dai86


CAPÍTULO 7

.

Sakura sentou-se de forma cerimoniosa no banco do luxuoso e novíssimo carro de Sasuke Uchiha, tentando ignorar os sentimentos confusos que a assaltavam. Soubera desde o princípio que não seria uma experiência agradável estar sozinha com aquele homem dentro do automóvel. Mas não era sua presença física que a incomodava, no momento, e sim o que ocorrera quando ouvira sem querer um pedaço da conversa dele com Mikoto na sala de jantar.

Quando Sasuke Uchiha admitiu ter um relacionamento estritamente sexual com uma namorada secreta, Sakura experimentara a mais inesperada das reações. Um tipo estranho de excitação. Céus! Ela ficara tão atordoada que seus pés pareciam ter criado raízes no chão. Sua boca se abrira, e o coração se acelerara por causa da adrenalina. Seu cérebro de imediato criara todo tipo de imagens eróticas envolvendo não Sasuke e a tal Tayuya, mas a própria Sakura!

Quinze minutos depois ainda estava aparvalhada, sobretudo porque aqueles sentimentos desorientadores ainda não haviam diminuído. Era como se tomasse plena consciência do próprio corpo quando ficava próxima de Sasuke. Por isso Sakura não conseguia entender o que estava acontecendo. Para começar, nunca apreciara homens muito grandes. Nem mesmo sexo...

- Conte-me sobre sua amizade com Ino - ele pediu, rompendo o silêncio e pegando-a de surpresa.

- Por quê? - Sakura, sem entender o motivo, parecia irritada com ele. - Qual é o problema?

- Não há problema nenhum, Sakura. Apenas queria conversar um pouco. Vai levar pelo menos meia hora para atravessarmos a ponte e chegarmos à casa de Ino. Você disse que fica em Otafuku Gai, não é?

- Sim.

Otafuku Gai era um subúrbio distante na parte oeste da cidade. Era margeado pela estrada de ferro e cheio de velhos blocos de prédios de apartamentos e casas antigas. Ino alugara uma quitinete no ano anterior. Era minúscula, mas limpa, e a única coisa que podia pagar com seu parco ordenado.

- Bem? - Sasuke insistiu impaciente. Sakura encolheu os ombros. Por que não lhe contar? Sasuke teria mesmo de saber, no fim. Ino era mãe de sua filha, afinal de contas. Melhor fazer isso do que ficar pensando coisas que não devia.

Foi o que ela fez em seguida, sem se incomodar em esconder nada. Narrou a Sasuke toda a dura e amarga verdade, sem preocupar-se em amenizar nenhum detalhe. Uma coisa Sakura precisava admitir: Sasuke não fez nenhum julgamento superficial, e também não tentou expressar falsas simpatias. Quando terminou a primeira parte da história, as questões que seguiram não foram cruéis, apenas motivadas pela curiosidade.

- E o que aconteceu depois do incêndio? - Sasuke quis saber.

-Tornamo-nos responsabilidade do Estado.

- E quanto a seus avós?

- Nunca os conhecemos. Depois que nossas mães morreram, o pessoal do serviço social até tentou encontrá-los. Talvez tenham conseguido, mas ninguém manifestou o menor interesse por nenhuma de nós. Nossas mães eram, como eu poderia dizer... ovelhas negras. Em ambas as certidões de nascimento está escrito: "pai desconhecido".

Sakura fez uma pausa.

- Quando nós duas já éramos maduras o bastante para procurar, descobrimos que os avós de Ino estavam mortos, e ela constatou que não tinha tias nem tios. Eu, por outro lado, encontrei um avô e três tios vivendo em Nami no Kuni. Escrevi diversas vezes. Um de meus tios me respondeu, uma vez, para dizer que minhas cartas haviam irritado muito meu avô, e que minha mãe fora uma semente ruim que não trouxera nada à família, a não ser vergonha e infelicidade. Finalizou afirmando que gostaria que eu nunca mais escrevesse ou tentasse contatá-lo.

