Capítulo 23 – Traduzido por Ana
Ele não a viu logo que abriu os olhos, mas percebeu imediatamente que o quarto estava extraordinariamente claro. Ele então, levantou a cabeça do travesseiro e a localizou, sentada no assento da janela com as cortinas completamente puxadas.
Ela estava com a janela totalmente aberta e levemente inclinada para fora, com um olhar sonhador e distante nos olhos. Uma brisa fria de outono soprou e esvoaçou seus cabelos do rosto. Ele a observou, hipnotizado, se perguntando em que ela estaria pensando e nisso se apercebeu, com um toque de irritação, que ele não tinha absolutamente nenhuma idéia e muito provavelmente jamais teria. Ele suspirou levemente, e ela finalmente se virou em sua direção.
"Você acordou." disse ela.
"Bem observado," falou pachorrento. "Você se importa de me dizer porque está pendurada fora dessa maldita janela?" Enquanto falava isso, ele preguiçosamente empurrou as cobertas e se arrastou até chegar perto dela.
"Quando a gente estava lá fora ontem, eu reparei que as folhas estavam mudando de cor, mas não tive realmente uma chance de olhar. Esta é a minha época favorita do ano," explicou ela.
"É mesmo?" perguntou ele, se enfiando no espaço entre ela e o assento da janela e a puxando contra si.
"Ah-ham. E a sua?"
"Minha o quê?"
"Sua época favorita do ano."
"Eu não tenho."
"Todo mundo tem uma, Sawyer. Qual estação você mais espera?"
"Eu não sei," ele gemeu. Por que as mulheres sempre sentem a necessidade de perguntar bobagens como essas? Não podiam apenas aceitar o fato de que os caras não dão a mínima?
Ela ficou esperando, tentando forçar uma resposta.
"Inverno, eu acho," ele finalmente admitiu.
"Por quê?"
"Por que é frio e você tem que fazer coisas para se esquentar," disse ele malicioso. Ele enfileirou beijos de seu ombro até sua orelha, tentando fazê-la pensar em outra direção.
Não funcionou. "Olha o bordo lá longe," disse ela, apontando com a mão em direção do vale. "Não é lindo?"
"Mmm-hmm." ele murmurou, ainda a beijando.
"Você nem olhou!" disse ela acusadora.
Ele a ignorou.
"Sua tia foi embora no meio da noite."
Nesse instante ele parou de beijá-la e suspirou. Qualquer menção a Tia Meg era tiro e queda para afastar a mente dele do sexo.
"Como você sabe disso?"
"Por que eu estava lá em baixo quando ela foi embora. Não lembra de quando eu voltei e te acordei?"
"Yeah... o que diabo foi aquilo?"
"Eu não sei," disse ela suavemente. "Mas, você estava certo... podemos confiar nela. Estou contente por ter tido a chance de conversar com ela antes dela partir."
"E o que vocês tinham pra conversar?" perguntou Sawyer, parecendo incrédulo.
"Você, principalmente." Kate se virou ligeiramente e olhou para ele, sorrindo.
"Ótimo," ele retrucou, parecendo pouco contente. "O que ela disse?"
"Meus lábios estão selados," disse Kate, se virando e encostando nele.
"Nada de novo, aqui." ele murmurou sarcasticamente.
Ele sentiu ela ficar um pouco tensa e viu que tinha ficado magoada, mas não podia dizer que estava exatamente arrependido.
Após alguns segundos, ela disse quietamente, "Escute. Está ouvindo isso?"
A princípio, ele não ouviu nada, mas daí seus ouvidos começaram a pegar um grasnar distante e discordante.
"Gansos," ele contou a ela.
Ambos olharam para fora da janela para o alto das nuvens, enquanto um enorme bando passava bem alto, pequeninos Vs em preto contra o céu nublado. O som dos grasnados se elevando num crescendo.
Parecia
ser, pelo menos, vinte bandos reunidos em um, em seu caminho Sul para
o inverno, seguindo a trilha de seus ancestrais através do
corredor Appalachiano.
"Deve haver milhares deles,"
disse Kate num sopro.
Ele a sentiu estremecer levemente e intrigado, ao invés dos gansos, passou a observá-la. Havia alguma coisa em seu olhar fixo que o enervava profundamente, embora não pudesse determinar porquê. Ela observava o bando melancolicamente, e ao mesmo tempo, ele pensou, um pouco invejosa. Ele sentiu uma sombra atravessar-lhe o coração. Com uma vaga sensação de medo, ele enlaçou os dedos através dos dela e apertou sua mão fortemente, quase como se estivesse tentando trazê-la de volta de alguma coisa.
