Capitulo 4 - Traduzido por Clarisse

Ele podia dizer que estava com dor de cabeça antes de abrir os olhos. Depois do choque de vê-la ele não tinha se sentido bêbado, mas aparentemente isso não era o suficiente para lhe livrar da ressaca. Mas além da dor de cabeça, alguma coisa estava diferente. Ele podia sentir mesmo com os olhos fechados.

Piscando lentamente ele fez um esforço para abrir os olhos. Kate estava sentada nós pés da cama, observando-o curiosamente, suas pernas cruzadas em estilo indiano. "Bom dia," ela disse.

"Ele deixou a cabeça cair de novo no travesseiro e fechou os olhos de novo. "O que você quer?" ele reclamou.

"Não aja como se estivesse amanhecendo," ela disse com ironia. "São 11:30."

"Pra mim, isso é amanhecendo, querida. Agora porque você não volta em algumas horas pra gente conversar?" Ele rolou para o outro lado, ficando de costas para ela.

Não desencorajada, ela foi para o outro lado da cama e sentou na ponta. "Você não tem comida."

"Eu tenho comida," ele disse com raiva.

"Não, você tem meia caixa de cerveja, um pouco de feijão e uma caixa de Frosted Flakes que passou da validade em 2001. Você também não tem sabão para lavar roupas, pasta de dente nem desodorante, E..." Ela franziu o rosto comicamente e disse relutante, "O papel higiênico acabou de acabar."

"Jesus Cristo," ele reclamou, cobrindo a cabeça com o travesseiro.

Ela levantou e puxou o travesseiro.

Ele olhou para ela. "O que você quer que eu faça?"

"Você vai ter que ir ao supermercado," ela disse, como se fosse obvio. "Eu fiz uma lista," ela continuou insistindo.

Ele sentou, ainda irritado "Você fez uma lista?" Sua cabeça começou a doer mais. Colocando os dedos nos lados da testa, ele fechou os olhos novamente. "Não dá pra acreditar."

Ela parecia vagamente feliz "Vou colocar aspirina na lista." Ela foi até a porta, então virou para ele "Você não vai voltar a dormir, vai?"

Tentando olhar para ela com tanta desobediência quanto conseguiu, ele a viu sair do quarto e descer as escadas.

Saindo da cama, ele foi irritado em direção ao banheiro. Não adiantava tentar descansar agora. Culpa dela. Ele não tinha humor para brincar de casinha. Ele bateu a porta do banheiro com força, e se arrependeu quando sua dor de cabeça piorou.

-----------------------------------

Ele tomou banho e não teve pressa para descer para a cozinha. Ela que espere. Ele não ia rearranjar sua vida inteira só porque ela tinha escolhido sua casa como esconderijo. Talvez ela pudesse ter Jack na palma da mão, pronto para fazer o que ela quisesse, mas não ele, por Deus. Se ela não aceitasse, ela podia ir embora.

Quando ele entrou na cozinha, ela na janela em cima da pia, olhando para os vales montanhosos que iam em direção ao leste. Ela virou em sua direção. "Eu vou ter que fazer cortinas mais pesadas para essa janela. Só por precaução."

Ignorando-a, ele abriu a janela. Ela estava certa; não havia nada além de cerveja. Pegando uma lata, ele fechou a porta e abriu a lata.

"O que você tá fazendo?" Ela disse, olhando para ele como se ele estivesse louco.

"Cerveja é bom pra ressaca," ele disse, tomando um gole e tentando não fazer cara feia pelo gosto terrível.

"É? Café também." Ela disse levantando o bule. "Eu achei um pouco no fundo do armário. Só deu pra usar essa vez."

"Eu não to com vontade de tomar café" ele disse, tomando mais um torturante gole de cerveja.

Sem prestar atenção, ela encheu uma caneca e segurou em direção a ele.

Ele considerou. Parecia melhor que qualquer outra coisa no momento, mas ele não queria dar o braço a torcer. Levantando as sobrancelhas e observando-o pacientemente, ela continuou segurando a caneca. Ele largou a lata dentro da pia, puxou uma cadeira e sentou-se.

Ela colocou a caneca em sua frente, sem dizer nada. Então puxou uma cadeira de frente para ele. Eles se sentaram em silêncio por um minuto. Ele bebeu o café, esperando que ela não percebesse o quanto ele havia gostado.

