Capitulo 22 - Traduzido por Nicilion (Enia)

Quando o Sawyer entrou na cozinha, encontrou a sua tia a mexer nos armários, examinando o seu conteúdo. Ela parecia estar a fazer um inventário, murmurando para ela. Kate estava ao lado, parecendo ansiosa e incerta. Ela levantou as suas sobrancelhas ligeiramente para ele, assim que este passou pela porta, mas nesse preciso momento, Meg voltou-se e anunciou em voz alta, "Bem, é bom ver que existe comida nesta casa, finalmente." Ela olhou para a Kate. "Isto é obra tua?"
Ela abriu a boca, insegura da resposta, mas o Sawyer respondeu por ela.

"Sim," disse ele enquanto pousava o cachorrinho no chão. " Ela escreve as listas das compras."

Meg voltou-se para ele. "Perguntei-te alguma coisa?"

Depois, reparando na mancha molhada, ela gargalhou com alegria. "Tens xixi de cão na camiseta, James."

"Obrigado", respondeu ele, chateado.

Grata pela distracção, Kate moveu-se para a pia. Abriu uma torneira, encheu a esponja de água e depois torceu-a. Sawyer tirou a sua camiseta suja e dirigiu-se até Kate, que no mesmo instante passou a esponja no peito dele, para limpar a sujidade que tinha passado através do tecido. Eles fizeram isto naturalmente, sem palavras, tão normalmente como se tivesse sido ensaiado.

Reparando que Meg, estava observando com interesse, Kate ficou envergonhada. Pousou a esponja na pia e tirou a camiseta dele. "Vou-te buscar outra." Evitando os olhos da outra mulher, ela saiu da cozinha.

Meg olhou para o Sawyer intensamente. "Útil para uma fugitiva, não é?"

"Estás a po-la nervosa," disse ele acusando-a, mas num baixo tom de voz para que Kate não o pudesse ouvir.

"Querido, eu penso que ela tem mais com que se sentir nervosa, eu teria se fosse ela. Tens ideia do valor da recompensa por denunciá-la? Mas aqui estão vocês a passear no quintal em pleno dia, sem a menor das precauções."

"Nós estávamos á procura do cão," disse ele defensivamente. " Ela praticamente nunca sai de casa durante o dia…eu sei o quão perigoso isso é!

"Ainda bem," respondeu Meg. "Fico feliz por saber que tu não te tornaste num perfeito idiota.

Apesar de ser difícil de ter a certeza, tendo tu um cabelo como esse. Anda cá e deixa-me acabar isso, para que não tenha que olhar mais para ele." Ela moveu-se vivamente para a mesa.

Ele permaneceu no mesmo lugar, relutante.

"Senta-te." disse ela apontando para a cadeira. E, pela segunda vez naquele dia, ele deu por si, a obedecer ás ordens de alguém que não ele. Ele sentou-se na cadeira, irritado, e arrancou a toalha que tinha a volta do seu pescoço enquanto a Kate voltava a entrar na cozinha.

"Oh..." disse ela hesitante, para a tia Meg. "Eu posso fazer isso."

"Não te preocupes com isto," disse Meg, levantando as tesouras. "Eu termino-o."

"Okay," disse Kate com uma voz dócil, estendendo a Sawyer uma camiseta. "Ele não o quer muito curto."

Sawyer dirigiu-lhe um olhar traído. Ela levantou os seus ombros ligeiramente como se quisesse dizer, "O que é que eu posso fazer?"

"Então," perguntou Meg quando começou a cortar "Vocês dois já foram para a cama?"

"Cristo, Tia Meg!" disse Sawyer.

"Vou tomar isso como um sim," ela respondeu calmamente.

Kate olhou para o chão, sentindo-se corar.

"Não leves isto a peito, Sardenta," disse Sawyer num tom zangado e tentando desculpar-se
"Ela é rude com toda a gente."

"Não é nada com que sentir vergonha," continuou Meg. "É melhor aproveitar enquanto se é jovem. Sabes, quando o teu tio e eu ficamos juntos pela primeira vez, parecíamos coelhos com cio…Ás vezes nós nem saíamos da cama."