Distraída
por esse movimento, ela se virou para ele com um olhar interrogativo,
tentando ler sua expressão. Eles se miraram nos olhos por um
segundo.
Talvez sentindo seu temor indefinido, Kate se apoiou
nele e o beijou, se demorando em seu lábio inferior. Quando
ela se afastou, ele ergueu as mãos até os lados de seu
rosto, investigando seus traços, tentando determinar se o que
tinha visto havia sido real ou imaginário. Mas, fôsse lá
o que fôsse, se fôra. Ela parecia ela mesma de
novo.
Correndo os dedos levemente por sua testa até a linha do queixo, ele percebeu que nunca a havia visto com maquiagem. Ela não tivera nenhuma na ilha e não tinha aqui também. Será que ela usaria alguma vez, quando tinha acesso? De certo modo, ele esperava que não. Ela não precisava. Havia algo de incrivelmente erótico em seu naturalismo, o jeito como sempre parecia bonita sem qualquer esforço. Além disso, maquiagem iria cobrir suas sardas e ele não podia suportar pensar nisso.
Se cansando do escrutínio, Kate o beijou de novo, e daí, parou, abruptamente, perguntando com um sorriso travesso, "O que é isso?"
"O quê?" ele perguntou.
Ela abaixou suas mãos vagarosamente até o colo dele. "Você acordou com isso?"
"Eu não sei," ele disse brincalhão. "Não me lembro. Por que... tá interessada?" Se ela estava tentando distraí-lo, estava indo muito bem.
"Pode ser," disse ela, ainda sorrindo. Beijando-o, ela continuou com suas mãos se movendo nele num movimento gentil e furioso.
"Não devia começar nada que não queira terminar, doçura," ele sussurrou.
"Eu nem sonharia com isso," disse ela num tom inocente, puxando o elástico dos boxers dele.
Cerca de uma hora depois, eles foram finalmente incitados a sair do quarto por um latido impaciente e acusador na porta. Era a primeira vez que Gus se aventurava no andar de cima e ele parecia dizer que já tinha tido o suficiente deles se divertindo por aí. Ambos se sentiram um pouco culpados pelo fato de terem ficado tão envolvidos um pelo outro que haviam se esquecido completamente da existência do cachorro.
Para compensar, Kate passou a maior parte da manhã no chão brincando com o filhote, tentando recompensá-lo por sua falta de atenção. O céu continuava a escurecer e o termômetro continuava a cair. Ao meio-dia, a meteorologia previu uma tempestade forte com temperaturas, possivelmente, alcançando os quatro graus.
"Te disse que era uma idéia estúpida mandar consertar o maldito ar condicionado." disse Sawyer.
Ela virou os olhos e se recusou a responder.
Mais tarde, como experiência, ela tentou ligar o aquecedor só pra ver o que acontecia. Ela não ficou surpresa quando absolutamente nada aconteceu.
Entrando na cozinha, ela parou na porta com os braços cruzados, olhando para ele. Sawyer estava olhando a caixa de álbuns de disco mofados que Tia Meg tinha deixado, tentando decidir se iria jogá-los fora ou não. Olhando de relance para ela, perguntou enervado, "Que foi?"
Ela suspirou e fechou os olhos por um segundo. "Você vai ficar puto comigo por ter que falar nisso."
"Mas, acho que isso não vai te impedir, né?" distraído, ele pegou outro álbum, este de Wayne Newton. "Mas, o que diabo ela tava pensando?" ele resmungou, balançando a cabeça em desprezo.
"O seu aquecedor não está trabalhando." disse Kate. "Como você consegue viver aqui, Sawyer? O que é que você faz, acampa? Arma uma tenda na sala?"
Ele se virou para ela de novo, aborrecido. "Trabalhou bem no inverno passado. Na certa você não ligou direito."
"Eu virei o botão até 'LIGAR'" disse ela secamente. "Tem algum código secreto nele ou algo assim?"
"A luz piloto pode estar queimada. Pra que você quer ligado, afinal. Nem tá frio ainda."
"Não, mas vai ficar à noite. E vai esfriar cada vez mais daqui pra frente." Ela esperou. "Então, você pode checar a luz piloto?" ela perguntou impaciente.
