Milo acabara de chegar de uma missão da qual havia sido enviado. Resolvera tão rápido quanto pôde. Tinha a intenção de chegar a tempo para assistir o torneio e a consagração da armadura de pegasus. Tinha certeza que não havia perdido grande coisa, mas desejava prestigiar aquela que um dia chegou a chamar de amiga. Sempre gostara dos momentos que passavam juntos, discutindo algumas amenidades enquanto treinavam, ao apenas descansavam à sombra de alguma árvore. Eis que algo chama sua atenção:
- Você só pode estar brincando.
- Não estou não. Fiquei sabendo que ela pretendia impedir aquele garoto de partir do santuário.
- Mas o número de soldados não representaria muita coisa. Ela sim, e com certeza teria impedido ele de sair.
- Não se no meio da luta sua máscara estivesse caído.
- Você é tonto ou o que? As amazonas nunca deixam sua máscara cair. Pode ser a luta que for, o rosto delas ficam sempre protegidos.
- Eu vi a máscara partida ao meio. Não sei como, mas Seiya foi capaz de realizar tal proeza.
- Você tem certeza que essa máscara que você viu não é de uma amazona de nível inferior? Estamos falando de uma amazona de prata. Poderia até ser que isso acontecesse com aquela que foi a mestra de Seiya, Marin que é uma estrangeira como ele. Mas estamos falando da Shina, a poderosa e autoritária amazona de cobra.
- O QUE? Como ousam espalhar tal difama?
- Cavaleiro de ouro de escorpião?
- Estão ai difamando uma amazona de prata e ainda não demonstra o devido respeito diante de um cavaleiro da mais alta posição. Definitivamente merecem uma lição para que nunca mais cometam tais erros.
- Perdoe-nos, Mestre Milo. Não tínhamos intenção de...
Milo acertou duas agulhas escarlates em cada um. Se eles morressem com apenas duas delas mostraria que não eram dignos dos postos que levaram anos para alcançar. Se sobrevivessem, pensariam duas vezes antes de caluniar aos quatro ventos.
- Essa é uma punição justa para quem difama uma amazona de prata e também para quem não mostra o devido respeito aos seus superiores.
Deixando os dois soldados agonizando para trás seguiu o rumo da escadaria, detendo-se a alguns passos dados. Olhou para trás, vendo que rapidamente alguns soldados retirava os dois feridos. "Seria mesmo verdade eles estavam dizendo? Não, isso é impossível. Eu pude ver o duro treinamento que Shina aplicava a seu discípulo. Jamais aquele garoto franzino seria capaz de conseguir vencer Cassius." Mais uma vez deu um passo a frente, detendo-se logo a seguir. Sua mente estava com muitas duvidas. Sentia sua cabeça ferver só com a idéia de que alguém pudesse ter visto o rosto de Shina. Só de pensar nisso, dava vontade de ir até a casa dela e arrancar aquela máscara que por tantas vezes chegou a cogitar tirar durante os treinos escondidos. Nunca o fizera, e isso às vezes o deixava sem dormir direito. Quantas e quantas noites tivera que sair do santuário para tentar apagar aquele fogo que o consumia? Perdera a conta. Mas sempre teve a certeza de uma coisa: as mulheres que compartilharam seu leito nessas noites insones nunca conseguiam fazer aquela sensação que o consumia abandonar seu corpo de vez. Dando meia volta, correu até a vila das amazonas sem se importar com os protestos das amazonas que encontrava no caminho. Bem à frente de uma casa, estava Cassius, com uma bandagem exatamente onde ficava a orelha esquerda. Aquela definitivamente deveria ser a casa de Shina. E pelo olhar tristonho de Cassius, algo parecia ter acontecido. Mais uma vez Milo sentiu algo estranho percorrer seu corpo. Continuou com passos decididos, sendo apenas parado pelo discípulo de Shina que abria os braços querendo mostrar que a passagem não era permitida. Milo viu quando a cesta que Cassius carregava caiu no chão, revelando o que continha. Frutas, pão, e uma garrafa de leite que se espatifou no chão quebrando-se em vários pedacinhos.
- Essa é uma área restrita. Não pode entrar aqui.
