Capitulo 26 - Parte 1 – Traduzido por Enia & Cristianepf

A primeira coisa de que Sawyer se apercebeu na manhã seguinte, foi de que algo lhe estava a lamber a cara. Embrenhado no sono, ele teve a absurda noção de que era Kate, e ele estavam mais do que surpreso com isso. O que é que lhe deu? Ela perdeu o juizo? Enquanto ele ia fazendo um esforço para acordar completamente, foi-se apercebendo do que se passava, claro que não era a Kate…era o Gus. Ele afastou-o gentilmente, e o cachorrinho, aparentemente satisfeito com o seu feito, dirigiu-se para um quanto para morder um dos seus brinquedos.

Sawyer espreguiçou-se um pouco, as suas costas doiam de ter dormido no chão. Apesar de eles terem feito uma pilha com cobertores, aquele fora um mau substituto de um colchão. Até a areia da praia na ilha era mais confortável que aquilo. Mas ele não estava arrependido. Teria sido muito mais frio lá em cima, e além do mais, ele teria de carregar a Kate.

Ele olhou para ela, a cara dela estava a milímetros da dele. Eles estavam deitados lado a lado, virados um para o outro, mas a Kate ainda dormia. Mesmo no sono, ela parecia triste e de certa forma derrotada, Olhando para ela, na fraca luz da manhã que entrava pela brecha das portas e janelas, era difícil de acreditar que a história dela da noite passada poderia ter alguma base na realidade. Aquilo parecia mais uma criação do cérebro febril e estressado dele, do que algo que poderia ter realmente acontecido. Mas ele sabia que aquele era apenas um pensamento irrealista. Ele não tinha imaginado tudo aquilo, e cada palavra dela correspondia a realidade. O horror era real demais, e não havia forma de escapar dele.

Sabendo o que ele sabia sobre o passado dela, fez com que todos os antigos instintos protectivos, se tornassem ainda mais fortes, ao ponto de as suas preocupações passadas parecerem nada comparadas com as presentes. Ele sabia, com uma certa certeza primordial, que ele morreria antes de deixar que alguém a magoasse novamente. Aquela sensação não precisava de análise ou de ser racionalizada, ela estava simplesmente ali, a consumi-lo quando ele olhava para ela, como se a sensação existisse desde sempre e só agora é que ele se tinha apercebido.

Mas havia algo de novo nele nesta manhã, um tipo de medo, cohabitando com os mais nobres impulsos. Era tão vago e indefinido que ele não seria capaz de o descrever, mas este consistia na ideia de que ela iria eventualmente precisar de protecção contra, não alguém de fora, mas sim dele mesmo. Provavelmente não a nível físico…apesar do seu temperamento violento, ele duvidava que algum dia perdesse o controlo ao ponto de lhe bater. Mas talvez talvez ela tivesse de ser protegida dele a um ponto mais significativo – emocionalmente. A memoria de todas as coisas más que ele já lhe tinha dito passaram como um flash pela sua mente, e o que era pior, ele sabia que algo do género voltaria a acontecer. Ele pelo menos conhecia-se bem demais para compreender que as suas tendências fundamentais nunca se iriam alterar.

Para não mencionar no facto de que nada no seu passado dava alguma indicação de que esse tipo de coisas não voltariam a acontecer. A sua vida estava tão lixada e as suas acções anteriores só foram egoistas e desnorteadas, ao ponto de ele mal poder tomar conta de si mesmo…como conseguiria ele tomar conta de mais alguém? O que raio, fe-la acreditar que podia depositar a sua fé nele? Pensou ele. Terá sido devido a algum impulso auto-destruitivo, escondido no seu subconsciente? Ou ela ainda não o conhecia bem o suficiente? Ele estava a começar a sentir um pânico crescente.

Mas quando ela finalmente abriu os olhos e olhou para ele com um olhar limpido e cheio de confiança, todas as suas duvidas desapareceram, pelo menos por agora.
"Hey," disse ele gentilmente.

"B'Dia," respondeu ele.

Eles olharam um para o outro durante uns segundos.