Sua dor de cabeça começou a melhorar um pouco, mas ele ainda estava irritado. "Vamos combinar uma coisa." Ele disse finalmente, olhando para ela. "Eu acordo sozinho de manhã. Eu não preciso de um despertador humano me levantando e dizendo que horas são. Entendeu?"

"Você acordou sozinho," ela lembrou "eu só estava sentada lá."

Era verdade? Era possível ela ser mais irritante?

Percebendo seu mau humor, e talvez se sentindo culpada, ela respirou "Olha, desculpa, tá? Eu iria eu mesma ao supermercado se eu pudesse, acredite. Mas no momento...Eu estou em todos os noticiários a cada 20 segundos. Essa é uma cidade pequena, as pessoas sabem que você mora aqui...eles podem juntar as coisas. É muito arriscado."

"Eu sei disso"

"Aqui a lista." Ela passou o papel para ele. Era inacreditavelmente longa. Ele espremeu os olhos, tentando decifrar as palavras.

"Você precisa dos seus óculos?"

Ele a lançou um olhar destruidor, e ela virou a cabeça tentando não rir.

Passando os olhos pela lista, ele viu que a maioria eram coisas normais. Uma típica lista de compras. "O que é isso?" ele apontou para uma palavra que ele não conseguiu entender.

"Alcachofra" ela disse como se isso explicasse tudo.

"Pra que diabos você quer alcachofra?"

"Pra cozinhar." Ele continuou olhando para ela. "Vai ser bom, confia em mim."

Ele olhou de volta para a lista. Depois de alguns segundos ele olhou de volta para ela em choque. "Absorventes?"

Ela sacudiu os ombros com indiferença "Bem?"

Ele balançou a cabeça em desdém. Isso ia ser um pesadelo.

"Eu acho que você dá conta" ela disse despreocupada.

"Exatamente quanto tempo você está planejando ficar aqui? Se eu posso perguntar." Ele disse.

Ela esperou alguns segundos antes de responder, parecendo triste. "Eu vou sair do seu caminho o mais rápido o possível. Eu prometo."

Estranhamente, essa reposta não o deixou satisfeito. Ele terminou o café e colocou a cadeira de volta no lugar. Sem dizer nada a ela, ele foi em direção à porta de saída da cozinha. Ele parou na varanda, pensativo, e entrou novamente.

"Vem cá," ele a chamou.

Ela levantou e foi até a porta da despensa, olhando para ele, questionando.

"Eu quero te mostrar uma coisa." Ele abaixou. Levantando um tapete vermelho, ele abriu um trinco e levantou uma parte das tábuas de madeira, até que ela ficasse apoiada em suas dobradiças. Ele olhou para ela enquanto ela olhava curiosa para o buraco.

"É um porão," ele explicou "quanto o tapete está por cima fica difícil dizer que está aí – a abertura fica quase completamente escondida." Ele deu um olhar significativo. "Só no caso de alguém querer bisbilhotar, como o filho da mãe do chalé."

Ela concordou séria "OK"

Ele fechou o porão e cobriu com o tapete. Ela o seguiu quando ele voltou para a porta dos fundos. Ele parou e olhou para ela, preocupado. "Tranque as portas assim que eu sair. E deixe as cortinas fechadas. Você também devia..."

"Sawyer." Ela o interrompeu "Eu sei fazer isso."

"É" Ele disse ainda preocupado. Abrindo a porta, ele olhou para ela mais uma vez "Eu volto o mais rápido possível Não convide seus amigos."

Ela sorriu, então fechou a porta enquanto ele se dirigia ao carro.

-----------------------

Quando ele finalmente estacionou, já estava no fim da tarde, e as sombras estavam começando a se alongar. Depois de deixar a casa ao meio-dia, ele percebeu que não tinha dinheiro suficiente, então teve que parar em um banco. Aparentemente, depois da queda de avião sua conta tinha sido liquidada, e ele tinha demorado mais de uma hora para provar aos cretinos que ele não estava morto.

Quando chegou ao supermercado, ele não conseguiu achar metade das coisas da lista. Ficando bravo com o fato que ele tinha que consultar uma lista, ele a deixou no chão e resolveu comprar sozinho. Ele percebeu seu erro quando não conseguiu pensar em nada para comprar, sendo forçado a voltar e procurar o papel. Ele xingou a Oceanic Airlines, a ilha, Kate, os banqueiros, o gerente do supermercado, e, de quebra, Jack. Quando chegou em casa ele estava exausto.

