Capítulo 3 – A Lenda da Lápide de Esmeralda


Rook saiu do quarto e se espreguiçou vagarosamente, indo para a cozinha. Chegando à sala de estar, no entanto ele parou, apreciando a vista.

Ele viu Nikki de frente para o lençol que substituía o quadro branco. Ela ainda vestia a blusa com que dormira, larga, que cobria o short curto; e tinha o cabelo preso o mais desleixadamente possível. Ela provavelmente tinha acordado daquela forma.

Heat estava completamente entregue ao que fazia. Estática, com os olhos passeando por cada mínimo detalhe da projeção, ela tinha a tampa da caneta na boca, e mordiscava-a inconscientemente.

O jornalista sorriu, parando à distancia apenas para observar uma das mil frescuras da detetive."


Em seu apartamento, o escritor ainda tivera alguma dificuldade para recomeçar a escrever, mas em algum momento a preguiça sumira completamente. O texto finalmente começava a sair com facilidade, fluindo de forma leve e precisa, sem que ele precisasse refazer frases ou reescrever parágrafos. As palavras se encaixavam, como um quebra-cabeça que, de uma hora para outra, fazia sentido. A tela do computador, bem como todo o mundo ao seu redor, tinha sumido com o foco total. Ele via a história e as imagens apenas. Transformá-las em palavras era uma extensão óbvia.

Castle não percebeu que tinha estado ali desde que chegara do 12th, nem que estava morrendo de fome. E muito menos a campainha quando ela tocou.

– Quem será a essa hora? – Alexis olhou no relógio. Passava das dez da noite.

– Ah, querida, deve ser algum vizinho querendo alguma coisa, só deixe tocar. – Respondeu Martha, sem prestar atenção no que ela própria dissera. Jogada no sofá com a neta, ela estava aproveitando ao máximo a noite em que o filho escrevia loucamente para gastar dinheiro com as comedias românticas que passavam no pay per view.
Sua idéia de apenas ignorar quem a incomodava funcionou por cerca de trinta segundos, até que a campainha tocou novamente. Alexis fez menção de levantar para atender, mas sua avó o fez antes, indo até a porta com a inconfundível expressão de sua má vontade.

Ao abrir a porta, seu rosto foi tomado pela surpresa, e por preocupação.

– O-olá. – Respondeu Beckett, hesitante e esboçando um sorriso.

Apesar de todo o esforço, ela não parecia muito feliz. Por baixo de um casaco mais grosso, estava vestida num lindo casaco de inverno vermelho, e as sutis manchas pretas nas mangas e no rosto da detetive não passaram despercebidas a Martha.

– Detetive, entre, o que faz por aqui tão tarde? – Martha prestou ainda mais atenção no que ela estava vestindo, sentindo algo familiar. – Vamos, querida, entre... Não fique ai fora...

Beckett passou pelo portal lenta e silenciosamente. O barulho de seus saltos no chão de madeira ecoava dolorosamente em seus ouvidos. Seus olhos vasculharam o loft, e rapidamente desviaram das cenas felizes que passavam no telão que servia de televisão para a família Castle.

– Kate. – Constatou a mais nova, colocando a cabeça acima do encosto do sofá para olhar quem tinha entrado. – Bom te ver... O que aconteceu?

– Eu só vim devolver o casaco do seu pai... – Ela se forçou a sorrir novamente.

Imagens vieram em sua cabeça em torrente. O sorriso frágil se desfez e olhos da detetive se encheram de lágrimas quando ela virou o rosto em resposta natural ao nó em sua garganta.

– Ok... Eu... Vou cham-

– Beckett? O que vo-

Alexis foi interrompida por seu pai, no susto de ve-lo surgir, e Castle pela presença de Beckett. Ele se aproximou sem dizer nada, curioso pela forma como ela coloca o cabelo para trás da orelha. Não foi necessário que se pedisse para que Alexis puxasse a avó pelo braço, carregando-a para longe da companhia dos dois; algo dizia lhe dizia que eles queriam ficar a sós. Ou que talvez fosse melhor não deixar Martha se envolver em assuntos nos dos quais não fora chamada a participar.

Assim que ela saiu de seu campo de visão, a detetive deu dois passos a frente, na direção de Castle, jogando os braços ao redor de seu pescoço.

– Kate... O que aconteceu?

Ela preferia que ele não tivesse perguntado. Que tivesse ficado quieto, apenas abraçado-a de volta, aceitando a situação, e os dois ficariam felizes e ninguém precisaria desenterrar esse assunto no dia seguinte. Mas era de um escritor que ela estava falando. Questionar as coisas era tão sua natureza quanto à da dela própria, como detetive. Mais que isso. Era de Richard Castle que estavam falando. Tê-lo pegando em seu pé ou questionando sua vida era apenas parte da rotina.

– Desculpe... – Beckett enrubesceu na mesma hora e se soltou do escritor antes que ele pudesse abraçá-la de volta. – Eu só estava passando por aqui e...

