- Pela milésima vez, Shina: você não está em condições físicas para ir trabalhar naquela loja, e mesmo que estivesse em condições o Shopping está interditado por causa da estrutura que ficou abalada.
- Isso é o que você diz. Meu chefe não aceitará que sua loja fique com as portas fechadas em pleno período natalino. E se eu não aparecer lá serei demitida.
- Quem se importa com um trabalho medíocre como aquele? Pelos deuses Shina, você era uma amazona de Athena. Tem mais qualificações que muitas garotas da sua idade. Não era para trabalhar como...
- É mesmo, Escorpião? Diga-me qual seria a qualificação profissional que eu tenho. Ah, já sei! Ser estivadora, fazendo trabalhos braçais. É isso o que você iria dizer?
- Bem eu... – começou Milo sem jeito.
- As amazonas não aprendem nada alem de fortalecer o corpo e o cosmo, e mesmo que aprendessem algo mais, não poderia fazer proveito dessa experiência como vocês cavaleiros de ouro, que tem passe livre pra fazer o que bem entender.
- Você está exagerando, Shina. Não somos tão desocupados como sempre disse. Treinamos, saímos em missões e...
- Estou pouco me lixando com o que vocês fazem ou deixem de fazer. – atalhou a amazona rispidamente – Tudo o que quero é voltar pra meu trabalho e minha vida.
- Já disse que não poderá trabalhar hoje nem amanha, sua amazona teimosa. Será que não percebe que você agora não passa de uma... – Milo se conteve ao perceber o que iria dizer e pelo tom rude que havia usado naquele instante.
- Não passo de uma mulher frágil. – Shina completou por ele sentindo-se humilhada com aquelas palavras que ele não concluiu mas que certamente teria dito se não tivesse levado em conta seu estado. Já havia percebido isso de outras pessoas que a tratavam com um zelo exagerado por se tratar de uma mulher grávida. O problema maior era que quem a estava tratando assim era Milo, e isso a magoou muito mesmo ele tendo se interrompido. Ele não era de se calar quando tinha algo a dizer. Só havia feito isso porque estava grávida.
- Eu não...
- Posso saber o que está acontecendo aqui, senhor? Eu disse que ela não poderia se alterar emocionalmente. Você está gritando dentro de um quarto de hospital. Deseja que ela perca essa criança? Porque é isso que acontecerá se ela não receber os devidos cuidados. – o medico ralhou. Virando-se com uma expressão um pouco mais serena para Shina perguntou – Está se sentindo melhor, minha jovem?
- Meu bebê... – Shina tocou o ventre instantaneamente, como se tentasse protege-lo de algum perigo e perguntou quase sem voz – Ele está bem, doutor?
- Infelizmente a situação de seu bebê é séria. Se não repousar durante o restante da gestação, nem se alimentar corretamente perderá essa criança. – o medico percebeu o olhar desolado de Shina – Tem mesmo certeza que não há nenhum familiar? Uma prima ou uma tia distante?
- Não senhor. Não tenho nenhum familiar vivo.
- E o pai da criança? Se você revelar o que está acontecendo com o bebê ele poderia...
- Não! – foi a primeira vez que Milo e o medico ouviram a voz dela negar com veemência interrompendo o medico antes mesmo que tentasse argumentar sobre a possibilidade do pai se apiedar de seu estado de saúde. – Posso dar um jeito de ficar sem trabalhar e cuidar de mim mesma.
- Você ainda não entendeu, minha jovem. Você não deve ficar em hipótese nenhuma sozinha.
- Ela não ficará sozinha, eu garanto. – olhando seriamente para o doutor, tentando assim evitar olhar para Shina anunciou em tom que não aceitava recusa – Eu cuidarei dela.
Shina ficou sem palavras. Nunca havia ouvido o cavaleiro da oitava casa falar naquele tom. Parecia um senhor feudal impondo sua autoridade sem que ninguém pudesse contrariar sua vontade. Teve certeza que o medico não iria contra o que ele havia imperiosamente dito. O fato se comprovou com as palavras que o medico disse a seguir:
- Não se esqueça que ela deve se alimentar adequadamente, repousar o máximo possível, tomar o suplemento vitamínico todos os dias e consultar-se com um ginecologista. De preferência um que atue também na área da obstetrícia. Vou preparar os documentos necessários para liberá-la. – o medico já estava chegando na porta quando se lembrou de uma coisa – Nada de aborrecimentos e beber bastante líquido.
