Capitulo 7 - Traduzido por Leanna

Estava acontecendo outra vez. A porta se abriu, deixando entrar um feixe de luz vindo do corredor. Os pés de seu pai puderam ser vistos e entraram no quarto, vagarosa e deliberadamente. Debaixo da cama, ele tentou acalmar sua assustada respiração. Indo cada vez mais de encontro a parede, ele assistiu seu pai sentar-se na cama. Ele ficou tenso, esperando pelo disparo.

Ao invés disso, ele ouviu uma mulher lutando, protestando. Sua mãe? Mas ela já estava morta, estirada sobre uma poça de sangue no hall da frente. O terrível som continuou, atrasando o disparo da arma. Isso estava fora de sincronia... nunca acontecera nessa ordem. Algo estava errado ali. O sonho não estava seguindo seu velho e conhecido rumo.

A estranheza do som fez com que ele emergisse de seu sono, a bruma em sua mente se dissipando, lentamente, uma nuvem após a outra. Quando já estava quase desperto, começou a perceber que o barulho não fazia parte do sonho. Ao que ficou totalmente alerta, a fantasmagórica mulher gritou novamente, e seu corpo deu um salto.

Kate.

Chutando os lençóis freneticamente, ele pegou a pistola que guarda em uma gaveta próxima da cama. Seguindo o corredor, ele abriu a porta dela subitamente, sem a menos idéia do que iria encontrar. Apesar do quarto estar em quase absoluta escuridão, ele pôde notar, aliviado, que ela ainda estava na cama, e que não havia ninguém ali.

Ela estava tendo um pesadelo também.

Colocando a arma sobre a escrivaninha, ele se aproximou da cama e parou, sem saber como acordá-la. "Ei...Kate. Kate!" ele chamou sem tocá-la.

Sua cabeça continuou a mover-se no travesseiro, e ela dizia algo que ele não conseguia entender, as palavras vez por outra, intercaladas por um grito agudo. Suas pernas se encolhiam convulsivamente sob o lençol e depois se estiraram novamente.

Pegando em seus ombros, ele começou a sacudi-la de leve. "Ei, acorda, garota!" mas não parecia ter nenhum efeito.

Com uma voz assustadora, que ele nunca ouvira antes, ela gemeu "Não..."

Ele a sacudiu mais firme "Kate! Acorda agora!"

De repente, sem avisar, o braço dela veio com tudo e deu uma cotovelada no maxilar dele. A força do golpe enviou-o ao chão. O som dele caindo finalmente a acordou por completo e ela pulou da cama, se encolhendo em um canto onde ascendeu uma lâmpada.

Ela recostou-se na parede, respirando forte, olhando ao redor confusa e com medo.

"Puxa, Sardenta! Que diabos foi isso?" ele ficou novamente de pé passando a mão no queixo dolorido.

Ela centrou-se nele, surpresa por vê-lo ali. Ainda parecia defensiva, como se não tivesse o menor problema em matar qualquer um que tentasse se aproximar. "O que... o que tá fazendo aqui?"

"Tava tentando te acordar!" ele exclamou "Achei que quisesse sair do pesadelo em que estava. Talvez da próxima vez eu te deixe ficar por lá mesmo."

"Não..." ela ainda parecia aflita "Tinha...tinha alguém aqui" ela parou pensativa "Não tinha?"

"Ninguém além de mim." Ele respondeu um pouco mal-humorado. Se sentiu mal por ter gritado com ela. Com certeza ela não tinha noção do que estava acontecendo "Foi só um sonho."

Ela continuou deixando seu olhar vagar pelo quarto, mas a realidade da situação parecia estar ficando clara agora, e ela parecia envergonhada. "Oh." ela disse baixinho.

Depois de alguns segundos ele se moveu lentamente e sentou-se na beirada da cama. Ele sentou-se a seu lado, ainda segurando o queixo.

Ela olhou para ele de relance um pouco acanhada "Te peguei de jeito?"

"Vou sobreviver" ele disse ainda aborrecido "Bela cotovelada, você tem docinho. Já vi muita garota raivosa na vida, e elas não brigam desse jeito. Alguém te treinou pra fazer isso, não foi?" ele a observou com atenção.

Ela olhou em seus olhos por um segundo, mas estava claro que ela não iria responder. Olhando para a aporta aberta ela esperou um momento e então disse calmamente "Desculpa ter te acordado."

"Não se preocupa. Não me acordou de nada bom."

Ela acenou, entendendo o que ele quis dizer.

Após uma pausa, ela lastimou "Não tenho esse sonho faz muito tempo. Acho... que pode ter sido por causa do que conversamos lá fora. Nunca devia ter dito nada sobre..." ela respirou fundo e quase sussurrando disse "Sobre Iowa."

