Capitulo 3 - Traduzido por Clarisse
Depois de fechar todas as cortinas para se assegurar que ninguém podia ver dentro da casa, ele se sentou na sala, olhando para o espaço, sentindo como se tudo isso fosse algum tipo de alucinação induzida pelo álcool. Se não fosse pelo som da água no chuveiro do andar de cima, ele estaria convencido que realmente era. O único problema com essa teoria, era que ele não se sentia mais nem um pouco bêbado – pelo contrário, ele se sentia mais sóbrio que nunca.
Mas droga, coisas assim não acontecem na vida real. A mulher em que você está pensando há dias não entra de repente pela sua janela no meio da noite pedindo para tomar um banho. Mas também, ele disse para si mesmo, a maioria das pessoas não caem numa ilha deserta e vivem lá por mais de um mês. Sua vida estava ficando...diferente.
Com seu cérebro desembaçando por praticamente a primeira vez em três dias, ele evitou pensar em tudo que ele não queria pensar. De repente ele desejou ter um cigarro, e ele percebeu com certa ironia que não tinha voltado a fumar desde que voltou. Foi um alivio quando ele a ouviu descendo as estreitas escadas de madeira e entrando na sala.
Ele olhou para cima. Era a primeira vez que ele a via usando qualquer coisa que não fosse suas "roupas da ilha". Ela estava usando um roupão fino, xadrez desbotado, que ele nem sabia que tinha. Mulheres conseguem encontrar coisas na sua casa que você nem sabe que existem.
Ela sentou no sofá oposto a ele, secando os cabelos com uma toalha.
"Então..." ela começou, quase desconfortável.
"Então..." ele repetiu em um tom implicante.
"O que você tem feito?" Tinha um brilho em seus olhos que o deixava saber que a piada era mais uma piada do que tudo.
"Nós nos vimos há cinco dias, Freckles."
"Eu sei. Parece que é mais, não é?" Ela estava pensativa.
"É," ele disse baixo. Pareciam anos. De certa maneira, parecia que nem tinha acontecido.
Olhando a sala curiosamente, ela se sentou em cima dos pés e se apoiou no braço do sofá. Ele a observou fascinado. Ele não conseguia descobrir porque ela parecia tão estranha, mas finalmente lhe ocorreu que era porque ele nunca a tinha visto sentada em uma mobília de verdade. Ele nunca a tinha visto sob uma luz artificial. Ele nunca a tinha visto em um espaço fechado. Na sua mente ela estava ligada à ilha. Ela pertencia lá assim como as palmeiras e a cachoeira. Vê-la aqui era como ver a Torre Eiffel no meio de Nebraska. Não combinava.
Percebendo que ele a estava observando, ela olhou de volta para ele. "Essa casa é antiga, não é?"
"Foi construída em 1918". Ele não estava com humor para entrar em detalhes sobre a história da casa. Não agora.
"Ela concordou com a cabeça. "O chalé a 800 metros daqui – é seu vizinho mais próximo?"
"Próximo demais pro meu gosto. Odeio aquele filho da mãe."
Ela sorriu. O mesmo velho Sawyer. "Que bom. Menos pessoas para xeretar."
"Você tem certeza que ninguém tá te seguindo? Você provavelmente é a fugitiva mais procurada do país, considerando quantas vezes você escapou por entre os dedos deles. Você tá dando má fama a eles."
"Não. Ninguém me seguiu, eu tenho certeza. Mas não significa que vão parar de procurar." Ela olhou para a janela coberta, um pouco nervosa.
"Como você pode ter certeza? Talvez eles estejam te deixando em rédeas longas antes de puxarem."
"Acredite, eu sei quando estou sendo seguida. Já aconteceu muitas vezes." Ela disse um pouco triste.
Ele ficou satisfeito. Ela deve ser relativamente boa nisso, se estava escapando há tanto tempo. Ele podia confiar nos instintos dela tanto quanto em seus próprios.
Ele a olhou melhor. "Esse corte...aconteceu no acidente?"
Ela tocou a testa confusa, como se tivesse esquecido que a ferida estava lá. "Acho que sim."
"Parece infeccionada."
"Ela está bem." Ela disse brevemente.
"Eu acho que tenho água oxigenada," ele disse levantando.
