Capítulo 9 – Quem é o roteirista?


"Ele abriu a boca para responder, mas foi interrompido ao ouvir seu próprio nome dito numa vozinha melodiosa e feminina vinda de um dos quartos. Quando todos se viraram para ver quem era a dona da voz, que vinha ao encontro do trio, Jameson não pode esconder o sorriso. Nikki Heat agora lhe devia vinte pratas."


Beckett tateou na escuridão do quarto a procura do celular que tocava.

– Beckett... – Disse, com certa dificuldade de lembrar o próprio nome, coçando os olhos e tentando colocar o cérebro para funcionar no tranco. Já tinha aprendido que quando o celular tocava era melhor já estar bem acordada, ou a sonolência matinal seria quebrada por algo bem menos agradável que o toque do celular: o cadáver, mas aquilo ali tinha sido covardia. Eram quatro e treze da manhã, exatamente. Ela entendeu menos da metade o que Esposito tentava lhe dizer do outro lado da linha. Impossível tentar pensar naquele estado. Não que houvesse a necessidade. Era a maior das ilusões imaginar que ele lhe ligaria com notícia outra que não "temos um homicídio" - e caso fizesse, estaria deitado na mesa de Lanie horas mais tarde.

Beckett soltou um gemido de desprezo jogando o celular de lado. As pessoas não podiam não morrer por somente um dia naquela cidade? Talvez fosse bom começar a cogitar a ideia de tirar umas férias... Férias... Tinha a ver com um dos sonhos que ela tivera aquela noite, não?

Com um suspiro ela se levantou da cama se sentando debaixo dos cobertores apenas para deixar-se cair novamente sobre os travesseiros. Espera um pouco... Como diabos ela tinha parado ali?


Sem nenhum aviso prévio, a primeira visão de Castle pela manhã foi o chão. E os pés daquela que o tinha derrubado da cadeira.

– Bom dia pra você também...? – Resmungou ele, passando a mão na testa e encontrando-a inchada pelo impacto. Que horas eram, porque Beckett o havia acordado e como ele tinha certeza que tinha sido ela?

– Seu. Idiota. Você disse que não ia entrar no quarto! – Esbravejou. Tinha caído no sono ainda no sofá do escritório mais cedo. Que soubesse não era sonambula, então a única explicação era a de que Castle a... tinha levado para o quarto?

– Jura que precisava me derrubar no chão por causa disso? Mesmo? – Questionou, ainda meio grogue, se sentando no chão. Jeito eficiente de acordar alguém, aquele.

Beckett levou os dedos à boca para reprimir um sorriso. Era cruel e ela sabia, mas era ótimo vê-lo sofrer de vez em quando. Suas caretas tinham o efeito de gás hilariante em Kate.

– Na verdade eu só cutuquei, você levou um susto. O tombo veio de bônus...

Ela se aproximou dele e estendeu a mão para ajudá-lo a levantar. Castle pensou que talvez pudesse puxá-la só pela vingança de vê-la se estabacar no chão também, mas não tinha toda essa intimidade com Kate. Talvez até tivesse, mas preferia não arriscar. Segurou sua mão e se levantou. Nenhum dos dois notou que ela ainda estava vestida exatamente da forma como acordara.

– Não tem problema e, para sua informação, eu só entrei porque você dormiu no sofá.

– Que me deixasse lá, então.

– Minha promessa não vale ver você com dor nas costas. – Castle arqueou as sobrancelhas – Falando nisso, o que você estava fazendo dormindo no sofá do escritório?

Instantaneamente Beckett cruzou as mãos em frente ao corpo e olhou para baixo tentando arranjar uma desculpa qualquer. Não podia simplesmente lhe dizer "ah, eu não conseguia dormir porque estava com a cabeça cheia de lembranças dolorosas e resolvi pedir a sua ajuda já que você sempre me ajudou a dormir, de uma forma ou de outra". Aquilo podia ter consequências para as quais ela não estava preparada.

– Erm... Eu-

– Não era mais fácil ter me pedido? Com jeitinho? – Disse ele, ressentido, apontando para as folhas esparramadas no chão. – Eu teria deixado...

