Título: Do As Infinity
Autora: Mila B.
Capa: Vide profile.
Sinopse: Existem muitos motivos para não se amar uma pessoa, mas apenas um para amá-la. (C. Drummond de Andrade). Veela!fic Vampire!fic.
Gênero: Romance/Comfort/Hurt/Drama.
Classificação: Slash/Nc-17.
Casal: Harry Potter e Draco Malfoy.
Trila Sonora: Set Fire to the Rain, Adele.
AVISO: Essa fanfic contém SLASH, relação homem x homem! Acha ruim, horrível, feio, nojento? NÃO LEIA. E alguém notou a ordem dos nomes no casal? Pois é, Draco UKE! Prefere ele seme? Acha um absurdo ele por baixo? Então é só clicar no X simpático no canto direito superior da página e ser feliz. :)
Capítulo 5
As palavras não ditas
Londres, janeiro de 2041
Harry encarou os dois amigos que agora completavam cinquenta e cinco anos. Era sempre estranho quando voltava a Londres, depois de anos procurando por Draco, e os encontrava com novas rugas, novos cabelos brancos, novas manchas nos olhos marcados pela passagem do tempo.
Passagem do tempo que ele, Harry, não sentia, pois todos os anos pareciam iguais, como se para ele os ponteiros do relógio houvessem parado. E não porque sua pele continuava impecável, ou seus cabelos ainda muito negros, não porque continuava com a mesma aparência de um jovem de vinte e dois anos, mas sim porque sua existência parecia vazia e as noites sombrias acumulavam-se uma após a outra sem qualquer novidade, sem qualquer significado.
Porque Draco desaparecera da face da Terra e, por mais que procurasse, os rastros, as pistas, quando raramente as encontrava, eram frias, distantes, apenas fortes o suficiente para que não desistisse, mas não para acabar com sua tormenta ou aumentar suas esperanças de encontrá-lo em breve.
Bebeu o chá que Hermione lhe oferecera, sorrindo enquanto eles relatavam novidades sobre seus dois filhos, Rose e Hugo Weasley. Harry vira os dois jovens em algumas das vezes em que passara em Londres ao longo daqueles trinta anos. Não foram muitas, e já fazia sete anos desde que estivera ali. Agora as 'crianças' já eram adultos vivendo suas próprias vidas. Rose, inclusive, já estava casada.
"Desculpem-me por perder tudo isso." Falou por fim, desviando o olhar quando Hermione contou sobre o casamento da filha. Aquelas lembranças humanas dos dois, as pequenas felicidades que eles sempre gostavam de compartilhar consigo, aqueciam seu coração. Apesar de distância e do tempo, os amigos continuavam fiéis, ainda devotando-lhe uma grande amizade.
"Tudo bem, Harry, nós entendemos como você se sente. Se fosse eu e Hermione nessa situação, eu também procuraria por ela até o fim do mundo." Ron falou, olhando com carinho para a esposa. Hermione retribuiu o olhar, tocando-o a bochecha e dando-lhe um beijo rápido. Harry sorriu, perguntando-se como seria quando os dois partissem. Estaria completamente sozinho, então.
"Ainda não fui até o fim do mundo... Talvez não esteja me esforçando o suficiente." Harry comentou e suspirou.
"Não fale assim, Harry. É claro que está dando o seu melhor. Em breve você o encontrará, verás." Hermione falou, carinhosa. Ela era ainda bastante jovial com seus mais de cinquenta anos; afinal, bruxos viviam por muito mais tempo que os muggles. Hermione tornara-se a maior autoridade em criaturas mágicas em todo mundo bruxo. Já Ron administrava com o irmão George o império que haviam criado em lojas de entretenimento com filiais por vários países da Europa.
"Ah, e por falar nisso, Harry, recebi a mensagem daquele 'espião' que você contratou de que a tal Monique Abadir faleceu ontem." Disse Ron. Como Harry vivia viajando e corujas, ele ainda não entendia bem por que, apesar das explicações de Hermione, não conseguiam rastrear vampiros, ele pedira a um bruxo residente em Roma que mandasse uma mensagem a casa do amigo avisando sobre a morte da muggle que ajudara Draco há tanto tempo.
"Desculpa por só lembrar agora. Minha memória está cada dia pior..."
"Isso é verdade." Concordou Hermione, recebendo um olhar indignado do marido.
Como Harry deixara um espelho de duas faces com os amigos, eles poderiam se comunicar sempre que surgisse alguma emergência, ou alguma notícia. O moreno não sabia se Draco ficaria sabendo da notícia, ou se iria até Roma para visitar Monique, porém achava que sim, pois uma vez visitara a mulher e descobrira que os dois trocavam algumas correspondências eventuais.
Ela ficou surpresa ao descobrir que não estavam mais juntos e que Harry estava procurando por Draco; também estranhou a pouca mudança na aparência do vampiro, então Harry a hipnotizou para esquecer sua visita e não contar sobre ela a Draco por carta. Entretanto Monique lhe dera antes o endereço para o qual sempre mandava as cartas.
O endereço era justamente da Mansão Malfoy, e Harry descobriu que, apesar de abandonada pelo dono, os elfos domésticos continuavam cuidando do lugar a pedido do loiro. Um deles remetia a carta para outro endereço, porém não havia como arrancar informações do fiel elfo, pois seus poderes de compulsão não funcionavam em elfos domésticos e nem sob tortura a criatura lhe revelaria alguma coisa.
