entre lágrimas.

"Vou querer ouvi-lo tocar." Sussurrou, beijando-o em seguida no pescoço pálido. A pele dele parecia seda contra seus lábios. "Como aprendeu?"

"Sempre gostei muito de música. Quando me mudei então para cá, descobri a música clássica muggle e a ópera. Era algo que me ajudava a esquecer o resto do mundo." Draco contou suspirando. "Algum tempo depois de conhecer Monique e conseguir trabalho no Café Greco, entrei em um Instituto de Música aqui em Roma. Eu nunca soube se realmente tinha algum talento ou se me parabenizavam e se encantavam comigo apenas pela minha beleza."

Harry percebeu o tom chateado do loiro. Era claro o quanto ele repudiava sua condição de parte-veela.

"Eu não saí da Inglaterra com muito dinheiro, por isso continuei trabalhando no Café, ou então meu dinheiro acabaria muito rápido. Monique praticamente me adotou como filho e me ajudou com as despesas da faculdade. Pagava bem mais do que eu merecia por meu trabalho." Draco sorriu, balançando a cabeça com alguma boa lembrança. "Depois de formado comecei a tocar aqui. Também aprendi um pouco de piano, mas não é o meu forte. Cheguei a participar de algumas apresentações em outros países. Foi uma boa época."

"E por que parou?" Harry perguntou suave. Draco ficou em silêncio por alguns minutos enquanto as cortinas do palco se fechavam ao término do depressivo ato de morte da jovem apaixonada.

"Eu não sei. De um momento para o outro, a paixão pela música arrefeceu. Eu estava afundando quando você apareceu, Harry." Draco segurou os braços do vampiro como se tentasse se segurar para não escorregar da borda de um abismo.

"Draco..." Harry virou o loiro de frente para si, buscando pelos olhos acinzentados e melancólicos. "Eu nunca mais vou te deixar." Falou, tocando o rosto delicado e fascinante. "Eu vou cuidar de você."

"Você realmente sabe como me deixar constrangido." Draco reclamou baixinho, desviando o olhar com as bochechas levemente avermelhadas. Harry riu; o loiro sempre ruborizava quando agia de forma romântica.

"Eu também estava afundando." Harry segurou o queixo do menor e ergueu o rosto dele, lentamente diminuindo a distância entre os dois. "O que eu farei se te perder?" Perguntou preocupado, a cena recém terminada da ópera repercutindo em seu subconsciente – o choro e o desespero do homem por ter perdido seu grande amor.

Não esperou por uma resposta e tomou os lábios rosados com desespero, abraçando-o a ponto de fazer Draco gemer baixinho contra seu peito, as mãos pousadas em seus ombros. Buscou a língua com um gosto mais doce que o néctar, que sempre o embriagava e despertava um fogo dolorido em seu corpo frio. Um fogo que não podia sentir, mas que estava ali. E mesmo que ele estivesse ali, preso em seus braços, sentia falta, porque nada parecia suficiente para eles, mesmo quando estavam juntos, mesmo quando as mãos de Draco subiam e perdiam-se entre seus cabelos negros e desgrenhados, segurando-os enquanto o beijo tornava-se mais impetuoso.

E o aroma de Draco, que se tornara incomum, único, por assim dizer. Harry nunca imaginara que sentiria um aroma com tanta perfeição como o sentia agora. Tão complexo e familiar, mas capaz de durar apenas o tempo necessário para fazê-lo sofrer por não poder tê-lo outra vez. Afastou a camisa que ele usava de um dos ombros e começou a beijá-lo no local, alimentando-se dos suspiros que ele soltava.

Foi o momento em que uma presença, uma força poderosa, chamou a atenção de Harry, e ele ergueu os olhos, sentindo-se observado por algo que não conseguia identificar ou definir. Suas orbes verdes de visão aguçada varreram os outros camarotes em busca de algo suspeito, que confirmasse o que acabara de sentir.

"Harry, o que foi?" Draco perguntou ao perceber a rigidez do corpo do vampiro. Os olhos de Harry pararam em um dos camarotes de onde um homem de longos cabelos negros e de profundos olhos castanhos os observava. "Harry!"