– Me desculpe. Richard, me desculpe mesmo. – Beckett levantou o rosto e seus olhos se encontraram novamente. Ela desviou o mais rápido possível, envergonhada. Ficava cada vez mais difícil encará-lo nos olhos.

Castle suspirou, desapontado.

– Como achou a chave?

Dessa vez o sorriso foi mais rápido que suas mãos. Por dentro, Beckett estava se mordendo para não perguntar se fora ou não proposital a escolha do local.

– Peguei qualquer um na estante. – Mentiu.

Castle se agachou novamente e pegou a chave que ainda estava presa na fechadura da última gaveta, ainda escancarada. Ela devia estar curiosa. Muito curiosa. Ainda assim, devia ter pedido. Ele trancou a gaveta novamente e foi até a estante, recolocando a peça de metal entre as páginas de Flowers for You Grave. Uma história sobre ela, seu livro favorito... Fazia sentido, não fazia?

– Bom, você desarrumou, você arruma. – Ele apontou novamente para as folhas soltas do original. Não conseguia se lembrar se elas já estavam daquela forma quando ele a pegara no colo, mas não tinha importância. Às vezes era muito bom ter a tão durona detetive Beckett fazendo o que ele pedia. Richard podia se permitir aquele mimo. – Enquanto isso, eu faço o café. – Disse ele, indo em direção à cozinha.

– Me dê boas notícias, me diz que você enumera as páginas...

Castle parou no lugar, sem se virar para ela.

– Podem ser péssimas notícias se eu te contar... Ou piores se eu te deixar descobrir.

Meu deus, aquilo iria demorar dias. Kate se ajoelhou no chão e pegou a página mais próxima já se sentindo cansada. Será que era assim tão difícil colocar os numerozinh-

Ela cortou a linha dos próprios pensamentos ao olhar para o canto inferior direito da página.

– Você não perde a piada, não é mesmo?

Castle soltou um riso cheio de escárnio e voltou a andar.

– De forma alguma.

Eram muitas folhas, mas logo ela tinha terminado. O café da manhã estava pronto e ambos estavam sentados na cozinha. O cheiro das panquecas que Castle acabara de tirar da frigideira preenchia o ar.

– Isso é bom. Muito melhor do que as minhas, Castle. – Admitiu Beckett, com alguma dificuldade, entre garfadas.

– Hey, criar uma criança sozinho não é fácil. Você precisa aprender alguns truques. – Respondeu ele, derramando muito mais mel em suas panquecas do que o recomendado.

– Deixe um pouco pra mim, ok? – Beckett lançou um olhar sedutor-ameaçador ao escritor, que largou o pote imediatamente.

Sempre funciona...

– Muito obrigada.

Beckett pegou o pote e não resistiu em fazer o mesmo que Castle fizera. Mais mel com panquecas do que panquecas com mel, ponderou o escritor.

– Disponha. – Castle tomou um gole do café. – Quer me dizer por que estamos acordados tão cedo?

Beckett engoliu um pedaço do amontoado de mel e massa que acabara de colocar na boca e lambeu a ponta dos dedos, lambuzados pelo liquido doce. Os talheres tinham sido inúteis. Se ela estivesse comendo com as mãos, provavelmente faria menos bagunça.

– Esposito ligou.

– Quem morreu?

– Você não vai nem acreditar...

Castle abriu a boca, mas seu olhar foi atraído para algo atrás de Beckett, e ele não disse o que tinha planejado dizer.

– Alexis. O que está fazendo acordada a essa hora? – A garota podia ser estudiosa e disciplinada, mas nem mesmo a época de provas a fazia estar de pé em plena madrugada. Beckett se virou e encontrou a ruiva de pijamas, no alto da escada que dava para seu quarto. Parecia ter caído da cama. O rosto cansado indicava uma noite não tão bem dormida.

– Bom dia, pai, Beckett. – Ela disse, sem responder, descendo as escadas vagarosamente, coçando os olhos.

– Bom dia, querida. O que aconteceu?

A garota desceu as escadas em silêncio e parou ao lado do pai, passando os braços ao redor de seu pescoço.