Ele esperou. Não fazia sentido lhe perguntar sobre o que era o sonho. Não tinha a mínima chance dela lhe contar.

Ela continuou "Foi idiotice. Eu devia saber que isso ía acontecer." Ela olhou para ele e tentou sorrir, mas parecia zangada consigo mesma "Sem mais voltas ao passado pra mim."

Ele acenou em reconhecimento "Vou tentar me lembrar disso."

Eles ficaram sentados em silencio por um momento. Ela mexeu em uma mecha de cabelo, um ar distante e perturbado em seu olhar, e ficou obvio para ele que ela estava pensando justamente na coisa que tinha acabado de declarar que não queria pensar. Ele tentou pensar em algo para animar o clima, ao menos um pouco.

"Não lembro de ter dito que podia dormir com essa camiseta."

Ela olhou para a camiseta e deu um pequeno sorriso "Tinha que dormir com alguma coisa."

"Por que?"

Quase rindo agora, ela olhou para ele "Por causa de ocasiões como essa."

"É." ele disse divertido "Bom, você fica melhor nela do que eu, mesmo."

Ela parecia estar se sentindo um pouco melhor agora.

Ele perguntou, hesitante "Vai tentar voltar a dormir?"

Considerando a possibilidade, ela olhou para o relógio "Acho que não. Não quero arriscar outro pesadelo." Ela ficou de pé e pegou o roupão que estava pendurado em uma cadeira próxima. Vestindo-o, ela disse "São quase quatro. Acho que vou descer e fazer um café, tentar ficar acordada."Pegando Orgulho e Preconceito da cabeceira, ela continuou "Além do mais, isso tá ficando bom. Eles tão começando a perceber que não se odeiam." Ela olhou para ele significantemente, e então baixou o olhar, parecendo encabulada.

Ele sorriu de seu desconforto, então a seguiu até o corredor "Quer companhia?"

Ela pensou por um segundo, então disse "Tudo bem. Você devia voltar a dormir... Ainda me sinto mal por ter te acordado."

"Tem certeza?"

"Tenho." Ela acenou. Seus olhos, porém, diziam o contrario e o fato não passou despercebido "Te vejo amanhã. Quer dizer, de manhã." Ela corrigiu. Lançando-lhe um ultimo olhar demorado, ela sumiu pela escada.

Ele ficou ali, sem saber o que fazer. Ela estava dizendo aquilo, obviamente, porque era sua reação automática afastar as pessoas. Ele deveria segui-la? Cada fibra de seu ser dizia para fazê-lo, mas ainda assim ele parecia não conseguir tirar os pés do chão. Mas o que poderia fazer se fosse até lá? Se eles estivessem dormindo juntos seria diferente... ele poderia fazer um esforço para confortá-la. Mas com a intimidante barreira física entre eles, o que poderia fazer? Conversar? Ele acabaria inadvertidamente a insultando ou dando em cima dela.

Pela primeira vez, ele pensou que talvez tivesse sido melhor se ela tivesse ido a procura de Jack, para o seu próprio bem. Ele saberia exatamente o que fazer em uma situação como essa. Droga, ele provavelmente já estaria lá embaixo com ela a deixando chorar em seus ombros e lhe preparando panquecas com ovos. Sawyer não poderia fazer isso. Ele é inseguro demais até para tentar.

Sentindo-se amargo e inútil, ele voltou para seu quarto e fechou a porta.

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Fazendo um esforço subconsciente para não dormir até mais tarde, ele acordou por volta das dez. Certo, talvez tenha sido o aroma de bacon frito que o acordou, mas ele preferiu acreditar que sua força de vontade tinha algo a ver com isso. Ela deve ter decidido fazer o café da manhã... e ele não deixaria essa oportunidade passar batida.

Ao entrar na cozinha a primeira coisa que notou foi que ela estava usando o maldito vestido outra vez. Maravilha! Ele não sabe dizer porque isso o incomoda tanto, mas evidentemente ela pretende fazer ele parte de seu guarda-roupa, ao menos enquanto estiver aqui. Parece que ela vai alternar entre o jeans e o vestido, então metade do tempo ela vai se parecer com Kate e a outra metade com... isso. Que maneira perfeita de ferrar com seu equilíbrio e mantê-lo permanentemente arrasado.

Ele limpou a garganta e ela virou-se, lhe dando seu melhor sorriso Donna Reed "Bom dia, querido."

Deus, ela tem que zoar com ele desse jeito? Ele sabia que ela estava brincando, mas queria que não estivesse. A ilusão era estranhamente dolorosa.