- Isso deve ter sido duro.

- A vida nem sempre é fácil - Sakura observou cáustica, contente por ter recuperado a dureza e o cinismo habituais. Pensar no passado sempre era uma experiência dolorosa, que não lhe deixava espaço para nenhum outro sentimento que não a amargura. Como podia, mesmo que por um momento, ter sucumbido a uma coisa tão absurda como o desejo sexual pelo homem que agora estava acomodado a seu lado? Grande tolice, porque ela, melhor do que ninguém, sabia como os homens eram. Ainda mais no que dizia respeito a sexo.

- De qualquer forma, voltando a Ino e eu, nenhuma de nós, podia ser legalmente adotada, porque não havia parentes para assinar os papéis. Mesmo assim, chegamos a ir juntas para a casa de um casal, mas não funcionou muito bem. O adorável dono da residência não conseguia manter as mãos longe de Ino. Acabei reclamando para a assistente social, e nós voltamos para o orfanato. Ainda adolescentes começamos a trabalhar ao mesmo tempo que estudávamos. Ino fez um curso de secretariado à noite, enquanto eu me satisfazia com qualquer trabalho que pudesse pagar meus estudos. Moramos juntas até o ano passado quando fui para Suna procurar emprego.

- De que tipo?

- Sua mãe não lhe contou?

-O quê?

- Sou atriz. Iniciante, mas uma atriz.

- Não, okaasan não me disse. E você é boa?

- Formei-me no Instituto Nacional de Arte Dramática.

- Hum... Ouvi dizer que é muito difícil entrar nessa escola.

- É mesmo. Fiz audições por três anos antes de conseguir uma vaga.

- E tanto esforço se deu apenas pela ambição, ou foi dominada pela teimosia?

- Alguns anos atrás eu diria que era ambição. Agora, sou inclinada a concordar que não passou de teimosia.

- Entendo. E conseguiu uma boa colocação em Suna?

- Isso depende de seu ponto de vista. Arranjei um papel regular numa novela representando uma femme fatale. No entanto a personagem saiu de cena no final da temporada. Alguns artistas desprezam novelas, mas elas são uma boa vitrine se você tem talento. Ao menos foi uma experiência boa para meu currículo...

- E o que vai acontecer com sua carreira agora que tem de cuidar de Megumi?

- Acho que vou ter de colocá-la de lado por algum tempo.

- Por falar nisso, qual sua idade?

- 26. Por quê?

- E qual sua situação financeira? - Sasuke continuou, ignorando a indagação dela.

- É apenas curiosidade ou você está planejando fazer uma doação de caridade? – Sakura replicou com gélida ironia.

- Pare de ser irritante e apenas responda.

Irritante? Ela não tinha nem começado a ser irritante!

- Minha situação financeira não lhe diz respeito Sasuke Uchiha, é um assunto particular. Você não acha mesmo que eu daria uma informação como essa ao homem que pretendo processar, não é?

- Isso quer dizer que não está muito bem... Caso contrário, jamais se recusaria a dizer.

- Errado. Isso significa que você e eu somos inimigos, Sr. Uchiha. Não lhe darei nenhuma munição para que tire vantagem de mim. Ino era a pessoa mais doce do mundo, e me confiou sua filha. E acredite quando digo que farei qualquer coisa ao meu alcance para forçá-lo a aceitar Megumi, fornecendo tudo o que essa menina tem direito.

- Então, dinheiro é o problema principal, não é?

- Deus do céu, eu tenho pena de você... Amor é o problema principal, seu tolo! Eu amo Megumi, apesar de não ter o mesmo sangue dela. Você e sua mãe têm. Mikoto pode dar a Megumi o tipo de amor que não posso, e do qual uma criança sempre sente falta. Acredite, eu sei o que digo. Não estou me iludindo achando que você será capaz de amar sua filha. Pelo que percebi até agora, é imune a emoções. Mas sua fortuna pode pelo menos tornar a infância da garota mais agradável. E, quem sabe, com o tempo poderá até mesmo começar a se importar com ela Sr. Uchiha. Se a natureza de Megumi for parecida com a da mãe, e suspeito que é, será difícil que isso não aconteça.

