Título: Do As Infinity

Autora: Mila B.

Capa: Vide profile.

Sinopse: Existem muitos motivos para não se amar uma pessoa, mas apenas um para amá-la. (C. Drummond de Andrade). Veela!fic Vampire!fic.

Gênero: Romance/Comfort/Hurt/Drama.

Classificação: Slash/Nc-17.

Casal: Harry Potter e Draco Malfoy.

Trila Sonora: Set Fire to the Rain, Adele.

AVISO: Essa fanfic contém SLASH, relação homem x homem! Acha ruim, horrível, feio, nojento? NÃO LEIA. E alguém notou a ordem dos nomes no casal? Pois é, Draco UKE! Prefere ele seme? Acha um absurdo ele por baixo? Então é só clicar no X simpático no canto direito superior da página e ser feliz. :)


Capítulo 7

Acerto de Contas

As pálpebras tremularam antes de se abrirem e focarem o teto de dossel da cama grande e macia. Sempre achava que seu corpo era pequeno demais para ela. Em bem verdade, o corpo de qualquer pessoa seria pequeno demais entre as colchas em tons escarlates e as almofadas claras. Tudo era feito em proporções exageradas naquele castelo, mas Caliel gostava de grandeza, então combinava com ele. Todos os móveis, tapeçarias, quadros, tecidos que adornavam o lugar eram belos, porque ele também apreciava a beleza, delicada e macia, do tipo que inspira os poetas a compor poesias e romances tão doces e irreais quanto os sonhos suaves em um jardim de delícias e flores e brumas.

Aquilo tudo era tão irreal quanto o jardim. Mas não menos doloroso.

Draco sabia que era apenas mais um objeto raro e belo entre os pertences de Caliel. E objetos não têm direito a partir quando bem entendem, a não ser que estraguem e quebrem. Engraçado, pois ele estava quebrado e, entretanto, continuava preso àquele lugar.

Suspirou, apoiando os braços no colchão e erguendo um pouco o corpo, só então percebendo que Caliel estava sentado em uma poltrona próxima da janela, olhando para o jardim congelado banhado pelo sol fraco. Ainda se lembrava de como se deslumbrara quando pudera ver o sol novamente, o mundo iluminado pelos raios que lhe esquentavam a pele como as carícias suaves de uma mãe. O colar enfeitiçado com uma magia extremamente antiga e desconhecida para praticamente todos os vampiros pareceu pesar mais em seu pescoço. Caliel usava um igual por sob as vestes caras e bem cortadas.

"Você me desobedeceu noite passada." Caliel falou em um tom plácido, sem deixar de observar o jardim. A expressão era tão suave que, quem não o conhecesse bem, diria que ele não estava irritado, ou transtornado. Mas Draco o conhecia há cento e cinquenta anos, e, apesar de esse tempo não ser suficiente para desvendar aquela mente tão complexa e sombria, sabia que ele não estava contente.

Ele acariciava um dos anéis que usava, o do indicador – o anel que fora de Sebastian. E isso não poderia significar algo bom. Draco sentou-se na cama, afastando as cobertas, e imediatamente sentiu-se tonto, o que atraiu a atenção do vampiro milenar.

"Eu bebi do seu sangue e você ainda não se alimentou. Deve estar fraco agora." Ele falou, estendendo a mão para outro canto do quarto, onde uma garota que não deveria ter mais do que dezessete anos estava sentada, com os olhos vidrados.

A menina se levantou frente ao movimento de Caliel e caminhou até a cama de Draco, sentando na borda, afastando os cabelos loiros cacheados do pescoço e inclinando a cabeça para o lado para que o vampiro tivesse acesso livre às finas linhas arroxeadas em sua tez branca, por onde o sangue pulsava como a música doce de uma lira.

Draco deveria estar mesmo bastante tonto e fraco para não ter percebido a presença da humana até que seus olhos se cravassem no rosto de porcelana dela. Sua garganta secou e ardeu, como se tentasse engolir areia. Fechou os olhos e apertou as mãos em punho; odiava isso que Caliel fazia com ele. Draco tentava resistir ao sangue, prendendo-se às palavras de Harry, pois, mesmo longe, não queria mais decepcionar o moreno como o estivera decepcionando antes de se separarem. Porém, Caliel parecia saber disso, e sempre o instigava a matar enquanto assistia de camarote.