Sawyer gemeu em agonia. Ele parecia que ia vomitar, Kate reparou no brilho de divertimento dos olhos de Meg. Ela estava, claramente, a fazer isto a Saywer de propósito.

"Claro," continuou ela, "agora que sou viúva, tenho que o fazer sozinha. Mas, é como eu sempre digo, não há nada que um homem faça que duas pilhas não consigam fazer. Não é verdade?" perguntou ela olhando para Kate.

"Um..."disse Kate, sentindo-se a corar ainda mais. Ela tentou pensar numa maneira de mudar o assunto. "Eu…eu sinto muito pelo seu marido."

"O que é que ele tem?"

"Você disse que era viuva?"

"Oh. Isso." Meg não parecia muito interessada. "Um tumor no cérebro, matou-o. Engraçado é, que eu sempre pensei que ia ser a bebida que ia acabar com ele."

"Eu sempre pensei que ias ser tu," murmurou Sawyer.

Meg bateu-lhe na cabeça com o punho da tesoura. "Atenção, rapaz," disse ela avisando-o.

"O James era muito afeiçoado ao tio," explicou ela a Kate "Afeiçoado demais."

"Era esse o tio de que falas-te ao Jack? Quando estavas a ter dores de cabeça?"

"Yeah," disse Sawyer.

"Quem é o Jack?" perguntou Meg intrometidamente.

Kate e Sawyer olharam um para o outro. Sawyer manteve-se calado, a espera que ela explicasse.

"Ele estava…no avião conosco. E na ilha," disse Kate. "Ele era médico."

"Deve ter sido bom ter um medico por lá," disse Meg mandando um olhar a Kate.

"Sim," disse Kate numa voz calma, ainda olhando para o Sawyer. "Nós tivemos sorte."

Sawyer revirou os olhos lentamente. "Não sei se sorte é a palavra que eu usaria."

Kate pareceu ofendida. "Como podes dizer uma coisa dessas, Sawyer? Tu sabes o quanto ele fez por todos nós…quão arduamente ele trabalhou. Se não fosse ele, tu podias ter sangrado até morrer."

Eles fitaram-se intensamente, cautelosamente, esquecendo-se completamente da presença da Tia Meg, até que esta irrompeu em voz alta, "Por alma de quem é que ela te chama isso?

Ambos olharam para ela, confusos.

"Sawyer," repetiu Meg desdenhosamente. "De onde é que isso veio?"

"É um nickname," disse ele rapidamente, lançando um olhar intenso a Kate. Ela percebeu que Meg não sabia a identidade do homem responsável pela morte dos pais dele, e que ele queria manter as coisas assim.

"É um bem estúpido," Meg respondeu apressadamente. "Se vais escolher um nickname, é melhor que escolhas um que valha a pena. Como o teu primo Steve…na escola, as pessoas começaram a chamar-lhe Cicatriz(Scar). Lembras-te disso?"

"O Steve era um babaca," disse Sawyer desdenhosamente.

"Até podia ser," concordou Meg, " Mas Cicatriz (Scar) continua a ser um nickname melhor do que Sawyer. Sabes o que Sawyer quer dizer? É alguém que serra madeira. É por isso que queres ficar conhecido?

Ele suspirou cansadamente. Kate tentou não sorrir. Ela estava mesmo a começar a gostar um pouco da tia Meg, apesar de ela ainda não saber se podia confiar nela.

"Qual é o mal do teu nome verdadeiro?" continuou ela. "James é um nome bonito…não precisas de o mudar. Tu sabias que a tua mãe teve que lutar por esse nome? O teu pai queria chamar-te Raymond, depois que um amigahaço dele morrer no Vietnam."

"Nunca me contaste isso," Sawyer disse lentamente, olhando para ela com curiosidade.

"Nunca perguntaste," disse ela, dobrando a cabeça dele para a frente. "Não te mexas." Ela deu uma aparada, e depois continuou a sua história.