"Desculpa pelo pesadelo," disse Kate.

"Yah, bem, tu não me deste uma cotovelada desta vez, por isso acho que me escapei facilmente." Ele sorriu um pouco para ela.

Ela tentou retribuir o sorriso, mas sem sucesso. "Ele provavelmente vai voltar novamente esta noite. Só para te avisar."

"Eu vou ficar a espera para o escorraçar quando ele vier." Ele acariciou uma madeixa do cabelo dela e po-la cuidadosamente atrás da orelha. Depois envergonhado com o gesto, tirou a mão abruptamente.

O momento pareceu desbloquear alguma tensão entre eles. Kate levantou-se um bocadinho, inclinou-se e beijou-o. Aquele foi um beijo doce, calmo – sem alguma pressa em ser terminado. Eles permitiram que os seus lábios se movessem sobre o outro, como se estes estivessem a explorar novo território. E de certa forma, parecia que aquele era mesmo um novo território. Tudo parecia diferente agora.

Ela finalmente parou o beijo, com um profundo expiro, pousando a sua cabeça no peito dele.

"Não te preocupes," disse ela. "Eu não vou chorar outra vez."

"Eu não estava preocupado," respondeu ele. Bem, talvez ele estivesse um bocadinho, mas ele não quis que ela pensasse isso.

Eles permaneceram quietos por um minuto ou dois, até que foram perturbados pelo som de água a cair. Eles olharam em volta, confusos, pensando que o telhado estava a verter, mas ambos repararam na mesma coisa ao mesmo tempo. O cão. Depois de ter acabado, ele afastou-se da poça como se nada tivesse acontecido.
Sawyer declarou, irritado. "Está na altura de construir a porcaria da casota."
"Eu vou limpar aquilo," afirmou Kate.

"Não, fica aqui," disse ele, sentando-se. "Eu limpo. Tenho que acender a fogueira novamente…está frio aqui."

Ela olhou para ele, surpreendida mas agradecida. "Eu vou fazer algum café, então."

"Eu faço enquanto estou de pé…limita-te a ficar aqui" repetiu ele.

"Não tens de me tratar como se eu fosse invalida. Eu estou bem," disse ela num tom gentil.

Ele olhou-a como se não acreditasse nela. Como podia ela estar bem? Desde que ouvira a historia dela, na noite anterior, era difícil de esquecer que ela vivera aquilo durante anos. Apesar de não fazer sentido, até para ela, ele sentia que aquela situação era tão nova para ela como para ele.

"Além disso, " continuou ela, sorrindo para ele simpaticamente. "Tu fazes o pior café que eu já bebi na minha vida."

Antes que ele pudesse responder, como ele já estava claramente pronto para o fazer, ela beijou-o novamente. Ele aceitou de bom grado a distracção.

Terminando o beijo, eles olharam um para o outro de uma forma tão profunda que falava por volumes sem proferir uma unica palavra. Pela primeira vez, Sawyer sabia tudo sobre ele. Ele já não olhava mais para os olhos de uma estranha.

Aquela sensação era, ao mesmo tempo, emocionante e petrificante.

"Obrigado." Murmurou Kate, quase inaudivelmente. Ele não tinha de perguntar o que ela queria dizer com aquilo.

Ela virou-se e dirigiu-se para a cozinha. Sawyer era incapaz de parar de olhar para ela, só o fez quando ela desapareceu de vista.

-------------------------------------------------------------------------------------------

Foi-se tornando claro, com o passar dos dias, de que ela não dissera a verdade inteira. Ela nunca mais chorou; ela estava certa sobre essa parte. Mas era obvio que ela não era ela mesma. De alguma forma, era comparável á recuperação de uma doença. Ela parecia incapaz de se aquecer, independentemente do número de roupa que tivesse vestido ou quão perto da fogueira ela estivesse. Ela também sentia falta de energia. Quando o condutor da UPS bateu á porta para entregar a encomenda da roupa, ela ficou tão afectada pelo choque, que nem teve interesse em abrir a caixa depois de este ter saído. Foi Sawyer quem o fez, e ela olhava distraidamente enquanto ele as tirava para for a, cada peça por sua vez, tentando espicaçá-la. (Ele ameaçou vestir as roupas, se isso a fizesse animar, o que pelo menos arrancou um sorriso da parte dela.)