Ele expirou
vagarosamente em irritação, mas estava envergonhado de
admitir, até para si mesmo, que começava a gostar dessa
discussão quase doméstica. Quando ela o chateava sobre
coisas desse tipo, o fazia se sentir de alguma forma útil...
como se ela precisasse dele. Ele sabia que ela era perfeitamente
capas de acender um fusível sozinha, mas ela queria que ele o
fizesse. Ele ficava estranhamente agradecido a ela por isso.
Depois
de acender o fusível, entretanto, ambos ficaram frustrados ao
descobrir que a maldita porcaria continuava sem funcionar.
Vestindo uma camisa de flanela, Sawyer se dirigiu para baixo.
"Aonde você vai?" perguntou Kate curiosamente, seguindo-o.
"Cortar alguma lenha."
"Para quê?"
"A lareira," disse ele, olhando como se ela fôsse uma idiota. "Na sala de estar. Você nunca reparou nela antes?"
"Eu reparei," disse ela defensivamente. "Só não pensei que você fôsse o tipo que realmente usasse uma lareira."
"Bom, parece que não temos muita escolha, né, Freckles?"
"Por que está zangado comigo? Está agindo como seu tivesse quebrado aquela coisa de propósito."
"Feche a porta quando eu sair," disse ele, a ignorando. "E fique aqui dentro."
Ele achou uma serra na cabana e a abasteceu, se deleitando com o peso dela em suas mãos. Ele quase nunca usava aquela coisa, mas toda vez que usava, ele se sentia bem segurando. Esta vez não foi exceção.
Achando uma deteriorada castanheira morta no caminho para o lago, ele começou a serrá-la em seções manejáveis, sem pressa, sentindo prazer no jeito que a serragem e as lascas de madeira voavam e perfumavam o ar, misturado ao cheiro de gasolina da serra. Era um cheiro áspero e masculino e ele ficou subitamente surpreso diante do que só podia descrever como uma pontada de saudade da ilha.
Lá na ilha, este tipo de tarefa (embora sem o auxílio da serra) tinha sido essencial para a existência. E embora não houvesse nada que ele quisesse mais do que voltar para a civilização, o mais rápido possível, parecia que parte dele não se incomodaria tanto com esse tipo de vida como ele pensava. Por outro lado... tomar conta de Kate estava se mostrando um esforço físico quase igual à vida na ilha, então, talvez as coisas não tivessem mudado tanto, afinal.
Ele levou o caminhão até o lugar onde serrara a madeira e empilhou na carroceria. Enquanto trabalhava, o estrondo baixo e distante de uma trovoada roncou pelo céu. Ele observou as carregadas nuvens azul-acinzentadas de outubro, e, pela segunda vez naquele dia, sentiu um inexplicável temor... do que, ele não tinha idéia. Ele gostava de tempestades. Não podia ter nada a ver com isso. Então, o que raios era aquilo?
Ele descarregou a madeira perto da varanda de trás e daí usou um machado para partir as toras redondas em pedaços menores para que pudessem caber dentro da lareira. A cada poucos segundos, quando se virava em direção à casa, ele notava a cortina se agitando suspeitosamente. Ele percebeu, divertido, que Kate o estava observando. Mesmo de lá, ela ficava, de alguma forma, atraída a uma exibição dele empenhado numa atividade física. Rindo discretamente, ele ficou se mostrando um pouco para ela, usando muito mais força do que era necessário para dividir a madeira seca em lenha.
Quando ele acabou, começou a empilhar os pedaços na varanda coberta, contra a parede do lado da casa, onde ficariam protegidas do tempo. Kate saiu para ajudar.
"Pensei que tinha te dito pra ficar lá dentro," disse ele, tentando parecer aborrecido.
"Vai começar a chover a qualquer segundo... nós precisamos arrumar isso antes que comece."
Ele não retrucou, já que a madeira estava bem próxima da casa e ela não precisava ir longe. Além disso, gostava quando ela se referia a eles como "nós". Eles trabalharam sem falar, empilhando apertado as toras numa pilha próxima à porta da cozinha. Ele a observou, admirando o jeito que ela levantava mais do que podia manejar só para provar que podia fazer. Inconscientemente, eles entraram numa espécie de corrida, ambos empilhando em lados opostos e correndo para ver quem conseguiria empilhar mais alto antes que a lenha desabasse. Estavam quase empatados, o que eles não perceberam, já que nem mesmo tinham percebido que estavam competindo para começar.