"É melhor eu ir a Roma logo então, ou talvez perca a chance de encontrá-lo." Falou, imediatamente levantando-se. Os amigos olharam-no um pouco tristes, pois ele havia chegado há poucas horas e mal puderam aproveitar a companhia um do outro, depois de tantos anos sem se verem. "Desculpem por isso. Eu prometo não demorar muito para aparecer novamente."
"Eu acho bom mesmo que não demore!" Hermione exclamou em um tom maternal, levantando-se e indo abraçá-lo. Ron fez o mesmo, apesar de o abraço ser mais desajeitado, e então Harry partiu para Roma, torcendo para que daquela vez ele pudesse, ao menos, ver Draco mais uma vez.
XxX
Roma, 21 janeiro de 2041
A noite estava fria, nebulosa, embalada por um vento carregado de assobios tristes. Harry passou a mão pelos cabelos desgrenhados e soltos que ondulavam, caindo sobre seus olhos, enquanto caminhava pela cidade, relembrando com um aperto no coração os momentos em que passara com Draco naquele lugar. Passou pela Fontana de Trevi e sorriu de leve pelas vezes em que os dois namoraram naquele lugar banhados pela luz da lua.
"Você está fazendo errado, Harry!" Draco bufou, revirando os olhos e tirando uma moeda do bolso. "Segundo o ritual romano, você deve ficar de costas para a fonte, segurar a moeda com a mão direita," O loiro colocou-se na posição correta e ergueu a mão, balançando-a como se o vampiro não fosse capaz de diferenciar a esquerda da direita. "e jogá-la para trás por sobre o ombro esquerdo."
Draco jogou a moeda e sorriu de lado, balançando as sobrancelhas sugestivamente. Harry sempre se divertia com as expressões maliciosas e irônicas do amante. Parecia que, aos poucos, Draco começava a recuperar seu ar mordaz, como o que carregava na época de Hogwarts, porém agora sem a maldade de outrora.
"O que você pediu?" Perguntou curioso, aproximando-se do loiro e envolvendo a cintura delgada com os braços fortes. Draco suspirou, como se o vampiro fosse extremamente inconveniente por articular tal pergunta, mas então passou os braços pelo pescoço do maior e ficou na ponta dos pés para sussurrar perto de sua orelha.
"Que tipo de vampiro é você que nem ao menos ler os meus pensamentos consegue?"
Harry estremeceu, apertando mais o loiro em seus braços.
"Você está me bloqueando com oclumência, e nem tente negar." Replicou, roçando os lábios lentamente pelo pescoço acetinado do amante, prendendo a respiração para não ir além do que seus sentidos e controle permitiam.
"Olhe dentro dos meus olhos, então." Draco pediu em um tom suave. Harry fez o que o outro sugeriu e fixou o olhar nas orbes cinzentas, perdendo-se nos pensamentos do loiro, que jorraram para sua mente como uma cascata confusa, onde, entretanto, um pensamento se sobrepunha como um ponto luminoso na escuridão.
"Draco..." Harry acariciou o rosto de traços delicados antes de terminar com a distância entre os dois, em busca do sabor adocicado dos lábios rosados.
Harry desviou o olhar da fonte, apertando os olhos e respirando fundo; a sensação agridoce da lembrança atingindo o lugar onde deveria estar seu coração morto. E foi quando o aroma o atingiu, aroma este que conhecia tão bem, que reconheceria mesmo que mil anos houvessem transcorrido. Mal pôde acreditar que realmente dera certo, que acertara em acreditar que Draco viria a Roma para visitar o túmulo de Monique.
Ele chegara alguns dias depois de Harry, que já estava pensando em deixar a cidade por não aguentar mais as lembranças, é verdade, mas a espera valera à pena. Harry correu velozmente, perseguindo aquele aroma. Ele era o criador de Draco e podia senti-lo com cada vez mais força conforme se aproximava. Logo teve certeza de que o loiro estava no Cemitério Acatólico da cidade.
Parou na entrada do lugar e olhou para o portão arcaico que levava até o remanso de ciprestes, longe do barulho e do caos da capital italiana, e lançou um feitiço impedindo a aparatação por todo o perímetro. Não deixaria Draco escapar facilmente antes que eles pudessem conversar.
Entrou no cemitério e caminhou até onde já sabia estar o túmulo de Monique, e seus olhos arderam com a emoção em vê-lo novamente. Os cabelos loiro-platinados tremeluzindo pelo vento que chegava fraco devido às árvores por entre os túmulos, os olhos perdidos e distantes, ainda que cravados no túmulo da mulher que lhe fora tão especial, a ternura branda estampada em seu rosto tão belo. Uma lágrima escarlate solitária na bochecha pálida. Harry mal conseguiu se mover enquanto o observava entre admirado e chocado.
Draco parecia tão triste. Uma tristeza muito mais profunda do que a proveniente da morte de uma amiga querida, e muito mais forte do que a que presenciara quando o encontrara pela primeira vez em Roma. Harry avançou um passo, e o estalo de seu pé quebrando um graveto no chão chamou a atenção do loiro.
Ele rapidamente virou o rosto e seus olhos se encontraram, e foi como se os últimos trinta anos não existissem, pois nada mais – a busca, a angústia, a saudade - existia além daqueles olhos tempestade, tão revoltos quanto um céu azul-acinzentado tomado por uma chuva de estrelas. Os lábios finos se entreabriram pela surpresa, e ele deu um passo para trás, olhando ao redor atônito quando não conseguiu aparatar.
Então Draco pareceu recuperar-se do choque inicial e sua expressão tornou-se impassível, enquanto ele virava o rosto.
"Não acredito que não fui capaz de sentir a sua presença." Murmurou, mas sua voz era tão límpida quanto à superfície de um rio intocado aos ouvidos de Harry.
