Capítulo 12 - Tudo Tem Conserto
O guarda não havia sido de grande ajuda. Praticamente nenhuma. Depois de passar mais de uma hora em uma conversa de idas e vindas ela chegou às conclusões mais frustrantes do dia: ele não vira ninguém com a atriz no teatro, não vira a própria Heather antes de morrer e nem mesmo sabia que ela estava ali quando chegou para assumir seu turno. Não, não, não e não. Beckett não entendia a fixação das pessoas com aquela palavra. Será que alguém poderia lhe dar uma resposta positiva, ao menos uma vez?
Ela bufou, irritada, antes de ser despertada de seus pensamentos pelo barulho do elevador que alcançara o andar de seu escritório na delegacia. Esperava um copo de café com leite fumegante, descansando em sua mesa, mas lembrou-se de que Castle havia ido para casa. Ele era o único que a mimava daquela forma, então teria que ir até a Starbucks ela mesma – pensando melhor naquilo, há séculos Kate não pagava o próprio café. É claro que a preguiça a impediu de descer o elevador novamente e andar as três quadras que separavam o 12th da cafeteria. Além do mais, as panquecas na casa do parceiro mais cedo foram um café da manhã muito mais reforçado do que o normal. Por isso foi direto até sua mesa, ignorando a rotina dos telefones que tocavam, pessoas que passam algemadas para lá e para cá e os comentários ocasionais sobre seu tombo no teatro.
"Lanie não consegue manter a boca fechada", pensou Kate. Ela podia conversar com os mortos a respeito das gafes de Kate, mas não... Tinha que informar aquilo a um vivo e justamente ao namorado! Esposito ficaria responsável pela papelada por dias, por espalhar aquela história no escritório se Beckett ainda fosse a detetive séria e durona de três anos atrás. "Talvez eu esteja ficando mole demais...".
Ela jogou-se sobre a cadeira tentando suprimir a estranha sensação de não ter Castle sentado ao seu lado e fazendo piadas daquilo também. Não teve muito tempo para pensar. Tinha trabalho burocrático a fazer, relatórios a preencher e ligações a fazer; algo que também foi interrompido assim que Esposito surgiu ao seu lado, com noticias.
– Hey, Beckett. – Saudou. – Onde está sua segunda sombra?
– Em casa.
O detetive estranhou, mas apenas chacoalhou os ombros. Outros assuntos para lidar.
– Os técnicos da CSU deixaram o laudo com o inventario do que foi achado no teatro. Alguns objetos foram para o laboratório direto, mas o resto fica com a gente, como sempre.
Beckett se sentiu mais animada.
– Algo de interessante? – Perguntou ela, enquanto Esposito lhe entregava as folhas que consistiam o trabalho burocrático dos peritos. Às vezes Kate imaginava que se tivesse escolhido a carreira de cenas do crime teria que lidar com menos papelada. Mas é claro que ficaria sem toda a ação do trabalho de campo, e ela não perderia isso por nada.
– Confirmamos com Cartwright, que tinha encontrado a vitima ontem, e ela disse que os pertences encontrados em seu camarim eram os que ficavam lá, entocados no armário todos os dias.
– Não encontraram a bolsa?
– Não, e nem evidencia da presença de uma segunda pessoa, embora as digitais ainda possam demorar alguns dias.
– Qual é, nenhuma mulher anda sem bolsa. E ela não podia estar lá sozinha, ninguém se suicida cortando a própria garganta... – Disse Beckett, mais para si mesma, mas feliz com as inconsistências. Inconsistências sempre deixavam um detetive feliz.
– Ainda estamos na análise preliminar, daqui a alguns dias teremos mais com o que trabalhar...
