dai86
CAPÍTULO 10
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Sakura estava sentada em frente à penteadeira, em seu quarto, escovando os cabelos com vigor. O relógio no criado-mudo indicava que eram oito e trinta. Era noite de domingo. Quarenta e oito horas haviam se passado desde que todas as certezas que tinha sobre o sexo em sua vida foram sido abaladas em sua totalidade.
Suspirou e parou por um instante. Que final de semana sem-fim havia sido aquele! No princípio, ficara feliz quando Sasuke deixara a mansão, logo depois de retornarem do apartamento de Ino, dizendo a Mikoto para não esperá-lo de volta naquele fim de semana.
O alívio, de qualquer forma, durara pouco. Naquele dia, Sakura ficara acordada por muito tempo, pensando no que Sasuke poderia estar fazendo com sua namorada. Atormentou-se com imagens eróticas e um ciúme insano. A cada minuto lembrava-se do que ele lhe falara sobre como sentira-se atraído por ela desde o primeiro momento em que a vira. E de como ficara excitado durante todo o jantar. Sentia-se estranhamente torturada diante da idéia de que poderia ser ela a estar entre os braços dele, e não Tayuya.
Não conseguiu pregar os olhos nem por um segundo. Era como se, de uma hora para outra, compreendesse o verdadeiro poder do sexo. Podia ver por que as pessoas transgrediam as normas de moral mais elementares quando eram vítimas da luxúria.
Mas todo aquele novo conhecimento não tornava sua situação mais fácil. Ainda sentia uma atração desesperadora por Sasuke Uchiha. Um homem que desprezava... E aquele era o x da questão. Se se tratasse de outro qualquer, Sakura encararia os próprios sentimentos sem medo de perder o respeito por si mesma. Mas como podia sucumbir a alguém que seduzira Ino, gerando e depois abandonando Megumi?
O bom senso e a mais simples decência clamavam para que colocasse de lado um desejo tão imenso e, por isso mesmo, desastroso. Contudo, Sakura era incapaz de tomar aquela atitude. Era uma obsessão que dominava sua mente todo o tempo. No sábado, ela e Mikoto foram até o parque pela manhã, passeando com Megumi em seu novo carrinho de bebê. E então, resolveram parar em um café local para um lanche rápido.
Fora uma bela manhã de primavera. O sol, muito brilhante, mas sem ser quente demais. Depois de voltarem para casa, Sakura dera banho em Megumi, alimentara-a e colocara-a para dormir, em seguida. Mais tarde, juntara-se a Mikoto para colher algumas rosas no jardim, e as duas se dedicaram durante horas fazendo arranjos para os vasos de toda a residência.
Em vários momentos daquele fim de semana, Sakura tinha de admitir, sentira-se muito feliz. Entretanto, por dentro, ainda recriminava-se por não ser capaz de dominar o que lhe ia no íntimo em relação a Sasuke Uchiha.
Cada vez que Mikoto trazia o nome do filho à baila, o que era bastante freqüente, Sakura ficava tensa. Evidente que tentava não demonstrar nada, mas era necessário usar toda sua habilidade de atriz. Para ser franca, ela até ficara aliviada quando Mikoto saíra, depois do jantar do domingo. Uma amiga do clube de shogi tinha telefonado explicando que uma das jogadoras habituais faltara, por não estar passando bem, e precisavam de uma quarta jogadora. No começo Mikoto negou-se, mas, como Sakura insistiu, acabou aceitando.
Naquele momento, no entanto, arrependia-se de haver insistido para ficar sem companhia. Estar sozinha naquela mansão enorme, imersa em suas conjecturas, não era uma boa solução. Levantando-se, caminhou até a janela e observou o céu estrelado. Uma agradável brisa fazia as folhagens do jardim curvarem-se. No mais, tudo era tranqüilo e silencioso. Com alguma sorte, aliás, não seria obrigada a se confrontar com o objeto de seu tormento até a manhã de segunda-feira. Virando-se, dirigiu-se até o quarto ao lado, ligado ao seu por uma porta. Megumi continuava dormindo como um anjinho.
