Milo contemplava o mar com o olhar perdido. Não era típico de alguém como Milo deixar passar aquelas belas mulheres que praticamente só faltavam se jogar em seus braços para receber uma atenção especial que só um homem com aquele corpo escultural e rosto bonito poderiam dar. Ele mesmo só veio perceber que estava ficando tarde por causa da leve brisa que batia em seu corpo, e pelo céu adquirindo uma tonalidade mais escura. Logo anoiteceria e ele não tinha comprado os mantimentos para passar alguns dias naquela casa. Não sabia se ela ainda estaria ali, nem se gostaria que ela continuasse ali, atormentando-o com aqueles lindos olhos que não pertenciam a ele e sim a um maldito pirralho. Tinha desejado aquela mulher, e, no entanto, ela preferiu um mero cavaleiro de bronze a ele. Eram amigos, parceiros de treino, mas nunca pode ver seus olhos, e isso fazia sua imaginação tentar encontrar uma feição condizente com aquela personalidade. Isso esteve ocupando sua mente por muito tempo, atormentando-o durante o dia, e atormentando durante a noite. Chegava até a ter sonhado com seu olhar vivido e cheio de paixão. E o que essa mulher lhe deu em troca de tantos tormentos? Apenas ódio e desprezo. Sim, apenas isso. Não conseguia chegar à outra conclusão ao ver que ela preferia o garoto que a desmoralizou perante todos habitantes do santuário. Se não fosse assim, logicamente não estaria carregando aquele pequeno bastardo dele. A lei para as amazonas eram bem simples, e aquela lei todos sabia: se o rosto fosse revelado a um homem ela deveria amá-lo ou mata-lo. Se ele perguntasse a Shina: se desejava abandonar o santuário porque não podia matar aquele idiota por ser o protegido de Athena, por que escolheu ama-lo? Poderia simplesmente ter ido embora sem ter que carregar isso ai no ventre. Maldita seja. Noite após noite sonhava possuindo-a em seu quarto, aquele sonho tão real que sempre acordava empapado de suor.
Entrou no mercado e ficou na duvida quanto ao que deveria comprar. O que não daria para ter seu velho amigo de volta? Ele certamente saberia o que comprar e o que fazer naquela situação. Kamus tinha a capacidade de transformar um prato de arroz na coisa mais deliciosa que já tinha comido. Não, devo afastar estes pensamentos. Kamus se foi e por enquanto terei que resolver o problema imediato: o que levar pra comer e dar um jeito de se livrar daquela ex-amazona.
Cheio de sacolas nas mãos, Milo encontrou certa dificuldade para pegar a chave no bolso da calça. Ao colocar a chave na fechadura, percebeu que ela estava aberta. O silencio reinava no meio da escuridão. A casa parecia vazia. Será que ela foi embora? Que seja. Pelo menos assim estava livre daquele problema. Acendeu as luzes, guardou os mantimentos e sentou-se no sofá para tomar a cerveja. Quando ia dar o primeiro gole, estancou a meio caminho. E se alguém entrou aqui e ela estivesse no quarto? E se o bandido a tivesse surpreendido e ela reagiu por instinto? Se ela não tivesse com aquela barriga não seria nada preocupante. Milo subiu as escadas de dois em dois degraus indo direto paro o quarto que ele tinha indicado antes de sair. Abriu a porta assim que esteve frente a ela. Ali o silencio era parecido com o restante da casa, só que mais preocupante. A luz estava apagada, e ele tropeçou em algo macio, porém, pesado. O susto foi grande e Milo rapidamente foi acender a luz. Era apenas a bolsa da Shina, e ela estava deitada na cama. Aproximou-se sem fazer nenhum ruído. Ficou na duvida se deveria chegar mais perto, e se deveria tocar seu rosto. Parecia tão serena que nem parecia àquela amazona turrona e que certamente levava um aspecto cínico e irritado por trás daquela mascara. E aquele sonho não fazia justiça ao rosto de bela feição. Parecia que ela era um imã poderoso e ele estava sendo puxado. Sem resistir àquela força, pegou um tufo do cabelo de Shina e levou próximo inalando aquele perfume. Era algo muito diferente do que se lembrava, mas era delicioso. Tocou o rosto e já estava se aproximando de seus lábios quando pressentiu que ela abria os olhos. Já era tarde. Ela tinha percebido. O jeito seria dar alguma desculpa antes de escutar muitos desaforos:
- Finalmente acordou. Já estava pensando que seria preciso levá-la ao hospital. – viu que ela o observava desconfiada – Não ouviu quando te chamei, nem quando entrei no quarto.