Beckett assentiu concordando. O jogo estava apenas começando. O corpo apenas havia sido encontrado e poucos nomes haviam sido descobertos. Pela experiência de alguns anos na policia, Beckett sabia que assim que as entrevistas começassem muita coisa seria escavada e os segredos mais absurdos revelados das formas mais incomuns. Isso se esperava de qualquer caso. Ela estava curiosa para saber o quanto da verdadeira e desconhecida face da Broadway seria demonstrada naquela história toda. Mas as investigações tinham que começar em algum lugar, e não só o criminoso, mas os investigadores também costumavam voltar à cena do crime. Só não agora. Ela deixaria essa etapa para depois. Antes, tinha que entender a participação da atriz substituta naquela história toda.
– Temos algo sobre... Gillian Flanders? – Perguntou, por fim, com alguma dificuldade de lembrar o nome mencionado pela diretora.
Era comum que todo nome mencionado passasse por uma checagem nos arquivos mais óbvios e no banco de dados da NYPD. Qualquer informação a mais ajudava, e ter com o que assustar um possível suspeito era um recurso útil, por mais que Kate sempre preferisse começar suas conversas e interrogatórios num tom amigável.
– Limpa como água. Nem consta em nossos cadastros. – Beckett não esperava mais do que isso.
– Os pais? – Ela voltara a se referir à vitima do crime.
– Moram em Jersey, estão vindo para New York e devem chegar mais tarde. Aparentemente ela dizia que "não sairia daqui nem morta".
Beckett assentiu mais uma vez e se levantou de sua cadeira. Ao invés de ficar plantada em sua mesa atendendo à burocracia do sistema, ela preferia trabalhar em cima de algo que realmente traria algum desenvolvimento ao caso.
Tinha acabado de chegar, e já ia sair novamente.
Talvez passar na Starbucks não fosse assim uma má ideia.
A detetive tomou o último gole do café com leite e baunilha e saiu do carro, praguejando baixinho pela baixa temperatura mais uma vez. A neve parara de cair de manhã, o que por si só era motivo para que ela comemorasse, mas as camadas grossas de flocos brancos em cima dos telhados laranja, calçadas e janelas do East Upper Side a lembravam de que o inverno estava apenas começando.
Beckett sempre se impressionava com o quão diferente aquela parte da cidade podia ser. A ausência de arranha-céus, trocados por casas térreas ou sobrados de arquitetura antiga, quase idênticos uns aos outros, dava a impressão de uma vida calma e sem muitos problemas. Principalmente ali, na Quinta Avenida, com o Central Park do outro lado da rua e crianças brincando com os restos da tempestade da noite anterior, correndo despreocupadamente com enormes sorrisos no rosto, ela via que nem tudo estava perdido. Parecia impossível que aquele cenário pacífico fizesse parte da cidade brutal e caótica da Capital do Mundo com que ela estava acostumada.
Beckett resistiu ao impulso infantil de brincar com a condensação da própria respiração e se colocou a caminho da casa de Gillian Flanders, a três quadras dali. Algo que a lembrava de que ainda estava em Manhattan: nunca havia vagas disponíveis.
"NYC sempre será NYC".
A reação da atriz ao atender a porta e se deparar com o distintivo e titulo de Beckett não podia ser menos encenada. E previsível:
– O que aconteceu? Algum problema?
– Preciso lhe fazer algumas perguntas sobre Heather Gillespie. – Explicou Kate.
– Ah, certo. Entre, por favor, entre.
A diretora do teatro estava certa. Gillian parecia ser o ser mais inocente da face da terra. A atriz não devia ter muito mais de vinte e cinco anos, o que levava a detetive a mensurar seu talento. Sua expressão passara a ideia de confiança e responsabilidade, o que de forma alguma diminuía o brilho brincalhão sempre presente nos olhos dos mais jovens.
Flanders indicou o sofá para que Beckett se sentasse e tomou ela mesma o acento ao lado.
– Entendo que trabalhava com Heather no Majestic... – Iniciou Beckett.
– Sim, estávamos nos preparando para começar a nova temporada... O que aconteceu? – Perguntou ela, confusa.
– Heather foi encontrada morta no teatro hoje de manhã. – Respondeu, com cautela.
