Capítulo 19 – Traduzido por Ana
Kate estava sentada à mesa da cozinha, bebendo um copo de chá gelado, com os olhos fixados numa fotografia que tinha acabado de encontrar, enterrada no fundo do armário do quarto de baixo - o quarto que tinha sido de Sawyer.
Ela já estava examinando a foto por quase 20 minutos, mas ainda não tinha perdido o interesse.
Não que houvesse algo particularmente notável sobre a foto em si. Era uma foto escolar padrão: um garoto sentando em banquinho na frente de um desses cortinados azul-escuros, opacos e impessoais que fotógrafos de todo o mundo pareciam preferir. E julgando pela camiseta retrô, de listras marrons e brancas que o garoto vestia, parecia que tinha sido tirada em meados dos anos 70. Mas, não era a camiseta que chamara a sua atenção quando ela puxara a foto 5x7 de uma pilha de velhos cartões de aniversário e recortes de jornal. Era o olhar que saltava dos olhos daquele garotinho - um olhar que ela conhecia muito bem.
Ele encarava a câmera desafiadoramente, furiosamente, sem um traço de sorriso, como se fôsse alguma coisa que estava fazendo contra sua vontade. Ela podia imaginar a ansiosa e esgotada professora parada ao lado, controlando o procedimento, tensa e pronta para arrastar o menino de volta para o banco caso ele tentasse fugir. Kate quase sorriu ao pensar o tormento que ele deve ter sido para os professores. Ele parecia um daqueles garotos desgrenhados e traquinas, que não importa quão recentemente tenham sido arrumados e escovados, sempre conseguem parecer que acabaram de rolar na terra, apenas dez minutos depois.
Na foto, ele está bronzeado, como se tivesse sido tirada bem no início do ano escolar depois de um longo verão passado ao ar livre e debaixo do sol. Seu cabelo louro escuro estava salpicado com um dourado mais claro e precisando de um corte. Seus olhos eram de um azul surpreendentemente claro, a cor do lago quando a luz atingia as águas suavemente. Mas, o que Kate notou imediatamente ao olhar a foto, foi a expressão que se ocultava por trás da indignação. Era um olhar assustado, assombrado... o olhar de um menino que já procurava por alguma coisa que estava destinado a nunca encontrar.
Rabiscadas de forma apressada e distraída atrás da foto, numa letra de mulher, estavam as palavras "James - 2º ano." Nada mais. Sem sobrenome, nem ano, nem idade, nem dedicatória a algum amigo ou parente. Só a descrição mínima, como se a mulher já suspeitasse então, que provavelmente ninguém haveria de se importar como James se parecera no segundo ano, então para que perder tempo com detalhes? Kate se perguntava se fôra a mãe dele que escrevera isto, talvez quando já tivesse começado seu caso com o homem que no final das contas causaria sua morte. Ou teria sido tirada depois daquela noite trágica, as palavras escritas por uma tia ou prima distante, atolada com a responsabilidade com um garotinho zangado e ferido, com o qual ela não sabia lidar?
Enquanto ainda estava analisando as possibilidades, Kate escutou passos na varanda de trás. Ela ficou tensa, surpresa por não ter ouvindo nenhuma batida de porta de carro. Aparentemente ela havia se concentrado tão intensamente na foto que havia bloqueado barulhos externos. Esperando apreensiva pelo som de alguém batendo, se aliviou ao escutar o barulho da chave de Sawyer na fechadura.
Levou um tempo, como sempre. Ele estava tendo trabalho em se acostumar com as novas fechaduras. Divertida, ela escutou o chaveiro cair no chão da varanda, seguido por seu resmungo, "mas, que droga."
Ela pensou em se levantar e destrancar para ele, mas sabia que isso iria irritá-lo.
Ele detestava qualquer gesto que indicasse que precisava de ajuda. Então, ela simplesmente ficou lá, esperando.