- Não acha que seria mais sábio esperar pelo resultado do teste de DNA antes de fazer tantos planos?

- Você queria que eu falasse sobre Ino. E não posso falar de minha amiga sem mencionar Megumi... e seu relutante pai!

- Já que tem tanta certeza de minha participação em tudo isso, por que não veio me ver antes. Quando Ino lhe disse que eu tinha negado ser o pai de Megumi, dando-lhe dinheiro para um aborto, por que não veio voando a meu escritório, como um anjo vingador? A mulher que entrou em minha vida hoje decerto não teria perdido nenhum tempo. Por que aguardou até agora?

Sakura não esperava por aquela pergunta, por isso corou um pouco.

- Bem... eu... estava em Suna, lembra-se?

-Sim, mas na certa voltou para ver Ino quando Megumi nasceu, não é?

O rubor de Sakura acentuou-se.

- Na verdade, não... Não voltei - confessou, sentindo a garganta ressecar-se.

Houve um silêncio tenso logo depois.

- E será que vai me contar por quê? - Sasuke a sondava, ao mesmo tempo confuso e irritado.

- Eu... nós... nós discutimos - Sakura desviou o olhar para a janela. Estavam se aproximando da ponte Namikaze, mas a vista espetacular não servia para acalmá-la. A bem da realidade, estava lutando para manter o autocontrole.

- Sobre o quê? - ele quis saber.

Sakura não podia falar. Apenas balançou a cabeça, sentindo as lágrimas correrem pelo rosto. Sasuke suspirou.

- Tenho lenços no porta-luvas.

Ainda calada, Sakura estendeu o braço para apanhar a caixa, e então foi acometida por uma violenta crise de soluços.

Sasuke ficou feliz por estar dirigindo na ponte naquele momento. Ele não podia parar e nem mesmo encostar o carro. Graças aos céus não podia fazer nada realmente estúpido, como tomá-la nos braços.

O som do choro de Sakura o tocava mais do que o desejado. Assim como a história triste do passado das duas amigas. Aquilo explicava muito sobre ela e sua determinação de dar à filha de Ino um futuro melhor. Também provocava em Sasuke uma estranha culpa... Talvez aquilo viesse da acusação de Sakura, de que ele era incapaz de amar ou se importar com quem quer que fosse.

Por fim, os soluços se aplacaram, e ela ajeitou-se no assento. Mas havia uma dezena de lenços usados em seu colo.

- Sente-se melhor agora? - ele perguntou com gentileza. Ela assentiu.

- Gostaria de falar sobre isso? Sua discussão com Ino?

- Na verdade, não - Sakura admitiu hesitante.

- Tudo bem. Presumo que ainda estava em Suna quando ela morreu.

Mais uma vez Sakura assentiu, estirando as mãos sobre o colo.

- E vocês não se reconciliaram depois da discussão? - Sasuke quis saber.

A questão pareceu tocá-la fundo.

- Eu... eu tentei ligar para Ino várias vezes. Mas ela se mudou de nosso velho apartamento e deixou o emprego. Seu nome não constava da lista porque não tinha telefone. Não tinha dúvida de que ela sabia onde eu estava, por isso pensei... que Ino não queria mais conversar comigo.

- Acredita que ela faria um aborto?

Os olhos de Sakura faiscaram, ainda úmidos com as lágrimas, mas cheios de ultraje.

- Ino jamais faria uma coisa dessas!

- Certo, não precisa se irritar. Estava apertas tentando entender. Imaginei que vocês podiam ter discutido sobre ela fazer ou não o aborto. Quero dizer... eu poderia entender que uma garota com um passado infeliz como o de vocês duas não concordasse em trazer uma criança ao mundo de maneira inesperada.