A jovem atriz pareceu não entender a informação direito. Segundos de silêncio se passaram até que ela processasse a informação do falecimento da colega de trabalho. Ela apenas olhou pra baixo, fixando o olhar nos próprios pés e cutucando as unhas até retirar lascas do esmalte cor-de-rosa. Seu indicador já estava de volta à cor natural quando afastou os cabelos castanhos para trás da orelha e olhou para Beckett com um olhar mais confuso do que o que tinha ao atender a porta.
– Bem, eu... Por essa eu não esperava. – Ela riu nervosamente. – Eu definitivamente não esperava.
Beckett esperou que ela elevasse o olhar novamente para continuar a conversa.
– Eu sei que isso pode ser difícil, mas preciso te fazer algumas perguntas... – Começou a detetive, como mandava a etiqueta. Flanders apenas assentiu, e Beckett tirou o caderno de anotações e uma caneta do bolso. – Se lembra da última vez que viu Heather?
– Ela estava com toda a equipe no ensaio há uns dois dias atrás, mas não me lembro de tê-la visto depois disso.
– Os ensaios não são diários?
– Na verdade são, mas Heather avisou antes que não poderia ir. Cartwright ficou possessa, mas não tinha muita escolha, aparentemente ela foi visitar os pais ou algo do gênero.
– E foi você quem fez a substituição de Heather, já que ela não pode fazer o papel principal...
A atriz se surpreendeu que Beckett já soubesse daquilo.
– S-sim, eu era a segunda opção.
– Esse tipo de escolha pode causar a impressão de favoritismo, não?
– Admito que atores possam ser crianças de cinco anos, às vezes, – Gillian riu de leve. – mas somos todos bem crescidos, detetive. Além do mais, pouquíssimas pessoas sabiam do arranjo, era extraoficial.
– Sabe se alguém tinha motivos para machucá-la? – Kate mudou de tática, temporariamente satisfeita pelas respostas da atriz.
– Não acho que alguém seria realmente capaz disso... Heather era a queridinha do Majestic, todo mundo conhecia e todo mundo gostava, ela era o tipo popular. – Flanders sorriu tristemente mais uma vez. – Sabe, quando eu fiz o teste para o papel há um tempo eu fui muito bem recebida por todo mundo, mas Heather e eu ficamos muito amigas. Ela me ensinava como lidar com algumas pressões, me contava as histórias de palco, mesmo não sendo tão mais velha assim. É, ela... Não, não tem como alguém ter matado a Heather...
– Heather não podia se dar bem com todo mundo, Gillian, ela tinha que ter alguém que não fosse exatamente fã dela.
A atriz assumiu uma expressão pensativa por alguns segundos, buscando em sua memória qualquer indicio de desavença entre a amiga e qualquer outra pessoa da equipe.
– Não consigo pensar em ninguém... – Disse, por fim. – Talvez vocês devessem falar com Cartwright, ela tem muito mais convivência que eu, pode dizer alguma coisa realmente útil...
Nenhuma conversa era inútil e Beckett sabia bem disso, então continuou a curta entrevista com atenção aos detalhes, mas sem expectativa de muitas informações. Aparentemente Gillian Flanders era carne fresca no Majestic Theatre, e pouco poderia lhe explicar sobre as piadas internas mais antigas. Aceitou a sugestão da atriz e se decidiu por voltar ao teatro no dia seguinte para conversar com a diretora com mais propriedade. Mas a papelada ainda a esperava naquele dia. Assim que saiu do East Upper Side, dando adeus às bonitas paisagens tão utilizadas em filmes, Kate deu a volta na cidade e voltou para o 12th. Apesar de ser incomparavelmente menos pitoresco e muito mais barulhento, era o que ela costumava chamar de 'minha casa fora de casa'. Soltou um suspiro de satisfação e sorriu levemente ao adentrar o caos dos cubículos e das mesas de trabalho, fervilhando pela atividade dos oficiais, e foi diretamente ao quadro branco de seu assassinato na sala ao lado. Ryan trabalhava no quadro branco do assassinato na sala ao lado e Esposito parecia gritar com alguém no telefone. Ela se dirigiu diretamente para sua mesa, e encarou a pilha de formulários. Menos divertido, mas necessário. Sem muita escolha, começou a trabalhar também.