Estacionando em frente à porta da cozinha, ele pegou tantas sacolas quanto conseguia carregar. Ele faria ela levar as sacolas, mas provavelmente não era seguro sair de casa durante o dia. Ele colocou as sacolas no balcão. Pelo menos ela podia guardar as coisas – não era pedir muito.

"Kate?" Ele não ouviu resposta. A casa estava tão quieta quanto um necrotério. "Ei, Kate, eu comprei suas coisas!"

Olhando para a mesa, ele viu uma folha de papel com sua letra. Era um bilhete. Inesperadamente, ele sentiu uma pontada no fundo do estômago. Então ela deve ter mudado de idéia. Talvez depois do que ele disse essa manhã, ela decidiu arriscar na estrada.

Provavelmente era melhor assim, ele disse para si mesmo. Ela só causaria problema se ficasse aqui. Mesmo assim, ele se sentiu ridiculamente desapontado. Ele andou lentamente em direção ao bilhete, sem querer lê-lo.

Quando ele chegou perto, percebeu que só tinham três palavras escritas.

"Estou no sótão"

E então uma carinha sorrindo ridícula, que não tinha nada a ver com ela.

Ele riu aliviado. Deixando o resto das sacolas no carro, ele foi para o segundo andar. Para falar a verdade, ele tinha até esquecido que tinha um sótão. Ele sabia onde as escadas estavam, claro, mas ele não tinha subido lá desde que era criança. Nem seus pais iam muito lá.

No segundo andar, ele encontrou a porta que levava ao sótão e lentamente subiu os antigos degraus de madeira. Quando chegou ao topo, ele parou admirado.

Ela estava de costas para ele, mexendo em um baú perto da janela que deixava entrar pouca luz. O que o fez parar foi o fato que ele quase não a reconheceu – ela parecia um fantasma. Porque, indo contra todos os preceitos do que ele achava que sabia sobre ela, ela estava parada, usando...um vestido. E não qualquer vestido; um vestido de algodão de 1940, ao estilo Big Band. Tinha mangas curtas e era estampado com flores – o tipo que prende na cintura e nos ombros, mas fica largo embaixo dos quadris. Ela parecia como uma noiva na guerra, pronta para mandar seu marido para a marinha.

"Bem, bem, bem, que surpresa."

Assustada, ela virou e colocou a mão no coração. "Que droga, Sawyer, você me assustou!"

Ele terminou de subir as escadas e olhou para ela. "O que você está fazendo aqui em cima?"

"Eu estava procurando roupas. Se você não reparou, eu não trouxe nada. E eu cansei de usar o roupão."

"então você decidiu usar isso?" ele perguntou ironicamente, olhando para o vestido.

Ela olhou para o vestido. "Tudo aqui tem uns 60 anos. Eu só consegui encontrar isso."

"É porque essas são as coisas dos meus avós," ele respondeu, olhando curiosamente. "Esqueci que estavam aqui."

"Eu estou surpresa," ela disse. "Você provavelmente tem uma fortuna aqui em cima. Antiguidades valem muito."

Ele olhou para ela bruscamente. "É, não tenha idéias. Essas coisas são minhas."

Ela estreitou os olhos para ele com desprezo, e foi em direção à escada.

Ele a seguiu. "Você vai ficar com isso?"

Ela girou, fazendo a saia abrir. "Eu não sei. Eu gostei."

Ele também. E era isso que o preocupava.

"Você ta com cheiro de naftalina" ele disse sarcasticamente.

Ela virou os olhos. "Eu vou lavar minhas roupas de ontem. Você comprou sabão?"

"Estava na lista, não estava?"

Sorrindo para ele, ela se preparou para descer para o primeiro andar. "Eu vou fazer o jantar."

Ele a observou indo, tentando lembrar se alguma mulher já tinha feito jantar para ele. Ele tinha quase certeza que a resposta era não. Estava tudo errado. Ela não deveria estar aqui. Ele deveria ir embora antes que...Antes que o que, ele se perguntou? Antes que ele não quisesse mais que ela fosse? Mas não já era tarde demais para isso? Cansado, confuso e com raiva de si mesmo, sem saber o motivo, ele desceu para terminar de tirar as compras do carro.