"Eu cuidei para que isso não acontecesse." Admitiu Harry, caminhando lentamente até o outro e parando a apenas alguns passos de distância, lutando contra a vontade de abraçá-lo e beijá-lo. "Eu senti tanto a sua falta, Draco. Por que você fugiu tão de repente?" Perguntou, erguendo a mão, porém Draco evitou o toque. "Draco, por favor, fale comigo." Pediu, quando o loiro mordeu o lábio inferior, fechando os olhos.
Harry achou que ele iria chorar ao abrir os olhos, mas quando ele ergueu a cabeça, seu semblante se transformara. Não havia nada além de indiferença e frieza ali.
"Eu queria liberdade, Harry. Liberdade para beber de quem eu desejasse, de fazer o que eu bem entendesse. Eu queria experimentar, e não conseguiria fazer isso com você... Nós somos diferentes demais, você não vê? Não daria certo." Ele declarou, deixando Harry perplexo.
"O que quer dizer com não daríamos certo? Nós dávamos certo como ninguém, Draco. Eu não o estaria procurando por todo esse tempo se não déssemos certo!" Harry exclamou, desesperado por fazê-lo entender que aquilo era tolice, e segurou-o pelo braço.
"Você está perseguindo algo que não existe!" Draco tentou se desvencilhar, mas em vão.
"Como pode afirmar tal coisa quando eu experimentei isso que você diz não existir? Draco, eu te amo, isso não é uma idealização, é apenas a verdade."
"Será mesmo? Será mesmo que você teria se apaixonado se estivéssemos fortes quando nos encontramos? Será que teria olhado duas vezes para mim se não estivesse solitário e confuso? Se não fosse pela minha descendência veela provocando seus instintos?" Draco perguntou com o timbre trêmulo.
Uma chuva fraca começou a cair tingindo de marrom escuro o chão do cemitério e de cinza-opaco o resto do mundo, enquanto os dois usavam os pingos de chuva como as lágrimas que não queriam derramar. Ainda não.
"Do que você está falando, Draco? Não importa o como ou o porquê, importa apenas o que resultou disso."
"Você precisou de mim para curar o seu tormento e a sua solidão, apenas isso. E eu o usei também. Eu estava perdido, confuso, fraco, mas você me deu forças. Nós nos apoiamos um no outro..."
"Draco..."
"Mas agora eu vejo que não era amor. Eu não te amo, Harry. Aquilo foi apenas carência." Draco declarou categórico. E Harry sentiu como se a chuva começasse a queimar sua pele, como se fosse o sol e não a lua, encoberta pelas nuvens escuras e densas, lá no céu.
"Você está mentindo." Harry o segurou fortemente em ambos os ombros, procurando por algo no rosto do loiro que denunciasse o quanto aquilo não era verdade. A memória que brincara em sua mente havia pouco tempo retornou com força total – o pensamento que o loiro permitir-lhe vislumbrar, com o pedido que ele fizera à fonte. "Você mesmo pediu, Draco, àquela noite, você pediu à Fontana de Trevi... Seu maior desejo era que sua vida pudesse ser mais longa do que a eternidade se pudesse passá-la ao meu lado." Harry viu que Draco vacilou à menção daquela noite distante e irrecuperável. "Você se esqueceu disso? Você vai passar por cima de tudo o que compartilhamos por causa de uma briga boba? Por que pensamos diferente quanto ao modo como devemos saciar nossa sede?"
"Não estou passando por cima de nada, Potter! Simplesmente porque não há nada para se passar por cima!" Draco falou, trêmulo, dessa vez conseguindo se soltar do aperto do maior. "Eu sou grato pelo que você fez por mim. Se não fosse por você, eu provavelmente ainda estaria enterrado nessa cidade, mas eu não preciso mais de você."
"Eu não quero a sua gratidão." Harry redarguiu, e Draco lançou-lhe um olhar vazio.
"Pare de procurar por uma ilusão... Nunca mais ficaremos juntos. Acabou, Harry." Ele falou, sereno, e Harry achou que uma estaca no coração doeria menos.
Não era isso que esperava, não era isso que queria; porém, ele sentia que algo morria naquele exato instante em que as gotas escorriam pelo rosto que tanto sonhara em reencontrar, todas as noites, todos os segundos, em todos os seus delírios de inconsciência. Era o gosto da última vez, amargo, preenchendo sua boca e descendo, cáustico, por sua garganta, corroendo-o por dentro.
"Eu nunca me enganei quanto aos meus sentimentos. Eu nunca menti para você. Eu tenho certeza de que teria te amado em qualquer outra circunstância, estivesse eu forte ou fraco, confuso ou lúcido, vampiro ou humano. Sua beleza, seu aroma, seu sangue, sua dor, sim, cativaram-me, mas não apenas isso, Draco. Eu te amei por inteiro, e tudo isso também era parte de você. Amei seus defeitos, seus sorrisos, mesmo os irônicos; amei seus olhos e seus suspiros. Amei seus beijos e seus toques... Mas se você acredita que me amou apenas porque estava perdido, porque eu o salvei, se essa é a verdade, então eu a respeitarei e não o procurarei novamente. Mas, por favor, não venha dizer-me como eu me sentia – como eu me sinto –, porque para mim não foi carência, ou ilusão." Harry declarou com as orbes verdes queimando tanto quanto o resto de seu corpo. "E você sabe disso."
Draco desviou o olhar em meio ao relato, evitando aquelas orbes.
"Desculpe, mas eu não acredito nisso, e, com o passar dos anos, você também vai parar de acreditar. Você será mais feliz agora que está livre dessa procura por algo que não existe, Harry. Então, apenas vá embora... Por favor." Draco respondeu em um tom baixo, encarando o chão.
