Título: Do As Infinity

Autora: Mila B.

Capa: Vide profile.

Sinopse: Existem muitos motivos para não se amar uma pessoa, mas apenas um para amá-la. (C. Drummond de Andrade). Veela!fic Vampire!fic.

Gênero: Romance/Comfort/Hurt/Drama.

Classificação: Slash/Nc-17.

Casal: Harry Potter e Draco Malfoy.

Trila Sonora: Set Fire to the Rain, Adele.

AVISO: Essa fanfic contém SLASH, relação homem x homem! Acha ruim, horrível, feio, nojento? NÃO LEIA. E alguém notou a ordem dos nomes no casal? Pois é, Draco UKE! Prefere ele seme? Acha um absurdo ele por baixo? Então é só clicar no X simpático no canto direito superior da página e ser feliz. :)


Capítulo 6

Além do Bem e do Mal

Noruega, 31 de dezembro de 2191

"Eu nasci onde hoje é a atual Hungria. Não me lembro muito da minha infância, mas lembro-me de que era miserável, e que éramos muitos irmãos. Era comum, naquela época, os servos terem uma prole grandiosa, pois assim os pais teriam mais mãos para ajudá-los nos feudos. Mas meus pais não eram servos, eram vilões, e portanto livres. Trabalhavam em vários feudos diferentes, como nômades. Meu pai reclamava com frequência da quantidade de bocas que precisava alimentar quando estávamos nas estradas e precisávamos pagar os pedágios para passar por pontes e divisas. Quando minha mãe engravidou novamente, ele decidiu que precisava livrar-se de algumas das crianças. Eu tinha então doze anos."

"Foi quando chegamos à fronteira da Hungria com o Império Bizantino que ele vendeu três de seus filhos. Ele não teria me vendido, pois eu já tinha boa idade para ajudar com tarefas mais pesadas, mas meu pai não gostava de mim. Dizia que eu era 'coisa do diabo', porque minha aparência diferia da dos meus irmãos. Ele tinha medo de quando a luz do sol iluminava meus olhos e deixava-os verdes, como mágica. Eles deveriam ficar sempre castanhos, como de todos os outros. Além disso, eu era um muggleborn, e minhas magias súbitas e sem explicação o assustavam. Era um homem ignorante."

"Então na fronteira ele nos vendeu para um grupo de mercenários que faziam tráfico de escravos. Eu fui levado em um navio para o norte da África, onde sultões gostavam de ter garotos jovens em seus haréns. Durante a viagem, um de meus irmãos morreu. Não de fome ou doença, pois os mercenários cuidavam para que estivéssemos em boas condições quando chegássemos. Afinal, precisávamos agradar aos compradores. Ele se suicidou com um pedaço solto de madeira que encontrou por acaso. Não me recordo mais de seu nome, mas tinha apenas oito anos."

"Não foi difícil encontrar um comprador para mim. Estranhamente, eu entendia menos do que estava acontecendo do que meu irmão que se matou, mesmo sendo mais velho. Quando cheguei ao harém e me banharam e deram apenas um turbante que pouco escondia, comecei a entender, mas então não havia mais como fugir, mesmo a morte não nos era permitida. Era terrível e obsceno, Harry. São anos que fico feliz em esquecer, mas lembro-me de estar terrivelmente traumatizado e infeliz quando Caliel apareceu."

"Caliel vivia viajando e pousando nos lugares que considerava os mais ricos e atraentes das cidades por onde passava. Ele visitava a África, é claro, quando passou pela majestosa casa onde eu e tantos outros éramos prisioneiros. É sempre fácil para um vampiro atrair a simpatia das pessoas para si e com Caliel não foi diferente. O sultão ofereceu-lhe um dia em seu harém particular, ao que ele aceitou. Eu tremia escondido atrás de um uma planta ornamental enquanto o espiava sugar o pescoço dos outros jovens lá dentro. Tive a certeza de que morreria naquela noite, mas, mesmo com medo, pensei que não seria tão ruim assim morrer."

"Quando ele me encontrou, não sei o que o levou a não me matar, mas sim tirar-me daquele lugar e levar-me com ele, em suas viagens. Conversávamos muito e ele me ensinava de tudo, desde línguas diferentes até a filosofia, as ciências e as artes e, claro, magia; em pouco tempo eu já o admirava. Era belo, poderoso e fascinante e tratava-me como alguém especial. Entenda, Harry, até aquele momento, eu não havia sido especial para ninguém. Chorei em seus braços para que me transformasse aos meus vinte anos, mas ele se negou, como continuou a se negar nos anos seguintes."

