Capitulo 17 - Traduzido por Ana

Kate gelou, fazendo o máximo para parecer casual e despreocupada. Seu coração, no entanto, estava batendo a mil por hora. Pode ser isso, ela pensou. Pode estar tudo acabado neste momento.

"Perdão?" ela perguntou, como se não o tivesse escutado. Para ganhar tempo, pelo menos.

"É, " ele continou, abanando a cabeça e confirmando suas suspeitas. "No início não tive certeza, mas quando olhei bem de perto... vi logo, de uma vez."

Ele deu uma pausa.

"Sally, certo? Sally Malone?"

Kate não se moveu. Ela não tinha a menor idéia do que estava acontecendo ou o que responder.

Ele continuou abanando a cabeça, sorrindo como que para encorajá-la. "Sou eu! O Greg!"

Ela começou a perceber o que estava acontecendo, mas ainda estava muito confuda para responder normalmente. Até que finalmente conseguiu dizer, hesitantemente, "Greg?"

"É! Não deve ter me reconhecido, hem? É, dei uma engordada desde o 2º grau, mas ainda jogo um pouco de futebol de vez em quando... vô fazer um teste pros profissionais pra próxima temporada," acrescentou, num tom 'até que sou modesto para mencionar isso, mas que diabo!'

"Sério?" Perguntou Kate, começando a se recompor.

"Mas, ainda não me decidi..." admitiu. "Mas, puxa! Sally Malone!" Balançou a cabeça espantado.

"Quanto tempo faz, garota?"

Nisso, ele cruzou a cozinha até ela e a puxou para um abraço forçado. Ela se retezou, lutando contra a incontrolável vontade de simplesmente dar-lhe um murro e acabar com aquilo. Mas, ela sabia que neste caso continuar jogando era sua melhor chance. Dando-lhe, tapinhas nas costas desajeitadamente, ela tentou ignorar o fato dele cheirar a suor velho e cebola.

"Já... faz um bom tempo," ela disse, se afastando dele e tentando colocar algum espaço entre os dois.

"Cara, você e eu tivemos bons momentos, né? Ficamos firmes por... quanto tempo foi? Todo o último ano?"

"Por aí," disse ela, dando uma olhadela para a porta. Por favor, meu Deus, faça o Sawyer tomar um banho rápido, pensou ela. Por que inventei dele se barbear?

"Droga..." disse ele, claramente espantado com esta volta ao passado. "Reparei que você tirou a verruga... não tinha te dito, hem?" perguntou com um sorriso. "Sempre te disse que você ficaria melhor sem ela, não disse?"

"Você tinha razão," disse ela com um sorriso formal e desajeitado.

"Sally Malone..." ele repetiu com assombro. "Então, o que tem feito por aí?" ele olhou em volta, pela cozinha, como se só agora notasse onde estava. Apontando para o chão, ele perguntou em choque, "Você com esse filho-da-mãe agora? O James?"

"Hum-hum" disse ela, com o sorriso ainda congelado no rosto.

"Claro... eu chamei ele assim de brincadeira, sabe. Ele e eu somos como irmãos... bem chegados."

Será que ele sabe disso? Pensou Kate.

"E sabe, eu nunca que guardei rancor pelo jeito que as coisas ficaram entre a gente. Quero dizer, acho que podia ter ficado puto por você dormir com aquele cara e fugir com ele, mas que diabo, ele era seu primo. E do jeito que entendo as coisas, a família vem primeiro." Ele falou a última frase com absoluta convicção.

Kate sentiu que ele esperava que ela dissesse algo. "É... sempre me senti mal pelo jeito que as coisas acabaram."

Ele olhou agradecido. "Então, como está o Joe, afinal?"

"Joe?" ela perguntou, tentando pensar rápido. "Joe está... Joe está na prisão." Ela não tinha idéia de quem Joe era, mas ele tinha dormido com a própria prima, não era forçação de barra dizer que ele podia estar na prisão.

Greg parecia que esperava por isso. "Bem... acontece nas melhores famílias." Ela abanou a cabeça vagarosamente, fingindo refletir sobre essa gota de sabedoria.

"Ei... você lembra daquela vez quando a gente tava transando no banheiro do Frango Frito do Kentucky e o lugar começou a pegar fogo e a gente nem percebeu e continuou transando?" Ele riu. "Lembra disso?"