- Ouviu o doutor. Nada de aborrecimentos. – Milo disse a Shina no momento que ela abriu a boca como se quisesse protestar – Vou sair um pouco do quarto, assim terá privacidade para trocar de roupa. Estarei logo aqui do lado de fora caso precise de mim.
Milo saiu e Shina se deu conta de como estava vestida. Sentiu seu rosto corar. Aquela camisola era muito larga e fina. Será que ele havia visto seu corpo? Não interessa. Não estava corada por causa disso, dizia para si mesma. Estava irritada, essa era a verdade que ela se propunha acreditar. Milo não tinha direitos em mandar nela. Nunca teve. Quem ele pensava que era para agir assim com ela? Não importa. Quando se visse livre do medico e do hospital daria um belo chute no traseiro de Milo. Jamais aceitaria que ele ficasse em sua casa, nem muito menos aceitaria seus mandos e desmandos. Sim, mandaria ele embora na primeira oportunidade.
Milo recebeu algumas prescrições medicas e ficou aguardando a chegada do táxi com alguns papeis que o medico havia lhe dado. Shina esperou até o medico voltar para o hospital e quando ele o fez, ela virou-se para Milo dizendo:
- Agora que sai do hospital pode voltar para o santuário. - Milo nada disse e também não se moveu – Não escutou o que eu disse? Pode voltar para o santuário ou para qualquer lugar que pretende ir.
- E eu disse que cuidaria do seu bem estar.
A ex-amazona suspirou exasperada. Aquela situação já tinha durado mais tempo que desejava. Finalmente o táxi chegou. Ela arrancou os papeis da mão de Milo e entrou no táxi rapidamente, ordenando ao motorista seguisse em frente. Todavia, o carro parecia que não saia do lugar. Shina reclamou com o pobre do motorista que não entendia o motivo do carro não seguir o caminho, afinal de contas estava indicando que estava a 100 km. Então Shina olhou para trás e viu Milo exibindo um largo sorriso. Só podia ser ele mesmo. Pediu para o motorista desligar o carro que iria sair. Quando ele o fez e Shina saiu, o motorista ligou o carro novamente e foi embora cismado.
- Você não mudou em nada, Escorpião. Continua com suas brincadeiras idiotas.
- Engraçado, eu ia dizer que você também não mudou em nada. Continua teimosa. Eu já disse que ficarei com você por uns tempos e é o que farei.
- Como assim por uns tempos?
- Só até você se sentir melhor e um medico de verdade dizer que não precisa de ninguém bancando sua babá. – murmurou a seguir pensando que ela não escutaria – Certamente algo que não desejo ser por muito tempo.
No intimo de Shina aquelas palavras a feriram profundamente. O que havia acontecido entre eles há certo tempo atrás realmente não havia significado nada pra ele. E por que significaria algo para uma pessoa como ele? Milo era um homem que gostava de colecionar mulheres. Tudo o que importava pra ele era sempre ter uma diversidade de mulheres em seu leito. Jamais ele a veria como a mulher que preencheria sua vida e sua cama. Não. Gritou em seu intimo. Não queria desempenhar esse papel na vida dele, e nem na vida de nenhum homem. Só havia se perdido nesse tipo de pensamento porque estava sofrendo de stress aliado das grandes mudanças hormonais provenientes da gravidez. Ela jamais pensaria de forma tão sentimental se não estivesse naquela situação. Sim, é isso. Jamais deixaria de ser aquela Shina que todos haviam conhecido. Poderia não ser mais a amazona de cobra, no entanto ainda tinha a mesma fibra de outrora.
- Qual é o endereço que o motorista deve nos levar, Shina?
