Título: Do As Infinity
Autora: Mila B.
Capa: Vide profile.
Sinopse: Existem muitos motivos para não se amar uma pessoa, mas apenas um para amá-la. (C. Drummond de Andrade). Veela!fic Vampire!fic.
Gênero: Romance/Comfort/Hurt/Drama.
Classificação: Slash/Nc-17.
Casal: Harry Potter e Draco Malfoy.
Trila Sonora: Set Fire to the Rain, Adele.
AVISO: Essa fanfic contém SLASH, relação homem x homem! Acha ruim, horrível, feio, nojento? NÃO LEIA. E alguém notou a ordem dos nomes no casal? Pois é, Draco UKE! Prefere ele seme? Acha um absurdo ele por baixo? Então é só clicar no X simpático no canto direito superior da página e ser feliz. :)
Capítulo 4
Gone
Com o movimento no Café Greco mais calmo – a época de turismo da cidade acabando, e apenas os moradores locais que eram clientes ferrenhos e fiéis aparecendo –, Draco sentou-se em uma das mesas, uma xícara de café bem forte entre as mãos pequenas, encarando o lado de fora da rua. O final de tarde que sempre demorava tanto a chegar. A angústia de ter de passar os dias sozinhos sem Harry, e o medo infundado de que ele simplesmente se cansasse e partisse, deixando-o para viver o resto de sua vida imortal sem ele.
Depois de tantos meses, Draco sabia que não conseguiria ir adiante sem Harry. O laço que eles haviam criado era forte demais, único demais. E em todas as vezes em que o vampiro bebia de seu sangue, esse laço se estreitava, pois compartilhavam pensamentos, sonhos, lembranças durante aquele ato, tudo fluindo como água corrente entre os corpos. Era mais vívido do que qualquer conversa, qualquer gesto, qualquer carinho. Era compartilhar a alma com outrem.
O café desceu quente e amargo por sua garganta, arrancando-lhe um suspiro e lembrando-o de que ainda estava vivo. Harry se negava a transformá-lo. Insistia de que não era porque não o queria, mas porque temia matá-lo.
"Eu nunca me perdoaria se isso acontecesse, Draco. O que seria de mim se eu te perdesse? E por culpa única e exclusivamente minha?" Eram as palavras do vampiro, ou variações dela. Draco parara de insistir depois de um tempo. Harry sempre ficava instável nesses momentos e saía para 'caçar', o que era uma noite a menos dos dois juntos.
Draco gostaria de encontrar um modo de convencê-lo, mas sabia que era em vão. Harry era muito cabeça-dura, mais do que suspeitara a princípio, mas era algo que fazia sentido. Afinal, enfrentara uma guerra quando era apenas um adolescente. Apenas alguém muito teimoso para simplesmente não largar tudo e fugir.
Como ele fizera.
Fechou os olhos e suspirou, repreendendo-se por voltar para essas memórias que tanto o machucavam. Mas, será que se voltasse no tempo mudaria o que fizera? Será que permanecer na Europa teria evitado que seu coração se quebrasse com as lembranças daquela época em que era um bruxo que todos viam apenas como mimado, metido e arrogante, e que de pureblood não tinha nada? Talvez ninguém pudesse mudar o próprio destino, independentemente do caminho escolhido. Talvez como o ditado de que todos os caminhos levam a Roma, também fosse assim com os caminhos da vida.
Talvez ele estivesse destinado a ter Harry em sua vida daquela forma, ou não. Ou foram justamente seus erros que o levaram até seu maior acerto. Sorriu com esse pensamento. Então era mesmo possível deixar tudo para trás quando o final é feliz, pleno. Quando existe uma justificativa, uma compensação para o passado que, como Harry dissera uma vez, atropela e mata. Claro, Harry era muito mais do que uma mera compensação.
Aqueles últimos meses estavam repletos de boas lembranças. Já haviam passeado por todos os lugares bonitos de Roma, conhecido a história da cidade contratando guias que, claro, haviam exigido bastante dinheiro para mostrar os monumentos, os museus e estátuas durante o período noturno. Sempre resmungavam que esses turistas estavam a cada dia mais excêntricos. Havia apenas um lugar onde não haviam ido, e era para onde Draco queria ir aquela noite. Na Colina de Pincio, na Piazza del Popolo, onde Monique contara que conhecera seu falecido marido.
Depois dessa noite, Draco já pensara no que queria fazer. Agora que estava mais forte, que se sentia quase curado da doença que assolara sua alma nos últimos anos, era hora de enfrentar por completo seu passado e buscar por total redenção.
Terminou o café e continuou esperando enquanto tamborilava os dedos sobre a mesa. Ergueu o olhar quando alguém se sentou à mesa na cadeira em frente à sua.
"Eu estava esperando por esse dia. Por um lado, ele me deixa triste, mas por outro, aquece meu coração." Disse Monique, colocando a mão sobre a de Draco por cima da mesa. O sorriso dela era uma mistura do que acabara de dizer, porém sinceridade emanava daquele gesto.
Draco colocou a outra mão sobre a dela. Às vezes não conseguia entender como ela o conhecia tão bem.
"Eu vou sentir sua falta. Obrigado por tudo, Monique." Falou sinceramente, sentindo o peito se apertar e uma vontade forte de derramar algumas lágrimas. Ela era a única pessoa que tivera ao seu lado em sete anos.
"Eu não sei sobre seu passado, não sei muito sobre aquele jovem com quem você está se relacionando, mas ele conseguiu arrancar-lhe aquela melancolia que já parecia fazer parte de seus sorrisos, de seus olhos. Eu queria tê-lo ajudado mais, meu querido." Monique se levantou e foi dar um abraço no loiro.
Draco ficou em pé e retribuiu o gesto.
"Você ajudou muito. Desculpe por ter escondido tanto de você, mas-"
"Shh, não importa. Há coisas que é melhor não falar, ou lembrar, eu sei bem disso. Só não se esqueça de mandar um cartão vez ou outra, sim? Você não é meu filho de sangue, mas será sempre meu filho de coração." Ela o lembrou, beijando-o na testa e limpando uma lágrima fina que escorrera por uma das bochechas rosadas do mais novo.
"Não se preocupe. Eu ainda volto para visitá-la." Garantiu. Ela deu-lhe dois tapinhas na bochecha e sorriu, os olhos tornando-se brilhosos pelas lágrimas também.
"Vá buscar toda a felicidade que você merece agora, meu querido. Marcus me ajudará a terminar o serviço e fechar o Café." Ela disse, pegando a xícara de Draco sobre a mesa e voltando para a cozinha.
Draco foi até o armário onde guardava suas coisas, pegou-as e saiu para a Via Condotti, o vento mais gelado de fim de estação deixando também a ponta de seu nariz mais avermelhado. Ajeitou melhor o cachecol ao redor do pescoço e, não mais do que alguns passos depois, sentiu braços fortes envolverem-no por trás.
"Saiu mais cedo hoje." Harry o beijou na parte de trás da orelha, fazendo-o estremecer. Incrível como ele facilmente causava-lhe aquelas reações com os gestos mais simples.
"Monique me liberou." Draco disse apenas. "Vem, vamos caminhar." Pegou a mão do vampiro e começou a arrastá-lo consigo.
"Você parece mais sério do que o normal hoje. Aconteceu alguma coisa?" Harry perguntou, analisando a expressão de Draco.
"Eu digo quando chegarmos."
"Chegarmos aonde?"
"Você já vai ver. Eu só quero um lugar mais discreto para aparatarmos." Draco falou, puxando então o vampiro para uma rua transversal à Via Condotti. Abraçou-o e sorriu, mirando-o nos olhos antes de aparatar para o belvedere no alto de uma das colinas romanas, da onde se via a Piazza del Popolo e, ao longe, o horizonte da cidade coroado pelo domo da Basílica de São Pedro.