Finalmente ele conseguiu enfiar a chave, girá-la no ângulo certo e empurrar a porta. Ela virou a cabeça para olhá-lo, sorrindo um pouco. Ela ainda ficava surpresa com como ficava contente por vê-lo, quando ele voltava de suas saídas. Era bom ficar sozinha por um minuto, mas era melhor ainda quando ele voltava.
"Trouxe comida chinesa." disse ele a guisa de cumprimento, largando algumas sacolas sobre a bancada.
"Parece bom," ela respondeu. Ela tomou outro gole de chá gelado enquanto ele se aproximou dela por detrás, se abaixou e roçou os lábios contra seu pescoço. Baixando o copo, ela disse, "Olha o que encontrei."
Mas, ele já havia visto. Enquanto falava, pôde senti-lo se retezando e se afastando um pouco, ao mesmo tempo.
"Aonde diabos você pegou isso?" Falou ele diretamente, quase sem emoção.
"No armário do quarto de baixo."
"E o que você tava fazendo lá?"
"Estava limpando." Ela se virou um pouco para encará-lo, perturbada pelo tom de sua voz.
"Limpando," ele repetiu. "Já tá virando desculpa pra ficar xeretando em tudo que não é da sua conta, né?"
Surpreendida e magoada, ela não pôde nem responder por um momento. "Eu tinha te dito antes de você sair que ia limpar lá. Você não falou nada. Você tava me escutando?"
Sem responder, ele desviou os olhos da foto e se dirigiu à geladeira.
Tirando uma lata de cerveja, bebeu quase a metade em um gole.
Ela o observou confusa, tentando entender. "É só uma foto, Sawyer. O que tem de mais?"
Sawyer se virou para Kate, e ela pôde perceber que ele estava fazendo esforço para controlar a raiva. "O que tem de mais?" ele ecoou. "Talvez o que tenha de mais é que eu não queira ver essa porcaria. Já pensou nisso? Te ocorreu, quando você desencavou isso, que podia ser uma coisa que eu não ia gostar de ver?"
"Não tem razão pra você ficar tão aborrecido." disse ela.
Ele balançou a cabeça em desdém. "Não... claro que não,", disse ele sarcasticamente. "Imagino como você ia gostar se eu ficasse rodando por aí com uma lembrancinha dos seus bons tempos de Iowa... eu pedi pra você olhar?"
Ela baixou os olhos, uma vaga sensação de reconhecimento finalmente surgindo. Ela percebeu que tinha cometido um grande erro.
"Mas, isso seria diferente, certo?" ele continuou amargo. "Porque aí, teria sido você."
Ela deu um suspiro fundo. Tudo estava indo tão bem ultimamente, bem até demais. Mas ela estava contando que seria ele quem finalmente iria ferrar com as coisas, não ela. Agora, estava péssima. Não podia acreditar qeu não previra isto, considerando o jeito como ele sempre reagia ante a qualquer coisa relacionada a sua história. E também ela devia ter usado como guia a maneira como ela se sentia em relação a seu próprio passado, como ele acabara de apontar. Mas, essa nunca fôra uma tática antes, já que ninguém além dele, tinha tido qualquer coisa remotamente em comum com ela. Kate vivia se esquecendo como parecidos os dois eram.
"Se eu soubesse que ia te incomodar assim, não teria trazido pra cá." disse ela, quietamente. "Eu não pensei. Ok?"
Ele tomou outro gole, sem encontrar com os olhos dela. "Se livra disso," resmungou.
Ela assentiu com a cabeça, se levantando. "Vou colocar no lugar."
"Não," disse ele. "Joga fora."
"Sawyer," disse ela, parecendo não acreditar nele. "Você não quer fazer isso de verdade."
"Ah, então agora você vai dizer o que quero fazer? Parece que você não é a melhor pessoa pra prever isso, querida, levando em conta que achou que trazer isso aqui seria uma agradável surpresa pra mim."
Ele ainda não tinha perdido o desdém na voz. E ela estava fazendo o máximo para não revidar.
"Joga fora", ele repetiu, com enfático.
Numa voz calma, ela tentou arrazoar com ele. "Você pode se arrepender algum dia. Pensa que não, mas eventualmente, vai desejar ter ela ainda."
