Capítulo 13 - O Final Nem Sempre é Feliz


Beckett se utilizou da pausa dramática para observar a reação do escritor. Seu semblante antes triste se suavizou numa expressão de curiosidade quando ele fechou a porta. Kate desviou os olhos ao entrar, passando a analisar o esmalte claro que usava. Envergonhada, já sentindo as bochechas rubras, ela nem acreditava que estava fazendo aquilo. Castle continuou em pé a sua frente, esperando explicações.

O escritor tentava entender a ligação de um assunto com o outro, mas não via como.

– Não é exatamente uma história longa, mas... – Ela sorriu para os próprios pés e foi até o sofá, se sentando e sendo acompanhada pelo escritor. – eu realmente já lia seus livros quando te conheci. Todos eles. Tinha até um ou dois assinados - não que eu ache que você se lembre de ter assinado, mas eu me lembro de quando te encontrei pela primeira vez de fato.

– Desculpe, eu-

– Sshh, antes que eu perca a coragem. – Ela avisou, já consciente de que tudo que ela dissesse poderia e seria utilizada contra ela em tribunal. – Foi... Algum tempo depois da morte da minha mãe, eu não tinha superado - acho que você mais do que ninguém sabe que isso ainda não aconteceu.

"Quando esse tipo de coisa acontece você começa a se perguntar o porque. Porque as pessoas são tão cruéis, porque justamente a minha mãe e não outra pessoa e... Eu poderia ter procurado explicação em livros de psicologia criminal mas... Na ficção as coisas tendem a acabar de modo mais feliz. Eu estava numa daquelas livrarias pequenas do centro e vi que alguém tinha acabado de lançar um livro sobre o assunto. O nome me interessou, eu pensei "e porque não?". Entrei e comecei a ler as primeiras páginas. Eu nunca consegui parar. Acho que você me tem desde as primeiras palavras, Castle. Quer dizer, como fã, eu virei sua fã desde as primeiras palavras."

– Esqueça, detetive, essa frase não tem mais jeito. Continue. – Brincou ele.

– A questão é que quando eu comecei a ler percebi que a história me acalmava. A certeza de que, de um jeito ou de outro, o bandido se daria mal no final me tirava do desespero, do medo, da minha realidade. Afastava o pensamento do que eu mais temia, de algo que eu temo até hoje: e se, na minha história, o bandido simplesmente não for pego?

Kate fingiu não ter lágrimas nos olhos e ele fingiu não perceber. Normalmente ela não se importaria em lembrar-se de tudo aquilo, mas algo em finalmente contar para Richard o que ela evitava contar desde que se conheceram trouxe não apenas as lembranças, mas os sentimentos da época à tona.

– Então não me venha com gracinhas, sim, estou admitindo que você me ajudou a passar por cima de muita coisa. – Ela se sentou no sofá, chutou os saltos e cruzou as pernas, se aconchegando no estofado enquanto recebia um olhar confuso de Castle. – Creio que eu te devo essa. Nós vamos ou não vamos ver aquele filme?

Richard não teria palavras para colocar aquela situação num livro, caso fosse preciso. Naquela hora, ele só conseguiu sorrir. Sentou do lado de Beckett e pegou o controle remoto.

– Não se preocupe, Castle. Vamos caçar quem quer tenha matado Heather e colocar ele atrás das grades.

Pela primeira vez desde a noite anterior Beckett pode sustentar o olhar dele com o seu. Alguns segundos de seriedade até que...

– Eu realmente te ajudei assim, é? Quer dizer, eu sabia que eu era bom, mas-

– Castle! – Ela lhe deu um tapa no ombro.

– Hey, estou só brincando, calma.

Richard sabia que ela faria exatamente o que tinha dito, ou no mínimo colocaria toda sua coragem e esforço em cima daquela promessa. Tudo o que ele podia fazer em agradecimento era ter certeza de dar à história dela um final feliz.