Harry olhou impressionado para a vista. As luzes da cidade pareciam mais vívidas aquela noite.
"Ainda não tínhamos vindo aqui. É lindo." Harry falou, puxando Draco para seus braços. "Essa vista merece um beijo cinematográfico." Completou antes de esmagar os lábios do loiro, inclinando-se e quase fazendo o menor dobrar em dois. Draco segurou as roupas do vampiro, mesmo estando bem preso nos braços dele, e entreabriu os lábios, deixando que a língua de ambos iniciasse aquela dança sensual e sôfrega.
Quando o puxou para cima novamente, Draco estava sem ar, e demorou alguns segundos até conseguir se recompor. Harry adorava quando conseguia deixá-lo daquele jeito: ofegante, corado e deliciosamente vulnerável.
"Não faça essa expressão de vitória. Se você não fosse um vampiro, estaria no mesmo estado." Draco resmungou olhando feio para o outro, ainda que houvesse diversão em suas íris peroladas em tons de céu.
"Huuum... Mas eu não ficaria com essas bochechas adoravelmente avermelhadas." Harry sorriu matreiro, cercando o loiro contra o muro de apoio do belvedere e apoiando as mãos sobre a pedra, um braço de cada lado do corpo do menor. Draco corou ainda mais, indignado.
"É o frio, Potter." Retrucou, estreitando os olhos.
"O frio... ou o calor?" Harry afastou o cachecol do pescoço de Draco antes de começar a percorrer os lábios pelo local, arranhando muito de leve a pele sensível com a ponta de seus caninos.
"H-Harry..." Draco ronronou, inclinando a cabeça para o lado e deixando seu pescoço completamente a mercê do vampiro; seu corpo tremendo com a perspectiva de ser mordido. Harry evitava beber seu sangue todos os dias. Agora que parava para pensar, na verdade, já se passara mais de um mês desde que ele o fizera, e a vontade de sentir os dentes afiados afundando em sua pele fez com que fechasse os olhos, abraçando-se com mais força ao vampiro.
"Você não deveria me provocar assim." Harry avisou, erguendo a cabeça para mirar o menor. "Você sabe que posso-"
"Não! Não termine essa frase." Draco replicou, imediatamente recuperando a sanidade e fugindo dos braços do outro. "Eu não aguento mais essa sua ideia de que pode me matar a qualquer momento. É por isso que não quer nem ao menos beber mais do meu sangue?" Olhou irritado para o vampiro. "Já não chega não querer me transformar."
"Draco..."
"Não quero continuar com esse assunto." Draco suspirou desviando o olhar. "Não quero brigar por causa disso. Eu só... não sei como levar isso adiante enquanto houver esse seu medo de cometer um descuido a cada momento. Você não percebe, mas vamos acabar nos afastando se continuarmos assim."
Harry permaneceu em silêncio, encarando o menor com incredulidade.
"Que bem eu posso fazer a você, se precisa ficar se controlando a cada segundo que está comigo?" Draco apertou os punhos e os olhos. "Eu só queria ser alguém melhor para você..."
"Draco!" Harry exclamou, acabando com a distância entre eles e segurando-o pelos ombros. "Você não precisa mudar nada! Eu não me importo de precisar me controlar." Ele fechou os olhos por um momento, respirando fundo. "Eu queria muito transformá-lo. Eu sempre me doei e fiz tudo que os outros esperavam de mim, sempre fiz o certo, e antes de conhecê-lo eu nem sabia se havia valido à pena. Então, foda-se, eu o transformaria mesmo que fosse errado, mesmo que alguns acreditem que vida eterna é tudo, menos vida. Eu faria errado se isso resultasse em você comigo até o fim dos dias. Eu seria egoísta, porque não penso mais em certo ou errado, penso apenas em nós. E no que eu sinto."
Draco encarava o vampiro com o semblante sério, mas com olhos atentos, brilhantes. Harry voltou a abraçá-lo, mas agora de modo desesperado, como se temesse perder o loiro naquele exato instante.
"Eu te amo, você já sabe disso. Eu te amei desde que coloquei os olhos em você no Capitólio. E eu faria qualquer coisa para que jamais nos afastássemos, mas não colocar sua vida em risco. Você acha que eu sou forte, Draco, mas não sou tanto quanto você imagina..."
Draco quis dizer que ele estava errado, que era a pessoa mais forte que já conhecera, mas se manteve quieto, e apoiou a cabeça no ombro do vampiro, deixando um suspiro escapar.
"Está uma noite bonita hoje. Acho que teremos muitas estrelas." Comentou em um tom etéreo, distraído. Harry olhou para o céu e assentiu de leve. "Você acha que podemos ficar aqui essa noite? Queria me despedir de Roma."
"Despedir de Roma?" Harry perguntou. Draco se afastou e puxou-o até um banco da onde podiam ver toda a vista mais confortavelmente. Sentou-se com Harry ao seu lado e se aconchegou junto a ele.
"Preciso voltar para a Inglaterra. Preciso rever minha mãe. E preciso do perdão dela." Draco falou rápido, mordendo o lábio inferior. "Vem comigo?"
Harry o olhou profundamente, incapaz de acreditar que ele ainda achasse que precisava perguntar.
"Eu vou para qualquer lugar do mundo com você." Retrucou, ao que o loiro deitou a cabeça novamente em seu ombro, olhando para a cidade que agora parecia mais distante, tornando-se, aos olhos de ambos, parte do passado.
"Só até a Inglaterra está bom." Draco falou, entrelaçando uma mão à do vampiro. E ficaram em silêncio, apenas observando a chegada das estrelas, prelúdio de sua partida.
xXx
Londres continuava úmida exatamente como se lembrava, e o céu mantinha aquele mesmo tom nublado. Caía uma leve garoa cinzenta quando pararam em frente à antiga moradia de Harry, Grimmauld Place. Ficariam ali enquanto permanecessem na cidade – não sabiam por quanto tempo.
"O lugar deve estar completamente desorganizado e sujo." Harry avisou enquanto empurrava a porta e dava espaço para que Draco entrasse.
A viagem, feita basicamente de trem, fora tranquila e silenciosa, ambos perdidos em memórias enquanto voltavam para a cidade que haviam considerado um lar por muitos anos. Mas, mesmo em silêncio, sabiam no que o outro pensava, e os olhares que trocavam falavam mais do que mil palavras. Era uma cumplicidade que surgira lentamente, como chuva moldando pedras que jamais voltariam às mesmas formas de antes.
"Eu só preciso de uma cama para dormir e não acordar pelo próximo milênio." Draco exagerou, mas realmente sentia-se exausto da viagem.
"Certo, vou lhe mostrar o caminho." Harry falou, largando a mala com tudo – devidamente encolhido – que possuíam no chão, antes de pegar Draco de surpresa no colo e começar a avançar pela casa.
"Potter! Mas que indignidade..." Resmungou enquanto o vampiro subia as escadas em direção ao quarto que usava antigamente. Harry apenas sorriu cafajeste e continuou avançando.
Harry chutou uma das portas do corredor e entrou no quarto. Com um rápido movimento de uma das mãos, afastou os lençóis e a sujeira de cima da cama.
"Acho que Kreacher ainda deve estar por aqui. Não está tão sujo quanto eu imaginava." Ele jogou Draco na cama de casal sem cerimônia alguma, fazendo o loiro voar e cair no colchão soltando um impropério. Porém, ele não teve tempo para reclamar antes que o vampiro, rápido como a luz, estivesse sentado sobre sua cintura, arrancando suas roupas. "Eu estava louco para fazer isso em um lugar melhor do que uma cabine de trem." Confessou.
