Capitulo 6 - Traduzido por Leanna
De certa forma, ela manteve sua promessa. Quando ele abriu os olhos na manhã seguinte, estava sozinho – a porta estava fechada, e não havia nada ali para perturbá-lo. Mas alguma coisa tinha o acordado, com certeza. O que seria? Ele esperou, ouvindo, tentando entender o que interrompeu seu sono.
Então ele ouviu outra vez... um baque, seguido pelo som de algo arrastando. Que diabos? Seu primeiro impulso foi de se preocupar com ela... Teria alguém entrado na casa? Ele não conseguiu ouvir vozes,mas algo estranho estava acontecendo. Levantado-se rapidamente da cama e vestindo seu jeans, ele seguiu o som escada abaixo e então parou de repente na porta da sala, desnorteado.
Cada objeto da mobília estava colocado no centro do cômodo, alguns amontoados, metade deles empilhados em cima de outros móveis. Parecia que um tipo de furacão bizarro havia engolido tudo, posicionado no centro da sala e desaparecido, abandonando tudo.
Ele olhou ao redor completamente confuso, achando que não havia ninguém na sala. De repente a cabeça de Kate surgiu ao lado de uma pilha ao lado de uma cadeira de balanço. Ela estava outra vez em seu jeans e blusinha, e seu cabelo preso em um rabo-de-cavalo. Para completar o conjunto, ela estava armada de um pando empoeirado e uma vassoura.
"Hey." Ela disse um pouco sem fôlego.
A principio ele não conseguiu falar. Finalmente ele soltou "Que diabos é isso?"
Nem um pouco afetada pelo tom de sua voz, ela olhou para ele quase solidariamente "Foi você mesmo quem arrumou esses móveis?"
Ele não fazia a menor idéia do que ela estava falando "Foi", ele disse na defensiva, tentando entender onde ela poderia estar querendo chegar.
"Achei que fosse." Ela olhou ao redor cepticamente "Você também não limpa muito, não é?"
Ele continuou a encarando como se ela fosse de outro planeta.
"Vai parecer bem melhor quando eu terminar com isso, acredite. Não vai nem reconhecer o lugar."
Finalmente ele começou a entender o que ela estava fazendo. Faxina! E não só faxina, mas, Deus... redecorando!
Irritado, ele falou "É? E posso saber quem te deu permissão pra fazer isso tudo? Por acaso se lembra de quem é essa casa, Sardenta? Porque eu disse que poderia se esconder aqui. Não me lembro de ter pedido um Extreme Makeover Versão Condenada!"
Ela suspirou impaciente "Não posso ficar sentada o dia todo, Sawyer. Nunca consegui fazer isso. Principalmente em horas como essa... se eu tentar relaxar, começo a pensar demais." Ela parecia distante por um momento, mas logo voltou à realidade, empurrando a vassoura com força embaixo de uma mesa "O que mais posso fazer pra passar o tempo?"
"Tenho idéias melhores que isso," ele resmungou amargo.
Ela riu e respondeu "É, bem. Vou me lembrar disso." Após alguns segundos, ela voltou-se para ele "Ao menos não pode ficar pior do que já estava. É um consolo."
Ele cerrou os olhos e a encarou com desdém "Podia pelo menos ter perguntado."
"Me disse pra não te acordar! Eu estava só...seguindo suas ordens," ela disse com gosto.
"Bom, com certeza você não as segue muito bem, não é, porque me acordou do mesmo jeito! Parecia que uma manada de elefantes de circo tinha sido solta aqui... Bela maneira de saudar os ouvidos..." ele parou "Que horas são?"
"Uma," ela respondeu ríspida.
Droga. Ele tem que parar de dormir tão tarde.
Irritado, ele encaminhou-se para a cozinha, mas então olhou de volta para ela, um pouco esperançoso "Vai fazer o café?"
Ela olhou para ele incrédula e soltou uma risada. "Não! Já tomei a horas atrás. Acho que pode se virar sozinho."
Ele parecia desapontado.
Ela não foi compreensiva "Acha mesmo que vou cozinhar três vezes por dia pra você?"
"Tem que pagar o aluguel de alguma forma, docinho. E não te vejo aceitando minhas outras ofertas."
Ela virou os olhos mas pareceu considerar "Vou fazer outra xícara de café, mas é só. Depois é por sua conta." Ele virou-se, mas ela o chamou "primeiro me ajuda a mover a estante de livros... Pesa uma tonelada."