– Não acho que Alexis esteja com problema algum, você esta vendo coisas, Castle. – Beckett saiu do elevador impressionada com a sensibilidade de Richard em relação à própria filha. Tudo que aquele homem tinha de infantil sumia no ar assim que o assunto mudava para a ela.

– Tem alguma coisa errada, detetive, eu posso sentir. Nada escapa o sexto sentido paterno.

– Não seria materno?

– Não acho que Meredith estaria sentindo isso se estivesse do lado dela, que dirá estando na Califórnia. – Ela apenas lhe lançou um olhar cético. – Estou dizendo, Kate. Ela não puxou o talento da mãe para o teatro, está escondendo alguma coisa.

– Você está se baseando no horário que ela acordou, ela é uma adolescente, adolescentes têm horários malucos. Acontece.

– Não foi apenas hoje, lembra-se de ontem? Além do mais, ela estava estranha quando cheguei em casa.

Beckett achou melhor não discutir, a filha não era dela. Talvez se fosse, ela teria percebido as quebras de padrão assim como ele, pensou. Os pais realmente pareciam ter um radar para esse tipo de coisa.

Assim que chegaram aos cubículos, Castle assumiu seu posto ao lado da mesa de Beckett, e a detetive seu lugar em frente aos papéis.

– Conversou com Gilly ontem, não foi?

– Sim, mas não foi de muita ajuda, acho que vou precisar falar com Cartwright mais cedo do que imaginei.

– Algo diferente...?

Beckett repassou a breve entrevista que fizera com a jovem atriz. O básico. "Ninguém nunca faria isso","Ela era um amor", "Estava tudo indo normalmente". Um assassinato acontecera. Na mente de Beckett isso anulava uma daquelas afirmações, talvez mais de uma, talvez todas elas.

– Aparentemente ela foi visitar os pais e perdera um ensaio, mas é a máximo que tenho, e não posso dizer que é muita coisa.

Castle se pegou preocupado com os pais da ex-namorada. Heather não faltaria a um ensaio por uma simples visita. Talvez ele ligasse para a mãe dela mais tarde, só para ter certeza.

Enquanto os dois se calaram para colocar pensamentos em ordem, Esposito se aproximara da mesa com o marcador do quadro branco em preto e alguns imãs em mãos.

– Será que as duas moças podem vir ajudar?

Era para terem começado a fazer aquilo antes, mas no mundo ninguém morria sem deixar muito trabalho para os outros. Com a cena do crime sendo o palco de um teatro, Beckett teve certeza de pedir que a equipe da perícia espalhasse pó em cada fresta visível e não visível. Um lugar grande, poucas testemunhas e muita gente possivelmente envolvida, aliados a uma morte extremamente violenta, fazia uma bagunça. Ela havia passado o último dia dando voltas na rua do teatro, bem como dentro dele, falando com pessoas que não haviam dado muitas pistas e detalhando aquilo tudo nos primeiros formulários do caso - sempre os mais chatos. Não sobrara muito tempo para montar o quadro.

Com as coisas desaceleradas no segundo dia, os dois detetives e Castle se entregaram àquela que era uma das tarefas mais legais da investigação toda. Como não havia muita informação, tudo estava pronto em menos de vinte minutos, e muito espaço ainda estava sobrando.

– Espo, enquanto eu estava com Flanders ontem você e Ryan estavam procurando por câmeras e alguma possível testemunha, não estavam? Acharam alguma coisa?

– Uma câmera na bilheteria e duas na entrada dos fundos, Ryan está trabalhando nelas. E Lanie ligou, ela quer ver você no necrotério ainda hoje. Aparentemente ela encontrou uma inconsistência. E os pais de Gillespie estão em NY, estarão aqui mais tarde.

Beckett achou melhor ir ao encontro da legista antes de conversar com os parentes da vítima. Gostava de ter algo para dizer, ao invés de somente fazer perguntas.