– Eu não sei, eu só acordei. – Ela beijou a bochecha de Castle e se sentou entre o escritor e a detetive. – O que temos aqui?

– Seu pai faz panquecas incríveis, sabia?

– Você ainda não comeu os waffles...

– Quem diria, o escritor também cozinheiro?

– Sou um homem de muitos talentos.

Os três riram enquanto Alexis contava as mais variadas histórias sobre uma infância em que Castle ainda aprendia como se comportar na frente de um fogão. Muitos jantares carbonizados e muitas noites de comida chinesa.

– Castle, acho melhor nós irmos... – Beckett olhou no relógio. Cinco horas.

– O que houve?

Richard se levantou e sorriu maliciosamente.

– O que você acha?

Alexis devolveu o sorriso do pai.

– Gente morta?

– Gente morta.


Ryan olhou para o fim da rua e chamou a atenção do parceiro puxando seu braço. Estava mesmo vendo aquilo que estava vendo ou era o frio congelando suas sinapses?

– O que...?

– De uma olhada naquilo. – Ele apontou para o carro estacionado a cerca de cinquenta metros. Beckett saiu pela porta do motorista e Castle bateu a porta do passageiro. Automaticamente Esposito se virou pasmo para Ryan.

– Será que... – Começou Ryan.

– Não, acho que... Será?

Ambos se viraram novamente para a dupla que se aproximava. Vinham caminhando pela calçada normalmente, conversando sobre algum assunto banal.

– Qual é cara, ela já deu carona para ele antes... – Disse Esposito. Mas ele não conseguia convencer a si mesmo. Havia algo diferente.

– Tem razão...

À medida que Beckett e Castle se aproximavam o detetive conseguia ver as bochechas da mulher. Ele fingiu estar conversando com Esposito somente para que ambos pudessem escutar alguma parte da conversa.

– ...mas, é, eu acabei percebendo.

– Acho que eu realmente devia ter acordado sua mãe.

– Deus, não. Ver você usando só uma camisa minha foi uma visão do paraíso! Eu-

Ele desistiu de falar quando chegaram perto o suficiente dos dois detetives que pareciam comparar notas sobre depoimentos. Mais pela expressão no rosto de Beckett quando ela olhou para o chão, desviando-se da conversa, do que pela possibilidade de eles escutarem algo.

– Me desculpe, eu não devia...

Ela apertou os lábios. Tinha sido ingênua ao pensar que ele levaria aquele tipo conversa a sério. Não fora sua pior gafe, mas com certeza aquele não era o momento de escutar as brincadeiras dele sobre a falta de roupas acidental. Ela ainda havia acabado de terminar um namoro. Havia uma espécie de luto não declarado a respeito daquilo, e ele havia se esquecido completamente.

Beckett não respondeu. Nem a sua piada, da forma rápida e cortante de sempre, nem a suas desculpas, da forma doce como costumava. Dirigiu-se diretamente a Esposito:

– O que é tão importante que você me tirou da cama a essa hora?

Sério? Você não ouviu quando eu disse? – Esposito se virou para a detetive com uma sobrancelha levantada.

– Eu mal sabia qual era o meu nome quando eu te disse, achei que era algum tipo de piada.

Castle estava começando a ficar curioso com tudo aquilo. Quem poderia ter morrido e causar assim tanto ceticismo e impacto? Seja lá quem fosse a notícia ainda não havia chego na mídia. Não haviam câmeras, repórteres, furgões lotados de equipamento, nem mesmo um curioso ali por perto. O escritor se perguntava se, seja lá quem fosse, era assim mesmo tão importante.

– Entre e dê uma olhada... Vai ser difícil de acreditar se eu te contar, de qualquer forma.

E então Richard finalmente olhou em volta para perceber onde estavam.

O Theater District¹ nunca esteve tão quieto, ele pensou. Para aquele lugar, as primeiras horas da manhã eram as mais concorridas e agitadas. Não era a toa que New York era conhecido como "a cidade que nunca dorme". E a culpa do apelido era, em parte, dos famosos shows e teatros.