"O teu pai não desistia da idéia…mal ele descobriu que ela estava grávida, disse-lhe que se fosse um menino, ele já tinha escolhido o nome. Então, ela cedeu…disse-lhe que independentemente do nome, por ela estava tudo bem. Durante nove meses ela fez de conta que estava a carregar um pequeno Raymond. Então, depois de tu nasceres, ela esperou que o teu pai fosse até á salinha do hospital para ver um jogo de football, e chamou uma enfermeira para lhe trazer o certificado de nascimento. Ela preencheu-o todo sozinha, e quando o teu pai se apercebeu do que ela tinha feito, era tarde demais. Tu já era oficialmente James."

Kate observou o rosto do Sawyer enquanto Meg contava a história. Ele parecia divertido e, no entanto, necessitado, como se precisasse desesperadamente de qualquer historinha que ele pudesse ter, por muito trivial que fosse. Kate estava maravilhada com a maneira com que Meg conseguia falar dos pais dele, tão casualmente, como se eles estivessem ao final da rua e não tivessem sido mortos numa tragedia. Se calhar este era o seu apelo para o Sawyer, apercebeu-se Kate. Provavelmente mais ninguém falava deles desta maneira, com uma abertura incrível. Ele não parecia perturbado, como pareceria se fosse ela a falar nos pais dele. Pelo contrário, ele parecia agradecido.

Olhando para cima, ele apanhou o olhar fixo tímido de Kate. Ela sentiu uma onda de afecto por ele, e sorriu-lhe um pouco. Ela estava imensamente grata á tia Meg por ter dado ao Sawyer aquele momento.

"Parece que acabamos por aqui," anunciou Meg, tirando a toalha do pescoço dele e sacudindo-a.

"O que achas, rapariga?"

"Parece-me bem," concordou Kate timidamente.

"Bem" disse ela com um ar de finalidade, olhando para o relogio. "Acho que vou tentar ver a novela, se vocês não se importam. Não a vejo há tres semanas, mas aposto que os bonzinhos ainda são bonzinhos e os vilões ainda são vilões. Se eu adormecer, não me chateiem. Perceberam?"

"Sim," disse o Sawyer, esperando claramente que ela adormecesse.

Sem mais nenhuma palavra, Meg voltou-se e andou até á sala de estar. De pé, Sawyer fez um gesto para que Kate o seguisse até á despensa, onde havia menos chances de serem ouvidos. Ele sabia que ela ainda estava preocupada.

"Estás bem?" Perguntou ele com uma voz de quem estava preocupado.

"Sim", disse ela docemente. "Acho que sim. Quer dizer, tu confias nela, não é?"

"Eu sei que ela parece uma lunática, mas ela não é….Ela simplesmente adora chatear-me," disse ele amargamente. "Mas sim, eu confio nela. Ela não vai dizer nada sobre tu estares aqui. Além disso, ela até gosta de ti."

Kate riu. "Ela tem uma maneira engraçada de o mostrar." Ela parou. "Mas pensando bem, tu também."

Ele sorriu para ela tristemente, detestando aquele olhar preocupado nos olhos dela. Por mais que ele a assegurasse sobre a tia dele, ele sabia que ele não a conseguia convencer completamente. Esta era mais uma preocupação que ela tinha que adicionar á lista, algo que iria continuar na sua cabeça, bem escondido lá no fundo. Matava-o saber que ele nunca conseguiria fazê-la sentir-se completamente protegida.

"Anda cá," disse ele puxando-a para os braços dele. Ela encostou-se a ele, e este conseguiu sentir a tensão no corpo dela. Fazendo um memorando mental para lhe dar uma massagem mais tarde, ele começou por massagear fazendo pequenos círculos nas costas dela. Baixando-se um bocadinho, ele soprou gentilmente no pescoço dela, adorando, como sempre, a maneira como isso a fazia levantar os ombros em defesa, quebrando depois com estremecimentos. Ele encostou-se na maquina de lavar, ainda agarrado a ela. Era engraçado, como a presença de outra pessoa na casa, os aproximava, como se eles fossem dois adolescentes mal comportados surpreendidos pela chegada de um familiar.

"Desculpa pela cena do corte de cabelo," sussurrou ela com um sorriso.

"Sim, escolheste um bom dia, não foi?" respondeu ele, tentando parecer chateado.

"Ela fez um bom trabalho," disse Kate, afastando-se para poder olhar para ele. Ela passou as mãos pelo cabelo dele. "Bem melhor que o meu."