"Eu não quero matá-la." Draco sentenciou, levantando-se da cama e afastando-se dela. Caminhou em direção à porta de saída do aposento, mas, antes que a alcançasse, Caliel estava parado à sua frente, o semblante fechado e desprovido de emoções. Nesses momentos, Draco se lembrava por que o temia e respeitava.

"Você precisa, ou não conseguirá se manter sobre as duas pernas por muito tempo." Caliel falou como se explicasse aquilo a uma criança enquanto avançava alguns passos e fazia Draco cambalear para trás. O loiro olhou-o irritado, desejando esmurrá-lo, mas sabia que isso não teria efeito algum. Seria o mesmo que cócegas.

Caliel puxou a menina para seus braços e abriu o pescoço dela com um corte da unha que, de tão antiga, era quase vidro. A garota choramingou, fechando os olhos e deixando escorrer uma lágrima pelas bochechas, do mesmo modo em que o sangue escorreu pelo pescoço branco.

O aroma preencheu o quarto e então era impossível resistir. Draco não era tão forte. Ele jamais fora, e talvez por isso ele não houvesse tentado escapar de Caliel durante todos aqueles anos, com medo de que ele ou Harry acabassem mortos. Por que precisava ser tão covarde? Pensou enquanto esticava o braço, puxava a garota pela nuca e afundava os dentes no pescoço machucado.

O sangue fluiu como néctar, a areia em sua garganta se dissolvendo e a força da vida roubada espalhando-se por seus músculos novamente. Minutos depois e a garota caía no chão como a boneca de porcelana – quebrada – que era agora, deixando Draco com aquela sensação nauseante de estragada satisfação.

"Bom garoto." Disse Caliel, passando por cima do corpo estendido no chão e alcançando Draco. Ele tocou os fios sedosos do vampiro-veela e olhou-o com aquela ternura que incomodava o mais novo.

Caliel nunca o tocara. Não de forma realmente íntima. Draco chegara à conclusão, após alguns anos, de que ele apenas gostava de tê-lo como adorno, como algo a admirar somente com o olhar. Então, foi um grande susto quando o vampiro acabou com a distância entre eles e esmagou seus lábios em um beijo que tinha gosto do mais amargo desespero. O loiro arregalou os olhos e tentou se afastar, mas Caliel o envolveu pela cintura e segurou sua nuca, impondo o toque.

Draco conseguiu virar o rosto, mas Caliel não o soltou, e apenas desceu os lábios para seu pescoço.

"Argh! O que está fazendo? Você nunca antes..." Draco começou a falar, mas parou quando Caliel rasgou a parte superior da roupa que usava e jogou-a longe.

"Eu não queria forçá-lo." Caliel falou, erguendo o queixo de Draco e encarando-o profundamente. "Eu não iria, se você não houvesse me desobedecido. Mas garotos levados devem ser punidos." Ele sorriu quase triste. Draco não compreendia o que se passava pela mente dele. Uma tristeza esmagadora parecia cercar Caliel em todos os segundos de sua existência e, por mais que estivessem juntos há tanto tempo, ele nunca lhe contara nada sobre o passado.

Que o atropela e mata. Draco relembrou as palavras de Harry. Sabia que Harry estava vivo e bem, podia sentir, e apenas por isso ainda não tentara matar Caliel – mesmo que isso resultasse em sua morte (ou seria liberdade?).

"Por que você faz isso?" Draco perguntou sem desviar o olhar. "Algo está sempre te machucando, mas você insiste em machucar os outros, no lugar de buscar a cura para o que te atormenta." Acusou, tentando se soltar, mas Caliel intensificou o aperto.

"O que eu tenho não tem cura." Caliel falou deslizando uma das mãos pelas costas nuas de Draco. E então ele subiu uma delas e segurou o rosto de Draco, obrigando-o a encará-lo olho no olho. "Eu não quero resistência. Não tente fugir. Quero ouvi-lo gemendo meu nome." Ele ordenou apertando mais a mandíbula do loiro. "Eu sei que você não me ama, que não me deseja, e que me mataria se pudesse. Mas isso não me interessa realmente agora. Já tentei obliviar Harry Potter de sua mente, mas ele sempre volta aos seus pensamentos. Eu cansei dessa brincadeira."

