Capitulo 24 – Traduzido por Nicilion

Eles ficaram lá a olhar um para o outro durante o que pareceu 5 minutos, mas o que na realidade, não deve ter sido por mais do que uns segundos. O único som era o da chuva monótona de final de tarde a bater na janela. Sawyer tentou manter a sua respiração controlada, á espera que ela falasse primeiro.

Finalmente, ela falou.

"Tu queres que eu tente me explicar, ou queres ficar a gritar pa aí?" perguntou ela num tom de voz cansado.

Ele olhou para ela, como se não conseguisse acreditar que ela tenha escolhido começar com aquela frase.

"Eu não sei se te podes dar ao luxo de sarcasmos neste momento, querida. Por isso, porque é que não fazes um favor a ti mesma e começa a falar. De onde veio isto?"

Havia uma pontada perigosa na voz dele.

"Tu sabes de onde veio," disse ela tranqüilamente. "Isso veio do sotão."

"Quando?"perguntou ele, cerrando os dentes.

"Alguns dias depois que eu cá cheguei."

Lá no fundo ele sentiu uma pontada de alivio. Pelo menos aquilo não tinha sido algo que ela tivesse feito recentemente. É certo que não mudava o facto de que ela o tinha tirado, mas pelo menos tornava tudo aquilo um bocadinho mais tolerável.

"Porque?" perguntou ele, um bocadinho mais calmo, mas ainda chatedo. "Planeavas fugir com ele?"

"Não," disse ela, na defensiva. "Eu não sou uma ladra, Sawyer." A não ser que contes com assaltos a bancos, pensou ela, mas sem o dizer em voz alta.

Ele esperou que ela continuasse com alguma explicação.

Ela suspirou profundamente e olhou para o chão. "Na altura…eu não sabia o quão perto eles podiam estar. Eu sabia que eles não me seguiram até aqui, mas havia sempre a hipótese – e ainda há – de eles seguirem o meu rato. Eu não sei quando é que vou ter que fugir daqui. E junto com o facto de tu não me quereres aqui…"
Ela olhou para ele, com a esperança de que ele completasse a frase e que a desencostasse da parede, mas ele ainda estava á espera do resto. Ela continuou.
"Eu não tinha dinheiro. Eu não tinha nada com que me sustentar…eu tentei pensar no que tinha de fazer se tivesse de sair…e eu não me consegui lembrar de mais nada. Eu pensei que conseguiria arranjar dinheiro suficiente com aquelas coisas, para durar algumas semanas. Mas eu teria te pago tudo," ela disse afincadamente. "Cada cêntimo…assim que pudesse."

"Achas que eu não te teria dado dinheiro?"

"Eu sei que davas. Tu deste, lembras-te? Mas eu não queria que tivesses de o fazer. A razão pela qual eu tirei as jóias, foi que eu sabia que tu nunca sentirias falta delas. Tu mesmo o disseste lá em cima."

"E eu também acho que te disse para te manteres afastada delas."

Ela fechou os olhos por um instante. "Sim, bem, eu não as levei, não foi? Na noite em que eu fugi, eu tive-as na minha mão, pronta para ir…e não consegui leva-las. Eu pulas aqui e nunca mais lhes toquei. Eu simplesmente…esqueci-me de as arrumar onde elas estavam." Disse ela, parecendo na ultima parte, quase casual, como se ela lhe estivesse a dizer que tinha se esquecido de desligar a maquina do café.

"E é isso tudo o que tens para dizer?" Ele continuou a olhar para ela intensamente.
"Que mais queres que diga? Eu acabei de explicar o que aconteceu. Que mais queres, Sawyer?" Agora ela estava a começar a sentir-se irritada.

"Eu não seu," disse ele amargamente. "Acho que eu nunca devia ter esperado nada mais vindo de ti."

"Que raios quer isso dizer?"

Ele olhou para baixo, para onde estavam as jóias. "Tu por acaso sabes de quem eram essas jóias?"

Ela tentou evitar revirar os olhos. "Sabes bem que não. Por que é que te das ao trabalho de perguntar?"

"Que tal esta?" continuou ele, calmamente, perigosamente. Ele levantou um anel e estendeu-o para que ela pudesse olhar bem para ele.