- Mas que horas...
- Já anoiteceu. - respondeu rispidez - Já enchi a despensa e a geladeira. Estarei lá embaixo.
O que exatamente ele queria vindo aqui?, perguntava-se a ex-amazona. Sabia que de uns tempos pra cá se sentia sonolenta e cansada, mas acreditava que se ele tivesse lhe chamado teria acordado na hora. Ou será que não? Ficou em duvida. O que importava isso agora? Estava morrendo de fome, e ele disse que trouxe comida. Dirigiu-se a cozinha, passando por Milo que estava sentando em frente à televisão, assistindo jogo e bebendo cerveja. Ao julgar pela quantidade de latas abertas ao lado do sofá, ele passou boa parte da tarde bebendo cerveja. Não trocou nenhuma palavra com ele. Ao chegar à cozinha percebeu que não havia nenhuma comida pronta. O jeito seria atacar primeiro a geladeira enquanto deixava algo cozinhando. Ao abrir a geladeira sobressaltou-se. Tinha mais cerveja, refrigerante, doces de vários tipos, apenas um pacote de pão de forma e comida congelada. Foi até a despensa e encontrou outro tanto de besteiras como biscoito recheado, sardinha enlatada, pipoca para microondas entre outras coisas. Nada que fosse realmente nutritivo. Nem uma fruta ou vegetais. Por aquela noite dava pra passar, mas no dia seguinte teria que resolver essa questão.
A partida de basquete já havia começado há bastante tempo mas Milo nem sabia dizer quem estava ganhando. Tudo porque estava absorto em seus pensamentos, apenas deixando-os de lado ao sentir a presença de Shina. Sentiu seu olhar fixo por alguns instantes no que estava fazendo e nas latas que ele esvaziou mais rápido para dar a entender que esteve ali por muitas horas. Observou ela abrir a geladeira fazendo uma cara fechada ao checar o que havia dentro, e também viu quando ela olhou a despensa fazendo uma careta de descontentamento. Definitivamente não gostou de nada que havia comprado. E ele era algum vidente para saber os gostos dela por acaso? Tentou não prestar atenção ao que estava fazendo. Que fizesse o que quisesse desde que não o incomodasse e deixasse a comida pronta.
Tempos depois a comida foi servida a mesa. Não era lá grande coisa, mas dava pra matar a fome. Comeram em absoluto silencio e quando Shina terminou, levantou-se pondo a mão nas costas na altura do quadril. Ela levou sua parte da louça para a pia lavou-a e voltou para o quarto apenas desejando boa noite a Milo. Ele ficou alguns minutos a mais sentado à mesa, comparando a Shina de agora e a Shina amazona. A mudança era gritante. Não tinha mais aquele belo corpo, e até mesmo era diferente no modo de agir. Tudo estava diferente. Deixou sua parte da louça encima da pia e saiu.
Shina havia passado horas a fio esperando o retorno de Milo, pois desejava ter uma conversa sobre as compras que ele havia feito. Eram três horas quando olhou para o relógio pela ultima vez. Levantou um pouco a cabeça ao escutar um barulho na porta da frente, e quando viu à hora no relógio ficou pasma. Já eram sete horas. Levantou-se e fez todos os preparativos matinais antes de ir à cozinha. Pos um vestido largo com estampa suave. No inicio tinha achado estranho trocar suas roupas praticas de treino, mas agora em seu atual estado via que o melhor era usar aqueles vestidos folgados. Ao chegar lá teve outra surpresa. Milo havia deixado sua parte da louça suja. De repente sentiu uma fúria imensa e seguiu diretamente para o quarto de Milo, entrando sem bater a porta, pegando-o saindo totalmente nu do banheiro. Ela conteve a respiração por alguns instantes enquanto olhava atentamente aquele corpo escultural. Por um lado sentiu inveja do sexo masculino, pois não tinham que passar por todas aquelas mudanças como as que ela estava passando. Sentiu seu rosto esquentar e desejou não estar visivelmente corada diante dele. Fazendo de conta que aquele belo corpo não lhe importava de maneira nenhuma disse:
- Se pretende que eu fique por aqui por uns tempos devemos estabelecer algumas regras. - percebeu que seu olhar surpreso desvaneceu rapidamente dando lugar a um olhar cínico - Odeio cozinhar e quando o faço não é a melhor das comidas.
