Capítulo 18: Um interlúdio -Traduzido por Ana
Se olhassem para trás, mais tarde, sobre essa série de dias que se seguiram a decisão de Kate de ficar, ambos teriam que se esforçar muito para se lembrar de algo específico, salvo pela notável exceção da visita de Greg. (E isso, para Kate pelo menos, foi algo que permaneceria, bem ou mal, alojado para sempre em sua memória.) Em retroSpectiva, os dias se desenrolaram como um rolo de filme; uma montagem de cenas de sexo alternadas com momentos de ternura, entremeadas com brandas discussões ocasionais.
E não seria exagero dizer que as discussões foram brandas, durante aquele breve intervalo, pelo menos. De alguma forma, a despeito de todas as expectativas, eles conseguiram se ajustar misteriosamente bem. Foi, de certa maneira, como uma lua-de-mel - um período de ajustamento durante o qual eles se metamorfosearam de duas pessoas que estavam acostumadas a "olhar, mas não tocar" em duas pessoas que podiam ter seu estoque de tocar tanto quanto quisessem.
E eles certamente davam o seu melhor para aproveitar de suas cotas - em cada aposento da casa, sobre cada peça de mobília imaginável e a todas as horas do dia e da noite. Eles descobriram propriedades desconhecidas da mesa da cozinha, da máquina de lavar e mesmo da escada do sótão (embora o desconforto desse último lugar tenha desencorajado uma segunda visita.) O chuveiro não era mais apenas para tomar banho e o balanço da varanda não servia mais para simplesmente balançar. Eles descobriram o que faziam bem e o que não faziam bem; do que gostavam e do que não gostavam; o que eles fariam e o que eles definitivamente não fariam. (A lista de Kate do que ela não faria era ligeiramente maior do que a de Sawyer, mas ambos já esperavam isso.)
Por eles estarem por perto tão constantemente, a tentação estava sempre presente. Enquanto lavava os pratos, Kate percebia que as mãos de Sawyer tinham de algum jeito entrado dentro da sua blusa. E na hora que estava se barbeando, Sawyer tinha a atenção despertada por Kate que, por algum motivo, estava arrancando seu cinto. Resistência era inútil. Ambos cediam, toda vez. Eles sempre podiam terminar o que estavam fazendo depois. Eles tinham todo o tempo do mundo.
Ou, pelo menos, era no que eles acreditavam. Não sinceramente; nem com convicção, lá no fundo. Mas, apenas por que eles não estavam se deixando pensar em nada tão profunda ou seriamente. Nada disso era tangível para eles. Estavam flutuando sem qualquer contemplação do que poderia estar ali na esquina, focalizados apenas um no outro. Resistiam pensar no futuro com o mesmo ardor com que geralmente lutavam contra os demônios do passado. Por um breve tempo, pelo menos, não havia futuro ou passado. Eles existiam puramente no momento presente. E talvez, pela primeira vez, estavam felizes por estarem lá.
Algumas vezes, Kate se achava observando Sawyer quando ele não sabia que ela estava olhando. Este ainda era o mesmo homem que uma vez a tinha feito pensar que Jack estava morto dentro da caverna; que havia extorquido um beijo dela pela falsa promessa de informação sobre os inaladores de Shannon; o homem que a havia exposto na frente de todos como a fugitiva escoltada pelo delegado. Isto ainda era tudo verdade, e ainda a fazia ficar fula de raiva ao pensar nisso, mas agora ela sabia tantas coisas mais sobre ele, que, por trivial que fosse, quase cancelava as outras.
Como o dia que eles encontraram um rato arranhando no fundo da lata de lixo da cozinha e ele o carregou para fora e o deixou ir por que não queria matá-lo. Ou o jeito como ela descobriu, por acaso, que ele sentia tantas cócegas logo acima dos joelhos, que apenas a ameaça dela indo para cima dele o fez se colocar num modo totalmente defensivo. Ou mesmo a maneira como ele ficou irritado e aborrecido quando ela abriu um vidro de pickles que ele tinha tentado por cinco minutos inteiros, sem sucesso.
Ela não se surpreendeu por ele ser ótimo na cama... ela sempre tivera suas suspeitas sobre isso. Eram as coisas que ele fazia entre o sexo que continuavam a surpreendê-la. Algumas vezes ele a arrancava do chão e a carregava pela casa por nenhuma razão. Ele podia correr as mãos pelos cabelos dela por uma hora sem se entediar, e uma vez até tentou contar as sardas de seu nariz (embora ele tenha desistido, frustrado por ela não ficar quieta). Ele era tão bom em fazer massagens que ela suspeitava que ele devia ter tido algum tipo de treinamento como massagista. Ou pelo menos em algum momento, ele tivesse provavelmente dormido com alguma massagista - o cenário mais provável.