Ela cruzou os braços, sem responder, sabendo que naquela altura ele não estava á espera de uma resposta. Ela esperou.

"Isto era a aliança da minha mãe," disse ele, no mesmo tom de voz. "Quanto achas que valerá?" Ele atirou o anel ao ar para depois o apanhar, olhando para ele quase experimentalmente. "Quanto achas que conseguirias obter com ele? Suficiente para ficares num motel barato por alguns dias? Talvez para comprar um bilhete de autocarro…que te levasse até outra paragem, enquanto tu pensavas quem roubarias da próxima vez? Quantas milhas achas que conseguias percorrer com o anel de casamento da minha mãe?" Ele olhou para ela quase letalmente.

Ela manteve o contacto visual, começando a sentir-se zangada com ela mesma.

"Sabes, eu nunca pensei que a aliança dela significasse tanto para ti…considerando o que o teu pai lhe fez."

Quase imediatamente, ela arrependeu-se do que disse. Mas as palavras já tinham saído da boca dela. Num segundo ele tinha atravessado o quarto e elevado a mão a apenas alguns milímetros da cara dela. Ela tremeu, mas fez um esforço para não se mexer. Ele dobrou-se na direcção dela, a cara dele estava tão perto que ela conseguia sentir a sua respiração. Ela fechou os olhos e engoliu em seco, mantendo-se imóvel.

Num murmúrio furioso, ele disse, "Nunca mais menciones os meus pais outra vez. Tu não sabes nada sobre eles. Percebeste?"

Agora ela abriu os olhos, lentamente, e olhou directamente para ele. Num tom calmo, ela disse, "Queres bater-me, Sawyer? Então vá, bate-me. Não te vinges na parede."

Ele removeu a mão e endireitou-se, afastando-se um pouco dela. Ele olhou para ela, incrédulo, espantado.

Ele respondeu num tom de voz desdenhoso, "Ias gostar disso, não ias? Aí poderias virar isto para mim…tirando a atenção do que isto é realmente sobre." Ele abanou a cabeça, quase rindo. "Nah. Desculpa, Sardenta. Desta vez, isto é sobre ti."

Eles mantiveram-se calados durante uns segundos, olhando um para o outro cautelosamente.

Finalmente, Kate levantou a mão, cobrindo os olhos, como se estivesse a esconder as lagrimas. Quando ela a baixou, os seus olhos estavam secos, mas era claro que algo tinha mudado. Ela já não parecia chateada, pelo contrário, parecia arrependida.

"Desculpa," ela quase murmurou. "É disso que estás á espera? Eu estou arrependida, Sawyer," disse ela. "Isso aconteceu logo após a minha chegada aqui…antes…antes disto, connosco…" Ela apontou para todo o quarto, como se uma explicação para o que existia entre eles estivesse ali algures.

Olhando novamente para ele, a sua expressão tornou-se defensive. "Tu sabes que eu nunca faria nada como isso agora, com a maneira em como as coisas vão entre nós. É tudo diferente…eu nem consideraria-o."

Ele continuou a olhar para ela, o rosto dele endureceu.

"Tu sabes disso, não é verdade?" perguntou ela, com as lágrimas a brotar.
"Tudo o que sei é que tu és uma optima actriz. Por isso, talvez deva parar de fingir que sei algo sobre ti."

Ela expirou pesarosamente, parecendo que ele lhe tinha realmente batido. As palavras dele eram mais dolorosas do que qualquer dor física.

"Como podes dizer isso?"

"Acho que não me devia sentir mal,"continuou ele, quase para ele mesmo. "Fogo, provavelmente nem fui o único, fui? Talvez só seja mais um…provavelmente fazes isto muitas vezes, certo? Procuras algum desgraçado, fazes com que ele se apaixone por ti, e depois usa-lo até decidires quando chegou a altura de ires?"
Ele apercebeu-se qie tinha falado demais. Era a única palavra – amor – que nenhum ainda tinha mencionado. Certamente que ele não pretendia menciona-lá daquela maneira. Por um segundo, ele desejou que ela não a tivesse ouvido no meio do insulto, mas ele sabia que tal não acontecera. Nada lhe escapava.
Ela olhou tristemente para ele, mas com uma questão no olhar, ela queria que ele confirmasse o que ela tinha ouvido.