O vampiro se sobressaltou e percebeu que estava apertando o corpo de Draco com força demais. Afastou-se um pouco, mirando-o preocupado.

"Desculpe." Disse, para então voltar os olhos para o camarote do homem de aspecto misterioso e sombrio. Não era humano. Outro vampiro? Um bruxo?

Entretanto, o lugar há pouco ocupado agora se encontrava vazio.

"Vamos embora." Declarou em um tom firme e sério.

"Mas... A peça ainda não terminou." Draco disse confuso, sem compreender a súbita mudança de atitude do vampiro.

"Não interessa. Vamos embora." Harry segurou o pulso do loiro e começou a puxá-lo consigo, escapando da música da época que acabara de recomeçar. Draco não impôs resistência, mas, mesmo que o houvesse feito, não importaria. Arrastá-lo-ia para longe daquele lugar mesmo contra a vontade dele.

Seu corpo ainda estava arrepiado de maneira desagradável pela presença misteriosa daquele homem. Sentira que poderia perder Draco quando seus olhos se encontraram com os do desconhecido.

XxX

"Harry, você quer se aquietar? Já estou ficando com dor de cabeça com você andando desse jeito de um lado para o outro." Draco reclamou, deitado sobre o longo divã da sala da casa que Harry alugara para sua estada em Roma, lendo uma revista qualquer após desistir de tentar acalmar o vampiro.

Harry parou de supetão, o que atraiu a atenção de Draco, que desviou os olhos da revista, encontrando os do vampiro pregados em sua direção.

"Toque para mim." Ele pediu, e havia uma urgência comovente em seu tom.

"Meu violino... ele não está aqui." Draco disse com a voz falha e incerta. Ele não tocava há dois anos, não sabia se ainda teria algum talento. Não queria decepcionar Harry.

"Onde você o guarda?"

"No armário do meu quarto, na última gaveta do centro..." Draco mal terminou de falar e Harry já aparatara. O loiro piscou e o vampiro já estava de volta com a caixa quadrangular de madeira polida do violino. Harry sentou-se no divã e entregou-a ao loiro. "Harry, por que quer tanto me ouvir tocar?"

"É uma parte de você que quero conhecer. Eu quero te conhecer por inteiro." Harry segurou a mão de Draco e levou-a aos lábios, beijando-a ternamente. "Eu não quero te perder."

"Por que está falando isso de repente? Você não vai me perder..." Draco falou irritado. Havia algo perturbando o vampiro aquela noite, mas ele não conseguia entender, já que até poucas horas atrás tudo estava bem, excetuando o pequeno descontrole dele na ponte.

"Mas eu não posso arriscar, não é? Não quero voltar ao tempo antes de te encontrar. Não agora, não tão cedo." Harry desviou o olhar, seus ombros parecendo mais pesados do que de costume. Draco olhou para Harry de forma significativa, desejando acalmá-lo. Sabia que vampiros eram seres instáveis quanto a sentimentos, emoções. Eram extremistas. Talvez Harry houvesse ficado impressionado com a peça da ópera, em que o personagem principal perdia seu grande amor.

O loiro aproximou-se dele e beijou-o no ombro como se tentasse dissipar aquela tensão. Harry sempre fugia desse tópico, mas o loiro sabia que ele ainda se culpava pelas mortes que causara em seus primeiros meses regados a desespero, angústia, confusão e solidão.

"Fale comigo." Draco pediu desejando tanto livrar o vampiro daquela culpa, fazê-lo esquecer de tudo que o machucava, porque era isso que Harry fazia consigo: curava suas feridas.

"Matei, não duvido, mais de vinte pessoas, Draco." Harry disse fechando os olhos com força. "Como eu poderia me perdoar? Eu ainda tenho algumas lembranças delas. Quando as matava, elas vinham com o sangue. Eu vejo os filhos, maridos, pais e mães de quem as arranquei. Vejo os sorrisos de momentos entre amigos, os beijos apaixonados que trocaram com algum namorado..." Harry segurava a mão de Draco com força, e o loiro segurava-se para não soltar uma exclamação de dor, porque o vampiro precisava falar.