Draco gemeu em protesto, mas sua força de vontade foi-se esvaindo.

Caliel o hipnotizara.

E por mais que não quisesse, por mais que lhe fosse repugnante a ideia, gemeu o nome dele quando o vampiro livrou a ambos do resto das roupas, deitou-o na cama, dominando-o, e o penetrou de modo firme e decidido. E tudo que sua mente conseguia era gritar por Harry.

Por favor, salve-me.

XxX

Harry acordou como se houvesse levado um choque elétrico no corpo, tirando-o do estado letárgico que o envolvia com a chegada do sol. Ainda não anoitecera, tinha certeza, era algo que os vampiros simplesmente sabiam: quando estava claro, escuro, se faltava pouco ou muito para a aurora ou o crepúsculo.

Mas Harry sentia uma terrível agonia tomar conta de seu corpo e, concentrando-se, percebeu que ela vinha de Draco. Agora que sabia da ligação que possuíam, e pela proximidade, conseguia 'chegar' até Draco com mais facilidade, entender o que estava acontecendo. O Harry quase pôde ouvir que Draco implorava para ser salvo, com todas as suas forças.

Caliel o estava... Não! Não, não, não! Aquele desgraçado filho de uma puta!

Harry empurrou a tampa do caixão com uma força desmesurada que a fez voar para longe. Ainda era um tanto perturbador dormir em caixões, mas Marko era acostumado a isso, e desde que começara a andar com ele, adquirira o mesmo hábito. Era como morrer todos os dias e voltar à vida apenas à noite. Mas agora algo mais forte que o sol o impelia a sair do caixão.

Estava no depósito de uma casa luxuosa e antiga, abaixo do solo, e o caixão de Marko estava logo ao lado do seu. Harry perguntou-se como faria para chegar até o castelo sem virar pó. Poderia aparatar, mas o castelo de Caliel era protegido contra aparatações que não as dele próprio, e então só poderia chegar próximo ao lugar.

"Mas não posso esperar até a noite." Harry falou exasperado, prestes a aparatar o mais próximo possível do castelo, mas alguém segurou seu braço antes, impedindo-o. Marko também acordara e saíra do caixão.

"Não faça isso." Ele demandou em um tom autoritário. "Você quer morrer justo agora? Se não for o sol, será Caliel que o transformará em pó."

"VOCÊ NÃO SABE O QUE ELE ESTÁ FAZENDO COM DRACO!" Harry gritou descontrolado, mas Marko continuou impedindo-o de aparatar com uma magia forte e antiga. "Deixe-me ir, Marko! Por favor, por favor, deixe-me ir!" Os olhos do vampiro mais novo encheram-se de lágrimas; toda a aflição, imponência, desespero e tristeza que vinham de Draco misturando-se às suas próprias e deixando-o completamente frágil e instável.

"Harry, por favor, entenda." Marko pediu com a expressão suavizando-se também com tristeza, como se pudesse sentir tudo o que o outro sentia. E podia. Ambos já haviam compartilhado demais naqueles anos de convivência. A dor de um, era a dor de outro.

Harry sabia que Marko estava tentando ser forte por ele, impedindo-o de fazer uma loucura e morrer tentando, porém isso não o impediu de sentir raiva. Empurrou Marko com todas as forças e tentou sair daquela casa, senão por aparatação, com as próprias pernas, mas Marko se recuperou rapidamente e voltou a segurá-lo.

O vampiro mais novo partiu para cima dele, e uma briga ferrenha começou. Marko não dava tudo de si, para não machucar Harry, mas isso não impediu que ambos acabassem bastante machucados. Harry precisava machucar alguém para extravasar sua própria dor e, por mais que fosse irracional usar justamente o único ser que queria ajudá-lo a justamente livrá-lo dessa dor, não podia impedir. Seu lado mais sombrio, egoísta e desumano fora despertado naquele instante, e ele quase pôde ver o mundo em tons de vermelho.