Quase como uma deixa, a chuva começou justo quando eles tinham acabado de empilhar as últimas braçadas. Eles ficaram parados, observando a chuva por um segundo, Kate inspirando profundamente a estimulante rajada gelada que o vento havia trazido.
"A cor do céu faz as folhas parecerem ainda mais brilhantes," disse ela, quase como se falasse para si mesma.
Sawyer pegou um pouco da lenha cortada e ficou segurando a porta aberta. "Melhor entrar," disse ele prevenindo.
Arrancando o olhar do jardim, ela se virou para ele, sorrindo um pouco tristemente. "Eu sei."
Ela o seguiu e ele a mandou amassar alguns jornais. Estufando-os dentro da lareira, ele colocou a lenha por cima e riscou um fósforo. "Até aqui, tudo bem," disse ele.
O
papel pegou fogo e logo passou para a lenha. Um agradável
crepitar se fez ouvir. Sawyer ficou observando
orgulhosamente.
Entretanto, após alguns segundos, Kate
perguntou, "A fumaça devia entrar na sala desse jeito?"
"Vai
melhorar," disse ele, parecendo preocupado. "É só
esperar uns minutos."
Mas, a fumaça continuava a se
espalhar dentro da sala; rolos escuros e acres de fumaça
começaram a escurecer tudo.
Kate tossiu, tampando a boca com a mão. "Eu acho que isso não é pra ser assim, Sawyer! Quanto tempo faz que você limpou a chaminé?"
"O quê?" perguntou ele, olhando como se ela estivesse louca. "E quem diabos eu ia arrumar pra fazer isso?"
"Eu sei lá! Um limpador de chaminé, talvez?" Ela apanhou um cobertor e começou a abaná-lo no ar, tentando abrir um espaço para respirar.
"Um
limpador de chaminé? Amorzinho, a menos que você
tenha um contato com Mary Poppins, acho que bem difícil
arrumar algum em pleno século 21!"
"Bem, alguém
ainda deve fazer isso!" disse ela exasperada. Ela puxou as
cortinas, abrindo totalmente as janelas. "Você vai ter que
apagar o fogo... Vai pegar algum sal!"
Aborrecido, ele sabia que ela estava certa. Foi até a cozinha e voltou com um saco de sal. Felizmente, havia sal suficiente para extinguir as chamas ainda magras. Depois que a fumaça se desvaneceu, sugada pelas janelas abertas, ele enfiou a cabeça dentro da chaminé, e com uma lanterna dirigida para a escuridão, prescrutou o cano da chaminé.
"O que está fazendo?" perguntou Kate enfadada.
"Ninho de passarinho," disse ele, descobrindo o problema. "E é grande como uma maldita pizza. Isso que está bloqueando a fumaça. Me arranja uma vassoura," disse ele, esticando o pescoço para olhar para ela.
Suspirando, ela trouxe uma da despensa.
Segurando a lanterna com sua mão esquerda, ele levantou a vassoura desajeitadamente com sua direita e começou a empurrar em torno, elevando a vassoura o mais alto que conseguia alcançar.
Kate quase prendeu a respiração, cerrando os punhos apreensivamente. Deslocando o ninho com a vassoura, ele conseguiu descê-lo vagarosamente até baixá-lo ao lado dele. "Tá vendo?" perguntou ele, olhando para aquele longamente abandonado feixe petrificado de gravetos e palha. Kate soltou a respiração, aliviada.
Subitamente, com
um sonoro whoosh, uma verdadeira torrente de fuligem e cinzas
desceu chaminé abaixo, aparentemente deslocada pela passagem
do ninho.
"Filho-da-mãe!" gritou Sawyer,
arrancando a parte superior de seu corpo para fora da chaminé.
Mas, era tarde demais. Sua cabeça, pescoço, ombros e
peito estavam quase completamente enegrecidos. Se levantando, ele
cuspiu a cinza da boca e limpou os olhos num acesso de raiva.
Kate
ficou completamente silenciosa, sua mão congelada na frente da
boca, sem se mover.
Ele olhou para ela. "Você acha isso
engraçado?"
"Não," disse ela, muito
cuidadosamente. Ela tentou evitar olhar diretamente para ele.
"Uma
ova que não."
Ela praticamente parecia que estava sofrendo. "Você devia ir tomar um banho," ela sussurrou.
"Tá, brigado pelo conselho," disse ele encolerizado. "Por que não me faz um favor e tenta rir tudo que tem para rir até eu voltar, tá bem?"
Ela mordeu o lábio com força e continuou sem olhar para ele. Sawyer subiu as escadas num jeito pesado e zangado e ela escutou ele bater com a porta do banheiro.