"Ele nunca quis me transformar. Nunca. Mas eu não poderia aceitar não estar ao lado dele para sempre. Eu me tornei possessivo, mimado e atrevido. Com vinte e sete anos, enfiei uma faca enfeitiçada contra magias de cura em meu ventre e rasguei-me como já vira camponeses rasgando peixe para tirar-lhes as tripas. Obriguei-o a me transformar para que a morte definitiva não me alcançasse. Ele ficou furioso, mesmo depois que despertei como vampiro. Foram vinte terríveis anos em que ele não aguentava sequer olhar para meu rosto pelo que eu o havia obrigado a fazer."

"Uma noite, sem palavras, ele foi capaz de me perdoar, e apenas pediu para que nunca mais falássemos sobre o ocorrido. Veja que 'nunca mais' é muito mais forte e significativo para um vampiro do que para um humano. Passamos duzentos anos juntos, então. Eu o amava muito, mais do que eu conseguia compreender, tanto que às vezes à noite chorava abraçado a ele; não aguentava a força de meus próprios sentimentos e invejava as vezes em que ele se encantava com outro humano, bruxo ou vampiro."

"Caliel sempre foi um grande admirador da beleza das outras criaturas, fossem elas quais fossem. Ele desconsiderava todas as minhas crises de ciúmes com beijos e promessas de amor, mas isso não diminuía minha insegurança. E tudo desmoronou quando encontramos dois vampiros em nossas constantes viagens. Um deles era mais velho, talvez com quinhentos anos, porém o outro era muito jovem, não deveria ter mais do que dez anos desde que fora transformado. Ela belíssimo, Harry. Eu nunca havia visto alguém tão belo em minha vida até então. Era um meio-veela transformado."

"Caliel se apaixonou por tanta beleza e não quis partir da cidade, por mais que eu insistisse para que fôssemos embora. Eu o estava perdendo. Meu ciúme cego deixou-me louco e passei a odiá-lo. Tive certeza de que ele jamais me amara, pois nunca quis transformar-me. Mas eu era um peso em sua existência imortal, um verdadeiro peso. Odiei-o por não me amar como eu o amava. Odiei-o por ser tão egoísta, por sempre ter-me prometido tanto, quando suas palavras não eram nada além de falsas. Foi então que cometi o erro que nos separou para todo o sempre, e que é o motivo de estarmos hoje aqui."

Harry olhou de Marko para a entrada do grande castelo de pedra à sua frente. Um lugar grandioso e escondido dos muggles, bruxos e vampiros indesejados pela neve e por feitiços desilusórios. Uma nevasca assolava aquele pedaço de mundo esquecido, e Harry sentiu o frio como se fizesse parte da paisagem áspera de inverno. Desejou saber que erro era esse do qual Marko tanto se arrependia, mas o vampiro não continuou seu relato; apenas avançou para dentro da fortaleza.

"Há uma festa aqui hoje, comemorando a chegada do novo ano." Avisou Marko. "Os poucos e mais importantes vampiros que ainda existem são convidados a participar. Caliel é o mais velho vampiro que sobrou. Ele tem mais de três mil anos agora, e seu poder é insuperável, o que faz dele o mais respeitado em nossa hierarquia."

Harry assentiu, lembrando-se de como o poder de Caliel o assombrara naquela distante noite de ópera. Já havia passado pela Noruega, mas não encontrara nada ali antes, o que o levou a crer que era um visitante indesejado.

"Já faz alguns séculos que ele se aquietou aqui na Noruega, país que hoje concentra a maior parte dos vampiros que restaram no mundo. Todos os anos ele dá essa mesma festa. Até hoje eu me recusava a aparecer. Nos primeiros cento e dez anos ele enviou o convite para minha casa, quando eu ainda morava em Portugal. Mas então eu me mudei para Berna, e os convites não mais chegaram." Marko sorriu de lado.

"Cento e dez anos é bastante tempo de insistência."