Kate tirou o casaco dos ombros se afundou no banco do carro, relaxando a maior quantidade de músculos que podia. Não havia sido exatamente um dia cansativo, uma morte, algumas conversas, muita tinta de caneta gasta... O relógio de seu pai não marcava muito mais que nove e meia da noite e ela podia jurar que se deitasse a cabeça no volante, dormiria até o dia seguinte. Definitivamente ela tivera dias piores, porém a falta de sono naquela noite estava começando a fazer a diferença. Não só a falta de sono em si, mas as circunstâncias que a fizeram não conseguir dormir. A conversa que tivera com Josh no dia anterior havia sido deixada de lado, ignorada pelo bem de sua sanidade e de sua competência como detetive. Nunca deixaria que algo de cunho emocional pudesse interferir no modo como trabalhava, era sua máxima. Mas sentada ali, sozinha e sem ter como distrair a própria mente, ela começava a repassar as palavras, os gestos, via uma história de um ano inteiro desmoronar em poucos segundos. Beckett suspirou. Será que essa merda ainda tem conserto? Pensou.
Ela massageou a própria testa, passou a mão pelos cabelos, frustrada. Talvez tivesse, sim, conserto, mas não hoje nem no dia seguinte. Colocou a chave na ignição e então notou o copo de café ainda repousando no banco do passageiro. Sua inquietação sumiu em um único impulso de preocupação e curiosidade. Beckett decidiu que ainda não ia para casa. Sua mente automaticamente viajou até um local especifico e ela deixou-se ir até lá pessoalmente.
Alguns poucos minutos de viajem e ela estava com o dedo na campainha.
Quando a porta se abriu, Castle a recebeu com uma camisa xadrez amassada e um rosto triste e cansado. Kate apertou os lábios, preocupada. Não conseguia compreender o que deixara o escritor naquele estado. Ela pensou em perguntar a razão, pensou em dizer boa noite, mas havia se esquecido completamente das saudações comuns. Apenas se rendeu ao silêncio com ele durante quase um minuto, tão sem reação quanto ele no dia anterior, e então pode pensar em algo para dizer – algo que surpreendeu até ela mesma.
– Precisa de um abraço? – Perguntou, estendendo os braços.
O gesto arrancou um sorriso dos lábios do escritor. Não se perguntou se ela estava brincando ou falando sério. Antes que pudesse se impedir, Castle deu um passo à frente e envolveu a cintura da detetive com os braços num abraço terno. Beckett devolveu a iniciativa, acariciou a camisa xadrez de Richard, deixou que ele relaxasse em seu corpo e apoiasse a testa em seu ombro. A posição era esquisita, devido à diferença de altura, mas confortável ao mesmo tempo. Castle deixou um longo suspiro escapar e a prendeu com mais força.
– Como você conseguiu? – Questionou, com a voz abafada pelos cabelos de Kate. Ela pode sentir sua respiração quente na pele, seu nariz roçando seu pescoço quando ele tentava se ajeitar. – Como superou a morte de alguém tão próximo?
Apenas a insinuação do assassinato de sua mãe despertou em Beckett um misto de medo, fúria e a mais profunda tristeza. Tudo que ela precisava naquela noite. Mas a pergunta era válida.
Kate se afastou de Castle com um sorriso compreensivo e a expressão de alguém que sentira aquela dor de uma forma muito mais profunda. De uma forma muito mais cruel.
– Acho que eu nunca te contei essa história, não é mesmo?
– Que história?
Nenhum dos dois sabia o que aquela visita significava. Beckett havia simplesmente tomado a decisão de ir até lá, sem ter ideia do que faria ao chegar. Castle não estava a esperando, mas suas palavras deram a ele a impressão de que aquela conversa seria mais comprida do que o esperado. Ele recuou no portal do loft, deixando que ela entrasse no apartamento.
– A história de como... – Ela reprimiu o sorriso um pouco tarde demais. – de como virei sua fã.