- Isso apenas demonstra que você não sabe nada sobre gente como nós. Ou de qualquer tipo... Se quer mesmo saber, discutimos sobre você!

- Eu? - Sasuke não poderia parecer mais incrédulo.

- Tudo bem. Para entender por que reagi tão mal, você tem de saber que Ino teve muitos casos fracassados. Minha amiga estava sempre se apaixonando. E em geral por colegas de trabalho, que nunca retribuíam seu sentimento. Aos poucos fui ficando cansada de recolher os pedaços de seu coração quando cada um desses namoros dava errado. Também me irritava vê-la mudar de emprego por se envolver com homens casados.

- Ino teve casos com homens casados?

- Alguns. Veja bem, Ino não era uma à toa ou coisa do gênero. Era apenas uma jovem muito carente. Bastava que um sujeito qualquer lhe dissesse que a amava e ela se atirava em seus braços. Não era sexo que o procurava e sim amor. Quando Ino foi trabalhar na Uchiha & Associados, prometeu-me que seria diferente. Mas logo comecei a enxergar os sinais de que estava de novo apaixonada. Ino levava muito tempo se preparando para ir trabalhar, comprou roupas novas, perfumes... Enfim, concluí que estava envolvida com alguém, e quis saber quem era a nova paixão.

- E então? - Sasuke perguntou interessado.

- No começo, Ino negou estar envolvida com algum companheiro da Uchiha, mas acabou confessando que estava apaixonada por você, seu novo chefe.

- Ino estava apaixonada por mim? - repetiu, aturdido.

- Por favor, não finja que não sabia disso - Sakura retrucou, com desdém.

- Mas eu não sabia! Posso jurar!

- Talvez Ino tenha escondido a verdade porque conhecia o tipo de homem que você é - sugeriu desafiadora. - Quem poderá saber ao certo, agora? De qualquer forma, voei para cima dela chamando-a de tola e, sim, de garota fácil. Usei todas as formas de insultos... Ino defendeu o amor por você com ardor. Disse que era mais profundo do que qualquer outro sentimento que experimentara, e chegou até mesmo a me chamar de idiota, porque eu não conhecia o que era o amor.

O suspiro que escapou dos lábios de Sakura soou triste e cheio de arrependimento.

- Naquele dia, ambas falamos muitas coisas que jamais deveríamos ter posto para fora. Na época já estava pronta para ir para Suna, e depois da discussão Ino me pediu para desaparecer. Afirmou que não queria me ver nem ouvir falar de mim nunca mais.

- Entendo - Sasuke murmurou, e sua mente se acelerava, pois as peças do quebra-cabeça começavam a se encaixar. Naquela ocasião em que dormira com Ino, teria ela mentido sobre o misterioso namorado? Teria criado uma situação para que ele sentisse pena e se aproximasse? Seria capaz de engendrar tal cena de sedução, destruindo o autocontrole dele com vinho antes de envolvê-lo com todos os truques possíveis? E se tudo isso fosse verdade, então, qual seria seu propósito? Havia apenas uma resposta possível. Sua memória o fez voltar para aquela noite, tentando lembrar-se com exatidão de tudo o que tinha acontecido. No entanto, para ser bastante honesto, estava confuso sobre os detalhes. Fazia tanto tempo... E ele bebera demais.

Mesmo assim, tinha absoluta certeza de que usara preservativo nas duas vezes em que haviam feito amor, ele e Ino. Nas duas vezes? Seu estômago revirou-se diante daquela súbita recordação. Sim, Ino acordara durante a madrugada, excitando-o outra vez de forma bem sedutora. E fora ela quem pusera o preservativo nele então. Agora lembrava com maior nitidez.

Será que aquela mulher havia feito algo errado, de propósito? Talvez esperasse em sua mente tola que se ela concebesse um filho Sasuke decerto lhe proporia casamento.