"Ah, tenho certeza de que ele apenas enviava por saber que eu jamais apareceria." Marko comentou entregando seu casaco para um serviçal logo na entrada do castelo. "Você vai encontrar vampiros, muggles e bruxos aqui hoje. Alguns vampiros gostam de trazer seus consortes para essas festas. Outros são apenas o jantar da noite."

Harry apertou a mandíbula com aquilo.

"Pensei que os vampiros mais antigos não sentissem necessidade de se alimentar." Comentou com uma careta de desagrado. Não gostaria de presenciar uma carnificina.

"De fato. Mas não há apenas vampiros antigos aqui. E, além disso, os que saciam a sede apenas de vez em quando aproveitam esta noite para isso." Marko explicou parando antes que dobrassem um corredor que os levaria até o salão principal do castelo. "É melhor estar preparado para o que verá quando entrar nesse salão."

Harry pensou que ele estaria se referindo às mortes que aconteceriam ali dentro, mas então o som o atingiu. Um som melancólico e belo de um violino, hipnotizante.

Segurou o braço de Marko e o apertou enquanto seus olhos se arregalavam. Reconhecia perfeitamente aquele som. Desde a primeira vez em que o ouvira, tornara-se seu preferido, e Draco começara a tocar quase todas as noites até antes que viajassem para a Inglaterra. Depois disso tudo acontecera muito rápido, e o som se perdera entre as tantas coisas das quais sentia falta.

"Você sabia que ele estaria aqui? Por isso me trouxe? Marko, por quê?" Harry perguntou abaixando a cabeça e levando a outra mão ao peito, apertando-o como se lhe doesse profundamente. E de fato doía.

"Eu tinha quase certeza. Já ouvira rumores de que um belo vampiro de descendência veela estava todos os anos impressionando os vampiros que visitavam Caliel. A descrição batia com a que vi em suas lembranças, e conhecendo Caliel... Harry, por favor, não retroceda agora. Precisamos entrar."

Harry sabia que doeria ainda mais ver Draco depois de tudo, mas deixou que Marko o guiasse, pois os olhos verde-claros do vampiro transmitiam confiança, força e até mesmo certo desespero para que não fugisse.

O salão do castelo era incrivelmente grande e bonito, digno de admiração. Os lustres eram grandiosos, ainda que delicados; as paredes eram ornamentadas com belas tapeçarias e as mesas continuam alguns quitutes, apesar da pouca quantidade de humanos no lugar.

Ao final do salão, em destaque por estar alguns degraus mais alto, estava sentado um vampiro que atraía o olhar não apenas por suas feições bem feitas, mas pela pose de que o mundo lhe pertencia. Perto dali, havia uma pequena orquestra, e quem liderava era um vampiro de traços perfeitos, harmônicos e magnéticos. Tudo nele era graça e beleza enquanto tocava com suavidade, como se fizesse parte da melodia, balançando o corpo lentamente, os olhos fechados e os pensamentos distantes.

Draco.

Harry perdeu o ar sem conseguir desviar o olhar. Por que Marko o trouxera até ali? Apenas para que a cicatriz em seu peito abrisse e sangrasse novamente?

"Caliel." Marko cumprimentou, e só então Harry percebeu que o anfitrião deixara seu lugar privilegiado e viera até eles.

"Marko. Não esperava que viesse a aparecer algum dia. Depois de tantas negativas." Caliel falou calmamente, porém seu tom era frio e perigoso. "E com um acompanhante." Ele mirou Harry. "Um acompanhante que não é bem-vindo."

Harry olhou-o surpreso pela hostilidade.

"Com medo, Caliel? Medo que ele lhe tire seu belo brinquedo?" Marko retrucou também extremamente calmo e sereno. "Há quantos anos agora já está ameaç-"

"Isso não é assunto seu, Marko." Caliel encarou-o furioso, o que atraiu alguns olhares para os três, inclusive o de Draco, que parou de tocar. Ele olhou na direção deles e seus olhos cinzentos e tristes se encontraram com os de Harry, e então o violino caiu de suas mãos e ele tropeçou para longe, a expressão assustada e confusa.

Harry avançou um passo, por instinto, querendo segurá-lo e acalmá-lo, mas Caliel agarrou seu braço.

"Draco já deixou bastante claro, da última vez, que não queria mais nada com você, não é mesmo?" Ele perguntou secamente, e Harry parou, encarando-o e perguntando-se como ele sabia disso. Draco lhe contara? Eles estavam juntos? Draco apaixonara-se por Caliel e por isso o deixara? Era por isso que estava ali, tocando na festa do vampiro?