Ao instalar Sakura e Megumi naqueles aposentos, Mikoto confessara que a decoração daquela parte da casa, assim como a porta de comunicação, tinha sido feita tendo em mente a possibilidade de que seu filho mais novo, Itachi, e a mulher tivessem logo uma criança. Sakura ouvira em seguida toda a história de Itachi, que parecia ser um sonhador irresponsável; sobretudo no que dizia respeito ao dinheiro. Não era em nada parecido com seu irmão.
Pelo visto, havia sérios motivos para o comportamento de Sasuke. A morte inesperada do pai, sete anos antes, colocara uma carga enorme sobre seus ombros. Durante todo aquele tempo, ele tivera de tomar para si a responsabilidade por todos os rumos da família.
Sasuke retornara ao lar logo depois de se formar na universidade, apenas para ajudar os entes queridos. E encontrou muita coisa com que se preocupar. O pai também não tinha sido um grande administrador, e quase todas as propriedades dos Uchiha estavam comprometidas com hipotecas. Essa informação fornecia dois motivos para que ele vivesse naquela mansão com a mãe. Em primeiro lugar, porque não havia horas suficientes no dia para que cuidasse de si mesmo. E em segundo, porque assim economizará a quantia que fora usada para quitar todos os débitos com maior rapidez.
Era claro que tudo caminhava bem, agora. O atual chefe dos Uchiha provara ser um excelente administrador e investidor financeiro. Seguira a trilha de seu avô, que tinha feito milhões nos anos pós-guerra. Uma fortuna quase toda perdida pelo filho em investimentos especulativos de alto risco.
No momento, aliás, não existia mais necessidade de Sasuke continuar vivendo naquela casa, Mikoto afirmara. Ela suspeitava que o filho continuava ali por sentir que a querida mãe ficaria só sem sua companhia. Sakura, porém, desconfiava que ele fazia isso porque sabia que era mais fácil ter outra pessoa, de preferência uma mulher, cuidando de todos os pequenos detalhes para lhe dar conforto e sossego. Assim, ficava livre para fazer o que considerava importante de verdade: ganhar dinheiro e seduzir garotas.
Mais uma vez, olhou para a menina adormecida e sentiu o coração apertar-se. Megumi era um bebê lindíssimo. Quando a via, era como se Ino tivesse ressurgido das cinzas. A menina possuía a mesma pele perfeita da mãe, as longas sobrancelhas e os lábios bem desenhados. Qualquer um podia ver que seria uma mulher linda quando crescesse. Iria precisar tanto da proteção de um pai quanto de uma mãe.
- E um pai você vai ter, minha querida - garantiu, num sussurro.
Depois de certificar-se de que tudo ali estava em ordem, Sakura saiu do dormitório, deixando a porta entreaberta para poder ouvir, caso a criança começasse a chorar durante a noite. De volta a seu próprio quarto, considerou a possibilidade de descer para assistir a um pouco de televisão, mas de imediato descartou a idéia. Afinal de contas, já havia tomado banho e estava de camisola. A perspectiva de Sasuke chegar e encontrá-la usando lingerie parecia péssima. Decerto ele pensaria que estava se oferecendo.
"Fique longe do fogo se não quiser sair queimada", advertiu a si mesma. E ficar só com Sasuke Uchiha poderia ser um verdadeiro incêndio. Nem precisava olhar para ver que seus mamilos já haviam intumescidos, como ficavam cada vez que ela se lembrava dele.
Não, o melhor mesmo era ir para se deitar. Pegara um livro na biblioteca de Mikoto. Era uma novela policial que parecia bastante promissora, e Sakura tinha a impressão de que ainda estaria lendo quando Mikoto chegasse. O que aconteceria por volta de onze e meia, segundo ela dissera.
Sakura acabara de tirar a yukata quando o som de uma porta batendo no andar inferior chamou sua atenção. Mikoto não teria feito um barulho daquele. Apenas um homem podia ser tão desastrado, tendo um bebê adormecido por perto.
Sasuke, ao que parecia, por fim resolvera retornar. Ela o ouviu chamar pela mãe, sem receber resposta. Percebeu que subia as escadas, e ouviu seus passos dirigindo-se para o próprio quarto. Então, ela percebeu que ele voltava logo depois. A pulsação de Sakura quase parou quando o ruído do caminhar cessou bem na frente de seu quarto. E voltou a acelerar-se quando ouviu as batidas na madeira.
- Sakura, você está aí?