"Não... Não, Draco, não!" Harry então perdeu o controle. Ele estava tentando manter-se calmo desde que vira o loiro, apesar de sua vontade ser segurá-lo e não soltá-lo nunca mais, porém agora que entendia que o estava perdendo, qualquer pensamento racional deixou sua mente. Simplesmente não poderia permitir aquilo, não depois de trinta anos sofrendo pela ausência dele. Em um movimento rápido, prensou-o contra uma das árvores, segurando-o pelo queixo. "Olha para mim. Você não sabe o que está falando, está confuso, mas se você nos der uma segunda chance-"
"Eu não quero uma segunda chance. Nem uma terceira, ou quarta, ou quinta! Eu quero apenas que você me deixe em paz!" Draco gritou, tentando empurrá-lo, porém Harry segurou-o com mais força, tendo a certeza de que já teria quebrado a mandíbula e o pulso do loiro caso ele ainda fosse humano.
"Eu disse antes que você era apenas meu, Draco. Para sempre. Eu te transformei, você é meu." Harry afirmou sem intervalo entre as palavras, antes de esconder o rosto do pescoço do loiro, aspirando o aroma dele. "Eu sinto tanto a sua falta. Não posso permitir que você me deixe outra vez. Eu vou te mostrar como você ainda me ama."
Draco reprimiu um gemido quando Harry deslizou uma perna por entre as suas e buscou seus lábios em um beijo possessivo e descontrolado, desprovido de qualquer gentileza, porém repleto de desespero e saudade. Draco chegou a ceder por um espaço de tempo menor que um segundo, segurando-se com força à sua roupa quando as línguas se chocaram (ou teria sido sua imaginação?), mas então ele o empurrou, fazendo-o tropeçar para trás e perceber que suas lágrimas haviam manchado a camisa branca que ele usava.
"Pare de se humilhar, Potter." Draco olhou-o dura e friamente. "Eu não sou mais um humano indefeso para você me forçar e me colocar de quatro como fez aquela noite, seu vampiro descontrolado de merda!" Harry deixou o queixo cair ao ouvir aquilo e, quando deu por si, estava de joelhos, a cabeça caída, enquanto Draco continuava a gritar. "Eu não te amo, entendeu? Eu te usei, usei para sair da vida miserável em que eu estava preso, depois te usei para me transformar em vampiro, porque um idiota apaixonado e certinho como você seria o único que conseguiria fazer isso sem me matar no processo!" Draco caminhou até Harry, segurando-o pela gola das roupas. "De você, eu queria apenas a eternidade. Agora que a tenho, você não me serve para mais nada."
Harry estava inerte, como se seu corpo não mais o pertencesse e ele fosse um espectador distante daquela cena que era pior do que qualquer pesadelo. As lágrimas ainda escorriam por seu rosto, e as palavras de Draco retumbavam em seus ouvidos, machucando-o cada vez mais fundo, rasgando-o por dentro. Ele não queria acreditar, mas era difícil, tão difícil. Estava tão cansado, daquela busca, daquela tortura, para terminar dessa forma, tão cruel, tão errada.
Draco o soltou, empurrando-o contra a lama do cemitério e virando-se de costas, levando as mãos aos cabelos e segurando-os como se tentasse arrancá-los antes de deixar os braços caírem pesadamente um de cada lado do corpo.
"Agora que você ouviu a verdade, Potter. A verdade que você nunca conseguiu enxergar, talvez você consiga... esquecer." Draco falou muito baixo. E Harry soltou uma risada baixa e irônica. Queria apenas desaparecer.
"Você tinha meu coração nas mãos, Draco."
"Eu sei." Draco falou em um murmúrio imperceptível, mas o silêncio, assombrado unicamente pela chuva fraca, foi sua resposta, porque Harry já não estava mais ali.
Nem nunca mais estaria.
XxX
Londres, 25 outubro de 2150
O tempo passou numa constância como a das brisas marinhas, de dia em direção ao continente, de noite, em direção ao mar. Era vazio e incompleto, mas a existência era como que inerte, continuando apenas pela falta de algo para tirá-la dos trilhos. Passara os últimos anos mais em Londres do que qualquer outra parte, apesar de muitas vezes ter buscado por um pouco de reclusão em lugares onde ninguém poderia encontrá-lo.
Aproveitara aqueles anos para estar com as pessoas que se importavam consigo, enquanto elas ainda viviam. Acompanhou diversas mortes de conhecidos, viu a velhice atingir pessoas das quais ainda se recordava com perfeição dos momentos em que ainda eram jovens, robustas e coradas. Agora olhava para o túmulo de seus dois grandes amigos em vida e em morte. Ron falecera primeiro, e alguns meses depois Hermione. Ela sempre fora mais forte, mas sem ele sua força extinguira-se rapidamente.
É verdade que conhecera os filhos e os netos deles, mas não criara grandes laços, então seu vínculo com a espécie humana parecia desaparecer com eles. Jogou uma flor sobre cada um dos túmulos que ficavam ao lado também dos outros Weasley que já haviam partido: Arthur, Molly, Fred, George, Percy, Bill, Fleur, Charles, entre outros. A única da 'velha' geração que continuava viva era Ginny, mas Harry já não a via há muito tempo. Ela nunca o perdoara por tê-la abandonado, apesar de ele saber que fora muito melhor assim, uma vez que ela também nunca conseguira aceitá-lo como vampiro, pois então ele não era mais o príncipe de contos de fada que ela tanto desejava.