- Bem vinda ao clube, a minha comida ainda chega a ser pior. - disse levantando o braço para pentear o cabelo sem demonstrar nenhum pingo de pudor.
- Acontece que se eu cozinho você deve lavar a louça, e se você cozinhar eu lavo a louça.
- E por que eu faria isso? Depois de me tornar cavaleiro de ouro não precisei mais fazer nada disso.
- Isso porque os cavaleiros de ouro são cheio de regalias enquanto que as amazonas tinham que dividir a tarefa com seus discípulos.
- Só porque Cassios fazia isso por você não quer dizer que devo fazê-lo também. - depois de escutar Shina fazer um longo discurso sobre não ser empregada de ninguém ele resolveu conceder apenas nisso - Tudo bem, farei apenas para que pare de me importunar como uma tia velha e que me deixe dormir.
- Vai dormir à uma hora dessas? Não sabia que Saori tinha mudado a rotina do santuário após minha saída. - retrucou com sarcasmo.
- Não, tudo continua do mesmo jeito. Apenas irei dormir porque passei uma noite muito... como posso dizer? - deu uma pausa virando-se de costas para impedir que ela visse seu sorriso travesso - Ah sim! Agitada. Esse termo descreve bem minhas atividades desta noite.
"Ele esta fazendo isso de propósito, só pode.", pensava a ex-amazona ao entender o que ele quis dizer nas entrelinhas. Se ficasse mais um minuto naquele quarto não sabe do que seria capaz de fazer. Ele ali, exibindo seu físico e o que fez com ele enquanto que ela passou muitas horas acordada para falar sobre vários assuntos referentes à sua estadia ali. Era melhor que voltasse para a cozinha antes que resolvesse desfalcar uma parte importante daquele corpo perfeito. Saiu batendo a porta com força sem perceber que Milo agora já não continha a gargalhada. "Só mesmo Shina para pensar que passei a noite na ociosidade. Pelo menos algo para me fazer rir depois de falhar em minha missão. É melhor descansar logo de uma vez e estar pronto para a bronca depois que Saori receber meu relatório", pensou Milo deitando-se nu e cruzando os braços abaixo da cabeça. Mas seu corpo começou a reagir ao lembrar-se de como ela o olhou por alguns instantes. Parecia interessada e isso fez sua imaginação aflorar ao recordar aquele sonho. Ao que parece dormir seria uma tarefa difícil.
Enquanto isso, na cozinha...
- Aquele porco chauvinista! Quem ele pensa que é? - Shina falava para as paredes como sempre fazia quando queria por sua raiva pra fora sem poder fazê-la na presença da pessoa que a irritava - Se ele pensa que poderá fazer o que bem entende só porque é um cavaleiro de ouro está muito enganado.
Shina já tinha preparado seu escasso café da manha, se alimentado e lavado toda a louça e estava subindo a escada quando escutou um leve gemido no quarto ao lado. Esperava que ele tivesse batido bem ali, ou que tivesse pegado algum problema naquela parte. Quem sabe ele tomaria jeito e deixava de ser tão mulherengo. Depois se repreendeu por desejar mal a outra pessoa. O que ele fazia ou deixava de fazer não era da conta dela. Apressou o passo lembrando de fechar a porta dessa vez e foi diretamente para a cama. Sentia-se mais cansada que o normal, mas dessa vez poderia ser por ter dormido tão pouco.
Eram duas horas quando sentiu um odor desagradável. Parecia que tinha alguma coisa queimando. Levantou-se de um salto assustada. Não acreditava que havia deixado algo no fogo quando foi se deitar por apenas alguns instantes. Quase tropeçou na escada tamanha era a pressa de desligar o fogo. Ao chegar à cozinha encontrou Milo jogando a panela toda queimada na pia enquanto a outra estava transbordando devido à fervura. Shina aproximou rapidamente desligando todo fogo e lançou um olhar inquiridor que foi compreendido por Milo:
- Apenas coloquei isso, isso e isso aqui nesta panela. - dizia apontando cada embalagem vazia - E nessa outra panela o que estava no congelador.
- Não se coloca todo esse pacote de macarrão em uma panela tão pequena, e muito menos ainda joga o molho e creme de leite tudo junto. O cozimento do macarrão é separado do molho. - disse olhando para o conteúdo inidentificável da panela e olhando para a panela que estava queimada, dentro da pia conclui - Você não pode colocar algo que vai ao forno ou ao microondas diretamente numa frigideira e achar que vai ficar bom. Principalmente se o fogo estiver muito alto.