"Não foi você." Draco falou sereno, acariciando os fios negros e rebeldes de Harry. "Não foi o Harry. Não o Harry em sua essência. Esse não tira vida; salva-as. Não foi você."

Harry soltou uma risada amarga e descrente.

"Salvou a minha." Draco falou sinceramente, abaixando todas as barreiras e conseguindo atrair o olhar do vampiro; ele precisava que Harry entendesse. "Você realmente acha que se houvesse algo de você naquelas mortes, você estaria agora se culpando, atormentando-se com isso dias após dia?"

"Eu estava lá, Draco. Eu poderia ter me controlado." Harry disse sério, mas Draco balançou a cabeça.

"Ninguém consegue se controlar em todos os momentos. Eu imagino que deva doer, Harry. Mas você precisa se perdoar, porque do contrário, essa culpa vai te corroer até que não reste mais nada."

Harry olhou para o meio-veela, e ele fitava-o com aqueles olhos melancólicos, mas dessa vez melancólicos por sua causa, porque não queria vê-lo triste. Porque dependiam um do outro para serem felizes. E que fosse para o inferno quem dissesse que esse sentimento de dependência não era saudável – há muito tempo a vida de ambos não era saudável.

Então que agora ao menos ele, Harry Potter, pudesse amar. Amar, e amar, e amar um pouco mais.

"E eu não posso ver isso acontecer. Eu não vou deixar." Draco completou resoluto, olhando-o com uma determinação que queimava. E Harry o abraçou e começou a beijá-lo – nas bochechas, na testa, no pescoço; poderia beijá-lo por inteiro. Era possível amar tanto?

"Toque para mim." Harry repetiu o pedido, afastando-se com um breve sorriso. Não sabia como o loiro fazia, mas ele conseguia afastar seus fantasmas. Ou talvez soubesse, mas fosse complexo demais para decifrar em palavras exatas.

Draco abriu a caixa e pegou o violino, tocando-o com carinho por um momento antes de se levantar, ajeitando-o no ombro. Respirou fundo e começou a tocar lentamente uma de suas músicas preferidas que sempre lhe parecera a síntese de todos os sentimentos que buscava. Entre eles, redenção – algo que o vampiro também precisava sentir. A melodia fluiu pelo ambiente, preenchendo-o, fundindo-se com o ar e causando-lhe uma sensação de bem estar ao ouvi-la. Ainda conseguia tocar – talvez não tão bem quanto da última vez, mas ainda podia sentir as notas percorrendo seu corpo, aquecendo seu coração. Sorriu internamente com isso e fechou os olhos, deixando-se levar.

Quando a música terminou, abaixou o braço e o violino, voltando a abrir as pálpebras. Harry continuava sentado, olhando-o de modo penetrante, mas com lágrimas de sangue escorrendo pelo rosto pálido. Draco estendeu o braço e tocou-lhe a bochecha, da mesma forma que ele fizera consigo antes.

"Não me olhe desse jeito." Pediu baixinho, afastando com o polegar o caminho vermelho na pele dele.

"Que jeito?" Harry segurou o pulso do loiro e puxou-o para o seu colo.

"Você sabe como." Draco retrucou sério ainda afagando a bochecha do moreno. "Não vai me contar o que aconteceu para você ficar tão emocional durante a ópera?"

"Você aconteceu." Harry respondeu sorrindo, causando uma risada rápida e espontânea no loiro, principalmente porque a tensão nos ombros dele pareciam ter-se dissipado.

Draco se inclinou e roubou um beijo do vampiro.

Quando Harry tornara-se tudo que ele queria, tudo o que precisava? Era amor o que estava sentindo? Era esse amor que diziam curar todas as feridas, por mais fundas e dolorosas que elas fossem? E poderia ele também curar as feridas de Harry? Ele, que nem ao menos conseguira curar as suas próprias? Suspirou, procurando pelo gosto da boca de Harry, pelo segredo do beijo que não se diz ao pé do ouvido, mas nos lábios quentes e apaixonados.