"Como se você não tivesse aproveitado naquelas cabines..." Draco murmurou, ofegando quando Harry rasgou o resto de suas roupas e jogou-as para longe. Depois, segurou seus cabelos, que estavam soltos agora – já que era Monique quem os trançava quase todos os dias – e puxou-o para cima, chocando suas bocas com ânsia e entusiasmo.
Draco gemeu quando a língua gelada do vampiro deslizou pela sua, e escorregou as mãos para dentro da roupa dele, apreciando o corpo bem feito sob suas palmas.
"Você me deixa louco." Harry sussurrou rouco, descendo os lábios pelo contorno do maxilar delicado até o pescoço, onde o mordeu, sem conseguir se refrear. Draco agarrou-se com mais força ao vampiro, pego de surpresa pela mordida. Fazia tanto tempo que Harry não bebia seu sangue.
Fechou os olhos e sentiu como se seu corpo queimasse pelo prazer, os gemidos escapando um atrás do outro de sua garganta enquanto Harry esforçava-se para não rosnar devido ao deleite que era aquele ato. Os sentimentos do loiro escorriam junto com o sangue para dentro de si, imagens dos dois juntos, se amando, tocando, beijando, as sensações triplicando, quadruplicando, até que apenas os dois existissem no mundo. Puxou o menor para seu colo ao mesmo tempo em que abria a braguilha da calça e libertava sem membro rígido.
Draco quase gritou em meio ao gemido quando o prazer da penetração misturou-se ao da mordida, e agarrou-se ao vampiro, tremendo, implorando por algo que nem sabia, suas palavras perdendo-se em meio ao êxtase, enquanto Harry ditava os movimentos de seu quadril, cada vez mais fundo, mais forte. Quando percebeu, ele já não mais o mordia, apenas beijava seu pescoço, mas as sensações continuavam aumentando, levando-o ao clímax e à exaustão. Às vezes, era mais do que seu corpo humano conseguia suportar, uma ebulição de energia e lascívia e paixão.
Quando atingiu o ápice, Harry precisou segurá-lo para que não desfalecesse na cama, e ainda ficaram um tempo abraçados antes que ele o deitasse no colchão, acomodando-se ao seu lado e afastando uma longa madeixa de cabelo de seu rosto.
"Agora precisarei dormir por dois milênios." Draco ronronou, virando-se de lado e acomodando suas costas ao peito do vampiro, que o abraçou, aspirando profundamente o aroma em seu pescoço.
"Você é a pessoa com os piores hábitos de sono que eu conheço." Harry murmurou, passeando a mão pelo corpo do menor. Draco era simplesmente perfeito, belo como nenhuma outra criatura viva que o vampiro já houvesse visto. Apenas por isso perdoava as pessoas que ousavam olhá-lo descaradamente por onde quer que passassem.
"Talvez porque eu namore um vampiro." Draco retrucou irônico, ronronando mais quando Harry começou a beijá-lo no ombro e nas costas.
"Você está com fome? Posso conseguir alguma coisa." Harry disse, erguendo-se um pouco da cama, porém Draco o impediu puxando-o de volta.
"Não, agora não. Apenas fique aqui comigo." Ele murmurou sonolento, o tom arrastado. "Amanhã... amanhã irei até a Mansão Malfoy."
Harry assentiu, voltando a deitar com um cotovelo apoiado na cama, observando o loiro. Podia sentir a insegurança dele.
"Você acha... você acha que ela ainda vai querer me ver? Que vai me perdoar? Eu a abandonei durante todos esses anos... e eu nem entendo mais por quê."
"É claro que ela vai lhe perdoar, Draco. Descanse agora..." Murmurou.
Pouco depois, Draco adormeceu com Harry velando seu sono e pensando que também precisava rever algumas pessoas que não sabia se o perdoariam por seu sumiço. Mas em seu caso, o perdão delas não era tão importante, apesar de desejá-lo. Se não fosse pelo loiro, sequer teria voltado àquele lugar.
XxX
Draco encarou a entrada da Mansão Malfoy com a expressão decidida. Viera até ali sozinho, pois era dia agora. Mas, mesmo que Harry pudesse acompanhá-lo, ele preferia assim. Caminhou até a porta principal, atravessando o longo jardim e bateu a pesada argola de metal contra a porta de madeira. O barulho ressonou por alguns instantes e então um elfo doméstico abria-lhe a porta.
Avançou para dentro da mansão sem prestar contas com o elfo.
"Onde está Narcisa?" Perguntou objetivo.
"Você é... você é..." O elfo estava pasmo, e só então, depois de dispensar um olhar mais demorado nele, Draco reconheceu o mesmo elfo que cuidava da casa na época em que fugira, apenas algumas rugas a mais e a postura mais encurvada.
"Sim. Onde ela está?"
"Ela... está nos aposentos dela. Está muito doente..." O elfo avisou, apertando as mãozinhas com medo de ser castigado pelas más notícias. Draco arregalou os olhos, seu coração disparando. Pensou em perguntar o que ela tinha, mas não importava realmente. Correu até os aposentos da mãe, surpreendendo-se por ainda lembrar tão bem dos caminhos daquele lugar enorme.
Quando entrou no quarto, encontrou Narcisa deitada na grande cama de dossel. Quem a olhasse, poderia jurar que estava morta, tamanha era a brancura de sua pele. Draco caminhou até a cama e ajoelhou-se ao lado da mãe, lágrimas escorrendo por seu rosto, e segurou a mão delicada dela. Mesmo doente, ela ainda era linda. Também já não deveria tomar as poções que inibiam sua descendência veela, que ela lhe contara tomar desde muito pequena – motivo por que Lucius não desconfiara da 'sujeira' no sangue da esposa até o nascimento de Draco.
Por que demorara tanto? Agora tudo parecia pequeno, desimportante. Ele cometera um grande erro, mas culpar-se por tantos anos, incapaz de seguir em frente, era o mesmo que perpetuar esse erro. Sentiu-se estúpido e tolo, mas ao menos agora estava ali, fazendo o que era certo.
"Draco..." Narcisa abriu os olhos muito azuis, fixando-os no filho. Imediatamente eles se encheram de lágrima. "Não posso acreditar... Você está mesmo aqui?" Ela estendeu a mão para acariciar o rosto do filho. "Está tão bonito."
"Mãe." Draco virou o rosto para beijar a mão da mulher. "Me desculpe. Por fugir, por ser um covarde."
"Não, meu bem. Não há o que desculpar." Ela falou em seu modo que era sempre sereno, forte, mesmo quando inúmeras lágrimas escorriam por suas bochechas. "Eu pensei que não o veria uma última vez antes de partir."
"Não fale isso! Eu estou aqui agora... Eu deveria ter vindo antes." Draco estava chorando também, apertando a mão da mãe com desespero. Ela sorriu fraco.
"Você sofreu tanto nessa casa, meu bem. Não o culpo por fugir."
"Minha fuga matou Lucius." Draco falou, apoiando a testa contra a mão dela, sem soltá-la, e sentiu um carinho em seus cabelos.
"O caminho que Lucius escolheu o matou. Aquele bruxo horrendo não o matou porque você fugiu, Draco. Matou-o porque seu pai escolheu juntar-se a um mestiço que nenhum bruxo decente deveria seguir." Ela falou calma. "Mas isso é passado. Não importa."
Draco continuou chorando, sentindo que a vida no corpo de sua mãe esvaía-se. Ela estava tão fraca.
"Quero ouvir, meu bem. Conte-me tudo que fez nesses últimos anos. Deixe-me morrer conhecendo quem meu filho é hoje." Narcisa pediu olhando-o com carinho.
"Não quero que morra." Draco falou erguendo o olhar.