– Bom, eu vou no IML e volto assim que souber o que está acontecendo. Se alguém chegar antes de mim ou descobrir alguma coisa, me ligue.

Esposito afirmou com a cabeça, e voltou a encarar as fotos no quadro para se certificar de que nada ficara faltando. Beckett se virou e pegou o casaco, indo até o elevador e sendo seguida por Castle.

– Vai comigo?

– E alguma vez deixei de ir?

– Castle, tem certeza? Eu entendo se voc-

– Esta tudo bem, eu sou bem grandinho.


Lanie Parish parou em frente à porta bloqueando a entrada dos amigos à sala de autopsia.

– Castle, você tem certeza que-

– Eu já vi corpos antes, acho que sei me comportar. Vou precisar dizer isso pra todo mundo hoje?

Richard tentou dar um passo à frente, a legista não deixou que ele fosse adiante. Lanie lançou um olhar desacreditado para a amiga e Beckett chacoalhou os ombros, agindo com indiferença mesmo que um pouco preocupada. Os dois já tiveram aquela conversa.

– Eu disse, mas ele não é o tipo que recebe conselhos.

– É diferente quando é alguém que você conhece. – Avisou a médica. Ver um corte em V no peito de quem uma vez já esteve bem vivo ao seu lado era no mínimo traumatizante. A sensação era a de querer colocar ar nos pulmões da pessoa você mesmo. Pensando que em Heather o corte anatômico era o mais bonito em seu corpo, ela não queria arriscar reações exageradas. – E você me pareceu bem... mal, no teatro.

– Aquilo? Eu fui pego de surpresa.

Lanie suspirou. Não ia adiantar nada.

–Se você diz... Eu reduzi a hora da morte, colocando-a entre a uma e às três da manhã de ontem, algo que eu já tinha ideia, mas não completa certeza. – Disse, então, mudando o assunto para a razão de ambos estarem ali e levando os dois para onde o corpo de Heather Gillespie estava deitado. Os cabelos ruivos estranhamente escorridos, lisos demais, como ela sempre odiara; ainda mais lívida pela drenagem dos fluidos corporais e com o corte no pescoço parecendo um pouco menos horripilante. A falta do sangue e a impessoalidade das paredes brancas e das mesas de aço inoxidável transformavam a morte num objeto de estudo. – Quando chegamos à cena do crime eu sabia que alguma coisa não estava certa, mas não conseguia perceber o que, e apesar de os exames toxicológicos ainda estarem no laboratório, eu creio que a causa da morte de Heather seja-

– Me deixa tentar adivinhar... – Ironizou o escritor.

– Faça isso e aposto vinte pratas que você erra. – Brincou Beckett. – Deixe ela continuar, Castle.

– Assim como qualquer um que olhe, eu pensei o óbvio. Mas antes mesmo de começar o exame descobri que a CDM não podia ter sido hemorragia.

Beckett entendeu instantaneamente do que a legista falava.

– Porque não havia respingos!

Lanie assentiu em concordância, mas Richard parecia confuso.

– Como assim?

– Era o que estava me incomodando no teatro... Quando alguma artéria muito grande é rompida, principalmente as do pescoço, a pressão do sangue faz com que ele espirre por toda a cena do crime. – Explicou Lanie.

– No melhor estilo Hollywood? – Questionou Castle, como uma criança.

– Não vou dizer que Sweeney Todd acerta os detalhes, mas sim, pode ser bem Hollywoodiano. Geralmente, cena e assassino, ambos saem bem manchados de sangue.

– E na cena de Gillespie só havia uma enorme poça.

– Ou seja, a ferida é post-mortem. – Disse ele, completando o raciocínio que as outras duas já tinham feito.

– Não acredito que não saiba disso, você já matou um ou dois com cortes bem grandes, as mortes estavam bem corretas...

Castle chacoalhou os ombros.