Em vez de responder, ele beijou-a. Ela derreteu-se com ele, fechando os olhos, mas Sawyer interrompeu-o logo e olhou para a porta. Virando-se, Kate viu Meg a olhar com uma expressão sarcástica.

"Destesto interromper os pombinhos, mas o vosso cão está a saltar nas almofadas do sofá. Ele pode fazer isso?"

Kate olhou para o Sawyer, com um ar de perda.

"Eu vou buscá-lo," disse ele, parecendo cansado. Passando pela sua tia, ele foi em direcção á sala.

Meg continuou parada no mesmo sitio, observando Kate com interesse. Ela parecia que não conseguia se decidir sobre o que achava dela. Kate olhava para baixo, rígida e inconfortável.

Finalmente, Meg deu a Kate um sorriso genuíno. "Á vontade, soldado," disse ela com uma voz alta e irônica. "Eu sairei daqui amanha. Entretanto, porque não preparas algo para comeres? És tão magra como uma linha de trem."

Kate olhou para ela, estranhamente aliviada. Ela concordou. "Ok." Ela teve de lutar contra a vontade de responder "Sim, senhora!"

Meg também assentiu, como se as duas estivessem a partilhar um segredo, depois ela virou-se e deixou a cozinha novamente.

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Afinal, Meg realmente adormeceu, acordando apenas à hora do jantar para forçar a saída da Kate da cozinha e começar ela a cozinhar. Em seguida, depois de ter comido, voltou para a sala de estar com o aviso de que se iria retirar e que não queria ser importunada, e voltou a adormecer imediatamente. Sawyer explicou que como ela era uma caminhoneira, ás vezes ficava acordada durante dois ou três dias seguidos. O estranho era que, ele raramente vivia naquela casa, mas no entanto, sempre que ele lá ficava, Meg de certa forma sentia-o e aparecia para visitá-lo. O "timing" dela era quase misterioso. Kate pensou para ela mesma, que essa não era a única coisa misteriosa na tia Meg.

Eles ficaram no andar de cima durante toda a noite, visto que a sala de estar estava fora dos limites, e Sawyer deu a Kate a massagem que ele tinha planeado dar. Estranhamente, esta não levou ao sexo como sempre levara anteriormente. Mal ele a acabou, Kate rolou, deitando-se de costas e estes ficaram a olhar um para o outro estranhamente. Ela sabia que a presença da tia dele lá em baixo, tinha tido um efeito calmante na libido dele, e que ele se sentia um pouco culpado por causa disso.

Ela sorriu para ele tranqüilamente. "Estou exausta. Importas-te que vá já dormir?"

Aliviado, ele concordou com ela. "Por mim tudo bem."

Sawyer adormeceu quase imediatamente, mas Kate permaneceu acordada. Ela não estava realmente exausta. Graças ás mãos habilidosas do Sawyer, o corpo dela estava agora relaxado, afundado profundamente no colchão. Mas ele não podia fazer nada quanto aos seus pensamentos, e era isso que a mantinha acordada á noite. Especialmente, quando existia uma nova fonte de ansiedade, como por exemplo, o acontecimento daquela manhã. Aquilo apenas servia para a fazer recapitular e reavaliar a sua situação, e os perigos que ela ainda tinha de enfrentar. Na maior parte do tempo, ela conseguia encontrar uma maneira para evitar pensar no futuro, mas á noite, aquilo rastejava na sua mente, e ela nem sempre se encontrava disponível para lutar contra isso. Se o Sawyer estivesse acordado, talvez isso ajudasse, mas ela nunca sonharia em acordá-lo só para a confortar.

De repente, ela ouviu um ruído de chocalho fraco, parecendo vir da cozinha. Ela levantou a cabeça devagar, ouvindo. Ela tentou lembrar se tinha enchido a taça da água do Gus antes de ter vindo para o andar de cima. E se ele estivesse com sede e a taça estivesse vazia?

Sainda da cama, ela desceu as escadas lenta e cuidadosamente e entrou na cozinha, parando surpreendida imediatamente. Afinal não era o cão. Era a tia Meg, a preparar café…á 1.30 da manhã.