Colocando a lata de cerveja na bancada, ele foi até ela e puxou com firmeza a fotografia de sua mão. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele a rasgou ao meio, irritadamente.
Kate engoliu em seco, lutando contra as lágrimas. Tinha sido estranhamente doloroso ver a destruição daquele garotinho desafiador, mesmo sendo apenas num pedaço de papel.
Depois de rasgar ao meio, ele juntou as duas metades e rasgou de novo, e daí, metodicamente, fez o mesmo com os últimas quatro pedaços. Ela o observou mutilar a foto em quadrados ainda menores com um olhar triste e culpado no rosto. Ele colocou os pedaços na pia e enfiando a mão no bolso, pegou um isqueiro. Ele tentou acender algumas vezes, mas nada aconteceu. Não tinha fogo. Frustrado, ele continuou tentando.
Observando-o, ela ficou surpresa pelo assustador paralelo entre a expressão em seu rosto agora e a expressão no rosto da criança da foto. Com uma punhalada no coração, ela percebeu pela primeira vez o quanto ele se parecia com um garotinho. Ele chegara a idade de trinta e cinco com apenas poucas mudanças externas. Para todos os efeitos, ele ainda era o menino de oito anos da fotografia - inseguro, atormentado e cheio de raiva. Ela quase não conseguia suportar a visão de quão terrivelmente vulnerável ele parecia, tentando acender o isqueiro.
Silenciosamente, ela foi até a gaveta debaixo da pia e pegou uma caixa de fósforos. Puxou um e riscou no lado da caixa, oferecendo a ele. Sawyer olhou para ela, finalemente nos olhos. O fósforo começou a queimar em direção a seus dedos.
"Segura," apressou ela.
Estendendo o braço, ele pinçou o fundo do palito de madeira e rapidamente jogou dentro da pia, em cima dos retalhos de papel que jaziam lá. Um pegou fogo, transferindo para o resto. Espirais de fumaça começaram a subir para o teto.
Depois de um minuto, não havia mais nada além de cinzas, fragmentos quase transparentes de papel enegrecido. Girou a torneira e lavou tudo aquilo pelo ralo.
Kate esperou até que ele finalmente se virasse para ela. Se olharam por alguns segundos, cautelosamente.
"Me desculpe," disse Kate.
Ele se virou, se encostando na bancada e olhando para a parede. Ele ainda estava com uma expressão revoltada, e ela soube, instintivamente, que não responderia. Ela podia ver que o que ele queria era que ela sumisse da frente dele, mas ela não pretendia ceder e deixá-lo ali ruminando.
Indo pra frente dele, ela colocou os braços em volta de seu pescoço, com força, se recusando a se mover até que ele demonstrasse algum sinal em resposta.
"Eu disse, me desculpe," ela sussurrou perto de seu ouvido.
Ele finalmente puxou um suspiro fundo, e ela o sentiu relaxar um pouco. Ele levou os braços em volta dela, envolvendo seus ombros.
"Vamos comer," disse ele, cansado.
Ela se afastou e olhou para ele, para se assegurar de que ele estava certo de que não queria falar sobre aquilo. Mas seu rosto era bastante óbvio. Ele devia ter imaginado.
"Tudo bem," ela concordou, resignada que o jeito dele de lidar com problemas emocionais era não lidar com eles.
Foi arrumar a mesa.
Quando acordou pelas três da manhã, Kate soube quse instintivamente que ele não estava na cama, mesmo antes de abrir os olhos. Parecia diferente, de alguma forma. Apalpando para confirmar a suspeita, sua mão tocou o cobertor e depois o travesseiro, mas não havia mais nada além disso.
Ela esperou alguns minutos, imaginando que ele podia ter ido ao banheiro, mas no fundo ela não acreditara nisso. Mesmo dormindo, ela devia ter tido alguma consciência de que ele estava ausente e já por algum tempo. Fôra isto que a havia despertado - a sensação de algo faltando.