Tons de vermelho.

Ele riu ao cair sentado segurando o abdômen onde levara uma joelhada particularmente dolorosa. Tons de vermelho eram tão melhores do que tons de cinza. Ele riu novamente, e então estava chorando. Merlin! Por que precisava ser assim? Por que não pudera simplesmente passar todos aqueles anos com Draco em paz, sem algum vampiro transtornado para atormentá-los?

"Prometa que vai matá-lo." Harry pediu em um tom baixo e cheio de ódio para Marko.

"Hoje à noite, Harry. Depois da meia-noite. É o tempo de que preciso." Ele falou, mas Harry não mais o ouvia. Acabava de sentir que Draco perdera os sentidos. E, cansado e derrotado, seguiu pelo mesmo caminho.

XxX

A noite chegou estrelada, e as árvores pareciam-se com esculturas de gelo, completamente brancas, os troncos cinzentos, mas tudo envolto pela escuridão álgida. Não havia verde por ali, e o castelo de Caliel erguia-se tão estéril e solene quanto o resto da paisagem. Ainda não era meia noite. Harry não pudera esperar.

Sentia que Draco estava sofrendo, e simplesmente não podia permanecer parado quando todos os poros de seu corpo gritavam para que tomasse uma atitude. Não fazia ideia de como escapara dos olhos de Marko, mas o vampiro parecia estar meio fora daquele mundo, concentrado com alguma coisa que só ele compreendia.

Harry não o esperou, e foi sozinho até o castelo de Caliel. Queria ver Draco, e avançou para dentro do saguão onde acontecera o baile da noite anterior sem nem mesmo verificar se seria seguro. Tudo porque sentia que Draco estava lá, sentado sobre a abóbada de aresta de uma das janelas de maneira graciosa, quase como se o esperasse de um local elevado.

"Você não deveria ter vindo, Harry." Draco repreendeu, inclinando o corpo e apoiando os antebraços nos joelhos. Harry ergueu um pouco o olhar e puxou o ar aliviado ao vê-lo bem, mesmo que apenas fisicamente. "Vá embora antes que ele volte."

Harry reparou em como a voz dele parecia apagada e monocórdia, sem qualquer emoção. Parecia hipnotizado para dizer aquelas palavras, mas Harry não encontrou sinais de que ele estava realmente sob efeito de alguma compulsão. Ele parecia apenas... apagado.

"Durante o dia. O que ele fez com você?" Harry perguntou com uma raiva direcionada apenas a Caliel, mas a expressão de Draco continuava impassível. Morta.

"Vá embora."

"Pare de me mandar ir embora!" Harry gritou exasperado avançando alguns passos com os olhos cravados no rosto inexpressivo de Draco. Os olhos cinza o acompanhavam com uma lentidão entristecida.

"Você não pode fazer nada contra ele. Ele vai matá-lo assim que voltar, e eu não quero que você morra, idiota!" A voz do loiro pareceu ganhar alguma emoção e seus olhos adquiriram um pouco de brilho.

"Eu não me importo mais. Não vou deixar você aqui sozinho sofrendo nas mãos daquele desgraçado." Harry apertou as mãos em punho e trincou o maxilar. Seus olhos estavam mais escuros que o normal, e a raiva o consumia. Draco olhou-o chateado.

"Maldito herói..." Sorriu triste. "Não vê que vou sofrer ainda mais se você morrer?"

"Eu não vou morrer." Harry garantiu, mas então aconteceu muito rápido. Ele ouviu Draco gritar, e pular de onde estava sentado, caindo graciosamente no chão para correr até onde estava, mas ele paralisou no meio do caminho, incapaz de avançar mais.

Harry mal conseguia pensar direito, e olhou lentamente para baixo, percebendo que havia uma estaca cravada em seu peito. Abriu a boca e sangue escorreu dela, caindo e manchando suas vestes. Nem vira acontecer, mas sabia que fora Caliel. Ele estava no fundo do salão, observando-o imóvel e com o olhar sombrio, aguardando por sua morte.