No banheiro, ele olhou o armário de remédios. Ela o seguiu, se apoiando no vão da porta; Entregando o vidro a ela, ele disse, "Melhor você mesmo passar, eu não sou médico.
As palavras estavam carregadas, mas ela tentou ignora-las. Abrindo o vidro, ela usou uma toalha de rosto para passar um pouco no corte. Como ela esperava, ele não mudou de assunto.
"Falando em médicos." Ele olhou diretamente para ela. Ela fechou os olhos por um segundo e virou para ele. "O que?"
"Você achou meu endereço com facilidade. Não me diga que não poderia ter achado o dele se tentasse."
"Eu não tentei." Passando por ele, ela voltou para a sala. "Você cresceu nessa casa?"
Ignorando-a, ele esperou. Por algum motivo ele não podia esquecer isso. Ele precisava saber como estavam as coisas, mesmo que ele suspeitasse d verdade, ele queria ouvi-la dizer. Ele precisava ouvi-la dizer.
Finalmente, percebendo que ele não ia responder, ela virou-se para ele. Cruzando os braços de forma protetora, ela olhou para baixo.
Ele a observou. "Você disse que não tinha mais para onde ir. Isso não é verdade, é?"
"Eu não queria envolver Jack nisso."
"Ah, mas tudo ótimo me envolver...é isso? É, eu sei como é... Não ia querer o Santo Jack sujando as mãos preciosas, mas o Sawyer...bem, a vida dele já é uma merda, que uns anos na penitenciária não iam fazer muita diferença para ele!" Ele disse amargamente, como se as falas tivessem sido ensaiadas. Ele sabia exatamente o que ela iria dizer.
"Não foi isso que eu quis dizer! E...não é só isso." Ela desviou o olhar e disse baixo. "Jack é uma pessoa boa. O mundo, pra ele...é preto e branco. Talvez isso seja bom, talvez não...mas é como ele vê as coisas. Ele não vê o cinza. E você e eu? Nós somos o cinza." Ela parecia estar tentando segurar as lágrimas. Ele se arrependeu de ter sido tão persistente.
Ela continuou. "Se eu procurasse o Jack...se eu pedisse ajuda a ele...Ele ia querer fazer a coisa certa. Ele sempre faz a coisa certa. Exceto que nesse caso...eu não sei o que ele consideraria a coisa certa."
Sawyer estava surpreso. "Você está dizendo que não confia nele?"
As palavras pareciam machuca-la, mas ela respirou fundo e olhou direto em seus olhos. "Eu não sei."
Os dois ficaram quietos por um minuto. Ele se perguntou se isso significava que ela achava que podia confiar nele? Mesmo depois do que ele fez semana passada – a expondo como criminosa na frente de todos? Ele sabia que não tinha feito nada para merecer tanta confiança. Mas se ela não tivesse, por que estaria aqui?
Parecendo derrotada, ela continuou. "Eu não sei se é possível para o Jack entender pessoas como eu. Pessoas como nós." Ela olhou pra ele com um olhar direto e forte que, também era estranhamente vulnerável. Ele teve um bizarro e incontrolável desejo de ir até ela, mas se restringiu. Ele não tinha idéia de como ela reagiria. Provavelmente com outra cotovelada na cara.
Finalmente, quebrando o olhar que eles estavam segurando, ela perdeu resistência, parecendo cansada. "De qualquer forma." Ela olhou distraida "Eu estou exausta." Olhando para o sofá, ela perguntou hesitante. "Eu vou...dormir aqui?"
Se forçando a parar de pensar nas conseqüências do que ela disse sobre Jack, ele tentou prestar atenção. "O quarto lá em cima, à esquerda. Está vazio" Ele pausou. "Os lençóis estão no armário." Ela estava enganada se achava que ele arrumaria a cama pra ela.
"Ok"
No pé da escada, ela parou e olhou para ele.
"Sawyer."
"Oi," Agora era a vez dele de parecer exausto.
"Obrigada." Ela disse suavemente, encontrando seus olhos novamente. Sem esperar por resposta, ela continuou a subir as escadas. Alguns segundos depois ele ouviu a porta do quarto fechar.
Sentando na cadeira que ele estava antes, ele desejou mais uma vez, que não tivesse parado de fumar.