Ele respirou fundo e foi irritado em direção à estante de livros. A encarando, ele pegou um lado da estante enquanto ela pegou o outro. Juntos eles a ergueram e começaram a arrastar pelo chão. Ao que ela foi para o seu lado a fim de encaixar a estante em um canto, a mão dele escorregou e tocou seu seio. Fingindo não ter notado, ela rapidamente voltou para o outro lado sem olhar para ele. Qual o problema dela? Ele pensou. Ela não pode nem deixá-lo aproveitar um pouco por acidente?
Para diminuir o constrangimento, ela disse abruptamente "Ah, esqueci de dizer... seu ar condicionado está quebrado."
"Eu sei." ele respondeu irritado "tá quebrado faz cinco anos"
"Bom... não acha que tá
na hora de concertar?"
"Não acha que eu já teria
feito se quisesse?"
"É muito quente aqui, Sawyer." Ela parecia estar falando com um pirralho de cinco anos.
"Estamos em Setembro... logo começa a esfriar" ele respondeu empurrando a estante ao maximo. "O que não vai fazer diferença nenhum, já que não vai estar aqui mesmo, vai?"
"É verdade... Mas isso não muda o fato de que ta muito quente agora."
"Olha, se ta achando que vou liberar trezentos paus pra concertar essa porcaria pra você ficar mais confortável mudando a mobília que nem te pertence, tá delirando!"
Ela olhou para ele pensativa "Okay." Ela disse finalmente, em um tom quase divertido "Fique a vontade."
Ele a seguiu até a cozinha onde ela pegou a lata de café recém comprado da prateleira. Será que ela tem alguma idéia do quanto está o tirando do sério? ele pensou. Se ela sabe, parece não se importar nem um pouco. Ele realmente não sabe se conseguirá dar conta da situação. Ele nunca esteve com uma mulher por tanto tempo antes. Seu método era geralmente dormir com elas e então mandá-las de volta para seus maridos cuidarem. Fora o fato de que os maridos eram ricos, o que era um bônus de ter casos com mulheres casadas.
Uma vaga idéia lhe veio em mente e antes que pudesse pensar no assunto ou decidir se gostava ou não, ele mandou.
"Talvez essa coisa funcione melhor se eu sair e te deixar com a casa."
Ela virou-se para ele de onde estava medindo as xícaras de café, pensando que fosse uma piada. Ela ficou um pouco surpresa ao ver que ele falava sério.
"Quer dizer, eu vou..." ele hesitou "Ainda posso te trazer comida ou algumas coisas... assim não precisa sair nem nada. Mas parece que seria bom pra nós dois se eu não ficasse aqui."
Havia um claro desapontamento nos olhos dela, mas ela voltou-se para o café e deu de ombros tentando parecer casual. "É... tudo bem... quer dizer, tanto faz. Não é grande coisa." Ela olhou de volta para ele. "Já me escondi sozinha ates, então...tô acostumada."
Era impossível não notar o traço de desapontamento em sua voz. Ele quis se bater. Por que diabos ele foi dizer aquilo? Ele não queria mesmo partir. Certo, ele queria... mas ele sabia que no momento que partisse, estaria cercado de preocupações com ela.
Ela pôs a água na cafeteira e trocou a caneca, apertando o botão. "Fica pronto em um minuto" ela tentou não olhar para ele enquanto voltava para a sala, pois ele é muito bom em a entender. Ela não queria que ele soubesse o quanto odeia o fato de ficar sozinha.
Ele sentou-se a mesa, no maior conflito que já teve. Será que vai aprender a ficar de bico fechado? Ao menos até decidir o que quer. Ele finalmente decidiu que iria recompensar de alguma forma... arranjar uma desculpa para não poder partir. Foi só uma idéia, de qualquer forma. Ele não disse nada definitivo, disse?
Quando o café ficou pronto, ele pegou uma xícara e subiu as escadas. No caminho ele pegou a lista telefônica para procurar o endereço de uma droga de técnico em ar condicionado.
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Ele passou algumas horas trabalhando em sua picape, tentando ligá-la, mas em vão. Ele poderia deixar um mecânico dar uma olhada, mas pr alguma razão ele queria fazer isso por si só. Embora estivesse mexendo nisso há anos sem muita sorte, isso se transformou quase que em um hobby. Se a coisa começasse a funcionar, ele poderia ficar um pouco desapontado.
Depois de subir e tomar um banho, ele desceu novamente para a sala. Ela quase havia terminado de arrumar o lugar, e ele estava maravilhado em ver como estava parecendo diferente. Ela tinha razão... estava quase irreconhecível. Parecia mil vezes melhor. Era quase triste o fato de que nem a pau ele iria dizer isso a ela.