Mas no dia seguinte ele deixara bem claro que o que houvera fora um equívoco de ambos. E tomara o silêncio de Ino por embaraço e concordância. Talvez, ao descobrir que estava grávida, ela tivesse se lembrado de tais palavras, sentindo-se embaraçada demais para procurá-lo. O que o fazia lembrar-se de outra das acusações de Sakura, de que Ino o procurara e fora rejeitada, recebendo dinheiro para o aborto. Mas algumas facetas do enigma se encaixaram, e ele lançou a Sakura um olhar inquisidor.

- Você nem mesmo sabia que ela estava grávida, não é?

- Não.

Sasuke quase não conseguia conter-se.

- Nesse caso, como Ino pôde ter lhe dito que foi me procurar para falar sobre o bebê? Você mentiu sobre isso, não foi?

Os ombros de Sakura se encolheram, e seus olhos tornaram-se frios e penetrantes.

- O fato de ela não ter me dito não significa que eu tenha mentido. Ino contou a sua nova vizinha sobre o episódio, e a mulher me relatou tudo. Ela disse que Ino chorou por dias depois daquilo.

Mais uma vez, Sasuke não podia acreditar no que estava ouvindo.

- Por acaso você está me condenando por um boato?

- Não. - As pupilas verdes cintilavam, com desprezo. - Tenho outras evidências bem comprometedoras contra você.

- Que evidências?

- Não é de sua conta.

- Mas é claro que é! Tenho todo o direito de saber!

- O que devia saber é que deixou Ino desamparada, Sasuke Uchiha. Quer a amasse, quer não, você pelo menos poderia tê-la ajudado, com apoio emocional ou financeiro. Corta-me o coração saber que minha amiga teve aquele bebê sozinha. E foi assim que morreu...

- O que corta seu coração, senhorita, é que você a deixou desamparada. Também não estava lá quando Ino necessitou de seu amparo. Chamou-a de tola e garota fácil, deixando-a abandonada mesmo sabendo que Ino não era tão forte quanto você!

O rosto de Sakura assumiu uma palidez mortal. Aquilo era visível mesmo com a fraca luminosidade da rua. E então Sasuke desejou do fundo da alma voltar atrás, retirando o que dissera.

- Não ouse chorar outra vez! - sussurrou ao vê-la começar a tremer. Na realidade, temia estar próximo demais dela e não ter nenhuma desculpa para não consolá-la daquela vez.

Sakura recuperou o autocontrole e encarou-o, furiosa. - Nunca mais vou chorar em sua frente, seu miserável insensível!

Por sorte, os dois já estavam se aproximando do prédio de Ino. Em absoluto silêncio, Sasuke manobrou o veículo para entrar na Estrada Sakado, e logo depois atravessou a ponte que cruzava a ferrovia, chegando ao seu destino.

A construção parecia tão pífia à noite quanto à luz do dia, Sakura pensou ao conduzir Sasuke do pátio até a porta que levava à quitinete de Ino. A aparência do lugar era mesmo lúgubre.

Aquela, decerto, fora uma grande e confortável residência, muitos anos atrás. Antes de alguém comprá-la e dividi-Ia em vários cômodos. O tempo e a negligência haviam feito muitos buracos no teto, provocando goteiras que precisavam de reparo urgente. A pintura das portas e janelas estava descascando, e algumas de suas partes de madeira já apodreceram. O jardim mais se assemelhava a um matagal, e a trilha de cimento que o atravessava era cheia de buracos.

Sakura girou a chave na fechadura e acendeu a luz, sentindo-se mais uma vez dominada pela tristeza por Ino ter sido forçada a viver num lugar como aquele com seu bebê. Talvez fosse bom fazer Sasuke Uchiha ver ao que se reduzira a mãe de sua filha. Ele não disse uma palavra enquanto olhava ao redor do acanhado apartamento que servira de lar para Ino e Megumi.