Ele não poderia salvar mais nenhum deles; não podia salvar nem a si mesmo.
"Vou sentir falta de vocês." Falou baixinho. "Obrigado por terem me mantido são durante todos esses anos." Admitiu enquanto olhava para os ciprestes e cedros que também adornavam o cemitério, assemelhando-se tanto à paisagem do local onde o que restava de seu coração fora destruído.
Às vezes, pelo amanhecer, quando fechava os olhos e entregava-se à embriaguez sonolenta que vinha com os primeiros raios de luz, conseguia sentir como se Draco estivesse ao seu lado, em seus braços; os cabelos sedosos espalhando-se pelo colchão, compridos em alguns de seus delírios, curtos em outros. Mesmo agora, depois de tantos anos desde que tudo havia terminado, ainda não conseguia evitar procurar por Draco.
Não em uma busca certa, mas esperar que fosse ele a aparecer à sua frente quando algum barulho diferente chegava aos seus ouvidos; olhar para alguém de cabelos naquele tom platinado como se fosse encontrar o rosto de traços aristocráticos e não um rosto desconhecido e sem qualquer significado. Procurá-lo nos pequenos instantes em que seu coração escapava das garras de sua mente, que lhe dizia para esquecê-lo de uma vez por todas, para atirar aquele sentimento às chamas e deixá-lo ser consumido até que apenas cinzas restassem.
Deixou o cemitério com a cabeça baixa, as mãos no bolso, perguntando-se o que faria agora. Não poderia continuar sozinho pela eternidade, sem destino, ou acabaria se enterrando e adormecendo entre a umidade fria da terra, como já escutara que acontecera com alguns vampiros. Cansados de viver, eles entravam em estado de dormência em lugares onde ninguém poderia encontrá-los e dormiam, ficavam fracos e jamais conseguiam voltar a abrir os olhos, mesmo se assim desejassem.
Harry balançou a cabeça, não querendo deixar a ideia infiltrar-se em sua mente, pois essa era a opção fácil, cômoda, e ele não queria seguir o caminho dos fracos. Ainda poderia fazer algo de útil de sua existência, poderia tentar compreendê-la. Talvez, se encontrasse alguém com quem pudesse compartilhar um pouco de si, que pudesse ajudá-lo... Porque, por mais que fossem seus amigos, Ron e Hermione jamais o haviam compreendido plenamente; por mais que se esforçassem, o abismo que existia entre duas raças tão diferentes, ainda que fisicamente semelhantes, nunca poderia ser transposto.
Foi então que sua nova procura começou; porém, nesta, não havia um objetivo certo, apenas a necessidade de continuar procurando, até que o mundo deixasse de existir em tons de cinza; opaco desde a chuva fraca e melancólica da noite de 21 de janeiro de 2041.
XxX
Foram anos confusos aqueles. O mundo passava por intensas transformações, com inúmeras guerras que alteravam por completo o panorama geopolítico do planeta. Eles pareciam estar sempre em guerra. Os bruxos mantinham-se alheios aos problemas criados pelos muggles, mas como o planeta parecia estar se vingando dos abusos dos humanos, com mudanças climáticas, desaparecimento de ilhas e cidades inteiras à beira-mar, era impossível não estar atento a tudo aquilo. Ou tentar fugir de todo aquele caos.
Havia lugares da Europa que pareciam intocados pelo tempo e pelo avanço tecnológico do homem, e eram esses comumente os destinos de Harry. Ele evitava as grandes cidades, evitava os locais de crise. Geralmente nesses lugares antigos é que conseguia encontrar bruxos e inclusive outros vampiros. Descobriu que os vampiros tornavam-se uma raça cada vez mais rara, uma vez que só poderiam ser criados a partir de bruxos, e bruxos também existiam em números insignificantes levando-se em conta o número absoluto de habitantes do planeta.
Foi em Berna, na Suíça, que o encontrou. Ou melhor, ele o encontrou, quando estava sobre a ponte principal da cidade olhando para o rio Aare, contando as estrelas que se refletiam sobre sua superfície calma.
"Acredito nunca ter conhecido alguém com um olhar tão infinitamente triste." A voz plácida fez com que Harry se virasse em direção ao som, deparando-se com um vampiro – teve absoluta certeza de que se tratava de um – com olhos também verdes, ainda que muito claros, quase castanhos; a pele era pálida, como todos de sua espécie, ainda que nele o aspecto parecesse ainda mais doentio e acentuado. "Quem dera que meu verde carregasse essa profundidade."
Harry manteve-se parado, observando-o enquanto ele se aproximava mais alguns passos.
"Veio sozinho à minha cidade? Não gosto de vampiros fazendo bagunça por aqui, apesar de não tê-lo visto se alimentar desde que chegou." Ele falou em um tom suave, inclinando a cabeça para o lado.
"Sua cidade?" Harry perguntou sem conseguir reprimir seu descaso frente à petulância do vampiro. Ele sorriu ao notar o sarcasmo.
"Ah, sim, Berna, sempre neutra, calma; sempre evitando se envolver com os problemas e as guerras do resto do mundo. Sinto-me em casa aqui, apesar de ter nascido no distante ano de 579 d.C... Ainda assim, ela ainda guarda um pouco da graça de outrora, não concorda?" Ele perguntou, apoiando-se à mureta da ponte com o olhar perdido sobre a cidade.
"Sim... Ela transmite uma verdadeira paz." Harry replicou, voltando a olhar para o rio. Era estranho, mas o vampiro também lhe transmitiu certa paz. Ele tinha a voz calma e plácida como de alguém capaz de compreender todos os sofrimentos do mundo.