"Caliel, não seja descortês. Não vai querer criar uma cena justamente no ano novo, vai? Eu e Harry viemos em paz." Marko intercedeu com um ar cansado. Caliel soltou o braço de Harry, olhando para Marko com desprezo.

"Paz, Marko?" Ele perguntou aproximando-se de Marko e se inclinando para falar perto do ouvido do vampiro. "Ou será que você veio até aqui para matar Draco como matou Sebastian?"

Marko sorriu sem-emoção.

"Eu dificilmente mataria alguém novamente por sua causa, Caliel." Ele replicou com os olhos presos aos de Harry, que o encarava incrédulo. Caliel se afastou, algo diferente no olhar; algo como... dor.

"Aproveitem a noite." Ele falou apenas antes de se afastar.

"Você matou... matou o meio-veela por quem Caliel se apaixonou?" Harry perguntou então, muito baixo, para que apenas Marko escutasse. Marko desviou o olhar, mirando Draco, que ficara afastado, observando-os, e que agora recebia alguma ordem de Caliel.

"Sim. Foi meu erro." Ele se aproximou de Harry e segurou-lhe o braço. "Fale com Draco esta noite, Harry. E não acredite no que ele lhe disser, ao menos não no início."

"Por... por quê?"

"Harry, pense um pouco na história que lhe contei. Principalmente no final dela." Pediu Marko. "Eu matei Sebastian, o vampiro por quem Caliel se apaixonou no passado. Ele era loiro e delicado, com belos olhos azuis que lembravam um céu claro e sem nuvens. Lindo, Harry, tão lindo. Era impossível não amá-lo com apenas um olhar. Lágrimas escorriam por meus olhos quando o matei, com uma estaca no peito. Ele era jovem e fraco se comparado a um vampiro de duzentos anos. Foi fácil enganá-lo e matá-lo." Marko mirou-o tristemente. "É tão fácil, Harry, controlar um vampiro jovem quando somos mais antigos e poderosos." Declarou. "Pense nisso."

Marko se afastou, deixando Harry parado no meio do salão com algo se remexendo em seu peito.

XxX

"Você não deveria estar aqui." Disse Draco desviando o olhar quando Harry se aproximou.

"Ele o obrigou, Draco? Caliel o abrigou a me deixar?" Harry perguntou o que estivera entalado em sua garganta desde que Marko se afastara. Aos poucos, a história começava a fazer sentido em sua mente, conforme juntava os pedaços de tudo que vira e ouvira.

Agora, ao parar para pensar, percebia que na noite em que Draco negara amá-lo sentira a presença de outra pessoa no cemitério, um pouco depois que chegara ao local. A presença de Caliel. Mas estivera tão centrado em Draco e nas palavras dele que perdera esse detalhe. Estava desesperado para ouvir e compreender toda a verdade.

Draco virou-se para olhá-lo com a expressão atônita.

"Do que está falando?" Ele perguntou, mas seu tom era vacilante. Ele olhou à volta, e seus olhos pousaram em Caliel, que conversava com um grupo de vampiros, afastado de onde estavam. Porém sabia que ele estava atento à conversa dos dois.

"Draco, por favor, pare de mentir." Harry segurou-o pelo braço puxando-o para si.

"Harry, pare!" O loiro sussurrou em resposta desvencilhando-se. "Vamos sair daqui antes que você consiga seu passaporte para o além túmulo." Ele começou a puxar Harry em direção a uma saída escondida do salão que os levou até um imenso e belo jardim congelado, escurecido pela noite repleta de estrelas.

Harry olhava como que deslumbrado para a mão pequena que segurava seu pulso. Senti-la novamente era uma sensação tão boa; a pele do loiro era tão macia contra a sua. Quando Draco parou e virou-se para ele, só então pareceu perceber o contato e soltou-o rapidamente. Seus olhos se encontraram, e Draco hesitou frente ao verde, suas defesas desmoronando por um rápido momento no qual Harry teve certeza de que ele lutava para esconder a verdade.

"Por que você veio até aqui?" Draco demandou depois de se recuperar.