Ela dormia muito, e o pesadelo voltava – inicialmente ele vinha regularmente, depois só esporadicamente. Sawyer aprendeu a reconhecer os primeiros sinais dele, de modo a poder acordá-la antes da pior parte começar, para alivio dela. O que o surpreendeu, foi que devido á situação, o pesadelo dele deixou de aparecer. Talvez, porque ele estava demasiado preocupado com ela para se preocupar com os seus problemas.

Apesar dela não ter muita vontade de falar, ela também não queria estar sozinha. Ela ficava ao pé do Sawyer sempre que podia, sentindo conforto só com a sua presença. Inicialmente, isto enervava-o, mas depois acostumou-se á sua presença – era assim que as coisas eram agora. Quando ele teve que ir á cidade para comprar mercearia, ele apressou.se ao máximo, pois não a queria deixar sozinha, mesmo que aquela tivesse sido a rotina deles durante imenso tempo, desde que ela chegara para ficar com ele, e ele, nunca antes se incomodara em deixa-la sozinha.

Sawyer também estava nervoso quanto à se aproximar dela para sexo, especialmente a princípio. Ele não sabia se ela ia querer, e ele realmente não queria forçá-la. Mas mais do que isso, ele estava perturbado com a história dela de tal forma que nem tinha certeza se ele conseguiria se concentrar. Como eles poderiam voltar a transar de novo sem que aquelas imagens horríveis voltassem para atormentá-lo? Com o tempo, pensou, Kate ficaria impaciente com a espera, e ela avisaria, sem dúvida, que ele não precisava se afastar. Aproximando-se dele enquanto ele tirava uma soneca no sofá, ela deixou bem claro que ao menos esse aspecto do relacionamento deles podia seguir como de costume. Ao invés de associar com qualquer coisa trágica do seu passado, ela parecia usar isso como uma forma de conforto. Tudo estava voltando ao lugar, no mesmo ritmo íntimo e complexo que eles estavam acostumados, e o alívio de Sawyer era palpável.

O passado de Kate não foi conversado novamente, e nem mesmo mencionado indiretamente. Nem suas respectivas revelações envolvendo a mais enigmática das palavras – amor. Não era necessário. Eles não eram o tipo de pessoa que fala sobre isso, e muito menos das que costumam demonstrar seus sentimentos. Eles não tinham interesse em reavivar coisas que já tinham sido resolvidas, ou repetir palavras que já tinham sido ditas. A conexão deles era forte a ponto de que, quando algo fosse lançado no espaço entre eles, continuava lá, seguro no mesmo lugar por uma força magnética que os matinha juntos. Eles dois saberem a verdade já era o suficiente.

Depois de quase uma semana de delonga, Sawyer finalmente decidiu seguir o plano original e construir uma casa de cachorro. Estar sempre dentro de casa estava começando a sufocá-lo mesmo. Era como se as paredes estivessem se fechando em volta dele. Ele não culpava Kate. É que ele nunca havia sido do tipo caseiro, e a monotonia estava começando a fazer com que ele perdesse a cabeça. Talvez uma tarde com um pouco de esforço físico fosse o que ele estivesse precisando para relembrar dos benefícios do ócio.

Então ele juntou madeira suficiente e colocou tudo dentro do galpão, pois o céu estava um tanto feio e era possível que pudesse chover de novo. Kate estava lendo um livro da estante da sala quando ele informou à ela sobre seus planos, e ela pareceu despreocupada, então ele não se sentiu culpado por passar algumas horas longe dela.

Apesar dele não ter idéia do que estava fazendo, e de nunca ter feito nada como isso na vida antes, ele estava certo que não podia ser tão difícil. Afinal de contas, ele tinha ajudado a construir uma jangada que conseguiu agüentar nas águas perigosas do Pacífico, não tinha? Tudo bem, Michael e Jin tinham feito a maior parte do trabalho, mas ele tinha feito um pouco. Uns podiam dizer que havia sido questão de vida ou morte. Essa era apenas uma simples casinha de cachorros... não ia ser uma barbada?