Então a ex-amazona de prata despertou de seu devaneio e percebeu onde se encontrava. Como havia parado ali, sentada ao banco traseiro de um Táxi? Perderia novamente em seus devaneios se o motorista não parecesse um pouco impaciente e se ela não estivesse sentindo-se tão cansada. Como um autômato, respondeu a ele e o carro foi colocado em movimento. Quinze minutos depois já se encontravam em frente ao humilde bloco de pequenos apartamentos instalados numa parte esquisita da cidade. Quando olhou para o rosto de Milo pode perceber que este olhava com um olhar indecifrável que certamente devia dizer: "Como você decaiu, ex-amazona. Esse lugar não se pode ser chamado de casa e sim de espelunca." No entanto ele nada disse. Seguiu com ela pela escadaria de corrimão ensebado de sujeira. Até as paredes pareciam que tinham sido pintadas a dedos sujos de lama. Shina pegou a chave do apartamento que estava no bolso de sua roupa com todo cuidado para não fazer barulho. Colocou cuidadosamente no buraco da porta e girou:
- Está tentando entrar furtiva em seu apartamento para não ter que me pagar o aluguel atrasado, Shina?
- Eu vou lhe pagar amanha, sr. Katcipes . Houve um atentado no shopping e...
- Estou pouco me lixando pro que aconteceu no seu trabalho. Eu quero receber o pagamento ainda hoje ou então...
- Ou então o quê? Não tem vergonha de ameaçar uma mulher nesse estado?
- Ah, o macho dela agora resolveu defende-la. – o homem disse com ironia evidente – Ou seria um serviço extra que está trazendo pra casa? Eu não quero esse tipo de...
Milo o segurou pela gola da camisa erguendo-o do chão e encostando ele contra a parede. Shina pretendia protestar, mas Milo ordenou que ela entrasse e pegasse seus pertences.
- Agora escute bem. Essa senhorita é uma amiga minha de muitos anos.
- Amiga hein? – o homem parecia acostumado a atos violentos como aquele por isso não se intimidou com o fato de Milo ser mais alto, mais forte e ameaçá-lo com o olhar.
- Ela é uma grande amiga minha, e sugiro que a chame de senhorita. – Milo soltou uma das mãos e socou a parede ao lado do homem que ainda estava erguido do chão – Imagine esse buraco bem no meio de seu estomago. Será assim que ficará se não respeita-la quando estivermos saindo dessa espelunca.
O homem começou a tremer, pedindo perdão. Milo o soltou e pode ver que a calça dele estava toda molhada. O homem continuou pedindo perdão e se rastejando atrás do cavaleiro. Milo entrou batendo a porta na cara do homem. Olhando para o pequeno apartamento sentiu-se penalizado com a situação de Shina. Só tinha um banheiro minúsculo uma sala que servia de quarto e uma cozinha que parecia ser do mesmo tamanho do banheiro. Como ela pretendia criar o filho ali? Mal tinha espaço pra ela. Crianças precisavam de espaço para brincar e se desenvolver. Ao se deparar com o olhar da amazona teve uma indubitável certeza: ela se sentia mais humilhada agora do que quando estava na frente daquele homem que cobrara o aluguel.
Milo a levou para uma humilde, porém aconchegante casa longe do centro da cidade. De onde estavam dava para ver a certa distancia alguma colunas da entrada do santuário.
- Você mora aqui?
- Não definitivamente. Continuo morando no santuário embora às vezes precise ficar nesta pequena casa.
- Esse é o privilégio de ser um cavaleiro de ouro.
- Sempre teve um péssimo conceito sobre o que é ser um cavaleiro de ouro né, Shina? Que se dane. Não gastarei meu tempo explicando algo que você já deveria saber. – sem olhar para Shina – Subindo as escadas há um quarto à esquerda. É todo seu. Tenho que sair para resolver umas coisas.
Já no quarto Shina procura acomodar suas roupas dentro de um guarda-roupas cheio de roupas masculinas. Aquelas roupas não pareciam ser de Milo. De quem seria? Talvez fossem disfarces para todo tipo de missão que recebesse. Então ela se deparou com algumas cartas guardadas dentro de uma caixa. Seria de alguma das tantas amantes de Milo? Não queria nem chegar perto, nem muito menos ler o nome do remetente. Mas a curiosidade era maior que sua força de vontade naquele momento. Pegou todos e foi lendo o nome de um a um. Quem havia mandado aquelas cartas tinha sido Milo. No verso da carta estava o nome do destinatário e o local onde se encontrava. Milo havia mandado todas aquelas cartas para Kamus quando ele estava na Sibéria. Não sabia que os dois eram tão próximos. Uma foto presa ao espelho da porta do armário chamou sua atenção. Milo e Kamus deviam ter por volta de 10 anos. Quando tentou tocar na foto, esta caiu. Shina pegou para colocá-la no lugar onde estava e pôde ver que havia algo escrito no verso:
"Espero que toda vez que olhar para esta foto se lembre do dia em que o grande Milo, cavaleiro de ouro de escorpião conseguiu convencer o senhor certinho cavaleiro de ouro de aquário a sair um pouco da linha e fugir para a vila.