"Uau... tinha quase me esquecido disso." Pelo amor de Deus, Sawyer, se apresse, ela pensou.

"E lembra da outra vez que a gente tava fazendo no seu celeiro e seu velho veio atrás de mim com uma espingarda? 'Inda bem que ele não tinha um olho ou podia não tá aqui hoje." Ele balançou a cabeça contente.

"E como tá o velho?"

Ela tentou pensar em algo que desse fim a conversa. "Infelizmente, papai se foi ano passado."

"Mesmo?" ele perguntou confundido. "Diabo, podia jurar que vi ele no VFW mês passado contando a estória de como sua mãe tentou castrar ele. Mas, todos esses veteranos de guerra ficam iguais depois de um tempo."

Houve um breve intervalo na conversação. De repente, Greg olhou surrepticiamente em volta do aposento, como que com medo de que alguém escondido lá, pudesse ouvir. Chegando perto de Kate, ele perguntou num tom baixo e confidencial, "Ei, Sally... você, uh... você ainda gosta de fumar da erva?"

Sem saber como responder, ela abriu a boca, mas antes que pudesse falar alguma coisa, ele prosseguiu.

"Porque, uh... eu tenho algum da boa, que posso te vender baratinho. Cê sabe, como velhos amigos e tudo. Olha, este bagulho vai arrebentar com a tua cabeça, Sal. Lembra daquele guardado que a gente roubou daquela sua tia maluca... aquela dos pavões? Bom, esse bagulho é melhor ainda do que aquele, pode crer."

"Na verdade... eu estou tentando parar, Greg."

Ele a encarou como se ela tivesse acabado de dizer que ia parar de respirar. "Por que você vai fazer uma coisa dessas?"

"Eu não sei... me pareceu que... era hora de tentar." Ela fez o melhor para parecer sincera e natural, dando uma espiada para a porta, checando algum sinal de Sawyer.

"Bem..." ele hesitou, considerando. Era uma idéia nova para ele. "Diabo, talvez você esteja certa. Acho que meu irmão Tucker teria se dado melhor se tivesse feito isso também. Mas, agora já era. Se lembra de Tucker, né?"

"Claro... como vai o Tucker?"

"Não muito bem ultimamente. Mas, a culpa é muito mais da maldita mula do que do cachimbo."

"A mula?" perguntou Kate, certa de que a conversa não podia ficar pior.

"É," ele disse, suspirando. "Depois que a mulher dele foi embora, ele ficou muito sozinho... E foi uma pena por que se ele tivesse deixado o bicho lá no celeiro, o xerife nunca ia ficar sabendo. Mas, ele tinha que fazer uma rampa pra colocar ela dentro da casa. E a mula nem ligava pra isso." ele continuou, como se o fato fôsse óbvio pra qualquer idiota.

"Droga," disse ele, inclinando para Kate de um jeito conspiratório, "Posso garantir que a mula nem ligava pra isso."

Ela ficou olhando para ele por alguns segundos, depois correu para a porta da cozinha.

"JAMES! Você tem visita!"

Se virando para Greg com um sorriso fingido, ela tentou evitar olhar para ele, temendo perder a cabeça. "Ele já vai descer."

Ela ouviu os passos de Sawyer na escada quase imediatamente.

"Do que você tá falando?" ele falou alto confuso. "E por que tá me chamando de..."

Ele ficou paralisado na entrada da cozinha, ao ver Greg. O olhar em seu rosto era perigoso, quase letal. Mas, Greg, claramente não tinha neurônios suficientes para perceber isso.

"Ei, cara... te trouxe as peças que você queria." Greg parecia quase tímido, como se tivesse uma paixonite por Sawyer.

"Pensei que tinha te dito que ia até sua casa." A voz de Sawyer estava calma, mas com uma raiva mal contida.

"Disse?" Ele coçou a cabeça e pareceu pensar no assunto. Kate sentiu um pouco de pena dele.

Daí ele deu de ombros. "Ah, mas dá no mesmo, né?"

"Não, não dá no mesmo, por que eu precisava usar seu telefone. Tá lembrado agora?"

Ele parecia facilmente ser capaz de bater no cara até a morte, sem pensar duas vezes. Kate sabia, no entanto, que o motivo pelo qual ele estava tão furioso, era Greg tê-la visto e ameaçado a segurança deles, e não pelo cara em si ter irritado ele. Ela rezou para que ele não a entregasse, sem intenção, por causa da raiva.