"Oh," hesitou Kate. "Desculpe…eu não…quer dizer, eu pensei ter ouvido…"

Meg olhou para ela divertida.

Finalmente, Kate parou de se tentar explicar, "Posso ajudá-la em alguma coisa?"

"Café é tudo o que eu preciso. Pensei em fazer uma chávena e depois ir-me embora daqui, e fazer a entrega em Memphis."

"A meio da noite?"

"Eu não sou grande coisa em despedidas," respondeu Meg.

Kate sorriu um pouco. "Eu também não."

Meg olhou para ela de perto. "Senta-te," disse ela, num tom mais de ordem do que de convite.

Kate puxou uma cadeira, quase grata pela distracção.

"Há quanto tempo estás aqui?" perguntou Meg.

Kate pensou durante um segundo. "Sabe, não tenho bem a certeza," disse ela devagar. "Mais ao menos há um mês, acho eu!" ela continuou, quase para ela mesma. "Não acredito que já foi há tanto tempo."

"Vocês já estavam juntos na ilha?"

"Nós estavamos os dois lá…mas não juntos. Para falar a verdade, nós nem nos dávamos lá muito bem. E ainda não nos damos." Admitiu ela baixinho, quase a rir-se.

Meg assentiu. "Bem, ás vezes, é assim que as melhores histórias de amor perduram. É com as que são todas perfeitas, que te tens de preocupar. Essas não duram. Olha para mim e para o meu marido como exemplo. Nós discutíamos todos os santos dias das nossas vidas. No dia em que nos conhecemos, eu tentei atropelá-lo com o meu antigo Chevy. Quando eu não o consegui fazer, ele declarou-se."

"Que romântico," disse Kate.

"Sim, bem…romance é sobrevalorizado. Posso fumar aqui?"

Kate assentiu com a cabeça.

Ela tirou um cigarro do pacote que tirou do bolso e acendeu-o, ao mesmo tempo em que o levava aos lábios.

"Continuando," continuou ela, sentando-se. "Ele era o meu melhor amigo. Não o teria trocado por nada neste mundo. Se bem que ,ás vezes eu queria mata-lo." Ela deu uma grande pausa, expirando o fumo lentamente em seguida. "Os homens Ford…"disse ela pensativa, "são criaturas complicadas. Mas imagino que já tinhas chegado a essa conclusão, não?" Ela olhou para Kate perspicazmente.

"Sim," respondeu ela honestamente. Não havia como negá-lo. Complicado, era favor.

"Quando ele odeiam, eles odeiam tão intensamente que isso os consume como o fogo do inferno. Quando eles estão tristes, eles gostam que todo o mundo pare e chore por eles. E quando eles se apaixonam," Meg reforçou, "eles apaixonam-se tão profundamente que eles nem se apercebem que bateram no chão." Ela olhou propositademente para Kate.

Kate encontrou os olhos dela, mas desviou logo o olhar. "Vou tentar lembrar-me disso."

"Toma o Billy, como exemplo." Ela fez uma pausa. "O pai do James," explicou ela, visto que a expressão de Kate só demonstrava desconhecimento no nome. "Quando ele se apaixonou pela Laura, era como se nada mais no planeta existisse para alem dos dois. Ele teria feito tudo por ela…e o triste é, que toda a gente sabia que ela não o merecia. Não que houvesse algo de errado com ela," Meg disse rapidamente. "Ela era uma rapariga doce. Mas ela nunca se importou tanto com ele, como ela se importava com ela mesma. E toda a gente sabia disso, menos ele. Foi por isso que foi um choque enorme para ele quando ela fez o que fez. Ele nunca se apercebera de nada…se ele se tivesse apercebido, talvez não se tivesse afundado daquela maneira. Mas ele estava na escuridão completa."

Meg parou por um segundo, perdida na memória.

"Maior parte das pessoas pensam que foi a perda do dinheiro que o fez fazer aquilo…de facto eles estavam tesos, não tinha sobrado nada com que eles pudessem começar de novo. Mas eu conheci-o melhor. Era o pensamento dela com outro homem que o fez fazer aquilo…que o fez matá-la e depois virar a pistola para ele mesmo. Ele nunca se importou com o dinheiro," terminou ela amargamente.