Ela agarrou a maçaneta com ambas as mãos para impedi-lo de virá-la. Se houvesse uma trava, ela teria usado, mas não existia; nem mesmo chave ou fechadura.
- Sim, Sasuke. Por quê?
- Não consegui encontrar minha mãe. - Sasuke parecia nervoso e impaciente.
- Mikoto saiu. Foi jogar shogi.
- Mas não é a noite de ela jogar shogi!
- Foi substituir alguém.
- Que droga! Abra logo esta porta e fale comigo direito. Mal posso ouvi-la.
- Não posso. Não estou vestida.
- A essa hora? Desde quando mulheres crescidas vão para a cama antes das oito e meia?
- Passa a ser assim quando elas têm de acordar no meio da madrugada para cuidar de bebês. Agora, vá embora e me deixe em paz.
Sasuke hesitou por um instante, e então partiu. Poucos minutos depois outra porta foi batida, e logo em seguida era possível ouvir o barulho de água caindo. Quando Sakura se sentiu segura o suficiente para soltar a maçaneta, seus joelhos pareciam geléia. Sentia-se indefesa, e lágrimas rolaram por suas faces. Com raiva de si mesma, secou-as e se deitou na cama.
- Não vou chorar por aquele homem - disse resoluta, apanhando o livro para começar a ler. Entretanto, ainda estava na primeira página, muitos minutos mais tarde, quando o chuveiro, afinal, foi desligado. Sentia-se tensa, e ouvia cada movimento de Sasuke.
Depois de respirar fundo várias vezes começou a relaxar, e voltou à leitura. E foi aí que o som de uma porta se abrindo e se fechando fez seus nervos ficarem em estado de alerta total mais uma vez. Sasuke andava em direção a seu quarto, de novo, aproximando-se cada vez mais. Sakura rezou para que ele passasse direto, indo descer os degraus, mas, por instinto, soube que não. Sasuke não ia fazer aquilo. E estava certa. Ouviu-o parar diante de seu dormitório. A batida abrupta fez seu corpo retesar-se.
- Sakura? - ele chamou num murmúrio rouco.
Ela não respondeu, e sua respiração congelou ao mesmo tempo que o coração se pôs a bater descompassado. Como se no íntimo desejasse que Sasuke apenas entrasse ali, sem pedir permissão.
- Sua luz ainda está acesa - Sasuke insistiu.
- Eu... estou lendo.
- Nós temos de conversar.
- Não temos, não - retrucou, num tom incapaz de esconder o pânico que sentia.
- Tenho coisas a lhe dizer.
- Diga-me de manhã.
- Não, preciso falar agora... ou não conseguirei dormir.
Quando viu a maçaneta girar, Sakura pulou da cama como uma gata, e colidiu: com Sasuke, que acabara de entrar. Suas mãos ergueram-se num gesto de defesa, para encontrar a pele nua e lisa sobre músculos firmes.
- Oh! - ela exclamou, e seus olhos faiscantes focalizaram aquele peito musculoso por um instante, antes de se erguerem para encará-lo.
Sasuke vestia um pijama de seda preto, recoberto por um roupão aberto. Os pés estavam descalços, e a epiderme que ela sentia sob as palmas era fria, quase gélida. Sakura tentava não olhar ou sentir, mas ambas as coisas pareciam impossíveis de se evitar naquele momento. Seus olhos não obedeciam seus comandos mentais. E quanto a suas mãos, pareciam ter se congelado sobre o peito musculoso: Como se toda aquela masculinidade a atraísse como um ímã.
Sua cabeça parecia prestes a explodir por causa do desejo. De súbito, o tamanho de Sasuke não a intimidou mais. Na verdade, a atraía de maneira irresistível. Queria tocar cada milímetro dele. Descobrir do que era feito aquele homem. Era como se estivesse possuída, percebeu com amargura, incapaz de se desviar de Sasuke.
Como se alguém, uma estranha completa, tivesse se apossado dela. Uma que era imprudente e muito tola, que estava prestes a ignorar o fato de que aquele era o último ser do planeta por quem deveria deixar-se seduzir. Seu cérebro parecia gritar, dizendo que não era tarde demais para interromper aquilo. Mas ele não tinha poder algum contra os comandos de sua recém despertada sexualidade.
É... acho que dessa vez ela não escapa... Rs.
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