Milo continuou olhando para aqueles alimentos caídos no chão. Seu sangue já começava a ferver. Sem pensar duas vezes, empurrou Cassius que foi imediatamente arremessado contra a porta da casa, arrombando-a, e assustando a mulher que estava sentada na cama.
- Posso saber o que significa isso, cavaleiro de escorpião?
- Só quando estivermos a sós. – pegou Cassius pelo braço, fazendo-o levantar-se, e o jogou para fora da casa – Se não quiser levar algumas agulhas escarlates suma da minha frente.
- Agora dá pra explicar, Escorpião?
Shina perguntou querendo demonstrar sarcástica, mas na verdade sua voz parecia um pouco triste. Nunca em sua vida conseguiu imaginar aquela amazona falar assim. Aquilo fez seu semblante aliviar um pouco a tensão que vinha sentindo:
- Está machucada? –sua voz soou tão preocupada que deixou Shina sem ação por alguns segundos.
Essa falta de ação inicial logo se desfez e conseguiu acordar para uma questão. Se Milo estava ali fazendo tal pergunta seria porque certamente ficou sabendo que lutou contra Seiya. O que mais ele estaria sabendo? Nada. Sim, nada. Ninguém viu quando ela seguiu por caminhos obscurecidos pela falta de uma boa iluminação até a sua casa. Mas o fato de achar que um cavaleiro de bronze fosse capaz de feri-la a deixou irritada. Era como se ele estivesse a menosprezando por ser uma mulher.
- Por que haveria de estar? – dessa vez conseguiu usar um tom de voz mais condizente com sua verdadeira natureza.
- É verdade que um aspirante à armadura de bronze viu seu rosto?
- Quem te contou isso? – Shina não conseguia conter o nervosismo. Quantas pessoas estariam sabendo desse infeliz incidente?
- Então é mesmo verdade... – Shina ficou surpresa com o tom de voz de Milo. Era como se tivesse perdido alguma coisa. De repente, o semblante dele mudou, e seu tom de voz também - Como pôde mostrar seu rosto para um garoto que além de tudo é um estrangeiro?
- Como ousa invadir a minha casa e levantar acusações infundadas?
- Vai negar que voltou para sua casa sem a máscara? Peguei dois soldados discutindo o fato de um simples aspirante à armadura de bronze ter sido capaz de retirar sua máscara.
- Seiya não retirou minha máscara. – defendeu-se – Ela se partiu ao meio depois dos golpes que desferiu contra mim.
- Acha mesmo que acreditarei que Shina, a mais forte e confiante amazona do santuário fosse desmascarada literalmente por um acidente se isso nunca aconteceu em nossos treinos? O que pensa que sou, um tolo?
- Acredite no que quiser, Escorpião. O que faço da minha vida não lhe diz respeito. E agora pode sumir da minha frente, pois não temos mais nada a falar. – viu que Milo saiu um tanto relutante de sua casa, e com um longo suspiro sussurrou como que para si mesma - Nunca tivemos, nem nunca teremos.
Desse dia em diante, os dois mal se encontravam, como se estivessem se evitando. E só podia ser isso mesmo. Afinal, Shina evitou usar a área da arena onde Milo geralmente gostava de treinar. Mas isso nem foi necessário, pois Milo procurava treinar bem longe da arena, onde podia usar o tanto de cosmos que quisesse sem ter que se preocupar com acidentes.
Passaram-se vários dias. Os habitantes do santuário estavam agitados com os rumores vindos do oriente. Alguns até comentavam que não só uma quantidade de cavaleiros de bronze, como também cavaleiros de prata haviam deixado o santuário para realizar uma missão e até então não haviam retornado.
Milo fora convocado pelo grande mestre assim que retornou de uma missão de pouca importância. Mas ao saber qual seria sua próxima, ficou desgostoso chegando até a preferir outra missão como a que acabara de retornar.
- Mas grande mestre, o que me pede fere a honra de qualquer cavaleiro de ouro. É o mesmo que mandar um leão matar algumas miseras formigas. Eu me recuso a aceitar tal missão.
- Basta Milo de escorpião. Você não pode ir contra minhas ordens. Já me basta Shina ter partido para o oriente sem minha permissão.