"Eu sei." Ela respondeu, erguendo-se com dificuldade para sentar-se na cama. "Deite aqui, há tanto que quero ouvir. Conte-me tudo." Ela repetiu.
Draco subiu na cama e deitou a cabeça no colo dela e, enquanto recebia os afagos maternos, começou a contar aqueles nove anos em que não se haviam visto. Ela olhava-o preocupada, sabendo que sofrera, e sorria quando contava algum bom episódio. Ela não comentou muito quando contou sobre Harry, mantendo-se pensativa.
"Ele pagou a dívida dele." Ela disse apenas.
Depois ela lhe contou como conseguira convencer Voldemort de que ainda era fiel, apesar das atitudes impensadas do filho e marido, e em como mentira para o Lord na batalha final em Hogwarts, o que garantira a vitória de Harry. Depois contou que o ministério tirara-lhe quase tudo, à exceção da mansão, e que tentara mandar detetives particulares atrás de Draco, mas todos exigiam mais do que podia pagar. Então adoeceu, acometida por uma doença rara há quatro anos. Os medibruxos não lhe deram mais do que meses de vida, porém ela continuava resistindo, contra todas as expectativas, esperando pela volta do filho.
"Eu sabia que você voltaria, cedo ou tarde." Ela acariciou o rosto de Draco. "Agradeça a Potter por devolver a vontade de viver ao meu filho. Você era muito novo para tê-la perdido."
"Eu sei. Me perdoe."
"Pare de se desculpar, Draco. Eu nunca o culpei. Eu não fui uma boa mãe. Deixei que seu pai continuasse a ministrar aquelas drogas para que ninguém descobrisse sobre seu lado veela, não tentei impedir quando ele disse que você seria transformado em Comensal da Morte. Deixei que ele dissesse todas aquelas coisas horríveis a nós dois... Tudo porque eu acreditava que era também suja por ser meio-veela. Me desculpe por isso, meu bem."
"Mas ele foi um bom pai, apesar de tudo, não foi? Acho que era sua forma distorcida de nos proteger. Afinal, ele também foi criado com esses mesmo conceitos, mas não nos expulsou daqui quando descobriu a verdade..." Draco ponderou lembrando que, apesar do jeito frio do falecido pai, ele sempre cuidara para que tivessem tudo, para que nada lhes faltasse.
"Sim, algumas pessoas têm maneiras erradas e distorcidas de amar. Mas o tempo faz tudo valer à pena. E nem o erro é desperdício." Ela comentou docemente, e Draco sentiu do fundo do coração que aquela era uma grande verdade. Entendia agora.
Seu coração estava leve. Ser profundamente amado por alguém lhe deu força; amar alguém profundamente lhe deu coragem. Ele conseguira se perdoar, e a pessoa de quem mais precisava do perdão também.
Não iria mais olhar para trás.
Mas foi com dor que recebeu a notícia do falecimento de sua mãe durante a noite posterior à sua visita. Lembrou-se de como ela se despedira. "Até esse momento, mantive-me firme e com vontade de viver, pois o que mais queria era ver seus olhos novamente, e ter a certeza de que você estava bem e feliz. Mas agora preciso dormir, meu amor. Estou tão cansada..." Ela falara para então dar-lhe um beijo de despedida. Ela sabia que iria partir, aquela noite. Estivera apenas esperando para ver o filho uma última vez.
Draco organizou o velório, e nenhuma lágrima deixou seu rosto enquanto o caixão descia para a terra, pois sabia que sua mãe estava agora em paz.
Assim como ele.
XxX
Seus amigos olhavam-no com incredulidade, sem acreditar que era mesmo ele ali. Por um momento, Harry perguntou-se se aquilo fora uma boa ideia; porém, assim que sentiu eles o puxarem para um abraço, com lágrimas nos olhos, permitiu-se sorrir. Sentira falta deles, percebia apenas agora. Saíra de Londres com grande ressentimento pela atitude dos dois, mas um tempo de ausência fizera bem à amizade dos três; dera-lhes tempo para compreender e aceitar tudo que acontecera.
"Você sumiu, Harry! Poderia ao menos ter mandado alguma notícia!" Hermione exclamou afastando as lágrimas, e foi quando Harry percebeu a barriga um pouco mais avantajada dela.
"Desculpe." Falou, sem saber muito bem como agir.
"Incrível, realmente não mudou nada!" Exclamou Ron, dando-lhe um tapa no ombro.
"Foram menos de quatro anos, Ron. Mesmo não sendo um vampiro, não teria mudado muito. Vocês dois parecem exatamente iguais desde a última vez que os vi." Sorriu, e era verdade.
"Vem, vamos para a cozinha, vou preparar um chá e você pode nos contar o que andou fazendo durante todo esse tempo." Hermione ordenou, virando-se e seguindo até a cozinha. Ron inclinou-se para cochichar para Harry.
"Ela ficou ainda mais mandona depois que engravidou. E eu ainda tenho seis meses pela frente..." Falou exasperado, arrancando uma risada do vampiro.
"Eu ouvi isso, Ronald!"
Harry não contou muito do que fizera. Seus primeiros meses não foram muito exemplares, afinal. Só depois que começou a selecionar melhor as vítimas, geralmente amorais que mereciam de fato morrer, e aprendeu a não beber até a última gota de sangue, é que conseguiu alguma paz. Raramente se descontrolava e matava alguém agora. Não se achava no direito de escolher a hora da morte de ninguém, mesmo de um assassino, estuprador ou ladrão.
Porém quando contou sobre Draco é que os amigos ficaram realmente surpresos. Todos acreditavam que ele estava morto, uma vez que nunca voltara, mesmo depois da guerra.
"Eu bem que achava que ele não retornar não era uma boa desculpa para acreditar na morte dele. Todos que voltaram depois da guerra foram considerados párias pela sociedade bruxa por não terem se envolvido, e geralmente acabavam indo embora do país novamente." Ponderou Hermione.
"Você vai transformá-lo?" Ron a interrompeu sem nenhum tato, e recebeu um tapa da namorada por isso. "Hei, eu só estou perguntando... Afinal, você disse que o ama, Harry, e que foi ele quem lhe deu um motivo para seguir em frente, aceitar sua condição... Mas você sabe, seres humanos não duram para sempre como vampiros."
"Ron!" Hermione exclamou exasperada.
"Tudo bem, Hermione. Eu sei bem disso, mas geralmente prefiro não pensar sobre o assunto. Eu gostaria de transformá-lo, é o que ele quer também, mas tenho medo de matá-lo." Falou, cansado de repetir aquilo, também para si mesmo.
"Ele também quer?" Perguntou Hermione pasmada. "Mas, Harry... Não é apenas pelo perigo de você matá-lo. Veelas, ou meio-veelas raramente conseguem sobreviver à transformação." A morena virara pesquisadora sobre criaturas mágicas depois que Harry se transformara, abandonando a carreira no Ministério. Dava aulas em um Instituto de Educação Avançada sobre o assunto – algo impressionante para alguém que começara a se dedicar ao assunto há tão pouco tempo.
"O quê?" Harry perguntou arregalando os olhos.
"Assim como os muggles não aceitam bem a transformação e tornam-se vampiros que não passam de criaturas sem capacidade de raciocínio e controle, bruxos com descendência veelas raramente sobrevivem à transformação. Não se sabe ao certo por que, afinal, casos como esse são raros. Porém acredito ser algo relacionado às defesas mágicas deles, que são diferentes de um bruxo comum. Nossa magia se adéqua ao vampirismo, porém a deles o combate. São raríssimos os casos em que eles conseguem sobreviver." Hermione relatou, olhando para Harry com um semblante abatido.
Harry sentiu o coração acelerar.
Draco sabe disso.