Sawyer passara toda a noite distante e fechado, refletiu Kate, muito embora ela tivesse que lhe dar crédito por tentar fingir que nada havia acontecido. Ele se esforçou, pelo menos. Nem ao menos tinha ficado mal-humorado, o que a deixou curiosamente orgulhosa dele. Mas, ele não era bom ator o suficiente para parecer completamente natural, e desde o jantar ela se sentia carregada de culpa por ter apanhado aquela foto estúpida do armário.
O que diabos ela estava pensando? Ela não tinha a desculpa de não entender de onde ele vinha. Ela sabia muito bem como era ser confrontado com os fantasmas do passado. Torturando-se com estes e outros pensamentos similares, ela tentou compensá-lo na cama, mas mesmo aí, pôde perceber que ele não estava concentrado. E se Sawyer não estava interessado em sexo, estava claro que existia um problema.
Quando ficou óbvio, depois de alguns minutos, que ele não estava no banheiro, ela vagarosamente se levantou e buscou o roupão. Não tinha chance de voltar a dormir. Embora ela temesse, precisava encontrá-lo. Ela não sabia exatamente onde ele estava, mas sabia, com quase cem porcento de certeza, o que ele estava fazendo.
Ela checou a cozinha primeiro, mas estava vazia. E quando estava prestes a tentar a sala de estar, ela notou que a pesada porta interna estava aberta, com apenas a porta de tela de barreira. Havia um brilho fraco vindo através dela, o que significava que a lâmpada da varanda estava acesa, mais abaixo, no canto da casa.
Ela se aproximou da porta cautelosamente e pegou fôlego. Suave e silenciosamente, ela abriu um pouco a porta e saiu, olhando para onde ela sabia que ele estaria sentado, no balanço da varanda.
Ela esperou uns segundos, mas ele não olhou para ela.
"Não é a melhor luz pra uma leitura, é?"
Finalmente, ele levantou os olhos da gasta e desbotada carta em seu colo. Ainda sem se virar para ela, ele olhou para o vale escuro. Não disse nada e ela percebeu que ele não a queria ali. Mas, o fato dela entender as dicas não signficava que era obrigada a obedecê-las.
Enrolando os braços em torno de si mesma por causa do frio ar d início outubro, ela caminhou vagarosamente até o balanço e se sentou perto dele, seguindo seu olhar em direção as montanhas. Eles ficaram sentados em silêncio por alguns minutos.
Ainda olhando para frente, ela falou: "Foi mesmo uma coisa estúpida o que eu fiz. Fui uma idiota." Um leve sorriso apareceu em seus lábios. "E você sabe que eu não admitiria isso pra qualquer um."
"Isso não tem nada a ver com você, Sardenta." Ele parecia esgotado.
Ela fechou os olhos por um segundo. "Talvez não, originalmente. Mas, nós dois sabemos que se eu não tivesse feito você ver aquela foto, você não estaria aqui agora, lendo essa coisa." Junto com as últimas palavras, ela lançou um olhar zangado em direção à carta, como se esta fôsse pessoalmente responsável por todos os problemas de Sawyer, e não o incidente que o inspirara a escrevê-la.
"Pra falar a verdade, gostei de você ter achado a foto. Me sinto melhor sabendo que não existe mais."
Ela expirou devagar, preferindo não responder o patente absurdo daquela declaração. Ela teve a impressão que ele estava jogando uma isca e ela não ia deixar ele virar aquilo numa briga.
Esperando alguns segundos, ficou observando seu perfil atentamente.
Afinal, parecendo reunir coragem, ela perguntou, quase num sussurro, "Não era ele, era?"
Ele ficou impaciente, "O quê?"
"O homem que você matou."
Agora ele se virou para ela, enervado. "Mas, do que é que você tá falando?"
"Quando a gente estava jogando aquele jogo ridículo na ilha. 'Eu nunca'" disse ela virando os olhos ligeiramente e escandindo as palavras, como se para enfatizar a tolice.
"Você disse que tinha matado um homem. Ou pelo menos deu a entender." Ela mudou de posição no balanço para ficar mais confortável, virando todo o corpo, de forma a encará-lo.