Notando ele parado ali, ela parou e esperou.
"To indo pra cidade." ele disse.
Tentando sem sucesso disfarçar seu desapontamento, ela acenou. "Okay. Provavelmente tenho o suficiente pra durar uns... quatro dias?" ela estava se esforçando para parecer ocupada e distraída "Então se quiser aparecer no Sábado... eu posso fazer outra lista..."
"Não foi o que quis dizer," ele interrompeu, a observando com cuidado. "Tenho umas coisas pra fazer, só isso." Ele parou, fingindo estar pensativo "Andei pensando no assunto, e me ocorreu que você seria provavelmente a ultima pessoa no mundo que eu gostaria de deixar sozinha com as minhas tralhas. Provavelmente eu iria voltar e achar o lugar limpo."
Ela olhou para o chão e deu um sorrisinho. Era um insulto, mas ela estava quase feliz em ouvir aquilo, considerando o significado. "Nunca se sabe." ela respondeu encabulada.
"É." ele disse, seu rosto parecendo um pouco mais suave "Então acho que está presa a mim."
Ela olhou para ele, e não foi preciso um vigarista para notar a expressão de gratidão no rosto dela. Relutantemente desviando seus olhares, ele foi em direção a porta. "Não se preocude em cozinhar nada. Trago o jantar." Jesus, aquelas palavras soam estranhas para seus ouvidos... Algo tão normal de se dizer, mas será que ele já dissera algo parecido antes?
"Okay."
"Não esquece de trancar tudo!" ele disse ao sair.
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Quando terminaram a pizza que ele havia trazido, já estava escuro. Eles sentaram-se na sufocante cozinha, não muito certos do que fazer agora. Estava intoleravelmente quente, e ambos estavam suando.
Sawyer finalmente falou, relutante "Parei em um técnico... o cara do ar condicionado deve aparecer amanhã às duas. Então vai ter que sumir se não quiser que ele te veja aqui."
Ela mordeu um pedaço de uma borda da pizza e olhou para ele cômica "Hm."
"O que?" ele perguntou, na defensiva.
"Não disse nada." Ela tentou não sorrir
Ele se reclinou na cadeira, irritado.
Apos alguns minutos ela suspirou. "Deus, eu queria poder ir lá fora. Depois de viver na ilha por tanto tempo, ficar trancada dentro de casa assim tá me deixando louca."
Ele pensou por um momento. "Tem uma trilha que vai até o lago... fica entre umas arvores espessas. Não vejo por que não podemos ir lá alguns minutos."
Ela balançou a cabeça, preocupada. "Não... é muito arriscado. Pricipalmente depois d o que aconteceu ontem."
"Eu disse que provavelmente não foi nada. E mesmo se eles voltarem, a luz não iria penetrar todas aquelas árvores.
Ela pareceu considerar "E os seus vizinhos?"
"Só tenho um. E o imbecil vive tão chapado que nem notaria se a gente invadisse a casa dele."
"Acha mesmo que é seguro?" Ela olhou para ele. Ela parece por algum motivo querer que ele tome a decisão por ela.
"É. Vai ficar tudo bem," ele disse firme. Ele quase acrescentou, " eu prometo", mas se conteve no ultimo instante. Aquilo seria um pouco exagerado.
"Certo," ela disse nervosa "Sem lanternas, então."
"Não é preciso. É lua cheia."
Ela limpou a mesa enquanto ele pegou uma cerveja da geladeira, então, pensando bem, pegou mais uma, estendendo para ela. Ela hesitou, e então aceitou.
Eles foram para fora, e depois de alguns segundos, ele localizou o começo da trilha. Por sorte, era estável e usada o bastante para não ser preciso carpir com freqüência – a terra estava tão sólida que mais parecia uma rachadura permanente. Eles começaram a andar em fila, Sawyer na frente. Em certo ponto, Kate tropeçou em uma raiz e agarrou-se em seu braço para se equilibrar, mas soltou o mais rápido possível. "Desculpa" ela disse.
A trilha finalmente se abriu em uma pequena área cercando o lago. Eles desceram a colina até o cais, e Sawyer tentou testar com seu peso para ver se a madeira mostrava algum sinal de estar apodrecendo. Parecia sólido como nunca. Ele fez um gesto para que ela se juntasse a ele, e quando ela chegou na borda, ela imediatamente tirou as sandálias e colocou os pés na água. Ele teve que sorrir.
Ela olhou para ele, inquisitiva "Vai se sentar?"