– Você não precisa mentir para mim. – Disse ele.

Beckett abaixou a cabeça, engolindo em seco. O que ela dissera não era uma mentira, inteiramente. O que ele dissera, entretanto, era uma completa verdade.

– Eu só... Não queria ficar em casa, sozinha... – Ela corrigiu, em voz baixa. Seus dedos se enrolavam nervosamente em um fio solto da blusa que ele lhe emprestara.

Castle esperou até que ela quisesse completar a frase. A detetive relaxou o corpo, acalmando-se ao perceber nele uma paciência que ele só demonstrava quando realmente levava as coisas a sério. – Eu e Josh...

Com um suspiro ela se calou. Sentiu como olhar do escritor pairava sobre ela, como ele prendia a respiração, sem saber o que dizer, como ele se obrigou a não ter uma reação por não saber qual ela seria. Por fim ouviu a hesitação em sua voz quando Castle se decidiu pelo óbvio:

– Hey, está tudo bem, ok? – E levou a mão ao rosto dela, delicadamente, levantando os olhos dela na altura do seu.

Ela não tinha como evitar o olhar azul e carinhoso que ele lhe lançava. Ele raramente a tocava, mas toda vez que o fazia ela sentia-se quente. O encontro de olhares, muitas vezes intensos, era comum, e aquele tipo de contato já era esperado. Então porque sentia o ar preso nos pulmões e as bochechas pegando fogo? Não devia já ter se acostumado com isso? O que era pior: aquilo tudo era culpa dele, tudo que tinha acontecido, sua presença ali, as lágrimas que forçavam sua saída. Castle era a última pessoa que ela queria ver naquela noite.

O que estava fazendo ali, então?

De repente ela estava com raiva. Verdadeiramente irritada, a ponto virar a cabeça, fugindo do contato das mãos dele. Teve que engolir algo que surgira em sua garganta como um rosnado, ao entender o porque.

– Você está sempre aqui... – Deixou sair, como um comentário à seus próprios pensamentos. Riu nervosamente e deixou-se ignorar o que ficava implícito em suas palavras. Não queria mais problemas naquela noite, mas passara do ponto de se importar com o que dizia. – Até mesmo quando não deve...

– Não me culpe, ok, foi você quem veio até aqui...

Ambos riram. Mesmo irritada, presa num misto de emoções, Beckett ainda se divertia com o escritor.

– Quer me contar o que aconteceu? – Questionou, com cautela.

– Não. – Sua resposta fora rápida e em tom ácido.

– Tudo bem então...

Com os dois parados na sala do apartamento, o silêncio se instaurou por algum tempo. O suficiente para que Castle tivesse uma idéia. Ele olhou para o teto, pensativo, e abriu um sorriso de canto, como só ele sabia.

– Eu vou chutar e dizer que você não quer comer sorvete e sentar na frente da TV chorando com comédias românticas...

– Eu gostaria de evitar isso, com toda certeza. – Seus lábios responderam o sorriso dele instintivamente.

– Eu tenho uma idéia...

Ela estreitou os olhos, quase com medo do que ele tinha a oferecer.

– O que é, Castle?

Ele sorriu de volta e indicou a estante da parede atrás de si; guiando-a até as prateleiras, então, ele tirou um filme especifico sem deixá-la ver a capa e pediu para que ela escolhe-se qualquer outro, menos àquele que ele tinha em mãos.

Duas horas depois, ela estava tinha esquecido a noite que tivera. Sem nenhuma preocupação, Beckett estava jogada no sofá do escritor, assistindo à Lenda da Lápide de Esmeralda. Sua barriga e bochechas estavam doendo, e ela tentava inutilmente conter o refrigerante em sua boca.

– Ah, qual é, isso é tuberculose ou hemorragia, pelo amor de Deus? – Comentou, depois de forçar a coca-cola a descer pela garganta.

Contento o riso por um momento, Beckett jogou a cabeça para trás. Queria rir um pouco mais, às custas da boa vontade de Castle. E sabia como. Apenas esperou que ele levantasse as mãos, tentando chegar ao balde de pipoca. Sem esperar o que aconteceria, ele se surpreendeu ao ver que o balde se moveu para a esquerda. Tentou mais uma vez, e novamente a pipoca fugiu do seu alcance. O escritor fez um par de pernas com os dedos, e se aproximou vagarosamente, movendo os dedos como quem dançava uma variação do can-can. Seu objetivo nem mesmo de longe era a pipoca, não, ele já tinha desistido delas. O sorriso que Beckett mal continha mordendo os lábios era um prêmio muito melhor. Os dedos dançantes de Castle se aproximaram da borda no recipiente, e quando se preparavam para mergulhar na pipoca, Beckett abraçou o balde fazendo a pipoca voar para todo lado. Tendo-a de costas para ele, Castle envolveu os braços ao redor dela, falsamente desesperado, tentando alcançar a pipoca.