"É isso que você busca? Paz?" Ele perguntou, virando o rosto para mirá-lo com curiosidade, a cabeça inclinada para o lado deixando seus cabelos acobreados penderam e ondularem com o vento fraco.
"Talvez... Eu já não sei o que busco. Talvez buscar seja apenas um pretexto para continuar."
Harry não soube quanto tempo ficaram naquela mesma posição, em silêncio; porém, era confortável simplesmente ter alguém por perto para fingir que não estava completamente sozinho.
"Você, que já vive há mais de mil e quinhentos anos... Como consegue?" Harry perguntou por fim, ainda sem olhar para o vampiro. Mesmo assim, soube que ele sorriu compreensivo, quase como se esperasse a pergunta.
"Tão jovem e já se fazendo essa pergunta? Bem que escuto que a juventude de hoje já não é mais a mesma." Ele brincou balançando a cabeça. "Sabe, a nossa sorte é que nós temos a eternidade para descobrir o porquê disso tudo. Os humanos, quando começam a entender, precisam voltar a dormir."
"E você já entendeu?" Harry virou-se para encará-lo.
"Se eu houvesse, será que as minhas razões seriam suficientes e válidas para você?" Ele perguntou com um sorriso misterioso antes de estender a mão. "Marko Levesque."
Harry suspirou sem entender o que se passava pela mente do vampiro.
"Harry Potter." Falou aceitando o aperto de mão. As unhas de Marko assemelhavam-se ao vidro de tão translúcidas, e sua pele era dura como pedra branca e polida. Ele pareceu perceber sua análise.
"O tempo nos transforma em vidro. Deixa-nos mais pesados, entende?" Ele recolheu a mão ainda sorrindo. "Mais fortes, mas quando quebramos, os cacos são mais difíceis de juntar do que os pedaços de um corpo jovem."
Harry encarou-o com uma compressão que não entendia, apenas sentia.
"Você já... precisou juntar os pedaços?" Perguntou mesmo sabendo que era cedo para perguntas pessoais, porém Marko pareceu não se importar.
"Sim... Mas então eu era jovem." Ele estendeu a mão e tocou o rosto de Harry, em um carinho rápido e suave. "Talvez tão jovem quanto você."
"E conseguiu?" Seu tom saiu ansioso, ao que Marko suspirou e recolheu novamente a mão, olhando para o céu.
"Depois de tantos anos..." Murmurou perdido no brilho das estrelas que começava a enfraquecer pela chegada da aurora. "Gosto de acreditar que sim, mas alguns pedaços não se encaixaram tão bem quanto antes."
"Você diz que essa cidade é sua."
"Ah, sim." Marko pareceu feliz pela mudança de assunto. "Antigamente nós, vampiros, existíamos em maior quantidade, e havia uma hierarquia que era mais conhecida, mais respeitada, compreende? Hoje tudo é obscuro. Mas entenda, dificilmente encontrará um vampiro tão 'antigo' quanto eu. Estranhamente, vários simplesmente desapareceram, unindo-se à poeira do mundo..." Ele o analisou com cuidado. "Ah, mas eu precisaria de muitas noites para contar tudo. Eu sempre tive esse problema: falar demais." Sorriu. "Mas vamos, já está quase amanhecendo."
Marko aproximou-se e passou um braço pelos ombros de Harry, guiando-o com ele. E Harry deixou-se levar porque, ele podia sentir, ali estava alguém tão machucado quanto ele. As cicatrizes apenas não eram tão visíveis quanto as suas.
XxX
Contra todas as expectativas, Marko vivia em um apartamento simplório com vista para o Aare. O cheiro de incenso enchia o lugar deixando-o até mesmo um pouco sufocante, pois tudo ali era antigo, em tons de marrom, cinza e vermelho-opaco. O tempo parecia não existir entre aquelas paredes.
Marko sentou-se em uma poltrona da sala e indicou o sofá para Harry.
"Por favor, sinta-se em casa." Ele pediu educadamente, ao que Harry sentou-se no sofá de frente para uma lareira onde o fogo crepitava oscilante, em alguns momentos se expandindo, em outros recuando, como que com medo da própria força.
"Você mora aqui sozinho?" Perguntou olhando em volta e percebendo a quantidade de fotografias espalhadas pelo lugar, todas abanando e sorrindo, sozinhas, ou ao lado de Marko. Homens e mulheres, crianças e velhos.
"Não... Karin deve estar dormindo no quarto." Ele se levantou, indo até a lareira e passando a mão por sobre a superfície onde havia alguns porta-retratos. "Eu não gosto de ficar sozinho."
"Todas essas pessoas...?" Harry deixou a pergunta no ar.
"Foram meus companheiros. Alguns são bruxos, mas não todos." Marko virou-se para Harry, sorrindo ao ver a expressão surpresa no rosto jovem. "Karin é minha companheira hoje. Está comigo há sessenta e oito anos agora, conheci-a quando era uma bela e atrevida moça de quatorze anos... Infelizmente, acredito que não tenha mais muitos anos de vida. Muggles geralmente não passam dos noventa." Ele lamentou.
"Você nunca pensou...?"
"Em transformar alguém?" Marko previu a pergunta. "Não."
"Por quê?" Harry perguntou sem compreender. Parecia doloroso demais apegar-se a tantas pessoas ao longo de uma existência sem fim e, uma após a outra, vê-las partir.
"Gosto de vê-las envelhecer." Marko confessou tocando uma superfície onde uma senhora sorria com carinho. "Sou eu que estou errado em não envelhecer junto, não elas. Não lhes tiraria isso, não as arrancaria do curso natural da natureza por egoísmo, por querê-las comigo pela eternidade."