- Shina, aquela amazona?! – Milo nem estava mais dando atenção ao que o grande mestre estava dizendo. "Está tão preocupada assim com aquele garoto que foi capaz de ir atrás dele sem o consentimento do mestre, Shina? O que fará a seguir se ambos forem condenados pelo santuário? Sua tola!! Não percebe a encrenca em que está se metendo se voltando contra o santuário? Se eu tivesse... Não! Devo esquecer essa idéia."
- O que você faria se eu dissesse que prefiro que Milo realize tal missão e não você?
- Então eu o derrotaria agora mesmo.
- O que foi que você disse? – Milo que havia acordado para o dialogo com aquela ameaça de Aioria estava pasmo. E ficou mais pasmo ainda quando escutou o que o grande mestre decidiu.
- Ordeno que vá você, Aioria de leão. Acabe com aqueles cinco cavaleiros de bronze que ousaram desafiar o santuário e Athena.
- Em breve receberá noticia que tanto espera já que os inúteis dos cavaleiros de prata não se mostraram capazes.
Milo observava um tanto pensativo o outro cavaleiro que deixava o salão. Voltando para o grande mestre ajoelhou-se inquirindo:
- Mestre, por favor, me explique porque deixar o irmão daquele que traiu o santuário realizar tal missão? Ele poderá se juntar a aqueles garotos de bronze com intenção de destruir o santuário. Então por que mandar ele que tem o mesmo sangue do traidor?
- Esse é mais um motivo, Milo, que devo permitir que ele vá em seu lugar. Por ter o sangue do traidor correndo em suas veias, e depois de ter sofrido pelos atos inconseqüentes do irmão tudo o que ele deseja é limpar o nome de sua família. Aioria trará a armadura de ouro de sagitário como prova de sua lealdade ao santuário e a Athena.
- Agora entendo porque ele é o mais indicado para essa tarefa.
- No entanto, existe a possibilidade de você estar certo. Será melhor enviar alguns cavaleiros de prata para segui-lo de perto.
Milo arregalou os olhos. Agora as coisas iriam se complicar para o lado da amazona de cobra. "Shina, agora não há mais nada que eu possa fazer por você. Espero que não tenha se envolvido com aquele cavaleiro de bronze, pois se o grande mestre estiver certo quanto a Aioria, não terá misericórdia nenhuma"
Tempos depois Milo soube do retorno de Aioria, que trouxe Shina desfalecida em seus braços. Seu coração clamava para que fosse até ela para saber como estava, no entanto seu orgulho ferido era mais forte. Decidiu que não deveria procurá-la. Com certeza estaria sendo bem cuidada por aquele discípulo dela. Pelo menos pra isso ele deveria servir. Mas esse pensamento não o deixou tranqüilo por muito tempo. E se Cassius se aproveitasse da fragilidade que se encontrava seu estado de saúde? Não interessa, atinava seu orgulho. Fora a própria Shina que havia lhe dito que sua vida não lhe dizia respeito e mandou-o embora como se fosse um qualquer. Vai deixar que outro veja o rosto dela? E se ele fizer mais do que ver seu rosto?, era a outra voz de sua consciência protestando contra seu lado orgulhoso. Não querer se meter na vida da amazona de cobra era uma coisa, mas daí a ter uma possibilidade de alguém inescrupuloso se aproveitar de Shina era outra coisa totalmente diferente. Indo contra seu orgulho, foi na calada da noite até a casa da amazona, camuflando seu cosmo para que ninguém soubesse que esteve lá.
- Deixe-me ver este termômetro. Hmm, parece que sua febre cedeu um pouco. Mas deve continuar em repouso.
- Não! Tenho muita coisa para fazer, Cassius.
- Sempre cuidou de mim quando precisei, Mestra. Deixe-me retribuir, por favor. Trouxe uma comida bem leve. Se continuar em repouso e se alimentando bem logo poderá reassumir suas funções.
Shina resmungou algo incompreensível tomando o prato das mãos de Cassius.