Kate respirou fundo e expirou devagarinho, sem saber o que dizer.

"Eu ia odiar ver o mesmo tipo de erro a repitir-se," disse ela com ênfase. " Se ela tivesse acalmado as coisas antes de ele se ter tomado pela dor, talvez tudo isso podia ter sido evitado. Percebes o que eu estou a dizer, rapariga?"

"Acho que sim," sussurrou Kate.

"Tu não queres fazer o erro de o deixar demasiado dependente em ti…demasiado apegado. A não ser que tu estejas interessada no longo prazo."

"Eu acho que percebeu as coisas mal," disse Kate hesitando. "Sou eu quem depende dele, não o contrario."

"Até pode parecer que é assim, mas não tentes te enganar," avisou Meg severamente. "Eu conheço o James há bem mais tempo que tu…eu conheço-o tão bem como qualquer um o poderia conhecer, de facto…e eu nunca o vi a olhar para ninguém da maneira como ele olha para ti. Provavelmente, os danos já estão feitos. Mas se estás a pensar em fazer-te á estrada, eu sugiro que o faças rapidamente. Eu até te darei boleia, se quiseres."

Kate parecia um pouco chateada agora. "Eu não vou a lado nenhum," disse ela docemente, mas firme.

Meg examinou-a por alguns segundos, fumando contemplativamente. Ela parecia ter chegado a uma decisão.

"Tudo bem, então," ela acentiu severamente. "Mas diz-lhe o que raio estás a esconder dele, acaba com isso."

"Como?" Kate perguntou enervada.

"Gostas que te mintam?" perguntou Meg.

"Não," disse Kate defendendo-se. "Eu não lhe estou a mentir."

"Manter segredos é igualmente mau. Até pode não parecer quando se é jovem, mas é uma dessas coisas que tu descobres da maneira mais difícil quando se é mais velho. Por isso, aceita o meu conselho e acredita no que te digo. No fim, leva tudo ao mesmo."

Kate olhou para ela fixamente, perturbada mas de certa forma aliviada. Era absurdo, ela sabia, mas era como se Meg lhe estivesse a dar permissão para contar o seu passado ao Sawyer. Ela sabia que era algo que ela não podia fazer imediatamente, mas talvez a altura certa chegasse…talvez até chegasse mais cedo do que ela esperava. Ela considerou perguntar a Meg como é que ela sabia que ela tinha segredos, mas decidiu não o fazer. A mulher era intimidante.

"O engraçado é," continuou Meg mudando de atitude, "Eu nunca pensei que o James saísse ao pai. Quando ele era pequeno, ele era cem porcento um menino da Mama. Ele era tão apegado a ela, que até era ridículo. Nunca saia da beira dela. Mas tu não o consegues imaginar, consegues?"

Kate sorriu ligeiramente. "Para falar a verdade, consigo…de certa forma."

Meg acentiu, parecendo satisfeitamente surpreeendida. "Bem, claro que tudo isso mudou no instante seguinte a tudo o que aconteceu. Depois disso, ele não se apegava de mais a nada.

Praticamente nem falou durante um ano. Sabias disso?"

"Não," disse Kate baixinho.

"Um dia…deve ter sido oito, talvez nove meses depois do funeral…ele estava no quintal da nossa casa, deambulando sozinho…ele evitava os outros miúdos como se estes fossem uma praga. Nós tínhamos uma fonte…água cristalina, com mais ou menos dois metros de profundidade.

Conseguia-se ver o fundo á primeira. Eu estava a plantar batatas ou algo do gênero, quando de repente o vi a subir uma pilha de troncos perto da água. No momento em que eu olhei para cima ele dá um passo em falso e caí dentro da fonte. Eu fiquei quieta á espera que ele emergisse…porque ele era um excelente nadador…muito melhor que os outros miúdos. Nada aconteceu. Nem traço dele. Por isso eu corri para lá, e…"

Aqui Meg parou, quase como se ela estivesse de volta ao momento, a revivê-lo, igualmente chocada como estaria da primeira vez. Ela continuou numa voz suave.