"Nem por amor?" Harry perguntou inevitavelmente pensando em Draco.
"O amor é egoísta. Talvez o sentimento mais egoísta entre todos." Marko se apoiou à lareira suspirando. "Desculpe pela intromissão, mas não pude deixar de vislumbrar um jovem muito bonito em sua mente. Você estava pensando nele na ponte, e agora ele está de volta aos seus pensamentos..."
"Foi alguém que eu transformei, por amor, ou egoísmo, como preferir." Harry suspirou apoiando a cabeça no encosto do sofá. "Mas eu não quero falar sobre ele."
"Entendo. Desculpe pela indiscrição." Marko olhou-o atentamente. "Você não se alimenta mais? Está há dez dias nessa cidade e não vi acontecer. Isso é algo raro em vampiros jovens."
"O que quer dizer?"
"Quanto mais velho um vampiro, Harry, menos ele precisa se alimentar. A sede diminui, até tornar-se quase inexistente; algumas gotas de sangue nos saciam por muito mais tempo. Mas vampiros novos precisam se alimentar com frequência, para construir suas forças, enriquecer seus poderes."
"Deve ser bom não precisar usar outras pessoas para manter-se vivo." Harry murmurou sentindo seu corpo dar os sinais de fraqueza e cansaço que vinham com o nascer do sol. Mais alguns minutos e adormeceria no sofá de Marko. "Você não precisa mais...? Se alimentar?"
"Uma ou duas vezes por ano, no máximo." Marko caminhou até o sofá, sentando-se ao lado de Harry. "Aqui, beba de mim."
"O quê?" Harry surpreendeu-se. Beber de outro vampiro era um ato bastante íntimo e pessoal, pois envolvia compartilhar sentimentos, memórias; sentir prazer e buscar conforto nos braços de outrem.
"Você se esforça para controlar sua sede. Bebendo meu sangue, você se tornará forte mais rápido e gradualmente sua sede diminuirá." Ele explicou afastando os cabelos que, à pouca luz, pareciam feitos de fios do mais puro cobre.
Harry olhou-o hesitante por um momento, mas seus olhos o traíram e se desviaram para o pescoço branco do vampiro. Há quantos meses não se alimentava? A verdade é que estava faminto e fraco e sua garganta ardia há dias. Aproximou-se de Marko, colocando uma mão na nuca dele e trazendo-o para perto. Perfurou a pele que, apesar de aparentar delicadeza, era mais dura e difícil de vencer do que a de humanos comuns.
E o sangue dele era diferente dos que já experimentara. Não era nem melhor, nem pior; apenas diferente, e repleto de memórias, incontáveis. Havia um vampiro nelas que se destacava; de belos olhos castanhos que o miravam de forma primeiro apaixonada, e então cheia de ódio. Um ódio tão doloroso... Como doía aquele olhar, aquela mudança. E a separação, era como não conseguir respirar.
E a sucessão de pessoas que passaram por sua vida desde então. Dezenas, vivendo ao seu lado porque queriam e porque o amavam. E amava-as de volta, beijava-lhes os cabelos e os lábios, abraçava-as e tentava esquecer os olhos castanhos, mas eles o perseguiam, e evitava pessoas de olhos castanhos. A memória mais recente, de Karin: olhos tão azuis que poderiam confundir-se com o manto negro da noite, cabelos loiros como um campo de trigo; uma menina sorridente que salvou de um orfanato e de uma vida miserável. Agora uma senhora que em tão pouco lembrava a menina, mas cujos olhos mantinham o mesmo brilho. Brilho que se apagava, dia após dia, e que o olhava com gratidão por ter cuidado dela, por tê-la amado. Como era difícil deixá-la ir, como todos os outros. Ela também iria abandonar-lhe, como o abandonaram os olhos castanhos. Mas simplesmente não podia mantê-las consigo, não podia mudá-las. Não podia nada.
Harry se afastou, afogado com aquela miríade confusa de sentimentos, seu peito doendo e lágrimas escorrendo por seu rosto. Lágrimas frias, sempre tão frias. Marko olhou-o detidamente por alguns segundos e então se inclinou, beijando seu rosto e suas lágrimas enquanto o segurava com amabilidade.
"Aquele vampiro..." Harry murmurou sem conseguir completar a sentença.
"Meu criador." Marko se afastou lentamente sem desviar os olhos dos seus.
"Eu já o vi antes." Harry sentiu algo contorcer dentro de si. "Eu estava em uma ópera em Roma, com... com Draco. Não cheguei a conhecê-lo, foi... Foi muito rápido. Eu senti que estava em perigo quando vi aqueles olhos."
"E você estava." Marko levantou-se em um único movimento gracioso. "Caliel jamais foi flor que se cheire."
"Marko...?"
Os dois vampiros viraram-se em direção ao corredor quando a voz suave e carinhosa alcançou seus ouvidos. Harry observou enquanto Marko se adiantava até a senhora, Karin, segurando-lhe as mãos e as beijando.
"Você acordou, minha querida. Dormiu bem?" Ele perguntou com amor.
"Sim, maravilhosamente. Quem é nosso convidado?" Karin perguntou mirando Harry. Marko acompanhou-a até a poltrona.
"Harry, esta é Karin Veska. Karin, este é Harry Potter, o vampiro que comentei que estava na cidade há alguns dias."
Karin sorriu, estendendo a mão que Harry imediatamente segurou com carinho, sem entender bem por que, mas beber do sangue de Marko fizera-lhe amar também aquela humana.
"É bom saber que Marko encontrou alguém que não vá deixá-lo tão cedo. Por favor, cuide dele para mim."