O vampiro teve certeza de que o loiro sabia dessa informação, pois ele sempre se gabava de conhecer muito sobre veelas, vampiros e outras criaturas mágicas. Mesmo assim, ele insistira para que o transformasse. O que ele queria? Morrer? Por que agiria dessa forma?
"Eu preciso ir." Falou Harry desnorteado, dirigindo-se para a saída.
"Harry! Espera! Ao menos nos diga se podemos visitá-lo amanhã ou depois." Chamou Ron, tentando segurar-lhe o braço.
"Eu darei notícias." Falou apenas.
Quando reencontrou Draco, ele estava em casa dormindo, e, no dia seguinte, ouviram sobre o falecimento de Narcisa. Harry então decidiu esperar para esclarecer aquela história.
Durante o velório, manteve-se distante, oculto pelas sombras de início de noite do belo cemitério onde Narcisa seria sepultada. Seu coração doía, pois agora tinha certeza absoluta de que, um dia, Draco não estaria ao seu lado.
Que partiria, assim como Narcisa partira.
XxX
O loiro caminhou em direção ao vampiro enquanto o resto dos poucos presentes no velório dispersava. Draco queria sair logo dali, pois não aguentava os olhares incrédulos e desconfiados que vinha recebendo, seguido das condolências, fossem elas vazias ou não. Nada daquilo lhe importava. Queria apenas abraçar a única pessoa que ainda amava e ficar assim por dias.
Porém, antes que alcançasse Harry, sentiu uma presença à sua esquerda aproximando-se rápido, de forma perigosa. Virou-se, tentando alcançar a varinha no bolso, porém era tarde, e logo a criatura estava sobre si, rasgando seu pescoço com brutalidade. Outro vampiro. Escolhera justamente um cemitério que provavelmente estava sendo usado como esconderijo pela criatura.
Sentiu a visão turvar, mas, antes que perdesse a consciência, alguém puxou o vampiro para trás e cravou uma estaca que não passava de um pedaço de galho pontiagudo no peito dele, matando-o de imediato. E então Harry ajoelhava-se ao seu lado, olhando-o desesperado.
"Draco! Não, não, não. Por favor, não morra, não morra." Ele implorou, abraçando-o e lambendo seu pescoço terrivelmente injuriado para coagular o sangue, mas parecia em vão, porque o líquido continuava jorrando como se não fosse mais compatível ao corpo ao qual pertencera.
Harry aparatou para o St. Mungus com Draco em seus braços, gritando por ajuda.
Os medibruxos olharam-no com repulsa, como se houvesse sido ele o culpado pelo estado em que Draco encontrava-se, mas o vampiro não se importou.
"Ajudem-no logo, o que estão esperando?" Gritou com raiva.
Draco via tudo como em um sonho. Sentia tanto sono, suas pálpebras pesavam tanto. Onde estava Harry? Perguntou-se, antes que a inconsciência o alcançasse como brumas negras em um dia nublado e quente.
XxX
"Harry!"
O vampiro ergueu a cabeça ao ouvir o chamado. Ron e Hermione aproximavam-se a passos rápidos do banco do hospital em que estava sentado. Seus olhos estavam inchados e manchados pelas gotas de sangue que insistiam em escapar.
"Viemos assim que ficamos sabendo." Hermione sentou-se ao lado do amigo e passou um braço pelos ombros dele. "Como ele está?"
Harry tremeu tentando encontrar as palavras. O médico recém o deixara, depois de dar-lhe a notícia.
"Ele está em coma. O médico... o médico disse que ele perdeu muito sangue, e que é praticamente impossível conseguir sangue compatível com o dele a tempo... o tipo sanguíneo dele é raro demais, por ser meio-veela..." Explicou com dificuldade, apertando os punhos até que as unhas afundassem na carne.
"Ah, Harry, eu sinto tanto." Falou Hermione, abraçando-o.
"Ele ainda não está morto, Hermione." Replicou Ron, o que fez os dois o olharem surpresos. Era a primeira vez em que ele corrigia a esposa e, incrivelmente, ele estava certo. "Harry, se não a nada mais a se fazer, você deveria... deveria transformá-lo."
Harry arregalou os olhos.
"Ouça, se ele não sobreviver à transformação, será o mesmo que não tentar nada. Se sobreviver, você o salvou. E você não vai perder o controle, Harry. Porra, dá para ver nos seus olhos o quanto você o ama." Ron disse exasperado e nervoso, certamente preocupado com a reação do amigo caso Draco viesse realmente a falecer.
"Harry, por incrível que pareça, Ron tem razão." Hermione concordou em um tom cuidadoso. Ron olhou indignado para a namorada pela sugestão de que ele estar certo era inacreditável, mas se manteve quieto.
"Sim..." Harry abaixou a cabeça, sentindo um lampejo de esperança. Em seu desespero durante a espera, mal tivera tempo para pensar na possibilidade. Ele não perderia o controle, porque muito mais do que sangue, muito mais do que instintos, ele amava aquele homem e o que mais queria era tê-lo vivo, ao seu lado. "Vocês têm razão."
Sem mais nenhuma palavra, Harry se levantou e seguiu até o quarto onde sabia que o loiro repousava, em coma. Uma força esmagadora comprimia o peito do vampiro, como se seu coração ainda batesse e pudesse sentir toda a angústia que sua mente experimentava. Se perdesse Draco... Não, era melhor nem ao menos pensar na possibilidade. Precisava de confiança, de esperança, de qualquer coisa à qual pudesse agarrar-se.
"Saia." Harry ordenou à enfermeira que estava no quarto, e ela obedeceu sem pestanejar. Com um feitiço rápido, trancou a porta do lugar e bloqueou aparatações, antes de caminhar até a borda da cama onde o loiro estava, parecendo apenas dormir tranquilamente apesar da brancura alarmante de sua tez.
Segurou a mão dele que, mesmo fria, ainda era quente contra a sua.
"Parece que eu não tenho alternativas..." Murmurou, afastando os cabelos do rosto dele. "Quero só ver quando você acordar e descobrir que cortaram seus cabelos. Mas você continua lindo. Ficou até mais sexy assim."
Harry fechou os olhos, sem saber se ria ou chorava. Draco estava morrendo e ele estava se preocupando com tamanho de cabelo. Ou estava muito desesperado, ou estava ficando louco. Talvez ambos.
Respirou fundo, buscando o máximo de concentração possível e se inclinou então sobre a cama, puxando Draco e mordendo-o no pescoço. De algum modo, exatamente como Draco lhe dissera, sabia o que precisava fazer para transformá-lo: beber até que restasse não mais que algumas gotas de sangue no sistema dele, para então rapidamente fazê-lo beber de seu sangue.
Ele já estava com pouco sangue e, incrivelmente, Harry conseguiu parar sem dificuldade, tamanho sua vontade e ansiedade para que o loiro acordasse. Apenas isso importava. Quando se afastou, abriu o pulso com os dentes e o empurrou contra a boca de Draco, deixando o sangue escorrer até que ele demonstrasse algum sinal de vida. Harry quase pôde sentir seu coração voltar a bater quando as mãos de Draco seguraram seu braço e ele começou a sugar seu sangue com mais arrojo.
"Hei, vá com calma..." Harry falou, tirando o braço depois de um tempo que julgou suficiente. Deitou Draco novamente na cama, os olhos azul-acinzentados pregados em seu rosto, como se não pudessem acreditar ou entender o que estava acontecendo. "Agora é com você." Falou, beijando a mão do loiro. "Draco, por favor, não me deixe."
O loiro voltou a fechar os olhos, caindo em sono profundo novamente.