"Eu não sei. Não sabia o que iria encontrar aqui até ouvi-lo tocando." Harry falou com sinceridade, aproximando-se cautelosamente do loiro. Estavam protegidos por uma parede viva coberta por neve que impedia quem saísse do castelo de vê-los. "Já se passaram cento e cinquenta anos desde que você disse que eu perceberia com o tempo que meus sentimentos por você eram uma mentira."

"Cento e cinquenta...?" Draco pareceu levemente surpreso antes de baixar o olhar. "Pareceu tão mais..." Murmurou muito baixo antes de erguer o olhar com os olhos assustados. "Não... não foi o que eu quis dizer."

Mas Harry ouvira o suficiente. Draco sentia sua falta. Ele podia sentir a tristeza dele, como a sentira quando se encontraram em Roma pela primeira vez. Quando deu por si, segurava-o pelos ombros, pressionando-o contra a pedra de uma estátua ornamental do jardim.

"Draco, não minta mais para mim. Por favor, apenas me diga a verdade." Implorou olhando fundo nas orbes cinzentas. "Caliel está te obrigando a ficar aqui com ele? Ele te obrigou a falar aquelas coisas para mim no cemitério em Roma? Apenas diga sim, ou não, Draco. Mas eu preciso saber a verdade. E se você não me disser nada, enfrentarei Caliel por essa verdade, mesmo que o preço dela seja minha morte." Harry disse com a voz firme, e o verde brilhava intensamente deixando Draco fraco e confuso em seus braços.

"Você não pode, Harry. Você não pode... Ele vai te matar! Você não deveria ter vindo até aqui." Draco abaixou a cabeça e começou a chorar, abraçando-se a Harry sem pensar no que estava fazendo enquanto suas mãos agarravam-se às roupas dele e seu rosto escondia-se na curva do pescoço do moreno. "Eu te amo. Eu te amo, Harry. Eu te amo tanto." Murmurou entre os soluços e as lágrimas, fazendo Harry tremer pela confissão. "Me desculpa. Me desculpa. Você tem de ir embora..."

"Não!" Harry o interrompeu, afastando-o apenas para olhar seu rosto manchado de vermelho. Segurou o rosto delicado, acariciando a bochecha e espalhando o sangue, mas não importava. "Eu não vou te deixar. Nós vamos embora daqui, para bem longe, apenas nós dois." Harry disse, uma determinação furiosa queimando em sua face. Sentia vontade de matar Caliel pelo que ele fizera.

Draco balançou a cabeça, fechando os olhos e negando, mas Harry segurou-o pelo queixo e ergueu seu rosto. O loiro ofegou quando seus olhares se encontraram e entregou-se completamente quando Harry acabou com a distância entre seus lábios. Harry segurou-o pela nuca puxando-o para si, buscando a língua do loiro e aprofundando o beijo; suas línguas procuraram-se com ardor e angústia, saudade e aflição, com sentimentos que eram maiores do que poderiam explicar; que sufocavam e desnorteavam, mas que eram tudo que poderiam pedir.

As mãos de Draco subiram e perderam-se nos cabelos negros e desgrenhados, puxando-os como se desejasse que suas bocas se fundissem e jamais se separassem, a língua pequena e aveludada buscando por Harry como se esse contato fosse o único que pudesse salvá-lo. E as mãos de Harry percorriam os cabelos, o pescoço e as costas do loiro, ambicionando senti-lo por inteiro, relembrar os contornos daquele corpo que era tão belo e único e que desejava por inteiro. Sangue misturou-se ao beijo quando o lábio inferior de Draco rasgou-se por acidente, e Harry o sugou delicadamente, diminuindo o furor do beijo e fazendo o menor gemer baixinho de prazer.

Quando se afastaram minimamente, Harry apoiou a testa na do loiro, sorrindo como não se permitia sorrir há muito tempo.

"Eu não acredito que está realmente acontecendo. Estou tão feliz." Acariciou os cabelos platinados, mas parou ao perceber o olhar ainda melancólico de Draco; um olhar de quem vislumbra a felicidade, tão próxima, tão ao alcance das mãos, mas ainda assim distante e inalcançável.

"Oh, sinto interromper esse momento de felicidade."

Os dois se afastaram ao ouvir a voz de Caliel, que os observava com uma expressão não só irônica, mas também irritada. Draco congelou, olhando para Caliel como se esperasse o pior.

"Draco, venha aqui." Caliel ordenou, o que fez Harry trincar os dentes. Quando Draco deu o primeiro passo em direção ao vampiro, Harry segurou-o pelo pulso.