Harry piscou atônito com o pedido: conhecera Marko aquela noite apenas, então por que já sentia como se não pudesse deixá-lo tão breve? Como já poderia amá-lo como um amigo de toda uma vida?
"Marko é especial." Karin explicou, como se também fosse capaz de ler pensamentos. E Harry olhou para Marko, que observava a cena entre curioso e tranquilo, a cabeça inclinada para o lado, os olhos tristes.
XxX
Karin morreu seis anos depois, mas Harry sentia que jamais a esqueceria, assim como Marko, que lembrava cada um dos companheiros que já tivera até então, cada sorriso e tom de voz, e cada personalidade, todos tão diferentes e únicos. Harry ainda não entendia por que continuava ao lado de Marko, mas continuava. De certa forma, ele era um porto-seguro que lhe oferecia conforto com suas histórias antigas e amizade que não pedia nada em retorno, além de companhia.
Descobrira que o vampiro tinha verdadeiro horror à solidão, um medo irracional de ficar sozinho, de ser odiado. Ele não falava muito sobre sua vida humana. Dizia que era distante demais, quase um sonho que não merece ser lembrado, mas Karin contou-lhe que ele fora vendido pelos pais como escravo, e que o vampiro que o criara o salvara daquele destino cruel. Depois ele admitira que reconhecera o nome Harry Potter, pois tivera algumas notícias do que se passava pela Inglaterra durante a guerra dos bruxos, mas, felizmente, nunca pedira para que Harry falasse sobre aquela época.
Harry gostava de como ele conseguia compreendê-lo apenas com um olhar demorado e soturno, silencioso.
"É a primeira vez que não estou sozinho enquanto observo alguém especial partir." Falou Marko atraindo a atenção de Harry, que colocou uma mão sobre o ombro do vampiro.
"Você quer que eu o deixe sozinho com ela por um momento?" Perguntou Harry, mas Marko sorriu de leve balançando a cabeça.
"Não. Quis dizer que é bom ter alguém comigo neste momento. Geralmente, esses vácuos de solidão entre a partida e o encontro com outra pessoa especial deixam-me extremamente deprimido." Ele suspirou. "Eles se vão tão rápido. Em um momento são jovens e inquietos, reclamando sem parar por não podermos acompanhá-los para cima e para baixo durante o dia. No outro, estão deitados em um caixão, frios como nós, mas imóveis pela eternidade. Ou pelo menos até que o tempo corroa seus corpos frágeis."
"Ao menos você a teve enquanto durou a vida dela, e teve seu amor e foi feliz enquanto essa vida durou. Talvez você esteja certo... sobre não transformá-los. Talvez seja apenas egoísmo. Mesmo que eu não tenha tido escolha ao vê-lo morrendo numa cama de hospital, eu fui egoísta, não fui? Eu o queria apenas para mim, para sempre, mas o que consegui foi afastá-lo e perdê-lo... E eu tento compreender por que ele mentiria, mas não consigo. Talvez a verdade seja... que nunca fui amado." Harry falou, mal percebendo que desviara por completo o assunto, que novamente um sentimento de perda o levara até Draco.
Marko observou-o atentamente.
"Harry, sem dúvidas amar e ser correspondido é uma das melhores sensações do mundo, mas amar sem medida, sem nenhuma outra razão, senão por amar, como ama o amor, é imprescindível. Não amar é a própria infelicidade."
"Eu apenas queria compreender; queria que fizesse sentido." Harry olhou desesperado para Marko. "Continuar amando deve ser a própria infelicidade; quando é impossível sufocar a dor de não estar com ele, de pensar nele todos os dias e repetir, de novo e de novo, a cena em que ele diz que foi tudo mentira, buscando por algum sinal, qualquer sinal, de que mentira eram as suas palavras."
"É a primeira vez que ouço a voz do seu sofrimento, Harry." Marko falou aproximando-se e o abraçando, escondendo o rosto na curva de seu pescoço. "Deixe-me senti-la."
Harry apoiou a testa no ombro de Marko assentindo de leve, e então os dentes do vampiro cravavam-se em seu pescoço, abrindo todas as portas que tentava fechar, com as lembranças dele e de Draco, dos momentos em que passaram juntos, dos beijos trocados e de seus corpos unindo-se como um. Ah, Draco estava tão errado, dizendo-lhe que iria esquecer, que perceberia que fora apenas carência. Como era possível amar tanto? Por que, ao saber que Draco jamais o amara, não deixava esse sentimento morrer? Por que sentia Draco como se ele ainda estivesse tão perto, como se ele também pensasse todos os dias nos momentos em que tudo o que importava era que estavam juntos?
"Harry, ah, Harry!" Marko exclamou abraçando-o mais forte ao afastar os lábios de seu pescoço. "Se eu soubesse que o grande erro de meu passado fosse causar-lhe tanto sofrimento..."
"O quê...? Marko, do que você está falando?" Harry perguntou franzindo a testa e afastando o vampiro de seus braços. Marko mirou-o tristemente, seus olhos inchados pelas lágrimas.
"Nós precisamos viajar, Harry." Ele disse segurando as mãos de Harry e apertando-as. "Eu preciso consertar um erro."
"Para onde vamos?" Perguntou Harry ainda confuso com a atitude de Marko, que sorriu tristemente.
"Vamos visitar Caliel."
NA: Poisé, está chegando ao fim. Me pergunto se vocês gostaram do Marko. Eu acho ele queridinho. x)~
Me desculpem pelos prováveis erros. Estou sem beta. E milhares de obrigadas a todos que comentam!