"A princípio, pensei que tinha sido ele. O cara que você estava procurando... aquele pra quem você escreveu a carta. Mas, agora... não acho mais." Ela olhou firme para ele. "Porque se você já tivesse feito isso, não acho que ainda ia estar lendo essa coisa. Nem acho que ia mais ficar com ela."
Ela esperou um pouco, meio nervosa sobre o tipo de efeito que isso teria sobre ele, mas também curiosa.
Estava tendo algum tipo de efeito, com certeza. Ela podia ver em seus olhos. Ele parecia quase preso numa armadilha, do jeito mesmo quando ela lhe revelou que sabia que a carta havia sido escrita por ele. Tentando se safar disso, procurou virar o jogo com um sorriso insolente. "Não acha, hem?"
"Não."
"Não devia ter tanta certeza assim." Ele deu uma pausa. "Você tá certa numa coisa, pelo menos." Voltando o olhar para ela penetrantemente, continuou. "Não era ele."
Ela acenou com a cabeça, como se já soubesse a verdade.
"Mas, vai ser. Assim que eu encontrar o filho da puta."
Era disso que ela tinha medo.
"Então, você ainda está planejando ir em frente com isso. Mesmo agora... depois de tanto tempo."
"Claro que estou, Não é o tipo de coisa que você supera."
"Mas, as coisas mudam, Sawyer.
"Não tanto assim, não mudam, não."
"Já faz quase trinta anos," ela continuou. "Está me dizendo que em trinta anos, você não encontrou uma boa razão pra deixar isso pra lá? Não existe uma única coisa em sua vida digna de desistir disso?"
Ela estava se referindo, embora indiretamente, a eles dois, a ao que quer estivesse acontecendo com eles. Ele sabia onde ela queria chegar.
"Sem ofensas, querida, mas esta carta tem sido minha companhia há muito mais tempo que você. Acho que devo alguma coisa a ela, pelo menos."
Ela ficou visivelmente magoada pelas palavras. Seu rosto se anuviou e ela virou o rosto rápido, para que ele não visse quão facilmente ele podia feri-la.
Foi imposível para ela disfarçar, entretanto, e ele se sentiu péssimo. Mas, isso não fazia as palavras menos verdadeiras.
Nenhum dos dois falou nada por um minuto, permitindo que as reverberações desta última observação morressem.
Kate foi a próxima a falar. Ela começou suave e contemplativamente, quase com se estivesse pensando em voz alta. "O que acontece se você o encontrar... e ele fôr exatamente como você?" Ela olhou para ele. "E se ele fôr só algum ferrado, um cara miserável que não consegue parar de pensar no que fez... nas vidas que destruiu? O que você vai fazer, então? Ainda vai matá-lo?"
"Vou", disse Sawyer simplesmente, e ela percebeu que ele falava a sério.
"Você acha que isso vai mudar alguma coisa? Que vai fazer você se sentir melhor? Não vai." Ela sorriu tristemente, "Acredite em mim." Sussurrou ela.
"Obrigado pelo conselho, Pudinzin'... Mas, acho que vou pagar pra ver."
Ela estava ficando frustrada com ele. "Ok, então... e se ele fôr casado? E tiver filhos ou talvez até netos agora? Você vai matar o avô de alguém por uma coisa que aconteceu há trinta anos atrás?"
Ele a ignorou.
Ela continuou, obviamente triste. "Ou, e se ele não se casou, mas tem uma mulher. Alguém que se preocupa com ele, depende dele." Ela engoliu em seco, tentando segurar as lágrimas. "Que mesmo sabendo que ele é egoísta e teimoso e não merece ela, ainda assim... o coração dela ia se partir se alguma coisa acontecesse com ele."
Sua voz tremeu perigosamente nestas últimas palavras, o que fez ele olhar para ela, torturado, imaginando de quem exatamente eles estavam falando ali. O olhar no rosto dela não deixou muito espaço para dúvida.
