Capítulo 7 – A idade mente
"– E como anda Rook? – Perguntou Raley, tentando surrupiar alguma informação a respeito do jornalista.
– Minha segunda sombra não tem nada a ver com isso, certo? – Ela respondeu, brincalhona, abrindo a pasta que lhe fora dada e voltando sua atenção completamente para seu conteúdo.
Uma forma sutil de dizer "calem e boca e vão trabalhar". Tudo bem. Era justo."
Kate continuou com o olhar fixado na abertura sem acreditar. Mas que diabos, porque? Porque? Porque ele tinha que ser tão prevenido? Ele já tinha quase sido morto antes por falta de atenção. Tinha cometido erros básicos e deixado passar coisas óbvias em investigação; então porque raios ele não podia ter sido desleixado com a gaveta? Com a droga da gaveta?
Ela se ajoelhou no chão, puxando a gaveta múltiplas vezes apenas pela frustração de não vela se mover toda vez que o fazia.
Era melhor desistir, ela pensou, parando finalmente, apoiando a testa na madeira fria. Melhor parar de agir como uma das fãs de Crepúsculo que ela vira saindo da sala de cinema depois da sessão de estreia de Amanhecer. Na época ela tinha visto as adolescentes saírem pela rua rindo e gritando e achado estranho. Agora, ela ria de si mesma. No final, ela não era muito diferente daquilo. A razão podia ser diferente, mas a reação era tão histérica quanto.
Beckett reconheceu suas ações corando para si mesma e com um suspiro.
Você é muito velha pra isso, garota.
Ela se jogou para trás, olhando para cima para mais uma vez observar Castle dormindo. Depois de todo o barulho que ela fizera, ele continuava entregue a Morpheus, roncando de forma tão gentil e imperceptível que lhe dava vontade de sorrir.
Mas o sono não viera. Ela continuava acordadíssima, ainda mais depois do frenesi literário. Ela já tinha desistido de dormir a muito tempo.
Se levantando, Kate foi até a estante de Castle novamente, indo diretamente para o livro que ela prometera ler. Flowers for Your Grave. Seu porto seguro. Para onde ela sabia que sempre iria voltar. Ela deslizou o livro da estante novamente, desta vez abrindo-o para encontrar a familiar primeira página, e não conseguiu reprimir um gemido de animação. Seus dedos praticamente arranhavam a capa do livro sem que ela pudesse se conter.
O idiota tinha colocado a chave ali, na primeira página.
Seu lado de fã falou mais alto. Aquilo era senão uma honra, ela pensava. Que Castle nunca ficasse sabendo daquilo, mas ela queria que fosse de propósito que um livro baseado nela estivesse sido tão bem guardado dentro de uma gaveta, cuja chave estava em seu livro favorito.
Sentindo-se uma criança dentro de uma loja de doces, Beckett foi direto até a vitrine com o seu predileto. Sem nem mesmo perceber que, alguns centímetros acima, Castle abria um dos olhos para observá-la. Ele não ousava emitir uma única palavra. Mas se divertia vendo como a chave quase não entrou na fechadura direito. E, como ela quase não teve coragem de colocar as mãos nas folhas brancas, cobertas por letrinhas que ela quase não teve coragem de ler.
Richard, bêbado de sono demais para registrar a cena, a viu se abraçar no amontoado de folhas, sorrindo bobamente ao se levantar indo em direção ao sofá. Abstraída demais em nos o quês e porquês da história para notá-lo. Se tivesse prestado só mais um pouquinho de atenção a sua volta, ela teria visto o grande ponto de interrogação no semblante dele, que não chegara a vê-la andando pelo escritório como uma sonâmbula. Na verdade, ainda entre sonhos, Castle se perguntava o que ela estava fazendo ali.
Nem se deu conta de que era o novo livro que ela tinha em mãos.
Vendo-a jogar-se no estofado com as folhas ele ignorou qualquer resquício de razão e jogou a cabeça para trás novamente, voltando a dormir como se nunca tivesse acordado.
Castle acordou de novo não muito tempo depois. Meia hora segundo o relógio. Um dos efeitos colaterais de se dormir em frente ao computador: podia ser confortável o suficiente para escrever, mas ainda não era sua cama. Seu pescoço, pernas e boa parte do resto de seu corpo doíam. Sentia-se como se tivesse sido mastigado.
Tirou o MacBook do colo colocando-o sobre mesa e pulou da cadeira se espreguiçando e passando as mãos no pescoço, inutilmente tentando se livrar da dor.
A velhice seria algo desagradável, ponderou. Já podia se imaginar cheio de problemas de coluna e com dificuldades para levantar-se da poltrona sem que apoiar as costas com as mãos, como nos desenhos animados.
Eu não devia ter me separado da última vez. Alexis vai odiar ter que cuidar dos meus remédios.
Em momentos como aqueles, Richard Castle se lembrava das conveniências do matrimônio.
E quando começava a considerar as inconveniências – só para não perder o hábito – ele se virou. A visão de Beckett dormindo em seu sofá usando não muito mais que uma blusa sua foi mais do que o suficiente para limpar qualquer pensamento de seu cérebro.
Ela estava vestida assim quando eu acordei mais cedo? Eu realmente acordei mais cedo?... Ela sempre teve essas pernas?
Castle engoliu em seco e virou de costas num movimento rápido, tentando conter sua mente imaginativa, se empenhando nisso de tal forma a conseguir algum resultado. Não que, mais tarde ele não fosse se lembrar daquilo, e não que, naquele mesmo momento ele não estivesse tentando afastar o desejo de correr os dedos por sua pele nua.
Aquele tipo de pensamento não era novidade, mas a ideia era idiota demais até mesmo para ele. Castle chacoalhou a cabeça batendo a palma da mão repetidamente na testa e focou-se na pergunta que surgira a principio: o que ele iria fazer?
Nada, surgiu com um primeiro instinto de preservação. Mas quantos anos ele tinha? Não era mais um garoto. Forçou-se a comportar-se como um adulto que sabia resistir às tentações de ter uma mulher linda, seminua, deitada em seu sofá. Não iria deixá-la dormir ali, num sofá que era no mínimo, da metade de seu tamanho. Ele já estava acostumado a acordar daquela forma, mas ela não. Além do mais, nunca iria se perdoar se Beckett acabasse com dor nas costas na velhice por causa dele.
Virando-se novamente Castle sorriu e se aproximou, passando os braços por baixo de seu pescoço e pernas, aninhando-a no colo com cuidado. Tentou não pensar no quanto iria apanhar se ela acordasse naquele momento. Carregou-a até o quarto e colocou-a na cama, passando os lençóis e a coberta por cima de seu corpo até convencer-se de que ela não ficaria com frio no resto da noite.
Algo manteve ali, debruçado sobre ela por vários minutos. Algo não o conteve de acariciar seus cabelos e deixar um longo beijo em sua têmpora.
–Boa noite, Kate. – Ele sussurrou em seu ouvido, se afastando.
Beckett suspirou, se movendo para abraçar o travesseiro.
– Josh... – Ela deixou escapar, sorrindo em meio a sonhos.