Ele tentou voltar a sua condição normal "Meu Deus, mulher, tá cozinhando um porco inteiro? Acho que toda aquela agitação te deixou com fome."

"Na verdade não. Além disso, eu sou vegetariana."

"Vegetariana que come pizza de pepperoni?" ele indagou com ar de espertalhão enquanto sentava-se à mesa.

Ela sorriu como se tivesse sido pega "Certo, sou parcialmente vegetariana. Mas não como bacon."

"Ah é? E pra quem seria isso?"

"Achei que alguém iria gostar. Parece que funcionou muito bem como despertador, pelo menos." Ela disse matreira "Quer um ovo ou dois?" ela esperou.

Virando-se para encará-lo, ela deu de encontro com um olhar vazio "Sawyer."

"O que?" ele perguntou abruptamente.

"Um ovo ou dois?" ela repetiu calmamente, parecendo encantada.

"Uh... um. Um tá bom."

Ela quebrou o ovo na frigideira e lançou-lhe um olhar questionador.

Depois de alguns segundos, ele falou, do nada "Da próxima vez que eu sair, quer que eu... uh... te arranje... mais roupas? Já que não pretende ir a lugar nenhum."

Ela olhou para ele pensativa "Agradeço a oferta, mas só de pensar no que você iria trazer é... meio assustador." ela disse com uma careta engraçada.

Ele deu uma risadinha e assentiu "É, tem razão nessa. Nunca fui muito de fazer compras."

Pegando o ovo com uma espátula, colocando no prato junto com o bacon e levando até a mesa "Eu lavei." ela disse um pouco defensiva "Não tá mais com cheiro de naftalina."

"Espero que tenha usado o ciclo suave, sassafrás, porque esse tecido tem 60 anos... tá sujeito a se desintegrar a qualquer momento. E não queremos que isso aconteça, certo?"

Ela sentou-se à mesa e olhou torto para ele "Tô impressionada de ver que sabe o que é um 'ciclo suave'."

Ele lhe lançou um olhar sarcástico e pegou um pedaço de bacon. Fazendo uma pausa, ele perguntou "Vai ficar aí parada me vendo comer?"

"Não." Ela disse, levantando-se. Parecia um pouco triste e aérea, apesar do sorriso "Não sei o que tô fazendo... falta de sono me faz agir estranho."

Ela encaminhou-se para a porta, então voltou-se para ele "Ei...eu vi num comercial hoje cedo que o Hurley vai 'tar no The View falando de como foi viver numa ilha... Quer assistir?"

Ele lançou-lhe um olhar que disse tudo que ela precisava saber.

Rindo um pouco ela disse "Acho que não."

Antes dela partir, ele fez um esforço para perguntar-lhe, receoso "Tá tudo bem? Quer dizer, depois de ontem à noite?"

Ela olhou para baixo, pensativa "Tá... quer dizer... leva um tempo pra esquecer de tudo. Mas tô bem. Só... cansada." Ela olhou de volta para ele esperando que ele acreditasse e esquecesse do assunto.

Ele assentiu, sem saber mais o que dizer.

Ela passou pela porta e foi para a sala. Então ocorreu a ele, tarde demais, que deveria ter a agradecido por ter feito o café. Mais uma coisa que ele não conseguiu fazer direito.

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Após fazer um sanduíche para o almoço, Kate sentou-se na sala com a tv ligada, tentando ao máximo não pegar no sono. Não tinha energia para fazer algo vigoroso como faxina ou mudança de móveis, mas estava com medo de que se tirasse um cochilo o pesadelo voltaria. Ele tem a tendência de se repetir em ciclos, e ela queria mais do que qualquer coisa evitar isso. Ajudaria se as cortinas não tivessem que ser tão bem fechadas – a casa era muito escura.

Felizmente, Sawyer estava ajudando a mantê-la acordada, mesmo sem saber. Ele estava tentando concertar as dobradiças da porta dos fundos, um trabalho que certamente ele não sabia como fazer. A cada poucos minutos a casa ecoava um berro de "Filho da mãe!" ou algo parecido. Ela sorriu. Quem imaginaria que ouvi-lo xingar e reclamar seria tão estranhamente reconfortante?

Ouvindo a porta bater, ela virou-se e tentou não rir ao vê-lo entrar na sala e afundar-se em uma cadeira, exausto.

Olhando para a tv, ele virou-se para ela, comicamente "Então, o que tá acontecendo?"

"Bem," ela começou em tom confidencial "Julian acha que Melinda fez algo pra que perdessem o bebê, mas o que ele não sabe é que o bebê é na verdade de Diego... e a mãe de Diego seqüestrou o bebê pra que ela e seu amante Pierce pudessem criá-lo. Mas a grande revelação é que... Pierce é irmão de Melinda."