"E ele está…deitado no fundo. Como se aquele fosse o local mais confortável do mundo, e ele tivesse decidido tirar uma soneca. Ele estava tão…imóvel…ele quase que parecia um boneco, só que ele tinha os olhos abertos. A coisa mais assustadora que eu alguma vez vi." Ela estremeceu um pouco.

"Mas sabes qual foi a pior parte? A pior parte…foi que eu pensei Tudo o que eu tenho a fazer é virar as costas e voltar para casa. Ninguém sabe que eu estou aqui…eles vão pensar que ele estava sozinho, e que não havia ninguém para o salvar. Consegues acreditar nisto?" perguntou ela, olhando para Kate. "Parecia a coisa mais simples do mundo. Virar costas, e deixá-lo fazer aquilo. Deixá-lo acabar com tudo aquilo."

Agora ela olhava para trás de Kate, fixando o olhar no vazio, assombrada.

Kate tiritou, sentindo-se perturbada. Ela queria gritar com Meg, abaná-la, ordenar-lhe que o fosse buscar, apesar de aquilo parecer ridículo. Sawyer estava lá em cima, a dormir profundamente sobre as suas cabeças. Ele estava bem, e aquilo era algo que já tinha passado há mais de vinte e cinco anos.

"Bem," disse Meg finalmente, saindo da sua fantasia e suspirando. "Acho que sabes o que eu acabei por decidir. Ele continua cá, não continua? Não que eu alguma vez tenha recebido um Obrigado, ou algo do gênero. Para falar a verdade, nunca vi ninguém tão chateado por ter a vida salva. Até parecia que era eu quem o tinha tentado afogar. Eu duvido que ele ainda se lembre daquele dia, mas lá no fundo, acho que ele nunca me perdoou por isso." Ela sorriu levemente. "A primeira coisa em que eu pensei quando ouvi que o avião se tinha despenhado foi, Bem, ele finalmente teve o que queria." Ela olhou para Kate, curiosa. "Achas que eu sou um monstro?"

"Não," disse pensativamente Kate. "Não…eu percebo o que quer dizer." Elas olharam fixamente uma para a outra.

"Mas eu acho…" continuou Kate,"Que ficaria surpreendiada. Ele é mais forte do que a senhora pensa." Ela sentiu uma enorme necessidade em defende-lo, mesmo que Meg estivesse certa.

"Espero bem que sim," disse ela. Ela levantou-se para encher uma chávena de café. Ele já estava pronto, há quase dez minutos, mas elas nem se tinham apercebido. "Queres?"

"Não obrigado," disse Kate. "Já tenho demasiados problemas em adormecer sem ele."

"Imagino que sim," disse Meg uniformemente.

"Posso perguntar-lhe uma coisa?" aventurou-se Kate.

"Não sei, podes?"

Ela mordeu o lábio estranhamente, e depois disse, "Se sabe o que fiz…porque é que eles andam atrás de mim…então porque não está mais preocupada? Não devia estar mais preocupada que eu o matasse em vez de lhe partir o coração?"

Meg riu-se, divertida com a situação. "Bem para te dizer a verdade, espero que não faças nem um nem outro." Ela encostou-se na cadeira e bebericou um pouco de café. "Acreditas que consegues saber como é que uma pessoa é, olhando só para a cara delas…para os olhos delas?"

"Não sei." Kate pareceu considerar. "Acho que não."

"Bem, eu acredito. Más pessoas tem olhos maus e boas pessoas tem bons olhos…parece infantil e estúpido, eu sei, mas isto nunca me provou o contrário até agora. No instante em que eu te vi lá fora. Soube que lá no fundo, tu não eras má pessoa. Fizeste mesmo o que eles dizem que fizeste?"

Kate não sabia como responder. "Na altura haviam…circunstancias…que ninguém sabe." A voz dela vacilou um bocadinho. "Eu sei o que toda a gente diz, mas…" ela parou, atormentada.

Meg olhou para ela de perto, mas agora com simpatia. Ela perguntou em voz baixa, "Alguém te magoou e muito não foi?"

Kate olhou para ela, mas não houve necessidade de uma resposta. Elas ficaram sentadas, em silêncio durante um minuto.

Passado um bocado, Meg falou. "Sabes alguma coisa sobre Caribou?"