Milo procurou um bom ângulo para poder ver o que estava acontecendo ali dentro com um pensamento: "É agora que ele vai olhar para o rosto dela". Ao contrario do que pensou, Cassius rapidamente se virou de costas tapando os olhos com as palmas de suas mãos. Infelizmente o local que Cassius resolveu fazer isso lhe tirava a visão de onde Shina estava. Então mais uma vez tentou encontrar um ângulo melhor, e acabou fazendo um pequeno barulho. Sua mente praguejava enquanto seus ouvidos escutavam a amazona e seu discípulo perguntando quem estava ali. Se não fosse pelo domínio da velocidade da luz que adquiriu com muito treinamento com certeza seria descoberto por Cassius que procurava pelas redondezas. Depois desse pequeno susto, Milo disse para si mesmo: "Sou um idiota por ficar me preocupando com aquela amazona. Essa foi a ultima vez que me preocupei com ela."
Logo foi enviado para a ilha de Andrômeda para uma tarefa que se demonstrou um pouco difícil, mas não impossível. Albiore foi um bom oponente. Mal pôde acreditar que um cavaleiro de prata fosse capaz de conseguir causar-lhe leves ferimentos. Nada disso importava, pois cinco garotos de bronze e uma garota que se dizia ser Athena estavam invadindo o santuário. Aquilo sim Milo considerava inacreditável. Como cinco garotos e uma garota poderiam ser tão arrogantes em achar que conseguiriam derrubar o grande mestre e o santuário com todos aqueles cavaleiros de ouro? Mais inacreditável ainda foi ver seu amigo Kamus indo para o sétimo templo para esperar o discípulo de seu discípulo. Chegou a pensar que ele estaria sofrendo muito com o calor da Grécia, e por isso não estava em sue juízo perfeito. Logo depois sua teoria se mostrou incorreta. Os cavaleiros de bronze conseguiram passar por Áries sem a menor dificuldade. Mas isso não era tão improvável, já que o cavaleiro da primeira casa nunca atendia a um chamado do santuário. Passaram por touro, gêmeos, Câncer o que resultou na morte de seu guardião. Provavelmente Máscara da Morte havia sido confiante demais. É, aquele lá teve o que merecia. Passaram por leão, que não se podia dizer ser um cavaleiro leal ao santuário já que tinha o sangue do traidor. Ficou surpreso quando conseguiram passar por Virgem. Aquele sim era um oponente capaz de dar um pouco de trabalho. Sua surpresa maior foi ver o cavaleiro de bronze que havia sido preso na esquife de Kamus passar por sua casa após ter recebido tantas de suas agulhas escarlates e ainda derrotar o cavaleiro de aquário. Depois disso, apenas ficou observando de longe até onde eles conseguiriam chegar. Depois de tudo isso, acreditou que a jovem que se dizia ser Athena era realmente a deusa daquele santuário. Saga disfarçado em grande mestre logo foi deposto daquele cargo, se matando assim que Athena o fez ver seus crimes.
A paz não durou muito tempo. Mais uma feroz batalha foi travada. Dessa vez foi em Asgard, um lugar tão frio quanto a Sibéria. Pensar em lugares frios sempre traziam boas lembranças do tempo em que Kamus voltava para o santuário. Mas não queria pensar nisso naquela hora. Se aqueles cavaleiros de bronze falhassem, deveria ir a Asgard e salvar Athena. Aquela batalha terminou de uma forma um tanto estranha. Athena simplesmente desapareceu na frente dos cavaleiros de bronze. Tudo indicava que o autor desse seqüestro seria o Poseidon. E mais uma batalha foi travada. Desejava fazer o mesmo que o cavaleiro de leão tinha dito: ir para o reino dos mares. Contudo, o cavaleiro de Áries que seria obrigado a matar quem quer que tente ir. Não se sentiu intimidado com aquela ameaça, contudo, sabia que não devia ir sem receber permissão para sair do santuário. Talvez o mestre ancião tenha proibido que saíssem do santuário por causa da grande perda de sangue que se submeteram para reviver a armadura daqueles cavaleiros de bronze. Ou talvez estivesse se aproximando uma batalha mais feroz que as anteriores. Apenas o que restou para os cavaleiros de ouro foi uma longa espera. O que deixou o cavaleiro de escorpião mais irritado é saber que aquela amazona mais uma vez partiu do santuário sem receber permissão para isso. Ela devia estar tentando ajudar aquela pra quem mostrou seu rosto. Não! Havia prometido pra si mesmo que nunca mais pensaria naquela amazona.
Continua...
Creio que só haverá mais dois capitulos e acaba. Obrigada a todos que leram e tambem aqueles que comentaram.
Até o próximo capitulo.