"Tenho que admitir, Sardenta, nunca imaginei que fosse noveleira."

"Não sou." ela respondeu com um sorriso, desligando a tv "E agora lembro por que."

De repente, ouviram batidas na porta da frente. Olharam uma para o outro, paralisados com o susto. Movendo-se simultaneamente, eles ficaram de pé ao ouvir as batidas novamente.

"Devo... devo me esconder?" Kate perguntou preocupada.

"É... é melhor." Ao que ela começou a ir para a lavanderia, Sawyer pareceu ter se lembrado de algo.

Ele a chamou de volta "Espera." Ele parecia aliviado e irritado consigo mesmo "Deve ser o maldito cara do ar-condicionado."

"Ah." ela respirou aliviada, se sentindo uma idiota. Eles haviam se esquecido completamente sobre ele.

As batidas continuaram, impacientes.

"Então vou lá pra cima." Na metade do caminho, ela voltou e advertiu "Não deixa ele subir até aqui."

"Não vou." ele disse irritado por ela sentir a necessidade de dizer aquilo.

Esperando até ouvir a porta do quarto dela se fechar, ele finalmente deixou o rapaz entrar.

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Levou muito mais tempo que o esperado e para completar o rapaz era falador. Ao invés de ficar calado e fazer seu trabalho, ele queria perguntar a Sawyer coisas sobre o acidente de avião e sobre a ilha, e apesar das respostas rudes que recebia, ele não se tocava. Fazia Sawyer se lembrar um pouco de Charlie, apesar de seu sotaque ser sulista e não britânico. Assim como Charlie ele sentia a necessidade de sempre mencionar o fato de que fazia parte de uma banda, apesar de aparentemente não haver razão alguma para aquilo.

Finalmente, após duas excruciantes horas, o rapaz concertou o ar e passou o valor da conta. Sawyer, de má vontade, fez um cheque de $275, irado com Kate outra vez. Toda vez que precisa gastar dinheiro ele fica irritado com alguém.

Ele esperou o carro sumir por trás da cerca na longa estrada, então voltou para dentro. "tudo bem, barra limpa!" ele gritou para cima. "Vai fazer as honras de ligar essa coisa?"

Sem resposta. Pensando que provavelmente ela não o ouviu, ele subiu e bateu na porta "Ele já foi... pode sair agora."

Ainda sem resposta, um pouco preocupado, ele girou a maçaneta da porta e abriu uma fresta "Ainda tá aí?"

Ao que enfiou a cabeça para dentro do quarto, meio preocupado, ele viu que ela estava dormindo. Abrindo o resto da porta, ele ficou ali quieto e olhando para ela por um minuto. Ela estava de bruços como uma criança, sua cabeça virada para a porta. Ele observou sua respiração profunda e lenta, fascinado. Então ele notou como a mão direita dela segurava firme uma ponta da coberta. Mesmo dormindo os músculos de suas mãos não relaxam. Ele sabe que com freqüência faz a mesma coisa... às vezes suas mãos ficam doloridas por horas após acordar.

Ele sabia que estava errado em ficar parado a observando daquele modo, mas não conseguia sair dali. Ele sentiu algo começando a crescer dentro de si, a maré estava mudando de alguma forma e ele estava perdendo seu chão. Não era só o fato de que tê-la aqui o deixa frustrado no sentido físico –isso contava, é claro... mas seria o mesmo com qualquer mulher bonita. Alguma outra coisa estava acontecendo além daquilo... e o estava deixando assustado.

Ela parecia tão pequena e indefesa deitada ali. Aquilo era uma ilusão, ele sabia – ela era tudo, menos indefesa, e ele ainda tinha um queixo machucado como prova. Mesmo assim... o fato de existirem dezenas, se não centenas de detetives treinados e oficiais de justiça lá fora em algum lugar, a caçando, usando todo seu conhecimento e autoridade para encontrá-la e detê-la... Só de pensar no fato, ele era tomado por um ódio que nunca conhecera antes em sua vida. Não era como nada que já tivesse sentido por si próprio.

Ele decidiu, aqui e agora, que mataria qualquer pessoa que tentasse vir atrás dela, sem pensar duas vezes. Não lhe importa quem seja ou se seta apenas fazendo seu serviço – ele mataria cada um deles se fosse preciso.

Talvez ele não consiga falar com ela ou fazê-la se sentir melhor sobre seu passado, mas ele poderia ao menos fazer isso. Talvez fosse essa a única coisa que soubesse fazer, afinal.

Fechando a porta suavemente para não acordá-la, ele voltou para baixo a fim de esperá-la.