"Você não precisa obedecer a esse desgraçado." Harry rosnou mirando Caliel com ódio antes de voltar-se para Draco, implorando em verde para que ele não fosse. Draco não teve tempo de responder antes que, em um movimento rápido demais até mesmo para os seus olhos e os de Harry, Caliel empurrasse o moreno para longe com uma força invisível, fazendo-o cair sentado no gelo do jardim.

Quando Harry abriu os olhos, Caliel estava parado ao lado de Draco, encarando-o calmamente.

"Acho que você ainda não entendeu que vocês dois não ficarão mais juntos." Ele comentou suave segurando o pulso do loiro. "Não tente aproximar-se de Draco novamente. Ele tem sido meu por cento e oitenta anos, e isso não vai mudar." Caliel sorriu antes de puxar Draco, abraçando-o por trás e aproximando os lábios do pescoço pálido sem desviar os olhos castanhos de Harry. "Fale para ele, Draco."

Draco hesitou, mas então Caliel sussurrou algo em seu ouvido e a expressão dele tornou-se desesperada.

"Você precisa ir embora, Harry. Por favor, apenas vá!" Ele implorou desviando o olhar e fechando os olhos com força, como que se esforçando para não chorar novamente.

"Talvez você precise ver com seus próprios olhos a quem Draco pertence agora." Disse Caliel antes de segurar o queixo de Draco e inclinar a cabeça do loiro para o lado. Harry ergueu-se pronto para matar Caliel quando os dentes do vampiro afundaram no pescoço de Draco, mas alguém apareceu e segurou-o.

"Se você fizer isso, ele irá matá-lo." Marko avisou impedindo-o de avançar.

Sentia-se cego de raiva, e tudo que queria era afastar o vampiro de Draco e arrancar o coração do maldito, mas Marko era muito mais forte para que pudesse desvencilhar-se.

Draco abriu os olhos no momento em que fora mordido e olhara para Harry com desculpas em seus olhos, novas lágrimas escorrendo por seu rosto e deixando-o ainda mais borrado e vermelho. Ele voltou a fechar os olhos e gemeu baixinho enquanto Caliel o apertava com mais força, e foi quando o loiro abriu a mente e deixou que Harry vislumbrasse duas de suas lembranças.

Londres, 180 anos atrás.

"Eu quero você." Caliel sorriu respondendo à sua pergunta mesmo que não a houvesse verbalizado.

Draco encarou-o sério por alguns segundos antes de cair na gargalhada. Assim que se recuperou dos risos, olhou debochado para o vampiro.

"Bem, é o que todos dizem. Mas eu já fui fisgado, então, boa sorte na próxima." O loiro virou-se para sair dali o quanto antes, internamente assustado com aquilo, mas assim que deu um passo, Caliel estava parado à sua frente. Draco tentou aparatar, mas simplesmente não conseguiu.

Caliel sorriu de leve.

"Não haverá uma próxima vez." Comentou. "A não ser que você queira a morte de seu parceiro. Eu posso providenciar isso. Qual é mesmo o nome dele? Harry Potter, não é isso?"

"Você não faria isso..." Draco recuou um passo sentindo o chão faltar.

"A escolha é sua. Matá-lo seria extremamente fácil. Um vampiro de quase três mil anos contra um de quatro. O que acha?" Ele perguntou divertido.

"Por quê...? Por que você me quer?" Draco perguntou vacilante reconhecendo que Caliel falava a verdade sobre matar Harry.

Por sua causa.

Não podia permitir.

Caliel acabou com a distância entre os dois, segurando o queixo de Draco e beijando-o suavemente nos lábios.

"Porque você me lembra alguém que eu perdi há muito tempo." Ele murmurou. "E porque sua beleza me fascina."

Draco fechou os olhos, odiando novamente sua descendência veela que apenas lhe causava problemas desde que nascera. Quando acreditava que poderia ter uma vida feliz junto com Harry, por mais que acabassem brigando vez ou outra, algo de errado acontecia. Será que nunca teria paz?

Harry era tão especial... era até mesmo mais do que merecia.