Seu primeiro erro foi não levar em conta que o cachorro ia crescer. Ele tinha trabalho satisfeito por um pouco mais de uma hora quando se deu conta de que estava construindo algo muito pequeno. O cachorro era pequeno agora, claro, mas era um maldito pastor alemão... eles ficam enormes. O que ele havia construído até agora não abrigaria nem metade de um cão adulto. Por alguns segundos ele ficou tão irritado pela estupidez de seu erro que nem podia achar palavras para xingar à si próprio.
Então, resmungando grosseiramente, ele adicionou um martelo ao trabalho que ele já havia feito, batendo e quebrando a coisa toda até que não fosse nada além de só um monte de madeira de novo.

Determinado a ter alguma coisa terminada ainda hoje, para que tempo que ele já tinha perdido não fosse em vão, ele recomeçou. Antes mesmo de colocar juntar duas taboas, ele se deu conta de que não havia madeira suficiente para terminar a maldita casinha. Qual era mesmo a razão dele estar fazendo isso mesmo? Ele estava tão possesso que considerou fazer aquele martelo voar pelo galpão.

Por sorte, é claro, esse foi o exato momento em que Kate resolveu aparecer.

Já que ele estava de costas para a porta, ele a ouviu antes de vê-la.
"Isso é o mais longe que você conseguiu chegar, em todo esse tempo? "

Ele se virou lentamente, tentando conter o temperamento.

"É muito mais longe do que parece."

"Dá pra notar," ela disse em um tom levemente divertido, com os braços cruzados na frente do corpo. Ela deu mais alguns passos para dentro do lugar e olhou em volta, curiosamente.
"Você não devia estar aqui fora, " ele disse.

"Aqui é tão perigoso quanto dentro da casa. Tem quatro paredes e um teto, não tem? "

"É, bem, eu estou ocupado." Ele olhou para ela de cara fechada. "Você tem que me seguir em todo lugar?"

Ela olhou para ele, e então rapidamente desviou, parecendo magoada e embaraçada. O remorso de Sawyer foi tão instantâneo que o abateu logo depois das palavras terem saído de sua boca.

Virando-se em direção à porta, ela começou a ir embora, lentamente, tentando não demonstrar nenhuma emoção. Quando ela atingiu a porta, ele a chamou.

"Espere. "

Ela virou para ele, com uma pergunta no olhar.

Ele suspirou pesadamente, olhando para o chão. No que parecia ser quase um esforço físico, seu tormento interior podia ser notado não somente no rosto, mas no corpo inteiro. Como se ele estivesse sendo forçado a dizer o mais degradante, obscena palavra já criada, ele finalmente desabafou, depois de uma pausa atormentadora.
"Desculpe."
A agonia dele era tão cômica que Kate teve que lutar para não deixar transparecer um sorriso.
"Seria essa a primeira vez que você pronunciou isso?"

Ele parecia irritado novamente. "Sabe o quê, talvez você devesse..."

"Sawyer!" Ela fechou os olhos cansativamente e levantou a mão, interrompendo-o. "Pare enquanto você ainda pode."

Ele apertou os olhos em sinal de desdém e voltou a martelar a casa do cachorro.

Kate entrou novamente e começou a olhar em volta.

"Então porque você chama isso de galpão? Parece mais com um celeiro, não é? "

"Você vê vacas ou cavalos em algum lugar?" Ele continuou trabalhando, sem olhar para ela.

"Não, Mas isto é um palheiro, não é?" Ela fez um gesto mostrando acima da cabeça deles e o espaço à direita.

"Não tem feno nele, " ele disse levantando as sobrancelhas, batendo na madeira fazendo ressoar um barulho de martelada.

"Isso é," ela respondeu, entrando na dele. "Parece um monte de caixas, na verdade." Ela olhou por cima do palheiro com renovado interesse, tentando enxergar o que havia no espaço escuro. "Você sabe o que tem dentro delas?"