"Ah, tá tudo bem," Greg replicou, como se estivesse num papo casual com seu melhor colega. "Pode usar meu celular."

Ele puxou algo do bolso de trás. "Ai, merda. Esse é o controle remoto."

Kate colocou a mão na frente da boca e apertou forte, tentando desesperadamente manter o rosto sério.

"Bom, eu te levo até lá em casa, então," disse ele, guardando o controle. "Mas, não me arrependo de ter vindo, por que eu e Sally aqui tivemos a chance de relembrar os velhos tempos." E sorriu para Sawyer amistosamente. "Aposto que cê nem sabia que eu e ela já ficamos juntos, sabia?"

Sawyer se virou para Kate. Ela levantou as sobrancelhas e concordou com a cabeça quase imperceptivelmente. Vai nessa, ela parecia dizer.

"Não me diga..." ele resmungou grosseiro, ainda olhando para Kate.

"Ah, é!" Greg estava deliciado. "A gente ficou junto por ...quanto? Todo o primeiro ano?"

Antes tinha sido último ano, mas Kate não mencionou a discrepância. Só iria confundi-lo mais, afinal. "É" disse ela, acenando com a cabeça, olhando cuidadosamente para Sawyer.

"E teve essa vez... quando, ah..." Greg não foi capaz de terminar a estória através da risada inspirada pela lembrança. "Quando, ah... um monte de gente foi pra Fairhaven para o jogo e Sal mostrou a bunda pra um tira na volta pra casa, mas esqueceu que a janela da caminhonete tava quebrada. Ela acabou ficando presa lá por quatro ou cinco horas." Ele balançou a cabeça em admiração. "Mas, não se queixou nem uma vez."

Sawyer ainda estava olhando para Kate. "Acho que tem um monte de coisa que eu não sei sobre você, Sally."

Ela ficou olhando para o chão, mordendo as bochechas por dentro. "Isso já faz muito tempo." murmurou ela.

Greg se dirigiu a Sawyer, "Espero que você não fique zangado por eu ter ficado com ela primeiro." disse ele, parecendo um pouco preocupado. "Não ia querer que isso fôsse um problema entre a gente. Que diabo, a Sally tem bastante pra todo mundo! Não é, Sal?"

Kate não respondeu. Estava observando Sawyer, torcendo para ele não perder o controle.

Trincando os dentes, Sawyer perguntou a Greg, "Pronto pra ir?"

"Quando você quiser." respondeu ele, contente por agradar. Sawyer fez um movimento para tocá-lo para fora, mas ele se voltou alegremente para Kate, "Foi mesmo bom te ver, garota! Não vá se esquecer de mim!"

Ela acenou levemente. "Não tem como isso acontecer, Greg."

Enquanto Sawyer o empurrava pelos degraus da varanda, ela pôde ouvir sua voz pelo caminho.

"Sério, cara, este bagulho arrebenta com a tua cabeça."

----------------------------------

Quando Sawyer voltou para casa cerca de 15 minutos depois, ele achou Kate sentada no chão, no corredor para a cozinha, encostada na parede da escada. Tinha um olhar estranho e controlado no rosto e fitava o chão, imóvel. Parecia misteriosamente calma, como se estivesse tentando segurar alguma coisa.

Ele parou, olhando para ela. "O que diabo foi isso tudo?"

Lentamente ela levantou o olhar para ele, e com um brilho nos olhos, ela falou suavemente, "Sinto muito." Deu uma pausa. "É sempre embaraçoso quando um antigo namorado aparece."

Daí, para total surpresa de Sawyer, ela encostou a cabeça nos joelhos e começou a rir incontrolavelmente. Ele a observou, confuso e meio irritado, mas também fascinado. O mais próximo de uma risada que ele tinha ouvido dela, havia sido na época em que conseguira seus "óculos" na ilha, mas aquilo não era nada em comparação com isto. A gargalhada saía dela sem reserva, enchendo a casa.

Ela mal conseguia pegar fôlego.

Mesmo não querendo, ele não pôde segurar um pequeno sorriso. A risada dela era contagiante. Escorregando para perto dela no chão, ele esperou até ela se controlar.

Finalmente, sua gargalhada diminuiu, restando apenas risadas espasmódicas, ocasionais. Seu rosto estava vermelho e ela limpava as lágrimas do rosto.