"Então, acho que talvez ela devesse ser mais cuidadosa ao escolher com quem fica." Ele falou enfatica, mas suavemente, tentando não magoa-la.
Ela acenou com a cabeça levemente, quase com amargura. Olhando para frente, ela esfregou, irritadamente, a manga do robe nos olhos.
Falando controlada, mas friamente, sem se importar agora se o ferisse, ela perguntou, "Você quer saber o que eu acho, Sawyer? Eu não acho que você se importe se matar esse cara ou não. E o mais triste é que você nem sabe disso."
Ele olhou para ela confuso.
Ela continuou. "Eu não acredito que isso signifique nada pra você. Ele é só uma idéia. Ele nem mesmo é real. Eu sei que ele era no início. Quando você ainda pensava nele como uma pessoa separada. Mas, tudo isso mudou no dia que você decidou começar a usar o nome dele... quando você começou a viver a vida dele."
Kate podia ver que ele desejava que ela parasse, mas ela não tinha intenção de fazer isso. Não até que dissesse tudo que o tinha que dizer.
Depois disso, virou quase um hábito. Você fica procurando por ele, tentando matar ele, mas o que você parece não perceber que nem se trata mais disso. Você já passou do momento em que isso faria alguma diferença. Porque eu tenho visto como você é obcecado com isso... o jeito que você se tortura... até o jeito que você deixa que outras pessoas te torturem, às vezes literalmente - sem nenhuma razão. Você nunca teve o remédio de Shannon, mas você não podia simplesmente dizer isso, podia? Porque a verdade é..." ela deu uma pausa e disse calmamente, "você não quer fazer esse cara sofrer. Você quer fazer sofrer a si mesmo."
Ele a encarou, perturbado e zangado pela maneira como ela conseguiu chegar tão perto. "Você quer me analizar, querida, talvez a gente devesse entrar pra eu poder deitar no sofá. Isso ia te facilitar?"
Ignorando, ela continuou. "O mais engraçado é que eu não tinha percebido isso até agora. Mas eu acho que você nem sabe mais qual de vocês é qual - qual é a vítima e qual é o culpado. Ou talvez," ela acrescentou, como se a idéia tivesse acabado de lhe ocorrer, "você se ache ainda mais culpado do que ele. Afinal, ele nunca matou ninguém, matou? Pelo menos, não diretamente. Pode dizer o mesmo?"
Os olhos de Sawyer estavam brilhantes e assombrados e Kate começou a desejar não ter ido tão longe. Numa voz áspera ele disse, "Acho que já tá no hora de você voltar pra cama."
"Eu vou" disse ela. "Mas, antes eu quero que me prometa uma coisa... que você vai parar com isso - parar de procurar por ele. Que você vai fazer algum esforço pra deixar isso pra trás." Ela olhou para ele esperançosa, quase desesperadamente.
"Por favor , Sawyer."
Sawyer demorou alguns segundos, parecendo pensar, mas depois disse tristemente, "Não posso fazer esse tipo de promessa, Sardenta. Bem que eu queria." E ele pareceu que desejava, sinceramente.
Horrivelmente desapontada, ela tirou o olhar de cima dele e fitou o chão. "Ok," ela sussurrou "Não vou pedir de novo."
Ela o estava tranquilizando? Parecia mais uma ameaça. Não havia nada que ele quisesse mais no mundo, do que poder fazer-lhe essa promessa e cumpri-la, mas ele não podia mentir pra ela. Ela percebeu isso.
De pé, ela se abaixou e o beijou, brevemente. Ele tentou segurá-la um pouco mais, mas ela se afastou.
"Você vem?" ela perguntou.
"Vou em um minuto."
Ela começou a caminhar pela varanda, resignadamente. Na porta, ela parou para olhar para ele. Sawyer ainda a estava observando. Ela parecia completamente derrotada.
Abrindo a tela da porta, ela entrou e a fechou suavemente.
Ele continuou olhando para o espaço que ela ocupara. Daí, vagarosamente, quase imperceptivelmente, ele voltou os olhos novamente para a carta.