E então Harry aguardou. Medibruxos tentaram entrar no quarto naquele meio tempo em que ele esperava a transformação fazer efeito, mas Harry os ignorava, seus olhos pregados no corpo estendido do loiro. O sono de Draco tornou-se agitado, e ele se contorcia na cama, balbuciava, até mesmo gritava, suor escorrendo por seu rosto, e Harry torcia as mãos e deixava novas lágrimas caírem por suas bochechas, manchando o chão branco do hospital.
Não sabia se Draco estava rejeitando ou não a transformação. Ele parecia sentir tanta dor e desespero, agarrando os lençóis, chorando e gemendo palavras incompreensíveis. Harry sentia dor junto com ele. E talvez houvessem passado minutos, horas, ou dias, Harry já nem conseguia mais mesurar, quando Draco ficou imóvel sobre a cama, empapado de suor.
Harry levantou-se de onde estivera sentado com um salto e foi até ele, sua garganta seca e suas mãos trêmulas. Quando o tocou, havia apenas o frio, a ausência de respiração.
A morte.
Draco estava morto.
"Não, não é verdade." Falou e puxou o corpo inerte dele para seus braços, segurando-o com força enquanto repetia que não era verdade como um mantra, até que só conseguisse chorar desesperadamente, soluçando e apertando o loiro com força crescente contra seu peito.
A vida – ou seria a ausência dela? – não poderia ser tão cruel assim. Tirar-lhe a única pessoa que realmente importava de forma tão repentina e abrupta. Antes, ao menos sabia ter alguns anos com Draco, o que não era suficiente, mas era melhor do que nada. Mas agora, não havia mais sentido em continuar. Agora, seria apenas o vazio.
"Você vai me quebrar ao meio desse jeito, Potter."
Harry se sobressaltou e, segurando os ombros de Draco, afastou-o para que pudesse olhá-lo. O loiro abriu um sorriso debochado e torto frente ao espanto de Harry ao vê-lo vivo.
"Você... eu achei que..." Balbuciou, tocando o rosto de Draco para se certificar de que ele estava mesmo vivo. Continuava frio e agora, analisando-o mais atentamente, uma beleza sobrenatural sobrepusera-se à beleza veela do rapaz, deixando-o mais incrivelmente atraente, menos delicado, mais impetuoso. "Você conseguiu!"
"É claro que consegui, Potter! Por que todo esse desespero?" Draco perguntou, revirando os olhos enquanto passava as mãos pelos cabelos molhados de suor para afastá-los do rosto. Ele arregalou os olhos ao perceber que eles estavam curtos, caindo de modo displicente até apenas a nuca. "Mas o quê? O que fizeram com meus cabelos?" Exclamou horrorizado, puxando os fios e fitando-os com os olhos chocados.
Mas não teve tempo de se desesperar muito antes que Harry o puxasse para outro abraço apertado.
"Idiota! Você sabia que veelas dificilmente passam por essa transformação e mesmo assim ficava insistindo para que eu o transformasse em vampiro! E ainda me pergunta agora por que tanto desespero!" Harry acusou, mas estava aliviado demais para que seu tom saísse realmente brabo.
"O que posso dizer..." Draco suspirou. "Eu sempre me considerei um caso raro."
Harry soltou uma risada abafada e procurou pelos lábios do loiro, e então o beijou com sofreguidão. Sentiu falta do calor que experimentava quando Draco era humano, mas nem por isso era menos saboroso. E o gosto agora era ainda mais incrível, pois possuía o sabor da certeza de que sempre o teria. Agora podia beijá-lo e tocá-lo sem medo de machucá-lo com qualquer descuido, e o aroma dele, apesar de ainda ser intoxicante e delicioso, já não o impelia a querer mordê-lo, ou matá-lo.
"Eu posso sentir com tão mais intensidade." Draco falou quando o beijou se quebrou. Ele olhou admirado para o vampiro de olhos verdes magníficos à sua frente. Conseguia agora enxergar cada mínima diferença entre os tons de verde que compunham as íris de Harry. Cada textura da pele, dos lábios, o contorno suave dos cílios negros, o brilho dos cabelos desgrenhados. Era como vê-lo pela primeira vez, além da compreensão de olhos mortais. "Você é mesmo lindo. Não que eu já não soubesse disso antes." Falou fascinado, tocando o rosto de Harry e experimentado a frieza do mármore mais impecável.
"Você está apenas deslumbrado." Harry falou, desconsiderando o elogio. Draco revirou os olhos, mas não insistiu – Harry às vezes era modesto demais para o próprio bem.
"Minha garganta está ardendo." Reclamou baixinho, sentindo uma sensação estranha de sede e angústia espalhar-se por seu corpo. "E eu preciso de um banho."
"Você precisa se alimentar. Vamos passar pela minha casa e então eu o ajudarei com sua sede." Harry falou, retirando os feitiços que lançara no quarto com um feitiço não-verbal e então aparatando dali com o loiro.
XxX
"Pelo menos eles fizeram um corte decente." Draco resmungou, mirando-se no espelho do banheiro de Grimmauld Place. Os cabelos curtos davam-lhe um ar mais despojado e predatório, o que combinava com sua nova condição. Era incrível que nunca antes houvesse reparado em como seus olhos possuíam um brilho metálico perigoso, como se pudesse controlar alguém apenas com a força do olhar. E agora realmente podia.
Harry definitivamente teria de ensiná-lo a hipnotizar alguém.
"Você fica uma delícia de qualquer forma." Harry falou com malícia, abraçando o corpo nu do menor por trás e beijando-o no pescoço, fazendo Draco se apoiar na pia e gemer baixinho. Se antes já se excitava com qualquer toque do amante, agora tudo parecia enlouquecedoramente aumentado.
Harry deslizou a mão pela parte interna da coxa do loiro, subindo de modo provocativamente lento e arrancando um arquejo de Draco, e um gemido alto quando envolveu o membro excitado dele e começou a estimulá-lo. E ver a imagem dos dois no espelho, a expressão de trêmulo deleite do loiro enquanto o tocava, deixava Harry ainda mais abrasado. Aumentou o ritmo e, com a outra mão, empurrou os dedos para dentro do corpo do menor, obrigando-o a se segurar com mais força ao balcão da pia, pois do contrário seria capaz de escorregar ao chão dado o tremor de suas pernas.
"Harry... agora, eu quero sentir você agora dentro de mim." Draco murmurou com a voz entrecortada pelos gemidos enquanto Harry beijava-o na nuca e nos ombros. "Harry... por favor."
"Eu adoro quando você implora." Harry murmurou rouco perto do ouvido de Draco. O loiro sentiu um arrepio antes de sorrir maldosamente para a imagem de ambos no espelho e, com um movimento rápido e inesperado naquela velocidade sobrenatural que ainda mal sabia controlar, virou-se para o vampiro e empurrou-o até o chuveiro. Harry soltou um gemido baixo quando suas costas chocaram-se com um baque contra o azulejo.
"Acho que você está precisando experimentar uma boa dose de humildade hoje, Harry." Draco ergueu uma sobrancelha e abriu seu melhor sorriso torto, impressionado com sua força e velocidade. Era como nascer de novo. O loiro abriu o registro e a água começou a cair sobre ambos.
Harry esperou enquanto o menor acompanhava o caminho que as gotas faziam por seu corpo, os olhos fixos e o lábio inferior comprimido entre os dedos brancos como marfim. Precisou se segurar para não acabar com o joguinho do loiro e dominá-lo naquele mesmo instante.
Para deleite do moreno, Draco fechou os lábios em um de seus mamilos, massageando a ponta com a língua pequena e macia para então ir descendo tão lento quanto possível, como se tentasse provar toda a pele do tórax e abdômen do vampiro, cada gosto, cada textura, cada contorno dos músculos firmes. Harry segurou os cabelos loiros quando ele alcançou o ponto mais erógeno de seu corpo e colocou-o na boca, iniciando um vaivém ardente. Não demorou muito até que não aguentasse mais tanto desejo e puxasse o loiro para cima, beijando-o novamente e invertendo as posições. Ergueu as pernas dele, deixando-o sem chão, e penetrou-o em um único movimento. E sentiu as unhas dele rasgarem suas costas, o sangue brotando em sua pele, mas sendo imediatamente lavado pela água, enquanto se impulsionava contra o corpo dele.