A estaca roçava em seu coração, podia sentir a madeira cutucando-o, e um movimento brusco e ela atingiria seu órgão vital, única ponte entre a vida e a morte eterna e sem regresso. Levou a mão às costas e arrancou-a com um gemido alto de dor.

"Isso é o melhor que pode fazer?" Perguntou com um sorriso torcido para Caliel, que limpava graciosamente a mão suja de sangue com um lenço branco bordado a ouro. O vampiro jogou o lenço no chão e sorriu sombrio.

"Eu não precisarei usar nem sequer metade da minha força para matá-lo, Harry Potter." Ele falou suavemente, como quem dá as horas. Harry sabia que não tinha chances. Desde que saiu a casa onde estava escondido com Marko, tinha plena consciência de que viera até ali para morrer por Draco. Sabia que era estúpido e impulsivo, mas ele simplesmente não poderia deixar seus problemas recaírem sobre Marko e arriscar a vida de seu amigo com problemas que eram seus.

Marko poderia falar o que quisesse, que tinha contas a acertar com o vampiro, mas nunca viria acertá-las se Harry não houvesse cruzado o caminho de Marko. O moreno precisava lidar com aquilo sozinho.

"Quem começa uma luta com a certeza de que vai ganhar, já está com um pé na derrota." Falou, e avançou assim que sentiu que o buraco em seu peito cicatrizara. Não olhou para Draco, imobilizado a alguns metros de distância. Se olhasse, talvez o cinza desesperado e suplicante dos olhos dele o fizessem hesitar. E não havia mais lugar para hesitações.

Harry lançou um feitiço enquanto avançava e aparatou, surgindo na lateral de Caliel. O vampiro milenar desviou o feitiço com um simples tapa e virou-se para segurar Harry pelos ombros, e os dois aparataram novamente, juntos.

Surgiram a pouca distância, no alto, e separaram-se com um empurrão antes que uma enxurrada de feitiços caíssem sobre ambos. Caliel desviou-se de todos de Harry, que não teve a mesma sorte e foi jogado dolorosamente de volta ao chão. Harry ofegou ao sentir dores em seu corpo como se centenas de estacas se houvessem enterrado em seu corpo.

Girou antes que outros feitiços o atingissem. Caliel não estava usando nenhuma Imperdoável, mas Harry não tinha tempo de pensar no porquê disso. Levantou-se com certa dificuldade, mas se jogou em cima de Caliel quando este se aproximou, empurrando-o contra um pilar. O corpo de Caliel chocou-se contra a pedra e afundou-se nela, mas ele apenas sorriu de leve.

"Vampiros novos são realmente adoráveis. Tão cheios de energia." Ele comentou casual, tirando dos olhos alguns fios de cabelo que saíram de seu penteado com a luta. Harry o encarou e mal pôde acompanhar o que aconteceu até sentir que estava caído novamente de costas no chão.

Caliel estava com um pé sobre seu peito e segurava seus pulsos. Harry não conseguia se mover, mesmo que tentasse. Era como se, além do vampiro, outras forças invisíveis o segurassem no chão.

"Eu odeio mortes limpas. Avadas são tão... desmotivantes."

Harry gritou quando ele arrancou seus braços, um grito que poderia alcançar os ouvidos de vampiros de todo o país, tão grande foi a dor que sentiu. Não havia nada comparado àquilo. Nem mesmo um Cruciatus doeria tanto, pois não haveria a agonia de não poder mexer os braços, mas ter de vê-los serem jogados no chão de mármore, inertes e ensanguentados. O sangue esvaía-se como água corrente de seu corpo, sujando o chão de vermelho-escuro.

Caliel agachou-se e olhou-o nos olhos, uma expressão complacente e um brilho cansado em seus olhos castanhos. Olhos que enchiam as memórias de Marko, que Harry vislumbrara uma vez, e que agora preferia nunca tê-los visto.

"Eu falei para partir." Harry escutou a voz de Caliel como se estivesse em outro plano. "Estou estafado disso tudo. Vocês conseguiram acabar com a minha paciência, e olhe que me considero alguém bastante paciente. Mas chega. Vou matá-lo agora."

Harry soube então que iria morrer, enfim. Soube disso quando virou o rosto e viu a expressão horrorizada e cheia de dor de Draco, que parecia lutar ferrenhamente para se soltar de garras invisíveis.