"E eu deveria ficar feliz por deixá-lo tão instável?" Draco perguntou ao se afastar, erguendo uma sobrancelha. Harry abriu um sorriso único – Merlin! Era tão bom vê-lo sorrir assim –, suas mãos entrando por baixo da camisa do loiro e sentindo o calor dele sob suas palmas frias. Draco sentiu um tremor subir pela espinha.

"Sim, porque é a minha única confirmação de que ainda estou vivo." Harry retrucou e, em um movimento rápido, deitou Draco sobre o divã, colocando-se entre as pernas dele. Os olhos do vampiro escureceram. "Eu ainda não consigo compreender... como pode realmente querer estar comigo. Você é tão especial, Draco. Como pode não ver isso?"

"Eu já estou vendo tudo o que eu preciso agora." Draco replicou calmo, e seu tom mais azul dos olhos brilhou intensamente. Então Harry o beijava com sofreguidão, já o livrando da camisa e expondo o peito magro e delineado. A pele que tanto desejava e que tanto o provocava. Seus braços envolveram o corpo menor enquanto seus lábios apreciavam a textura e o gosto da boca macia.

"Eu não quero que você seja de mais ninguém. Nunca mais." Harry falou no instante em que o contato de suas bocas se quebrava, e os olhos se abriam para se focarem novamente nas cores uns dos outros. "Eu quero você, apenas meu, para sempre."

Draco olhou sério para o vampiro, algo naquela afirmação o perturbando intensamente. Não o fato de Harry querê-lo. O coração do loiro se apertava de uma forma gostosa e quente no peito ao saber disso. Ao saber que alguém o queria tanto, e em seu 'querer' encarava-o com aqueles olhos verdes enegrecidos que lhe roubavam ainda mais o ar.

O que o perturbava era o para sempre. Porque ele não era para sempre. Harry era. Harry continuaria, e o sempre em que ele, Draco Malfoy, estaria incluído, não seria mais do que equivalentes a segundos na vida do vampiro. E o aperto que era bom tornou-se doloroso, porque ele queria fazer parte de todo o sempre de Harry.

Ele sentia que só recomeçara a viver agora, e pela primeira vez de forma tão... livre. E pareceu-lhe tão certo que isso se estendesse ao infinito, que suas próximas palavras saíram fluidas e cheias de uma certeza irrefragável por entre seus lábios, o que causou certa surpresa também em si próprio.

"Então me transforme."

Harry estancou, as pálpebras se abrindo pelo inesperado daquele pedido. Teve certeza de que seu queixo também caíra, mas nenhum som saiu de sua garganta. Ele simplesmente jamais preveria algo como aquilo. Ele não imaginaria que Draco quisesse transformar-se em um vampiro, ainda mais depois de vislumbrar, ao longo das conversas que haviam tido nos últimos dias e há pouco, o quanto ele odiara vagar sozinho, o quanto odiava necessitar do sangue de outras pessoas para sobreviver.

Isso queria dizer que Draco o amava acima de todas essas mazelas? O loiro ainda não dissera como se sentia em relação a ele, mas não era como se Harry precisasse de palavras. Ele podia sentir na pele, e agora, saber que Draco queria realmente ficar ao seu lado para sempre ia muito além de uma confirmação. Porque se já não é fácil amar a mesma pessoa e querer permanecer ao lado dela por trinta, quarenta anos, o que dirá pela eternidade?

Harry levantou-se do divã, afastando-se alguns passos, sem desgrudar os olhos do loiro. Seus pensamentos o atingiam tão rapidamente, de maneira tão confusa, que ele não conseguia articular as palavras com clareza, e elas lhe fugiam, e outras dúvidas apareciam. Draco se sentou no divã, encarando-o com a expressão serena, ainda que determinada.

"Eu falei sério, apesar de ter surpreendido a mim mesmo." Ele disse calmo.

Harry respirou fundo, seu lado guiado pelos instintos querendo despertar com aquele desejo do loiro de ser mordido, transformado. Era como um chamado, e Harry sentiu seu corpo se contrair, enquanto o aroma doce e inebriante de Draco o atingia com mais força e impacto. E se o matasse ao tentar transformá-lo?

"Harry, diga alguma coisa." Draco pediu, levantando-se também, o que fez o vampiro dar um passo para trás.