– Estava me baseando em Grand Theft Auto.

Beckett rolou os olhos. Saber como ele escrevia algumas cenas tirava toda a magia da coisa, mesmo sabendo que ele provavelmente estava brincando.

– Você disse que tinha uma ideia sobre o que poderia ser realmente a causa da morte. – Perguntou a detetive para a amiga.

– Me recuso a dizer com certeza depois dessa pequena surpresa, então vou esperar o laboratório antes de preencher os formulários; mas parece ter sido asfixia.

Beckett tentava colocar as informações em ordem. Asfixia indicava um crime passional, enquanto a hemorragia era um indicador de premeditação. A detetive tinha que escolher um dos dois para que a investigação continuasse num curso linear, e embora a ordem dos acontecimentos a induzia a pensar que a asfixia era o fato principal ela não conseguiria ignorar o outro ferimento.

– Se ela já estava morta, porque fazer uma bagunça tão grande? – Questionou Beckett.

– Isso é algo que eu não vou conseguir te responder. – Respondeu a legista, e continuou:

– Mas talvez isso possa ajudar... O corte no pescoço é realmente limpo, como eu afirmei no teatro. – Ela virou a cabeça de Heather para a esquerda para que os dois pudessem ver o lado direito do pescoço mais claramente e posicionou a lupa na borda do corte. – mas veem essas pequenas feridas? Elas acontecem quando alguém muda uma faca afiada de lugar.

Como escritor, Castle estava completamente perdido. A cena não fazia sentido. Alguém havia entrado no teatro e enforcado a atriz para depois cortar sua garganta... Com que propósito? Certificar-se da morte? Além do mais, as marcas no começo do corte indicavam hesitação, o que colocava de lado – mas não descartava – a ideia de crime planejado.

– Vocês dois estão com caras estranhas, qual o problema?

– Não faz sentido. – Disseram os dois, em coro.

– Assassinatos são assim mesmo. – Comentou Lanie. – Daqui a pouco alguém encontra alguma coisa e tudo se encaixa. Além do mais, vocês já resolveram casos mais estranhos, nada escapa de vocês dois.

Castle dirigiu um sorriso brilhante à Beckett, que respondeu balançando a cabeça.

– Continue fazendo isso, Lanie, e eu vou emprestar um certo escritor a um certa legista, para ela ver com que tipo de egocentrismo eu tenho que lidar todo dia.

– Não jogue seus problemas em cima de mim, querida, eu tenho o suficiente. – Lanie apontou para a outra mesa de autopsia na sala, onde um saco preto a aguardava.

Será que elas sabem que eu posso ouvir?, perguntou-se Castle.

– Bom, não vou te segurar por mais tempo, obrigada pela ajuda Lanie. Se algo interessante surgir no toxicológico me ligue, ok? – Avisou a detetive, antes de dar um passo para trás e deixar de atrapalhar o trabalho da amiga.

Ao sair do IML, indo em direção ao carro Beckett não conseguiu se segurar:

– Você... está bem...? – Questionou, com cautela.

Castle não gostava da forma como ela o tratava como uma criança às vezes, mas admitiu que a preocupação era genuína.

– Sim, estou. Mas é estranho, muito estranho, Lanie quase tinha razão. Vou sentir falta dela. – Respondeu, com um suspiro. – Não vai adiantar nada lamentar perdas, o que posso fazer agora é te ajudar a descobrir o que aconteceu.

Beckett sabia que Castle não era o tipo que tratava a morte como uma tragédia Shakespeariana, algo notável, uma característica de poucos.

– Ok, então. – Foi o que conseguiu dizer.

Beckett segurou a língua e engoliu a curiosidade, fazendo o possível para não perguntar à Castle qual exatamente era a natureza de seu relacionamento com Heather. Não teria que esperar muito tempo para descobrir. A resposta surgiria naturalmente dele, ou, na pior das hipóteses, num interrogatório formal.