Kate olhou para ela embasbacada. A pergunta era completamente ao acaso, sem alguma ligação ao que elas falaram anteriormente.

"Renas…também lhe chamam renas," ajudou Meg.

"Desculpe?" disse ela, ainda baralhada. Naquele momento pensou, que talvez Meg não estivesse ali de corpo e alma. Ela parecia normal até aquele instante, mas isso foi antes dela ter trazido o assunto dos caribou á conversa.

"Eu conheço um sujeito, no Canadá. No território Yukon. Ele tem uma reserva. Só dele, mas o governo subsidia-a. Centenas de acres, no meio do nada."

Kate elevou ligeiramente as sobrancelhas, tentando fingir algum interesse. Ela ainda não fazia idéia do que aquilo quereria dizer.

"Ele é um desgraçado, mas é boa gente. É um daqueles hippies, do tipo faz amor não guerra. Sabes com é?"

"Acho que sim," respondeu Kate.

"Bem?" perguntou Meg, esperando algum tipo de resposta.

Kate continuou a olhar para ela, como se as palavras lhe faltassem.

"Já deves ter pensado que não podes ficar aqui para sempre."

Agora, tudo parecia começar a fazer sentido, e ela sabia onde é que Meg queria chegar. "Nós estávamos…a pensar no México. Eventualmente."

"México é um dos paises mais povoados do Mundo."

"E isso não é uma coisa boa? Para passar despercebido?"

Meg riu. "Acho que sim, á excepção de um pequeno pormenor. Tu não es Mexicana. E da ultima vez que eu vi, o James também não. Falas espanhol pelo menos?"

"Não," admitiu Kate, um pouco embarassada. Como é que isso nunca lhe tinha passado pela cabeça?

"Também me parecia. Para além disso, acho que passer despercebido não é a melhor opção para ti. És demasiado bonita para isso…se fosses feia, até podias ter uma hipótese. Mas com uma cara como essa, é fácil lembrar de ti. A tua melhor aposta é afastares-te de grandes multidões."

"É isso que estamos a fazer aqui."

"Querida, o Este do Tennessee até pode parecer o fim do mundo, mas eu garanto-te, que não é. Não o é suficientemente. E eu acho que tu também sabes isso."

Kate acentiu, olhando para a mesa, mas sem responder. Ela não queria pensar naquilo, naquele momento.

"Bem," disse Meg apercebendo-se da disposição de Kate. "Não te esqueças disso. Pode ser que um dia precises desta informação."

"Ok." Disse Kate grata, não só pela oferta, mas tambem por Meg não estar a fazer pressão no assunto agora.

Ela bebeu rapidamente o resto do seu café e levantou-se. "Não há nada como a combinação de cafeína com nicotina. Acho que já estou pronta para dirigir."

Kate também se levantou. "Eu tenho que tirar a tranca da porta. É…difícil." Ela tirou a chave do chaveiro e abriu a porta da cozinha. Mal Meg pisou a varanda, virou-se para Kate e olhou para ela de perto, novamente. "Mantem o queixo erguido, miúda. Podia ser pior. Tu podias ter-me tido como tua tia."

Kate sorriu. Meg descia os degraus quando Kate a chamou.

"Meg!"

Ela voltou-se, questionando-se.

"Obrigado."

"Pelo quê?"

"Por o tirar da água," disse Kate docemente.

Meg sorriu, um pouco triste. "Bem…ao menos alguém lhe dá valor." Ela voltou-se e continuou a andar, "Vejam se mantêm o maldito cão dentro de casa!"

Kate fechou a porta, sorrindo e trancando-a. Ela permaneceu durante um segundo na cozinha, pensando, e depois voltou para o andar de cima.

Subindo para a cama, ela ajoelhou-se perto de Sawyeer e abanou-o um bocadinho. "Acorda."

"Quê?" sussurrou ele, parecendo chateado e atordoado. "Que se passa?"

"Nada," sussurrou ela. "Eu só queria que acordasses."

Deitando-se ao seu lado, ela passou os braços em volta do pescoço dele, segurando-o o mais apertado que podia. Naquele momento, ela não sabia, se o estava a agarrar para protecção dele ou dela. Mas talvez, na realidade, não houvesse muita diferença entre eles.