Mas, o que ela nunca havia previsto - e que ainda tinha o poder de chocá-la, não importava quantas vezes ficasse evidente - era como ele era protetor. De certo modo, ela não havia esperado isso dele. Ela imaginara que, no improvável evento deles se envolverem, o egocentrismo e auto-piedade dele a deixariam numa posição de se virar por contra própria. Mas, nada poderia estar mais longe da verdade, pelo que parecia.
Se eles estivessem na varanda à noite, o som de um carro distante que ela mal tinha registrado conseguia deixá-lo tenso e fazê-lo apertá-la mais forte nos braços. Ele instalou novas fechaduras em todas as portas e até mesmo puxou uma grana para um sistema de segurança. (Evidentemente, se a polícia aparecesse armada com um mandato para vasculhar a casa, nada disso faria qualquer diferença, mas ambos tentavam não pensar nisso.) Ela começou a se acostumar com suas advertências bruscas de trancar a porta e fechar as cortinas, sabendo agora que elas se originavam, não da irritação, mas do medo.
Sawyer, por sua vez, estava aprendendo a desacelerar, passando de misterioso para mundano, e ele estava surpreso com o quanto estava desfrutando disso. Ele sempre fôra fascinado por Kate - desde a primeira vez que se encontraram e ela fingiu (não tão bem assim, na opinião dele) que não sabia como tomar uma arma. Não apenas ela tinha sido maravilhosa, mas também forte, reticente e provavelmente perigosa. Ele havia sido arrastado para ela na ilha desde o dia um e nunca fizera segredo disso.
Mas, agora... eram os menos fascinantes e intrigantes aspectos de seu caráter o que mais o encantava. Ela tinha medo de palhaços. Ela não sabia assobiar. Era uma crônica ladra de cobertores e não importava quantas vezes tentasse roubá-los de volta, ele acordava descoberto. Ela assistia desenho animado. E quando bebia soda muito depressa, ficava com soluços que duravam por horas, para absoluto deleite dele. Ela gostava de deitar a cabeça em seu peito, escutando as batidas do seu coração.
Todas essas coisas relativamente triviais - características que podiam ter sido possuídas por um grande número de mulheres com quem ele já poderia ter estado. Mas, elas não pertenciam a estas mulheres, pertenciam a Kate. E por causa disso, estavam investidas de uma aura de importância que nunca teriam tido de outra forma. Não que ele, algum dia, tivesse se dado ao trabalho de prestar atenção nesses detalhes antes. Nunca havia lhe ocorrido se perguntar se a mulher com quem estava dormindo cantava bem (Kate era terrível) ou se ela preferia sorvete de chocolate ou baunilha (Kate preferia chocolate, que ela mexia até virar uma gosma grudenta.)
Ambos se ajustaram, não somente um ao outro, mas a situação em si. Mais significativamente, eles aprenderam a se acomodar. Gradualmente, eles perderam seus anseios inquietantes de sempre estarem em movimento. Sawyer estava quase envergonhado de admitir para si mesmo, que ele podia estar, possivelmente, sentindo algum tipo de impulso de se estabelecer. Felizmente, ele não se forçava a analisar isso muito profundamente. Kate, contrário à sua natureza, parecia estar em paz. Na ilha ela havia mantido uma rotina ativa e inquieta, mesmo se apenas colhendo frutas ou plantando sementes. Mas, aqui, pela primeira vez em sua vida, ela cedeu ao ócio e estava chocada por nunca antes ter conhecido os prazeres de não fazer absolutamente nada. (Bem, não exatamente nada... os dois certamente se empenhavam em um belo exercício aeróbico diário, mesmo que a maioria das pessoas não chamassem por esse nome.)
Se eles pudessem mais tarde reproduzir sua própria montagem mental deste período, eles captariam vislumbres rápidos de si mesmos pendurados nos pescoços um do outro no meio do lago, que estava agora coberto pela grossa neblina dos ares do início do outono. Eles se veriam fazendo amor no sofá como adolescentes diante do brilho azulado de um talk-show da madrugada. Se observariam brigando sobre se era mesmo necessário dar a descarga se você tinha só dado uma mijada. (Sawyer sustentava que não.) Eles poderiam testemunhar sua segunda tentativa no jogo do Monopólio. Desta vez, exatamente como na primeira, o tabuleiro foi empurrado para o lado e as casas e hotéis espalhados em todas as direções.
Mas, por uma razão inteiramente diferente.