"Sim," disse ele amargamenter. "Acho que o meu segredo foi revelado. Como se tu não o soubesses."

"Sawyer," disse ela gentilmente, querendo responder, mas sabendo que aquele não era o momento apropriado para aquele assunto.

Olhando para a cama, ela disse, "Porque é que estás a fazer isto?" As jóias estão mesmo aqui…eu não as roubei, e eu não fugi. Nem sequer estou a pensar nisso! Por isso podemos para com isto…por favor?"

"Acho que não," disse ele claramente magoado. "Não desta vez."

"Porque?" ela estava genuinamente confusa.

"Porque isto não tem nada haver com as joias, querida. Para dizer a verdade, eu nem me importo de nunca mais as ver."

"Então isto tem haver com que?"

Ele parecia estar a pensar por um segundo. "Tem haver com o facto de que eu me apercebi que estou a viver com uma estranha."

Magoada, ela desviou o olhar dele. "Acreditas mesmo nisso?"

"Vais negá-lo?" perguntou ele bruscamente.

Ela não disse nada, continuando a recusar olhar para ele.

"Tu sabes que eu já tive muitos casos de uma só noite…não vou mentir sobre isso. Maior parte deles não foram nada mais que lixo. Acho que sempre pensei que assim que encontrasse alguém que mexe-se comigo, tudo seria diferente. Que eu saberia quem era a pessoa com quem eu dormia, pelo menos por uma vez." Ele abanou a cabeça. "Devia saber que nunca teria nada disso contigo."

"Por favor, para."

Ela limpou uma lágrima, e depois olhou para ele. Embora a sua voz tremesse, ela continuou. "Tu disses-te noutra noite…nos meus anos…que tu terias o que pudesses ter. Lembras-te disso? Ou isso não significa nada para ti?"

"Foste tu que disseste isso, não eu."

"Mas tu concordas-te, certo?"

"Sim."

"Então…o que? Isso já não serve?"

Ele parecia em sofrimento. "Acho que não," disse ele verdadeiramente.

Ela acentiu levemente e fez um esforço para parar de chorar. "Então…é isto?

Assim? Depois de tudo o que passamos, é a isto que se resume?"

"Isso é contigo." Ele engoliu em seco.

Eles olharam um para o outro.

Quando ela não disse nada, ele quebrou o olhar, parecendo desapontado com ela. Passando por ela, ele dirigiu-se devagar para a porta.

"Eu vou estar na balcão se te apetecer falar. Se não…" Ele parou, parecendo torturado, mas forçando as palavras a sair. "Então talvez esteja na altura de fazeres novos planos."

Ela fechou os olhos novamente, sentindo-se como se alguém lhe estivesse a bater. Ouvir ele dizer aquelas palavras naquele momento, quando ela dependia tanto dele, era mais do que ela podia suportar.

Na porta, ele parou, virando a cabeça lentamente, na direcção dela. Numa voz cansada ele falou. "Eu não consigo fazer mais isto, Kate. Eu não sei quem tu és." Ele encontrou os olhos dela mais uma vez, depois virou-se e saiu do quarto.

Ele manteve-se lá sem se mexer nem por um segundo, ouvindo ele a descer as escadas.

Ela tinha agora uma decisão para tomar, e era uma das mais dificeis que ela já alguma vez tivera que fazer. Ela podia dizer-lhe qualquer coisa, ou podia ir-se embora…e manter o seu passado selado, privado, para ela mesma…como sempre fora. Ela sabia que não era justo da parte dele pedir-lhe para escolher desta forma. Ele não fora capaz de deixar a sua busca para trás quando ela lhe pedira há algumas noites atrás, por isso ele não tinha o direito de lhe pedir algo tão importante para ela. Mas fosse como fosse, as opções eram claras. Era aceitar ou largar.

Sentindo os joelhos incapazes de agüentar o peso do corpo dela por mais tempo, ela caminhou e afundou-se na beira da cama. Encostando a cabeça nas mãos, ela tentou decidir-se.