O sabor da morte preenchia a boca de Harry. Ele precisava pensar em alguma coisa, mas já havia perdido sangue demais, e tudo doía como o inferno, talvez mais. Sentia-se empapado em seu próprio sangue enquanto uma escuridão nauseante o puxava para fora de seu próprio corpo.

"Eu sempre gostei muito de sangue." Caliel segurou os cabelos de Harry, erguendo-o um pouco do chão. Draco começou a gritar e implorar, mas o vampiro milenar não lhe dava ouvidos. Harry só ouvia o desespero do tom, mas não as palavras. Elas chegavam confusas e doloridas demais.

Uma adaga prateada com um cabo de ouro cravejado de rubis escorregou para a mão de Caliel, que sorriu docemente.

"Não é nada pessoal." Ele falou, e Harry fechou os olhos.

Perdão, pensou, desejando que Draco pudesse escutá-lo.

Mas nada veio, nenhuma nova dor além daquela que sentia. O aperto em seus cabelos parou e sua cabeça bateu contra o chão, e quase não teve mais forças para erguê-la e ver o que estava acontecendo. Quase.

"Não posso dizer o mesmo, Caliel. Isso é bem pessoal."

Marko estava parado em pé, logo à frente de Harry, e Caliel estava caído de costas no chão, a metros de distância. Os olhos do vampiro antigo brilhavam de fúria enquanto ele se levantava limpando o sangue que escorria pelo canto de sua boca.

"Eu não quero matá-lo também, Marko. Deus sabe que não." Ele falou, e parecia mesmo sincero, apesar de a adaga ainda estar firme em sua mão.

"Não meta Deus nisso, Caliel. Somos apenas eu e você agora." Marko falou no mesmo tom, e Harry pôde ouvir que ele silenciosamente pedia-lhe que aguentasse firme. Não morra.

"Você sabe que não tem chances, Marko. É mil e quinhentos anos mais novo." Caliel lembrou-o com desagrado. E repetiu: "Não quero matá-lo."

"Você não vai." Marko sorriu fatigado. E então Harry, mesmo debilitado, sentiu que a força de Marko se multiplicara enormemente, como se ele estivesse escondendo esse poder. Mas de onde raios ele tirara toda aquela força? Era como se ele fosse um vampiro muito mais velho que realmente era. Como se também tivesse três mil anos. Talvez mais.

Caliel também percebera e agora olhava incrédulo para Marko.

"O quê...? Mas como?" Ele perguntou com o corpo rígido.

"Bebi de Obderedria. A vampira mais velha até cento e trinta anos atrás, antes de seu suposto desaparecimento." Marko comentou calmamente, retirando a pesada capa preta que usava e largando-a no chão.

"Está dizendo...?"

"Que ela não desapareceu. Deu-me todo seu sangue, ou quase todo, e então foi para o sol. Estou mais forte desde então, e só não vim matá-lo porque decidi esquecer minha vingança, e deixar o passado para trás. Escondi meu poder para não chamar sua atenção. Mas então descubro o que você andou aprontando e... as coisas não podem ficar como estão. Você quase matou um amigo meu agora." Marko olhou de relance para Harry, e havia sofrimento em suas íris claras ao ver o corpo mutilado do jovem vampiro. "Desculpe, Harry. Eu precisei de dias para trazer de volta meu poder à superfície depois de escondê-lo tão profundamente dentro de mim. Por isso não pude vir antes."

Harry não conseguiu falar nada. A dor era maior, e ele mal enxergava. Sangue começava a escorrer de seus olhos como se seu corpo já não pudesse mantê-lo e precisasse liberá-lo – pelos olhos, pela boca, pelo nariz.

"Eu estraguei mesmo você." Caliel falou em um tom culpado. "Mesmo desfazendo nosso laço, você ainda manteve seu ódio. Pensei que longe de mim, você conseguiria se purificar."

"Não use esse tom lamentoso comigo, Caliel!" Marko berrou. E então começou.