"Que bom que você achou tudo tão divertido, docinho, por que tenho que dizer que não estou vendo tanta graça. Ele podia ter te reconhecido."

"Ah, qualé... A Mulher Maravilha podia estar na sua cozinha que ele não teria reconhecido." Ela tentou segurar mais uma risada.

"Bem, na próxima vez pode ser outra pessoa, alguém que pode não ter enchido a cara de droga ou ser burro como uma parede. Melhor a gente começar a deixar a porta de dentro fechada... a tela da porta só não adianta."

"Tá bem," ela concordou.

Daí, assumindo uma expressão ainda mais séria, ela olhou para Sawyer atentamente. "Ei."

Ele se virou para ela, relutantemente.

"Qual o problema?" perguntou ela.

Ele agiu como se não quisesse dizer. Depois de alguns segundos, ele pareceu distante de novo. "Eu matava ele. Se ele soubesse quem você era."

Ela suspirou, fechando os olhos brevemente. "Eu sei que matava. Isto é o que me assusta. E não quero que você tente fazer isso. Não importa o que aconteça. OK?"

Nenhuma resposta.

"Sawyer."

Em vez de responder, ele se esticou e colocou o braço em volta dos ombros dela. Ela deslizou pela parede, se aproximando dele e suspirou, desistindo. Era inútil tentar fazê-lo mudar de idéia sobre uma coisa como essa.

E para ser honesta, ela não sabia se realmente queria que ele mudasse. Ela se sentia muito mais segura assim.

Após alguns segundos, ela perguntou, num tom mais leve, "Então... você a conheceu?"

"Conheci quem?"

"Sally." Ele percebeu pelo tom da voz que ela estava sorrindo de novo.

"Não fiz o segundo grau aqui." Ele pensou um minuto. "Mas, sim, lembro dela do 1º grau. Já era uma piranha naquele tempo."

"Sawyer!" disse ela, soando ofendida. "Como pode dizer isso de uma garotinha?"

"O quê? Ela costumava cobrar um dólar pra baixar as calcinhas e deixar os garotos olharem o quanto quisessem," ele responde num tom defensivo.

"Você tá inventando isso."

"Como você acha que eu gastava o dinheiro do lanche todo dia?"

Ela balançou a cabeça contra o ombro dele, bancando a desgostosa.

"Bem, fico contente pela chance de poder compartilhar da vergonha dela."

Ela afastou a cabeça um pouco e olhou para ele pensativamente.

"Você não acha que nós precisamos mesmo nos preocupar com ele, não é?"

"Duvido. Aquele filho-da-mãe estúpido nem vai ficar aqui por muito tempo... acabou de me contar que o tio dele tem tá com uma super produção de maconha este ano, então ele está indo pra Flórida depois de amanhã pra ajudar na colheita." E falou debochando. "Me pediu pra dar comida pro gato."

"E você vai?" Kate perguntou curiosa.

"Até podia. Só que o bicho foi atropelado por um trator seis meses atrás." Olhou para ela. "Já te disse, o cara tem uns parafusos a menos na cabeça."

Ela sorriu. "Você ia me achar louca se eu dissesse que até que gostei dele?"

"Sei." Ele tentou não sorrir para ela. "Mas, se você estiver preocupada com ele voltar a si no meio do caminho e perceber quem você é, nós sempre podemos ir embora... para algum lugar mais seguro."

"Eu sei." Ela ficou triste de repente. "Mas, eu não quero. Ainda não." Numa voz que mais parecia um sussurro, ela continuou. "Estou tão cansada de fugir. Eu só queria ficar em algum lugar por um tempo."

"Tem certeza de que é o que quer? Mesmo sendo mais perigoso?"

Ela concordou com a cabeça com firmeza. "Tenho."

Ele suspirou. Há alguns dias atrás, ele tinha sido incapaz de convencê-la de que era melhor para ela ficar ali. Agora ele era igualmente incapaz de convencê-la que era melhor para ela ir embora.

"Você é teimosa como uma mula, sabia?"

Uma expressão engraçada flutuou pelo rosto dela.

"Sawyer?" ela falou naquela voz estranhamente calma que ela usou antes.

"O quê?"

"Pode me fazer o favor de não falar de mulas de novo, nunca mais?"

Nisso, assombrado ele a observou se dissolver em gargalhadas de novo.