As paredes mostravam rachaduras e a tinta também estava velha e descascada. O tapete, todo puído. Não havia sequer um lustre simples para cobrir a lâmpada nua que pendia, no centro. Toda a mobília era barata e de segunda mão, exceto pelo berço e as coisas que Ino adquirira para o bebê. Ficava bastante claro que aquelas peças eram novas, e muito caras. Era típico de Ino, Sakura constatara ao entrar ali uma semana antes. Sua amiga só aceitaria o melhor para sua criança.

Naquela ocasião, Sakura se perguntara como Ino conseguira comprar o berço importado e o carrinho, sem mencionar as dispendiosas roupas infantis. Ino jamais fora uma pessoa capaz de poupar dinheiro. Gastava quase tudo o que ganhava investindo em sua aparência. Desperdiçava uma fortuna em trajes e acessórios, sem mencionar maquiagem, cosméticos e as visitas constantes ao cabeleireiro.

Sakura encontrara a resposta para aquela pergunta ao observar o velho guarda-roupa e descobrir que todas as peças mais finas de Ino tinham ido embora, sendo substituídas por outras bem baratas. A humilde cômoda também revelara algo similar. Todas as jóias tinham desaparecido, bem como a coleção de bolsas de couro e nécessaires de grife.

Não restara nada que revelasse a vaidade feminina da amiga, e o único detalhe realmente pessoal era uma pequena foto de Ino e Megumi colada ao espelho.

A senhora idosa que morava no apartamento ao lado, a mesma que fornecera as informações sobre a desastrosa visita de Ino a Sasuke, tinha confirmado que a amiga vendera tudo o que possuía para comprar o que existia de melhor para sua amada filha.

Pelo visto, Ino descobrira o sexo do nenê no primeiro ultra-som, aos quatro meses de gravidez, pouco depois de ter ido morar naquele lugar. Deixara o emprego na Uchiha & Associados porque a gravidez lhe provocava muitas náuseas.

Aquela última informação havia deixado Sakura muito irritada. Se ela soubesse... Na certa, teria pegado o primeiro avião de volta para Konoha.

- Você tem dormido aqui? - Sasuke perguntou, por fim, com uma expressão quase de descrença.

- Sim - confirmou, na defensiva. - Onde mais poderia ficar? Lá estão minhas duas malas, encostadas na parede.

Todas as suas coisas permaneciam quase intactas. Sakura não desfizera a bagagem, porque não planejava ficar muito tempo ali.

- Então, não tente mais blefar comigo a respeito de ter dinheiro mocinha. Vamos lá. Pegue tudo de que precisa para sairmos logo daqui. Já vi alguns lugares depressivos em minha vida, mas este ganha de todos com tranqüilidade. Acredite em mim quando digo que se Ino tivesse vindo a mim, contando que estava grávida, ela e o bebê não teriam de viver assim!

Sakura encarou-o, confusa. Sasuke soava tão sincero! E muitíssimo zangado.

- Ino não foi vê-lo, Sr. Uchiha? - ela não pôde deixar de perguntar.

- Pare de me chamar assim. Sou Sasuke. - Ele fixou os olhos negros nos dela com uma expressão implacável.

- A manhã do dia em que Ino deixou de trabalhar para mim foi a última vez em que a vi. Jamais me encontrei com ela, nem no elevador, depois daquilo. Para ser ainda mais franco, nem mesmo fiquei sabendo quando sua amiga deixou a companhia.

- Mas por que Ino diria que foi vê-lo, se isso não é verdade?

- Não faço idéia. Quem foi que lhe contou isso, mesmo?

- A senhora que vive no conjugado ao lado.

- E qual é o nome da mulher?

- Ayame. Não sei seu sobrenome.

- Bem, talvez Ino tenha contado a Ayame que estava indo me ver, mas então mudou de idéia. E depois disso, resolveu mentir, embaraçada. Acho que não saberemos o que aconteceu de fato, ou o que se passava pela mente dela.