- Pensei que por estar congelado seria melhor fazer em fogo alto para terminar logo. - se defendeu.
- Um dos maiores problemas foi o fato de comprar tudo errado. Não se compra muitas coisas que são para microondas se você não tem um.
- Eu tinha avisado que sou péssimo na cozinha.
- Se não sabia fazer não se metia a tentar fazer.
- Ah certo. E como eu poderia matar minha fome se você trancou o quarto e não deixou nada pra almoçar?
- Eu tenho cara de empregada? - perguntou Shina indignada.
- Não, mas você não deveria usar uma pequena discussão apenas para se vingar me deixando com fome.
- Vê se cresce Milo. Jamais faria isso por causa de uma coisa tão banal. Apenas deitei um pouco. Estava me sentindo cansada.
Milo a fitou com descrença por alguns segundos até que percebeu aquele olhar cansado, os ombros meio curvados pra frente enquanto ela apoiava num pé por algum tempo e depois mudava o peso para o outro. Então murmurou de forma que ela escutou:
- Você não se parece em nada com a amazona sempre disposta a treinar.
- E você queria o que? Carregar uma criança no ventre é muito cansativo. Causa uma grande mudança no corpo e na mente. Hormônios a flor...
- Me poupe de toda essa ladainha de mulher grávida sensível. - cortou bruscamente - Você era uma amazona, e essa situação não condiz com a mulher que conheci.
- A mulher que conheceu? Desde quando te dei liberdade, ou expressei meus sentimentos com você? Você nunca representou nada pra mim, nem nunca representará nada.
- Ousa dizer isso na minha cara? Você é a mulher mais ingrata e... – desistiu de dizer o que pensava e achou melhor abordar outro assunto, um que atormentou sua mente a tarde toda do dia anterior – Posso não representar nada pra você, esteja certa disso. Jamais me sentiria interessado em uma mulher sem noção que aceita um idiota qualquer para ir à cama.
O tapa lançado por ela soou por alguns segundos e logo veio o silencio profundo. Shina parecia verter fogo pelos olhos. Milo pensaria em rebater aquele insulto se o golpe tivesse sido dado por uma amazona, mas não por uma mulher com força de amazona e grávida. Tudo o que pode fazer foi ficar estático, olhando para aquela amazona com um ódio contido, e escutar seus desaforos calado:
- Como ousa me julgar? Nada sabe sobre mim e fica ai falando como se eu tivesse traído você. Parceira de treino é uma coisa e colocar chifre na testa de um homem é outra coisa totalmente diferente. Repito: nunca houve nada entre nós, por isso não pode me julgar ou querer tirar satisfação comigo.
- Deus me livre de ter uma mulher como você para compartilhar meu leito e minha vida. Prefiro mulheres femininas, sem inteligência e muito bela. Nenhum desses requisitos você poderia se enquadrar.
Com o orgulho ferido, Shina juntou forças para segurar as lagrimas retida em seus olhos. Não daria aquele gosto a Milo. Nem que tivesse que morrer jamais diria o quanto àquelas palavras magoaram profundamente.
- Quem disse que eu me interessaria por alguém como você? Não passa de um inseto que sobreviveu as batalhas da mesma forma que um inseto sobrevive a uma guerra atômica.
- Repete se for mulher. – Milo já estava bem próximo a ela segurando-a pelos pulsos. – Repete e eu te mostrarei o que o inseto aqui pode fazer.
- Por que? Vai dar uma de covarde e bater em uma mulher grávida? Esperava qualquer coisa de você, menos isso. É um insulto aos insetos ao chamá-lo de inseto.
Os olhos de Milo irradiavam um ódio tão grande que era quase possível apalpa-lo no ar. Não conseguia mais se segurar. Por muito tempo suportou as palavras ásperas dela, e como se não bastasse sua nova condição agora o insultava de varias formas. Sem se conter, puxou-a bruscamente dando um beijo violento que parecia não ter nenhum sentimento. Shina se debateu tentando livrar-se, mesmo assim ele se manteve firme. Em alguns instantes essa realidade mudava aos poucos. Ou Shina havia percebido que não era páreo para ele ou simplesmente havia cedido aos encantos do cavaleiro de escorpião. Escorando-a contra a mesa, escorregou suavemente uma mão por toda a extensão das costas até se enfiar por baixo de sua saia massageando-a intimamente. Ela que havia relaxado um pouco ao sentir aquele carinho que havia feito tanta falta nas noites solitárias sentiu seu sangue ferver e logo ficou tensa.
Continua...