"Você nem ao menos... ah!" Draco tentou falar com dificuldade, mal conseguindo pensar com coerência.
"Eu não preciso. Você é completamente meu." Harry o interrompeu com os olhos enegrecidos, o tom possessivo e os dentes amostra, sua sede e seu lado vampiro mais despertos do que nunca. "Beba de mim agora."
Draco encarou-o surpreso e com os lábios entreabertos, os gemidos escapando a cada estocada do amante. Mas então seus olhos escureceram também e ele cravou os dentes no pescoço de Harry.
XxX
Harry acariciou os cabelos do loiro, beijando-o no topo da cabeça enquanto Draco tocava e observava as estrelas. Ele estava sério e trêmulo, e as notas do violino escapavam como quem as produzia – música refletindo, libertando o que está preso na alma. Mas... ainda tinha alguma alma?
Draco acabara de beber de uma pessoa pela primeira vez, e só não a matara porque Harry o impedira. Estava com medo de seus próprios instintos, ao mesmo tempo em que sentia poderoso e forte por ser capaz de matar alguém tão facilmente.
"Como se sente?" Harry perguntou delicadamente, mas Draco continuou na mesma posição, sem olhá-lo.
"Eu não sinto fome, mas sinto vontade de beber mais... Me sinto frágil e forte ao mesmo tempo. É tão estranho." Admitiu fechando os olhos e suspirando.
"Vai demorar algum tempo para se acostumar." Harry explicou, deitando-se com as mãos atrás da cabeça no telhado de uma casa qualquer em um bairro de Londres. "Só cuide para não deixar seus instintos tomarem conta e afastarem sua humanidade."
"Eles afastaram a sua...? Naqueles meses em que você disse que... matou inocentes?" Draco perguntou com cuidado, permanecendo sentado e olhando para o breu da escuridão. Mesmo com a falta de luz, ele conseguia captar tantos detalhes, tanta vida. Seria por que os mortos, justamente por estarem mortos, são capazes de ver a vida com mais clareza?
Via aquilo que os vivos ignoram e tomam como banal porque está lá o tempo todo, bem em frente aos seus olhos; porque quem está vivo possui tanto brilho e calor quanto as estrelas que raramente recebem olhares de verdadeira admiração em seu fulgor inexorável. Mas não um vampiro.
Era tão estranho. Talvez os vampiros vivessem disso; precisassem disso. Não apenas da vida tragada junto com o sangue quente e escarlate, mas da vida em cada partícula, em cada forma, em cada manifestação da natureza. Por isso podiam ver e sentir mais: para roubar o que era externo, pois por dentro seus corpos não eram mais do que tecido inerte, morto.
Draco buscou a mão de Harry, precisando sentir que ele estava ali, ao seu lado, e que não o deixaria sozinho naquele universo tão complexo, confuso, e cheio porque se encheu demais de vazios. Se não fosse seu amor por Harry, o que restaria dentro de seu coração?
"Sim." Harry admitiu depois de um tempo, apertando a mão de Draco. "Eu estava confuso, sozinho... Eu deixei meu lado mais sombrio despertar e tomar conta, porque me impedia de pensar e de refletir. Às vezes é simplesmente mais fácil não se importar, e descontar nossas frustrações e nossa raiva em algo externo, no lugar de enfrentar o que está dentro de nós."
Draco assentiu lentamente. Lembrava-se de quando Harry o abraçava fortemente ao contar-lhe sobre essa época, expurgando a culpa que o machucava tanto. Conseguia compreendê-lo melhor agora que experimentava uma vontade de rebelar-se contra o mundo estranhamente parecida. Teria o vampirismo implantado em seu ser esse lado sombrio e instável ou apenas trazido para superfície esses sentimentos que provavelmente existiam dentro de todas as pessoas?
Talvez algumas apenas pessoas conseguissem mantê-los melhor sob controle, equilibrar a dualidade e expor ao mundo apenas o que lhe é conveniente. É uma luta diária, e, a cada nova vitória, dá-nos mais força. E agora ele precisava domar a si próprio novamente.
"Como você conseguiu... passar por essa fase?" Perguntou, só então se virando para mirar Harry nos olhos. O moreno sorriu de leve.
"Você se lembra de quando disse que ninguém conseguiria mudar uma coisa em mim: minha essência?" Perguntou suave, e Draco assentiu também, recordando suas palavras naquela noite distante, mas tão próxima, quando ele e Harry conversaram sobre o passado. "Você estava certo. Nem mesmo eu consegui mudá-la."
Draco sorriu, erguendo a mão do amante e levando-a aos lábios. Beijou-a delicadamente, com os olhos fechados, e depois se deitou ao lado do vampiro, aconchegando-se nos braços dele. Sentia-se tão seguro ali.
"Promete não deixar eu perder a minha?" Perguntou em um tom baixo, passando lentamente a ponta do indicador pelo peito do vampiro, perseguindo um caminho imaginário e tortuoso. Harry acariciou novamente os cabelos macios.
"Eu prometeria qualquer coisa que você me pedisse." Afirmou.
XxX
"Você é tão bonita... Qual o seu nome?" Draco perguntou para a moça, acariciando os cabelos dela.
"D-Danna." A moça gaguejou, seus belos olhos azul-claros hipnotizados enquanto fitava o homem à sua frente. Draco sorriu para ela.
"Draco, deixe a moça. Melhor encontrarmos pessoas que merecem servir como alimento." Disse Harry, apoiado contra a parede de um prédio daquela rua. Estava escuro, e havia poucas pessoas por aquele local. A moça que Draco abordara parecia recém ter saído de uma festa.
O loiro passou o braço pela cintura fina da garota e aproximou os lábios do pescoço dela, ao mesmo tempo em que se virara um pouco para mirar Harry nos olhos.
"Esses bandidos que procuramos estão sempre fedidos e sujos, Harry. Não aguento mais me alimentar de mendigos." Draco reclamou, puxando delicadamente os cabelos da moça para o lado de modo a deixar o pescoço alvo à sua completa mercê.
"Já conversamos sobre isso, Draco. Não é certo usar pessoas inocentes assim, ainda mais quando você ainda não consegue se controlar e acaba bebendo o sangue delas até o final." Harry o lembrou.
Fazia já algumas semanas desde que Harry transformara Draco em vampiro, e nas noites ao longo delas quando saíram juntos para 'caçar', o loiro matara acidentalmente algumas pessoas. Todas elas já haviam cometido algum crime, como roubos, estupros, ou atos piores. Harry, como sempre, evitava matar. Bebia apenas até deixar a pessoa tonta e fraca, e depois as largava.
Era difícil controlar um vampiro recém-criado, pois eles eram instáveis, ainda aprendendo a lidar com suas naturezas controladas pelo sangue e pelos instintos. Mas conforme bebia mais, Draco se tornava mais sedento e descontrolado, e isso estava preocupando Harry. Havia prometido ao loiro que não deixaria que ele se perdesse naquele abismo frio em que não existe mais compaixão, escrúpulos e regras. Apenas sangue e morte.
"Não vou matá-la. Eu prometo." Draco sorriu endiabrado e, no instante seguinte, seus dentes estavam cravados na carne da moça. Ela ofegou e começou a suspirar baixinho, o que fez Harry desviar o olhar, querendo e desejando acreditar que o loiro iria se controlar. Sabia que estava se iludindo, mas não queria brigar com Draco.