- Acho que não - Sakura concordou, em voz baixa, sentando-se na beira da cama, e então encolheu os ombros. - O que isso importa, agora, de qualquer forma?

- Tem muita importância para mim, quando as pessoas me chamam de mentiroso. Não sou nenhum santo, Sakura, mas também não sou um miserável insensível.

Ao ouvir aquilo Sakura ergueu a cabeça para observá-lo, e tentou ser justa. Precisava encarar as evidências, sua consciência exigia isso. Não fora justa com Sasuke por todo o dia. Mesmo antes de encontrá-lo, já estava pronta e certa para acusá-lo, e nunca para ouvi-lo. Desempenhara o papel de anjo vingador à perfeição, e dera a Ino qualidades que sabia que a amiga não possuía. A realidade era que Ino costumava mentir um pouco, quando achava que a verdade podia causar problemas ou discussões. Sempre detestara confrontos, e por isso costumava escolher o caminho que oferecesse menor resistência.

- Eu... sinto muito por ter dito isso - Sakura murmurou, sem graça. - E lamento por ter dito que você abandonou Ino.

Sasuke voltou a falar, com mais gentileza do que acreditava que ela merecia. - Pelo que vejo, Ino não podia ter encontrado melhor amiga, ou melhor mãe para sua filha.

- Oh! - Sakura balbuciou, sentindo o queixo começar a tremer enquanto as lágrimas enchiam os cantos de seus olhos.

- Você garantiu que nunca mais choraria a minha frente! - advertiu-a com gentileza.

- Não posso evitar... Sakura soluçou, levando as mãos a cobrir as faces de imediato, sucumbindo a um pranto convulso.

Sasuke fitou-a, horrorizado. "Por que eu?", perguntou-se agoniado. Ao ver os ombros de Sakura chacoalhando, sentiu o coração apertar-se, e então exasperou-se ainda mais ao ouvir seus soluços desesperados. O que mais o incomodava era seu natural instinto masculino, que o mandava confortar uma mulher que chorava. Sentia-se em particular preocupado com o que poderia acontecer se a tocasse.

Bastava se lembrar do que havia acontecido da última vez em que tentara consolar uma mulher infeliz. E Ino nem mesmo era seu tipo... Sakura, por outro lado, era sem sombra de dúvida. E como!

Ele estava ali, a uma distância segura, quando lhe ocorreu que se preocupava por nada. Por um simples motivo: ele não era o tipo de Sakura. Poderia se dizer que o perigo de alguma coisa vir a acontecer era nulo, pois aquela jovem não o suportava. As desculpas de Sakura não tinham sido nada além de uma pequena concessão, já que com certeza ainda acreditava que ele era um sedutor mentiroso e sem coração.

Já refeito, Sasuke decidiu sentar-se ao lado dela, na cama. Seu peso sobre o colchão logo fez com que o corpo de Sakura se projetasse em sua direção.

- Ei! - ela balbuciou, descobrindo o rosto e encarando-o, em pânico.

- Está tudo bem. - Sasuke estendeu o braço para enlaçá-la, com afeto.

Mas não estava tudo certo, não. Na verdade, estava bastante errado. Para começar, havia a forma como Sakura o olhava, com aqueles grandes e brilhantes olhos verdes. O adorável semblante pálido, e os lábios entreabertos, num convite. E então, a maneira como suas mãos flutuaram até o peito dele, e permaneceram ali, tão quentes.

Sasuke lhe deu uma chance, isso ninguém poderia negar. Sakura poderia tê-lo empurrado para longe, fazendo-o deter-se em qualquer ponto durante o tempo que sua mão levou para segurar-lhe o queixo com os dedos. Mas ela não lutou, nem o impediu. Apenas fitou-o fixo, com a boca carnuda ainda mais aberta, quando Sasuke se inclinou para beijá-la.


Sasuke mais parece um adolescente cheio de hormônios, hahaha. Acho que isso é excesso de testosterona.

Reviews?

dai86