Harry mal conseguia acompanhar os movimentos, e os feitiços surgiam como pequenos fogos de artifício, como flashes de luz, mas logo desapareciam. Havia som de luta, e havia dois vultos movimentando-se e atacando-se ferozmente, mas era impossível acompanhar a rapidez incrível com que lutavam.

Draco ainda estava paralisado, mas Caliel o jogara para o lado, fazendo com que deslizasse pelo chão até bater as costas em um dos pilares laterais do enorme salão. Ele estava caído e imóvel, seus olhos – pregados em Harry – ainda arregalados, incrédulos, chocados. Lágrimas de sangue escorriam por suas bochechas, em um choro silencioso, mas o resto do corpo parecia paralisado mais pelo choque do que pelo feitiço que o prendia.

E Harry o olhava também, carinhoso, gentil, como se quisesse transmitir que tudo ficaria bem, que mesmo que ele não aguentasse – e como estava difícil aguentar! –, Draco deveria continuar, porque estaria livre de Caliel. Marko venceria aquela luta. Marko precisava vencer aquela luta.

"Tudo que eu fiz foi por amor, Marko!" Caliel gritou em meio à luta, desviando-se de um golpe e aparando uma joelhada que Marko tentou acertar-lhe no estômago.

"Faz-me rir, Caliel! Como pode dizer uma coisa dessas? Não me trate como se eu ainda fosse um humano jovem e tolo!" Marko rosnou mais irritado do que nunca e um feitiço atingiu Caliel antes que ele pudesse evitar, jogando-o para trás e fazendo com que batesse de costas contra um dos pilares, que desabou junto com parte do teto.

"Você era... doce e inocente naquela época. Eu queria mantê-lo assim, mas não consegui." Caliel falou ofegante. O feitiço causara-lhe diversos cortes por todo peito e abdômen, profundos, mas rapidamente eles começavam a curar. Ele desviou de outro feitiço que destruiu por completo o pilar de pedra.

"Eu nunca fui doce e inocente, Caliel. Quando você me encontrou, eu já estava quebrado." Marko falou, aparatando e desaparatando em frente ao vampiro mais velho, que conseguiu fugir da mesma forma. Marko estava ficando irritado, pois Caliel apenas se defendia e fugia de seus ataques.

"Eu não queria tê-lo transformado. Não porque não o amava, mas porque não queria estragá-lo. Mas você me obrigou a isso. Fiquei tão furioso, Marko. Não com você, mas comigo. Não consegui encará-lo por vinte anos, tinha vergonha do que havia feito." Caliel falava rápido, como se aquilo estivesse preso há muito tempo. "Eu nunca transformei ninguém além de você."

"Pare de falar! Não muda nada! Nada do que você disser altera o passado! Você fala essas coisas, mas são todas mentiras. Você amou Sebastian! E apenas ele! Depois que eu o matei, você apenas me odiou e tirou-me tudo! Vivi infeliz por todos esses anos por sua culpa!" Marko avançou de novo, então foram minutos de uma briga mordaz e confusa, repleta de golpes e feitiços, nenhum deles conseguindo uma vantagem. Lutavam de forma parelha.

"Eu não sabia." Caliel jurou, mas ofegou e vomitou sangue quando Marko enfiou uma estaca em seu estômago. Empurrou o vampiro para longe e afastou-se segurando a barriga. "Eu me encantei por Sebastian assim como me encanto por tudo que é mais belo do que podemos acreditar. Me apaixonei pela beleza dele, mas não por ele. Mas quando você o matou... matou alguém inocente e tão puro quanto Sebastian, eu vi que não podíamos continuar juntos. Eu havia estragado tudo que havia de bom em você, e você me odiava. Seu ódio também machuca, Marko. Não pense que vivi feliz todos esses anos..."

Harry voltara a prestar atenção ao que eles diziam entre as pausas na luta. Marko chorava, trêmulo, e então Harry soube que ele ainda amava Caliel, mesmo depois de todos aqueles anos. Que o que acontecera entre eles ainda o afetava de maneira dolorosa. Mas o pior era sentir que Caliel falava a verdade com seus olhos castanhos densos imersos em culpa e dor e ressentimentos antigos e intrínsecos em seu ser. Algumas coisas, nem o tempo, nem o amor podem curar.