"Eu... Eu nunca transformei ninguém. Eu nem ao menos sei como fazer isso!" Harry exclamou exasperado e transtornado. Draco não deveria sugerir algo como aquilo tão de repente, ou com tanta naturalidade.

"Todo vampiro sabe como transformar alguém. É instintivo, não precisa ser ensinado." Draco falou desconsiderando e tentando se aproximar de Harry, mas ele novamente deu alguns passos para trás, mantendo a distância.

"E como você pode saber?" Harry retrucou. "Fique parado, droga!"

Draco estacou em pé no centro da sala, encolhendo-se levemente devido ao tom do vampiro. Mordeu os lábios e desviou o olhar, perguntando-se por que ele estava rejeitando a ideia como se ela fosse abominável e inconcebível. Não era o que ele recém afirmara? Que o queria para sempre? Então por quê...?

"Eu já disse que estudei e li muito, quando mais novo, sobre as criaturas mágicas que são 'perigosas' a um veela. Talvez eu saiba mais sobre vampiros do que você próprio." Murmurou ainda sem conseguir erguer o olhar para o outro. De novo, o peso da rejeição voltava a instalar-se sobre seus ombros.

"Então você deveria saber que posso perder o controle! Que posso matá-lo com um simples descuido, por questão de segundos!" Harry praticamente gritou, fechando os olhos e apertando os pulsos. O ar dentro daquela sala estava tornando-se irrespirável. Ele precisava se alimentar, sua garganta estava ardendo e seu organismo implorando por sangue.

Draco ergueu olhar, surpreso, entendendo então o medo e a dúvida do vampiro.

"Você não me mataria. Você é forte, Harry. Já é incrível que tenha se controlado todo esse tempo. Se você fosse um vampiro descontrolado qualquer, eu já estaria morto há muito tempo." Assegurou, avançando tentativamente mais um passo e estendendo a mão para tocar o rosto do vampiro, porém Harry segurou seu pulso no ar, impedindo-o de tocá-lo.

"Eu preciso pensar. Eu... Seu cheiro está me matando. Preciso de um pouco de ar." Harry falou sério, sumindo com um estalo no momento seguinte. Draco suspirou, abaixando o braço e deixando os ombros caírem.

"Deveria ter sido mais esperto e sugerido isso depois do sexo." Resmungou consigo mesmo enquanto pensava em como os vampiros eram exagerados. Sentou-se novamente no divã e alcançou o violino, pondo-se a tocar novamente – já havia se esquecido de como tocar ajudava-lhe a pensar com clareza.

Harry não iria matá-lo.

Sabia disso, apesar de não fazer ideia de por que tinha tanta certeza. Talvez por causa da maneira apaixonada com que o verde brilhava ao mirá-lo. Ou talvez porque a alma atormentada e o coração consternado do vampiro vibrassem e encontrassem consolo apenas nele, com desabafos sinceros sobre infortúnios, angústias e mágoas infindáveis que se externavam oprimidas por gotas de sangue. Sangue este frio, mas ardente como o desejo, e consolador como a esperança.

Mas assim como havia as lágrimas, rubis amargurados e arrebatados pela dor de uma alma dilacerada, também havia os sorrisos que apenas ele, Draco, conseguia agora despertar em alguém em quem sorrir já fora um ato tão prosaico e fácil, ingênuo; mas que agora era tão difícil e complexo, ainda que verdadeiro. E ao entender que a recíproca era verdadeira: que sentia o mesmo, e só poderia sorrir de verdade ao lado do vampiro que lhe roubara o coração de modo tão irreparável, como um rompante de uma cachoeira por muito tempo presa, mas então liberta com um beijo de liberdade, soube, então, que o amava.

E que seu amor era para sempre.


NA: Obrigada a todos que estão comentando, o retorno de vocês é super importante para mim, e eu fico emocionada com cada review! Essa fic tem uma valor sentimental enorme para mim, e sempre fico trêmula antes de postar, e depois esperando para saber o que vocês acharam. xD

Estou torcendo para que tenham gostado do capítulo! n_n

Beijos! :*