De seu grande amigo, Milo."
Shina sorriu. Tanto Milo como Kamus ainda não eram cavaleiros de ouro naquela idade, no entanto Milo sempre insistia em se proclamar que era o cavaleiro de escorpião e até estendia o titulo de cavaleiro de ouro a Kamus. Lembrava-se bem de uma ocasião que Milo havia insistido nisso e Kamus comedido como era havia dito: "Não está certo afirmar isso, Milo. Sei que devemos ser confiantes, mas sem exageros". Já havia observado o futuro cavaleiro de aquário quando ainda era um simples aprendiz de amazona, e nunca tinha ouvido ele falar mais que duas palavras com seus outros companheiros de treinamento, mas quando estava perto de Milo as conversas fluíam naturalmente. Uma ou outra vez Kamus chamava Milo de tolo, mas este nem ligava, apenas sorria. Definitivamente os dois eram grandes amigos. Assim como ela e Milo haviam sido um dia. Quando eram ainda crianças, os dois se davam bem por serem tão parecidos na forma de agir e até mesmo de falar. A mudança de comportamento veio depois, quando ambos já tinham conseguido seu lugar fixo naquele santuário. Se Milo não fosse tão... Shina meneou sua cabeça, tentando dissipar aquele pensamento que não levava a lugar algum.
Deitou-se na cama para descansar um pouco as pernas e pensar um pouco sobre o que deveria fazer. Graças a Milo, que fez toda aquela confusão com o sr. Katcipes. Não teria mais como morar ali. Ia ser difícil achar um lugar no mesmo valor daquele. Por pior que fosse aquele chiqueiro de porcos, era o único lugar que poderia pagar com o pouco dinheiro que recebia e sobrar uma ninharia com a qual contava comprar as roupas do bebê. Seus planos teriam agora que se voltar numa solução para seu problema atual. Como conseguir outro emprego e uma casa para morar? Sim, teria que fazer isso o mais rápido possível. Não iria aguentar ficar com Milo nem mais um minuto. Ele certamente estaria rindo dela neste exato momento. Maldito Milo! Maldito seja o dia que o conheceu! E maldito seja o dia em que... não ele não tinha nada haver com ela. Não pensaria mais nele. Deveria pensar em como sair daquela encrenca, e logo. Mas logo se pegou pensando em Kamus e Milo. Os dois se conheciam desde pequenos. Será que Kamus teve conhecimento da antiga amizade dela e Milo? Droga, estou novamente pensando naquele idiota. Pensou ela tentando focar suas idéias novamente na solução de seu problema atual: livrar-se dele e conseguir um meio de se manter sozinha. Com sua mente povoada de preocupações, o sono chegou de mansinho...
Continua...
NA: desculpem a demora para postar, e pelo capitulo que não está bom. Ando com problemas pra escrever. Sem inspiração a tal ponto de achar que não conseguiria escrever mais nada. Em suma, tinha achado que finalmente a aposentadoria chegou e nem conclui nada. Tinha uma parte desse capítulo faltando terminar pra postar, e graças a uma pessoa do fórum ID Fanfictions resolvi que deveria me esforçar mais um pouco. Como eu disse esse não foi bom, mas no próximo capítulo pretendo melhorar.
Para aqueles que acompanham minhas outras fics que também estão paradas, não se preocupem, tentarei fazer o possível e o impossível pra ver se termino os capítulos.
Gostaria de agradecer a Dra. Nina que sempre está me incentivando para escrever e é muito paciente comigo. Agradecer a Lumélia a pessoa que falei a pouco que é do ID, e todos aqueles que acompanham essa fic. E por ultimo agradecer a todos aqueles que comentaram.
Bjs e até o próximo capítulo.