"Se eu for com você, deixará Harry viver?" Perguntou esforçando-se para não deixar a voz trêmula. Estava abandonando quem mais amava sem quaisquer explicações – sabia que Caliel não deixaria que se despedisse, e sabia que Harry tentaria salvá-lo e acabaria morto caso contasse a verdade. E Caliel estava projetando em sua mente uma imagem de Harry morto, ensanguentado, apenas para deixá-lo fraco: seus joelhos mal o sustentavam naquele momento.

Doía tanto.

"Tem a minha palavra." Falou Caliel afastando-se e estendendo uma mão. Draco hesitou, mas acabou por aceitá-la – não era uma escolha, não havia como fugir. Aparataram, e a lembrança dissolveu-se, seguindo-se a segunda.

Roma, 150 anos atrás.

Draco caiu de joelhos assim que Harry aparatou, apertando a lama do cemitério entre suas mãos. Sabia que tudo havia terminado agora, que nunca mais veria Harry. Quebrara o coração dele com suas mentiras.

E terminara de quebrar o seu próprio.

Ouviu os passos de Caliel e logo o vampiro estava parado ao seu lado, mas não ousou erguer o rosto para encará-lo.

"Você fez bem, Draco. Eu teria arrancado o coração dele caso ele o tocasse novamente." Ele explicou calmamente abaixando-se para observar o rosto do loiro. "Não chore, meu amor. É como você mesmo falou: ele nunca o amou realmente, porque é impossível que alguém o enxergue por trás de tanta beleza. Ela é tudo que os outros conseguem ver." Caliel tocou os cabelos molhados do menor ignorando o gemido baixo de amargura que ele soltou. Deixou a mão escorregar até que ela envolvesse o pulso fino e se ergueu, trazendo Draco consigo. "Agora vamos para casa."

A memória dissolveu-se outra vez quando eles aparataram, e Harry voltou a vislumbrar o que acontecia à sua frente: Draco estava desmaiado nos braços de Caliel.

"O que você fez com ele?" Gritou tentando avançar novamente, mas Marko continuava a segurá-lo. "Você é um louco, está ouvindo? Draco não o ama, não quer estar com você! Como pode obrigá-lo a permanecer ao seu lado desse jeito?"

Caliel olhava com ternura para o loiro desmaiado em seus braços e acariciou lenta e gentilmente os cabelos dele.

"Eu não preciso que ele me ame." Respondeu erguendo o olhar para Harry e sorrindo tristemente. "Eu já perdi quem eu amava há muito tempo."

"Então... se você conhece a dor de perder quem se ama, por que a inflige em outras pessoas?" Harry perguntou em um tom fraco, olhando para Draco enquanto Caliel olhava agora para Marko.

"Porque ele é egoísta, Harry. E na verdade ama apenas a si próprio." Foi Marko quem respondeu. "Vamos embora."

"Não... não posso." Harry murmurou. Não podia deixar Draco nas mãos daquele vampiro que o tratava como um objeto bonito e raro que servia apenas para ser admirado.

"Como pode dizer isso, Marko? Você, que é tão egoísta quanto eu?" Caliel replicou. "Não foi você quem me tratou por duzentos anos como se eu fosse sua propriedade? Que matou alguém tão belo e puro como Draco?"

"Eu não nego meus erros, Caliel. Eu os reconheço, e esforço-me para não repeti-los. Mas você continua; você, que deveria ser mais sábio do que qualquer um. Ou será que se esquece de que Sebastian também jamais o amou? Que você o arrancou de Bael como está arrancando Draco de Harry?"

Caliel riu descrente.

"Mesmo depois de tantos anos você continua cego em seu ciúme." Falou realmente estafado. "Chega. Voltem para a festa, mas partam antes do amanhecer. Não os quero aqui na próxima noite." Caliel ordenou antes de aparatar dali com Draco.

"Não! Largue-me, Marko! Eu não irei embora! Não deixarei que ele continue a fazer isso com Draco!" Harry começou a se debater, porém Marko o prensou com força contra a pedra da estátua, deixando-o imóvel.

"Vê isso? Eu tenho metade da idade de Caliel e consigo imobilizá-lo como se não passasse de uma criança." Marko avisou, empurrando-o com mais força contra a pedra. "Você não tem chances contra ele, Harry."

"E o que você espera que eu faça? Que apenas parta e continue minha vida tranquilamente?" Harry gritou, irritado com a intromissão do vampiro. Preferia morrer tentando a continuar sentindo-se devastadoramente impotente como se sentia agora. O que descobrira aquela noite jamais sairia de sua mente caso partisse, e o mataria ainda mais lenta e dolorosamente do que já vinha morrendo naqueles anos.