Beckett tinha um repertório sem fim de movimentos que podiam ser utilizados em situações como aquela, mas preferiu ouvi-lo rindo em seu ouvido, sentindo seu abraço descompromissado.

– Ah, Kate, por favor... Pipoca... Pipoca...!

– Não, nada de pipoca, vamos, vamos ver outro filme!

– Você nem esperou o Lápide acabar... O final é a melhor parte.

Ela se desvencilhou de seus braços e se colocou de pé, só então percebendo que o casaco, a maquilagem e o cabelo arrumado faziam parte de um passado distante, assim como a tristeza.

– Eu... Estou curiosa. – Admitiu.

– Olha, quem diria...

– Não me olhe com essa cara, você não me deixou ver a capa.

– Vingança! – Afirmou ele, levantando a caixa do DVD rápido demais para que ela pudesse ver e escondendo a mão novamente atrás de si.

– Richard Castle, como Detetive de New York City eu declaro que você está em posse de uma evidencia de grande valor a uma investigação criminal, e ordeno que o entregue às forças policiais. A não ser que queira que eu arranje um mandato.

Ele esperou que ela completasse o curto monólogo e se arrumou no sofá, fitando-a.

– Katherine Beckett... – Ele disse seu nome com cuidado, adorando como arranjara uma forma de chamá-la pelo primeiro nome.

– Meu nome. Não use demais, senão gasta...

Ele ignorou, se utilizando de uma pausa dramática. No fim, só queria vê-la um pouquinho entregue a suas vontades.

– Sem o seu distintivo, – Castle tirou a peça de metal das costas com a mão que ficara escondida, observando como os lábios dela se apertavam um no outro com o movimento – você é apenas Kate Beckett.

– Eu te odeio. Tanto. – Ironizou ela. Suas palavras eram completamente anuladas pelo olhar doce que ela dirigia a ele.

– Diante de tal declaração eu tenho que me curvar aos seus desejos. – Ele começou, se levantando do sofá em direção ao aparelho de DVD. – Quer dizer, você me "odiando" – Fez as aspas com os dedos – desta forma, carregando uma arma por ai... Nunca se sabe.

Beckett revirou os olhos, rindo do comentário desnecessário e voltou para o sofá para comer o que restara da pipoca. Castle virou-se para ela ao ouvir o barulho. Aquilo estava virando questão de honra.

– Ah, é assim, é?

Beckett enfiou mais um punhado de pipoca na boca, desafiadora.

– Bom, vamos correr o risco de levar um tiro, então... – E colocou a caixa de lado, pegando outra da estante.

– O que vamos ver?

– Não vou estragar a graça, poxa.

Ela se arrumou no sofá e tomou um gole da coca-cola. Estava prestes a fazer mais uma tentativa de descobrir o nome do filme misterioso, mais para irritá-lo do que para realmente conseguir alguma informação, mas desistiu assim que seus olhos se focaram sem querer no relógio da TV.

Mais uma vez, forçou o refrigerante garganta abaixo.

– Castle, seu relógio está errado.

Ele olhou no relógio em seu pulso e no relógio da televisão, balançando a cabeça negativamente em resposta. A detetive saiu do conforto mental e físico em que se encontrava para se levantar sem hesitação e ir procurar o casaco – jogado na bancada da cozinha.

– Onde é que você pensa que vai?

– São dez para a uma da manhã, eu preciso dormir. – Ela disse, como se aquilo fosse estupidamente óbvio, colocando o casaco e virando-se para a mesa de centro e colocando as chaves do carro no bolso.

– Geralmente as pessoas tiram o casaco e colocam pijamas, mas gosto é gosto, fazer o que...

– É, mas, para colocar os pijamas eu preciso primeiro chegar em casa.

– Não vai a lugar nenhum. – Ele estendeu a mão, ainda segurando o distintivo dela.

Beckett estreitou os olhos e se aproximou dele para pegar a peça de metal de sua mão, mas não chegou a fazê-lo.

– Se vai mesmo fazer pirraça com o meu distintivo essa história não vai acabar bem. – O escritor riu e puxou a mão dela, devolvendo finalmente aquilo que estava em sua posse. – Você realmente não sabe barganhar...

Ele lançou um olhar rápido para a vidraça à sua esquerda, e voltando a olhá-la então, disse:

– Não preciso barganhar, nem te convencer a nada.

– Qual é o truque?

Castle olhou novamente para a janela, dessa vez sustentando o olhar até que ela o seguisse.

– Você tem que estar brincando... – Beckett bufou.

A neve que antes caia leve, aos poucos, dançando no céu, agora era como uma chuva torrencial congelada. O vento levava os pequenos flocos com fúria, quase não se conseguia ver o que acontecia através do branco. Impossível pensar que haveria alguém na rua com aquele tempo, e tão improvável quanto seria a passagem de carros: as poucas ruas que não estava cobertas pela neve estariam com engarrafamentos quilométricos.

A detetive estava presa com o escritor ali, querendo ou não.