Parados na frente do Majestic Theatre, a turma de três detetives e um escritor tentava lembrar a última vez que um crime acontecera na Broadway. Todos eles chegaram a mesma conclusão: um bom e longo tempo. Mas tudo naquele lugar induzia a uma primeira errônea impressão, o que incluía a própria fachada do prédio.

Por fora, o Majestic era alto e cinza, e se misturava completamente com o resto da paisagem da rua. Parecia absolutamente comum. Apenas a bilheteria, o luminoso na frente e os cartazes anunciando o Fantasma da Ópera diziam que ali funcionava um dos teatros mais incríveis da cidade.

– Castle...? – Chamou Beckett, já a sua frente. – Você vem?

Richard chacoalhou a cabeça fechou a boca – aberta até então – e seguiu a detetive por entre as portas duplas agora fechadas e lacradas com as fitas amarelas colocadas em toda cena do crime.

Já dentro do teatro, a diferença em comparação com o exterior era imensa. As paredes de veludo e a iluminação sutil e baixa combinadas com o tamanho do foyer e o pé direito altíssimo fariam qualquer um repensar aquela primeira impressão. Parecia incrível como o lugar parecia maior por dentro.

É quase uma TARDIS².

Impressionar os turistas levando-os a conclusões diferentes de uma mesma coisa era parte do orgulho nova-iorquino.

– Quando você disse, no primeiro livro, que a diversão de Nikki era o teatro... Contribuição própria? – Perguntou Kate, ignorando os cartazes e a grandiosidade do lugar e subindo as escadas que levavam ao auditório. O modo como ele parecia prestar atenção em todos os mínimos detalhes da decoração dava a ela a impressão de que ele estava relembrando algo.

– É New York, Beckett, quem aqui não adora o teatro? Além do mais, eu sou filho de uma atriz. Quando não conseguia uma babá, eu ficava na plateia, ou nas cochias. Dá pra dizer que eu cresci na Broadway.

Castle a seguiu pelos degraus. Conhecia até mesmo a textura dos corrimões. Algo nas paredes, no chão encarpetado, no cheiro familiar que todo teatro tinha o fazia se sentir uma criança de novo. Um pirralho de dez anos correndo para lá e para cá pelas escadas, entre os camarins, brincando de esconde-esconde com o contrarregra.

Quando chegaram ao topo da escadaria que permitia a visão de todo o auditório, então, ele percebeu que não conseguiria saber o que sentir. Não era por ter se acostumado a ver gente morta, mas por nunca ter visto, num teatro, algo que não fosse encenado. Simplesmente não parecia real. Não parecia sério.

Somente descendo a rampa, passando por entre as cadeiras, se colocando ao lado da cortina pesada de veludo e vendo o vermelho que escorrera por debaixo dela se podia entender o quanto aquilo era doloroso para Richard. O sangue no palco de madeira ficaria ali por muito tempo, manchando as memórias de sua infância.

Ele não conseguia se obrigar a olhar aquilo. Virou o rosto quando Kate colocou a mão na abertura para puxar a cortina.

– Você está bem?

– Sim, eu só... – Ele correu os dedos entre os fios de cabelo e voltou-se novamente para a cena.

Nenhum dos dois queria admitir, mas a expectativas em saber o que estava por trás do pano era grande.

– Pronto? – Perguntou ela.

– Vá em frente.

Beckett afastou o veludo vermelho e pesado com alguma dificuldade e por pouco não deixou que tudo voltasse para o mesmo lugar de antes.

Seja lá qual fosse o nome daquela peça macabra, tanto Beckett quando Castle gostariam que o roteirista fosse demitido.


¹ Bairro de New York onde fica a famosa Broadway Theaters, ou somente Broadway, e seus maisde 40 teatros profisionais.

² A TARDIS é uma conhecida dos fãs de Doctor Who. É a máquina do tempo disfarçada de uma cabine de telefone azul dos anos 1950. Como a cabine é muito pequena, e a máquina em si tem diversos cômodos e nunca poderia caber dentro da mesma, a engenhoca virou sinônimo de coisas que parecem maiores por dentro do que por fora.