Marko suspirou.

"Eu tenho uma carta na manga. Apenas confie em mim." O vampiro pediu, fazendo Harry se acalmar minimamente. Confiava em Marko, mesmo que o conhecesse há apenas alguns anos.

"O que você pretende fazer?" Perguntou enquanto Marko o soltava, afastando-se.

"Eu tentarei conversar com Caliel educadamente. Se ele não me escutar, então o matarei." Marko declarou friamente, com uma cintilação ameaçadora e ferida no olhar que fez Harry perceber que o conhecia muito pouco.

"O que Caliel lhe fez que o deixou tão machucado, Marko?" Harry perguntou delicadamente, tocando o braço do vampiro como se tentasse transmitir algum carinho.

Marko suspirou ferido, seu olhar tornando-se vago e triste.

"Ele me negou como meu progenitor, Harry. Não há nada mais doloroso do que isso para um vampiro. Nada." Marko afirmou, deixando uma lágrima escorrer de um de seus olhos. "Um vampiro sem seu criador não tem mais conexão com nada, Harry. Não há vínculo tão forte quanto esse, não há meios de sentir-se pleno. E não estou falando que é necessário que o criador e a cria permaneçam juntos e se amem. Não, eles podem nem ao menos se conhecer, como foi o seu caso com o seu criador. Mas quando um criador recusa e quebra a ligação por vontade própria entre ele e sua cria, então ele a está destinando a uma vida de amargura, solidão e loucura. É um crime, Harry. Um crime que apenas os vampiros mais cruéis realizam."

"Marko..." Harry murmurou assombrado. Nem aos menos sabia que quebrar tal ligação era possível, mas sentiu uma dor incrível ao imaginar a que tinha com Draco partindo-se. Mesmo que não fosse algo muito definido ou claro, era latente o vínculo que compartilhavam.

Naqueles anos, mesmo distantes, Harry simplesmente sabia que Draco estava vivo e saberia quando ele estivesse em perigo. Às vezes, quando se concentrava, conseguia captar algumas sensações difusas do loiro. Seu senso de proteção para com ele era parte de si, parte do que eram.

Agora entendia porque se sentira tão solitário e confuso em seus primeiros meses como vampiro, mais do que Draco se sentira. Porque seu criador morrera e não tivera nenhum vínculo para ajudá-lo a não se afastar completamente do mundo e de si mesmo.

Porém isso fora fatalidade – uma boa, muito provavelmente, pois o vampiro que o criara o odiava. Porém Marko fora rejeitado, e rejeitado por alguém que amava.

Harry mirou-o entendo perfeitamente a sua dor.

"Eu menti para você quanto aos meus motivos sobre não transformar ninguém. Eu não o faço porque não posso. Eu sou como um vampiro estragado e incompleto, Harry, cuja punição é sentir-se sozinho pela eternidade. E Caliel é o culpado." Marko apertou os punhos e fechou os olhos por um breve instante. "Eu não busquei por vingança até hoje, mas não vou deixar que ele continue brincando e estragando a vida de outros dessa forma."

"Mas você mesmo disse, Marko, que ele tem o dobro de sua idade e é muito mais forte!" Harry exclamou, segurando-o pelos ombros. "Você não está pensando em se sacrificar tentando matá-lo, está? Eu não vou deixar que faça uma loucura dessas."

Marko sorriu leve.

"Eu já disse que tenho uma carta na manga, Harry." Avisou sombriamente, colocando uma mão nas costas de Harry e guiando-o de volta para o castelo. "Agora, aproveitemos o resto da festa."

Harry não falou mais nada. Ainda estava impressionado demais, e sentindo-se triste por Marko. A história dele e de Caliel era uma verdadeira tragédia e certamente havia muito mais por trás daquilo tudo. Harry nunca acreditara em vinganças antes, porém agora, tudo que queria era que Caliel pagasse por tudo o que fizera – a Marko, a Draco, e a si próprio.


NA: Sinto cheiro de acerto de contas no próximo capítulo, e vocês? Que é o último, por sinal, mas depois tem um epílogo todo especial para meus amados leitores, huahauahauau!

Beijos, e obrigada por todos os comentários, são super especiais para mim!