"E por que envolveu Draco nisso? Por que o prendeu a você dessa forma?" Marko olhou-o com esperanças de compreendê-lo, mesmo contra todas as possibilidades. Harry também olhou para Caliel, aguardando a resposta.

"Eu queria voltar... Voltar à época em que Sebastian ainda estava vivo, e nós ainda estávamos juntos. Acho que..." Ele riu, amargo. "Acho que invejei o amor deles dois, quando os vi pela primeira, em uma ópera. Era tão doce e puro... que eu quis destruí-lo."

"Desculpe. Eu pensei que suas explicações talvez mudassem o que eu sinto agora... Esse ódio." Marko falou tristemente. "Mas é tarde." Ele avançou novamente, e com dificuldade Harry entendeu o que aconteceu em questão de frações de segundo. Marko tentara alcançar Caliel e arrancar-lhe o coração com a mão, mas Caliel previra aquilo e usara a adaga para cortar a mão de Marko e a estaca para perfurar-lhe o coração.

E conseguira.

E agora olhava em choque para o corpo caído de Marko. Morto.

Harry teve certeza que gritou pelo nome do amigo. Ou tentou, pois talvez nem houvesse mais voz em sua garganta. Olhou para Caliel com ódio, desejando mais do que tudo que ele morresse por ter matado Marko. Marko, que fora seu porto-seguro aqueles anos todos. Um amigo que apenas pedira por sua companhia, por uma conversa ao lado de uma lareira, por alguém com quem observar as estrelas enquanto contava-lhe histórias de épocas que não voltavam mais. Alguém que arriscara tudo para ajudá-lo, e morrera por isso. Harry amou-o como o irmão que nunca teve naquele momento. Lembrou-se das palavras de Karin – por favor, cuide dele para mim – e sentiu-se miserável por falhar.

Caliel soltara a adaga e deixara os braços caírem pesados um de cada lado do corpo. Não parecia acreditar no que havia feito. Sua mente parecia ter acompanhado Marko para o outro lado.

Mas então Caliel arregalou os olhos e cambaleou para frente, levando a mão ao peito onde a ponta ensanguentada de uma estaca aparecia. Quando ele caiu, Draco estava atrás dele, a expressão fria e impassível. Os olhos cinzentos estavam nebulosos ao observar tanto o corpo de Marko quanto o de Caliel virarem pó, e esse pó voar devido ao vento que entrava pelas longas janelas do salão, misturando-se no ar, como se apenas na morte, real e irreversível, eles pudessem deixar as feridas para trás e ficarem juntos.

Foi a última coisa que Harry viu antes de fechar os olhos.


NA: Ui, admito que foi um parto escrever as cenas de luta. Será que ficou bom? E, bem... erm... não me matem! Lembrem-se de que ainda temos um epílogo! ;D

Obrigada por todas as reviews lindas.

Beijos!

Poke: Oi, flor! Ah, o Draco tem um sangue ótimo sim, UHAUAHAU! *morreu de rir do comentário* xDD E o Marko, realmente, se ele tivesse mirado o Caliel antes... mas né? O amor deixa a gente idiota, fazer o quê. AHUIAHAUI E o Caliel é realmente uma anta por não ter ficado com o lindo do Marko. Muito obrigada pela review! (no momento eu ando escrevendo outra fic h/d. Em breve talvez eu comesse a postá-la ;D) Beijos!

Leticia santos: Querida! Nossa, fiquei super feliz de te ver por aqui... xD Essa fic é mais dramática mesmo que Androgyny, acho que porque eu a escrevi ali pelo final do ano passado, quando estava surtando por causa do vestibular, huahauahua! Tem uns vampiros mesmo muito egoístas por aí, Caliel é um grande exemplo, né? Quis destruir o amor do Harry e do Draco por pura inveja... Espero que tenha gostado do final! Prometo ser boazinha no epílogo. uahauahauhu! Beijos!

Sakusasuke: Oi, querida! Ah, eu ando escrevendo uma nova fic drarry toda fofa. ehheeh! Só não sei quando vou conseguir terminar e começar a postar C: Ah, e eu sou muito lufosa para finais infelizes, sabe? uahauhauhu! Beijos, obrigada pela review!