Se
jogando no sofá, ela enterrou a cara na almofada e deixou a
histeria tomar conta, rindo até perder o fôlego.
Gus
se aproximou numa corridinha, deu uma olhada nela, se alarmou e foi
embora de novo.
Quando Sawyer desceu, ela parecia de alguma forma arrependida e culpada. Seu rosto ainda estava vermelho e seus olhos brilhavam, mas ele pôde perceber que ela estava se sentindo mal. Em sua ausência, ela tinha jogado fora o ninho de passarinho e limpado a sujeira que ele tinha feito no chão, e até mesmo conseguido reacender o fogo. Tremulava alegremente agora, a fumaça desaparecendo devidamente pela chaminé.
Ela se levantou e o beijou, à guisa de desculpa. "Obrigada," disse ela suavemente.
"Pelo que?" perguntou ele, ainda mal-humorado.
"Pelo fogo. Já está mais aquecido."
"Ainda bem," ele murmurou. "Tá vendo isso?" Ele levantou a mão, palma para cima, para que ela inspecionasse.
Ela olhou, mas não viu nada. "O que é para eu olhar?"
"É uma farpa," ele replicou, ofendido.
"Ah," disse ela, ainda sem ver, mas fingindo que tinha visto. "Você tem uma agulha em algum lugar?"
"Não sei. Duvido."
"Nessa casa inteira, você não tem uma simples agulha?"
Ele pensou por um segundo, aborrecido por ter falado nisso. "O quarto em que você estava... costumava ser o quarto de costura da minha avó. Pode ter uma lá."
"Vou pegar," disse ela rapidamente.
"Não, você não sabe onde procurar. Acho que sei onde pode estar, se tiver."
Ela o seguiu nervosamente com os olhos enquanto ele subia as escadas.
Ele entrou no quarto e acendeu a luz, indo para o outro lado da cama e abrindo a gaveta do criado-mudo. Se ele se lembrava bem, havia uma alfineteira ali dentro. Onde haviam alfinetes, tinha que haver agulhas. Pelo menos, isso calculava.
Ele viu a alfineteira imediatamente e a puxou, mas seus olhos foram atraídos por uma outra coisa. Um lenço volumoso, estufado como uma trouxa. Quando ele afastou para o lado, pareceu pesado.
Curioso, ele o pegou e desembrulhou o pano, espalhando na cama. Surpreso pelo que viu, a princípio ele não conseguiu entender como aquilo tinha ido parar ali, de todos os lugares. Ele sabia que aquilo nunca estivera nesse aposento antes - tinha, mais provavelmente, ficado no sótão. Nisso, em meio uma nauseante onda de desapontamento, tudo ficou claro. Kate.
Ele olhou para as peças, mal conseguindo realmente vê-las agora. Os brincos de diamante de sua avó. Seu broche de camafeu. Algumas outras jóias pequenas que ele não reconheceu imediatamente, mas que ele podia perceber, só dando uma olhada, que eram extremamente valiosas. Mas, o que mais chamava e prendia sua atenção, praticamente obscurecendo sua visão pelo peso da traição e da ira que o arrastava, era um pequeno, quase insignificante, anel de ouro. A aliança de casamento de sua mãe.
Seus pensamentos eram uma tal redemoinho de confusão que ele nem mesmo tentava formular alguma coisa coerente. As perguntas estavam todas lá - Há quanto tempo ela tinha feito isso? Por que? Estaria planejando ir embora ou era apenas uma precaução? Como ela pudera fazer isso com ele, quando sabia que ele podia supri-la com dinheiro? - mas ele não fez esforço para respondê-las. Ainda não. Ele apenas ficou sentado lá, enojado.
"Achou alguma?" ele a escutou perguntar no vão da porta, sua voz soando dura e pouco natural.
Ou talvez ele apenas estivesse imaginando isso.
Se virando, ele moveu o braço de forma que ela pudesse claramente ver o que ele tinha encontrado.
Ela empalideceu quase imediatamente. Ele a observou atentamente, odiando com cada fibra do seu ser aquele olhar fechado, acuado, defensivo que ela imediatamente assumiu. Do mesmo jeito que ela olhara quando ele a acusara de tentar tomar seu lugar na jangada. Significava que ela iria lutar e que não tinha a intenção de admitir que estava errada.
Ele se levantou com exagerada lentidão.
Eles se encararam através do quarto, silenciosamente.