Por Merlin, era tão fraco! Não conseguia erguer a voz para o amante.
E o moreno distraiu-se pensando em como não apreciava o modo com precisavam se alimentar, ainda mais quando os humanos cediam tão facilmente – era tão injusto – que só percebeu tarde demais que Draco cruzara o limite entre a vida e a morte para aquela garota. Quando ergueu o olhar e gritou para que ele parasse, já não havia mais volta.
Draco afastou os lábios do pescoço dela, sua boca completamente limpa, sem qualquer vestígio de sangue, e largou a moça, que caiu como uma boneca de pano na calçada. Harry olhou-o atônito.
"Você prometeu que não iria matá-la!" Exclamou, andando alguns passos até o loiro. Olhou para a moça e sentiu-se triste; tão nova, com tanto pela frente, mas tudo arrancado tão inesperadamente. Imaginou o choro e a dor dos pais da menina ao saberem da notícia, a falta que ela faria aos amigos, os amores que ela jamais descobriria, os lugares que jamais visitaria.
"Harry..." Draco chamou chocado, parecendo só então perceber o que havia feito. "Você está chorando."
Harry afastou as lágrimas, irritado, e olhou para o amante.
"Eu não vou continuar aqui assistindo você assassinar inocentes." Avisou sério. "Se quer agir assim, se não quer me ouvir, se gosta de matar, eu não vou fazer parte disso. Vou esperar que você pense sobre isso e, quem sabe, perceba que está deixando sua humanidade de lado." Lembrou-o, pela primeira vez sendo realmente contundente com ele. "Você me pediu para não deixar com que a perdesse, e me dói ver que estou falhando nisso."
Draco suspirou ao ver o vampiro se afastando e sentou-se em um dos degraus da entrada do prédio no qual Harry estivera apoiado. Sentiu-se confuso. Sabia que amava Harry, mais do que qualquer coisa, mas toda aquela 'doutrina' do amante de não aceitar completamente a natureza de um vampiro o frustrava. Draco queria agir como bem entendia.
Ser vampiro permitia-lhe uma liberdade que jamais experimentara. Era maravilhoso e tentador. E vidas existiam aos montes. Em que faria falta ao mundo uma delicada e bela moça da classe média londrina? Claro, quando prometera não matá-la essa era sua intenção, porém era extremamente difícil parar uma vez que começava. E não era a primeira vez que matava um completo inocente, apesar de ser a primeira vez que o fazia na frente do amante. Harry fechara os olhos para as outras vezes, mas agora parecia ter perdido a paciência.
Esfregou os olhos, lembrando-se na noite em que se preocupara com a possibilidade de que justamente isso que ocorria agora acontecesse. Por Deus, estava perdendo o controle! Seus pensamentos se misturavam e não faziam o menor sentido. Em um momento queria apenas matar e se divertir, mas em outros, queria chorar pelas vidas que tirara e nunca mais precisar beber de ninguém.
Estaria Harry muito chateado com ele?
Resolveu que pediria desculpas quando voltasse para casa. Se aquilo magoava quem amava, então pararia de agir daquela forma. Estava sendo fraco, e não podia deixar a fraqueza ganhar força. Força e fraqueza são pólos opostos, e não devem se aproximar.
Aprenderia a se controlar, por mais difícil que fosse.
"Seu parceiro é mesmo bastante tedioso."
Draco ergueu a cabeça assustado ao ouvir a voz aveludada que chegou aos seus ouvidos. Olhou para o lado e viu um homem aproximando-se a passos lentos de onde se encontrava e levantou-se rapidamente, colocando-se em estado de alerta.
"Não fique tão na defensiva. Sou completamente inofensivo, eu prometo." Disse o homem, alcançando-o e parando a apenas alguns passos de distância. Draco percebeu, pelo cheiro e pelo brilho avermelhado nas orbes castanhas, que se tratava de um vampiro.
E um vampiro poderoso.
"Quem é você?" Perguntou erguendo uma sobrancelha. O vampiro sorriu mostrando sua fileira de dentes muito brancos com os caninos proeminentes.
"Você continua extremamente bonito. Como vampiro, ficou ainda mais encantador." O vampiro falou em um tom doce que arrepiou Draco – e não de uma forma agradável.
"O quê...? Nunca nos vimos antes." Draco afirmou dando um passo para trás, mas o vampiro o alcançou e segurou-lhe um dos braços, puxando-o para perto.
"Incrível que um meio-veela tenha sobrevivido à transformação. Conheci um que também conseguiu, há mil e duzentos anos, se não me falha a memória." O vampiro sorriu enquanto Draco arregalava os olhos. Quanto mais 'antigo' um vampiro, mais poderoso ele se tornava. Isso explicava o poder que Draco sentia emanar daquele homem.
"Realmente incrível, eu deveria até mesmo receber um prêmio por isso. Agora, pode me soltar?" Perguntou irônico e ácido, tentando esconder o nervosismo que começava a tomar conta de seu corpo. Sem diminuir o sorriso, o vampiro o soltou.
"Meu nome é Caliel Kollontai, mas isso não quer dizer muita coisa para você agora." Ele falou, os olhos adquirindo um brilho divertido. "Porém, com o passar dos anos, ele ganhará muitos significados."
"E chato prepotente certamente estará entre eles..." Draco resmungou baixinho, mas obviamente um vampiro seria capaz de escutar o mais baixo dos sussurros. Caliel soltou uma risada e estendeu a mão, tocando os cabelos de Draco, que virou o rosto e fechou os olhos, franzindo a testa. De alguma forma, Caliel estava impedindo-o de simplesmente se afastar, só não entendia como.
"Ah, tão novo, tanto a aprender..." Caliel suspirou, puxando o loiro pela nuca e cravando os olhos aos azul-acinzentados. Draco encarou-o assombrado. O que ele queria?
"Eu quero você." Caliel sorriu, respondendo à sua pergunta mesmo que não a houvesse verbalizado.
XxX
O amanhecer chegou e Draco ainda não retornara, e Harry dormiu mal, perguntando-se se não fora duro demais com o loiro. Talvez, justamente porque já sofrera tanto pelas mortes que causara, não queria que quem mais amava experimentasse o mesmo, a mesma angústia. Por isso fora tão incisivo. Mas deveria ter agido diferente, Draco ainda estava instável, deslumbrando-se com cada nova descoberta e sensação.
Quando o anoitecer chegou novamente, Harry despertou completamente e sentiu-se agoniado e tenso, pois não sentia mais a presença de Draco em Londres. Não o sentia em lugar algum. Saiu de Grimmauld Place e procurou, e procurou, e procurou... por toda a cidade, por cada beco, cada pub, cada rua. Vasculhou a mente das pessoas pelas avenidas, procurando por vestígios de um homem loiro e belo na memória delas, mas nada.
Draco não estava em lugar nenhum, apenas confirmando a certeza que tivera quando saíra da cama àquela noite. Não acreditava que ele partira, que o deixara... Depois de tudo, depois de tanto que haviam compartilhado. Mas fora sua culpa, não fora? Agira de modo assaz controlador com ele. E agora o perdera.
Harry sentou no meio fio de uma rua qualquer e não soube por quanto tempo ficou assim, imóvel, olhando para o nada, a mente em branco, à exceção de único pensamento.
Iria atrás de Draco e o encontraria novamente, nem que precisasse da eternidade para tanto.
NA: Obrigada pelas reviews, gente linda! [][] E, ai, ultimamente eu só tenho escrito capítulos enormes, que coisa isso. /pensa
A quem não logou: Sakusasuke (Obrigada, querida!), e Srta Laila (Não consegui te responder por MP, flor. Obrigada pelo carinho [])
Beijos!