Ele sentou-se ao seu lado na beirada do cais. Mal havia espaço para duas pessoas ali, mas ela ainda assim conseguiu manter um centímetro de distancia entre eles. Ele abriu a lata. Ela fez o mesmo e eles beberam por um momento, nenhum dos dois falando nada.
Quando terminou sua cerveja, Sawyer amassou a lata com sua mão e jogou da beirada do cais para o lago. Sem palavras, Kate virou e terminou a sua, deixando a lata do seu lado. Ele tentou não virar os olhos.
Depois de alguns segundos apreciando a vista, ela perguntou, "Aquilo é... um jato?"
Ele olhou para o pequeno ponto vermelho piscando sem som no céu."É."
"Parece tão pequeno daqui," ela disse com uma voz quieta "É estranho pensar em todas as pessoas dentro daquela coisa... Todas aquelas vidas separadas... só... flutuando lá em cima." Ela continuou seguindo o ponto piscante com seu olhar. "Eles provavelmente nem falaram uns com os outros."
"Vamos torcer pra eles pararem em um aeroporto e não precisem conversar."
Ela sorriu e olhou novamente para o lago. "Sente falta?"
"Sente falta do que?"
"Sabe do que." Ela parou "Da ilha."
"Você sente?"
"Sei que é loucura, mas sinto. Mesmo."Ela continuou, nostálgica "Acho que , de certa foram, eu seria mais feliz se não tivéssemos sido resgatados."
Ele balançou a cabeça em desdém "Você não tá batendo bem."
"Não respondeu minha pergunta. Se sente falta."
Ele a olhou de lado, incapaz de dizer para ela uma mentira completa "Vou dizer do que sinto falta. Sinto falta do doutor pagar mico tentando jogar golfe. Sinto falta de dizer onde aquele thingyney devia enfiar seu violão. E... bom, tenho que admitir, Sardenta. Sinto falta do maldito cachorro.
Ela riu "Eu também."
Após alguns segundos de quietude, ela suspirou. "É mesmo lindo aqui, não?"
"Não é nada mal." Ele concordou.
"Deve ter sido um lugar incrível para ser criança...até...você sabe." Ela parou, um pouco constrangida.
"É. Foi bom enquanto durou." Ele disse, amargo.
"De certa forma me lembra de onde eu cresci. Não as montanhas, quer dizer. Só...Como é quieto."
"E aonde isso seria?" ele perguntou curioso.
"Iowa." Ela respondeu com um traço de ironia.
"Tá brincando?" ele acentuou o sotaque "Tenho que dizer, meu bem, nunca diria que é uma garota do campo."
"Não só uma garota do campo. Uma garota de fazenda. Tínhamos vacas," ela continuou, com uma voz divertidamente confidencial.
"Ora, você é cheia de surpresas." Ele sorriu para ela.
Ela sorriu de volta, mas desviou o olhar ao que uma sombra parecia ter passado sobre seu rosto. "É, bom... também não durou muito pra mim. Me mandei de lá o mais cedo que pude."
"Como aconteceu?"
A sombra estava ficando mais escura agora. Ela estava olhando para o passado, incapaz de tirar seus olhos de lá, apesar do horror que encontrou naquele lugar. Ele conhecia aquela sensação muito bem. Ela balançou a cabeça abruptamente "Não."
"Você tocou no assunto."
"Eu sei. Mas... não posso." Ela tirou seus pés da água e levou seus joelhos de encontro a seu peito, envolvendo-os em seus braços firmemente.
Ele a observou, compreensivo, mas ao mesmo tempo fascinado "Vai me contar?"
"Talvez." Sua voz era firme e ela parecia estar contendo as lágrimas. "Mas não hoje." Ao que ele não desviou o olhar, ela olhou em seus olhos, implorando "Por favor, Sawyer".
Ele acenou levemente em aceitação e virou-se. Ela recostou seu queixo em seus braços cruzados, olhando tristemente para o lago.
"É, bom." Ele falou finalmente "Parece que sua infância foi tão divertida quanto a minha."
Recostando agora seu rosto em
seus braços, ela o encarou, e, tentando sorrir, sussurrou
"Tanto quanto."
Ele deixou alguns segundos passarem, e então,
gradualmente, quase imperceptivelmente, ele inclinou-se em direção
a ela, até que quase se tocaram. Ela ficou tensa por uma
fração de segundo, mas não se moveu. Não
havia na verdade para onde se mover, a não ser a água.
Aceitando o conforto, e sabendo instintivamente que ele não
iria tentar fazer nada, ela relaxou.
Com olhos igualmente assustados, os dois continuaram a olhar para a água escurecida enquanto a lua brilhava no céu.