"Não, " ele disse, impaciente, ainda tentando ignorá-la.

"As caixas são suas... estão na sua propriedade, no seu galpão... e você não tem idéia do que tem dentro delas," ela disse incrédula, olhando para ele com as mãos na cintura.

"Provavelmente mais caixas," ele disse com sarcasmo.

"Por que ia ter mais caixas, dentro de outras caixas? "

"Gostaria de saber, sardenta. Por que uma gravadora chamaria uma banda de Driveshaft? Acho que o mundo é um lugar fodido."

Ela podia dizer pelo brilho insano de seus olhos que eles estava a ponto se irritar pra valer. Seria melhor deixá-lo sozinho, ou mudar de assunto?

"Você não está curioso?" ela perguntou de modo importunante.

"Não dá pra dizer que estou." Ele respondeu, com um prego no canto da boca, ele o retirou e posicionou, tentando ignorar o fato de que agora estava curioso. Que diabos tinha naquelas caixas? Ele nunca tinha notado elas antes. Que droga, Kate.

Ela o observava atentamente, parecendo que lia sua mente.

"Eu posso subir lá em cima," ela disse em um tom conspirador.

"O diabo que pode. Não tem escada, e eu não vou perder meu tempo procurando uma lá atrás. "

"Eu não preciso de uma escada. Eu escalo bem, lembra? Metade da comida da ilha era quem eu quem pegava."

"Esquece, " ele disse. "Você não vai se empoleirar ali."

Sem prestar atenção no que ele dizia, ela examinava a estrutura cuidadosamente. Do lado oposto, encostadas pelos cantos, havia algumas caixas velhas e uma armação de cama enferrujada. Estas estavam apoiadas na parede, junto alguns pedaços de madeira compensada. Se ela subisse no topo deles, ela poderia se agarrar no canto do celeiro. Se ela ainda tivesse força suficiente nos braços, ela poderia ultrapassá-los.
Sawyer viu o que ela estava olhando. "Nem pense nisso, " ele disse em tom de advertência.

Ela revirou os olhos para ele. "Ora, vamos. Depois das árvores da ilha, isso não é nada." Antes que ele pudesse protestar, ela já estava do outro lado do aposento e na metade do caminho até a primeira armação da cama, equilibrando-se em um tambor de frios que estava virado. Ele a observava nervosamente enquanto ela atingia o ponto mais alto e projetava-se sobre a saliência do celeiro. Ficando de pé lentamente, ela se equilibrou, a beirada bem a altura de seus ombros. Ela subiu facilmente, com muito mais facilidade que ele pensava (e provavelmente, com mais facilidade do que ele mesmo faria, ele percebeu sentindo uma ponta de competitividade.)

Olhando para baixo triunfante, ela se virou para explorar. Ele voltou a trabalhar na casa do cachorro, mantendo o ouvido atento ao que ela pudesse descobrir.

Depois de alguns minutos de silêncio, ele não pôde mais aguentar o suspense. Contra suas propensões, ele gritou, "E então?"

Ela voltou até a beirada, parecendo encabulada.
"Você estava certo," ela disse secamente. "É só mais caixas."

Agora ele dava a ela um sorriso largo. "O que eu tinha lhe dito?"

"Palpite de sorte," ela disse.
Então ela sorriu de volta para ele, na maneira dela de admitir a derrota.

"Agora, se você não se importa, poderia por favor dar o fora dai?"

"Já estou descendo." Ela se abaixou na beirada para o lado dos entulhos. Sawyer observava-a atentamente, mas mais tenso do que a momentos atrás.

Desta vez, entretanto, ao invés de apoiar o pé em uma armação de cama relativamente sólida, ela escolheu o velho colchão de molas. Quando ela transferiu o seu peso do palheiro para o colchão, ele oscilou perigosamente debaixo dela. Sawyer viu o que estava para acontecer, mas não teve chance para reagir. Em questão de segundos, o colchão arqueou e se dobrou debaixo dela. Ela perdeu o apoio e caiu na direção da parede, contra a armação de metal da cama. Ela colocou o braço para amortecer a queda, ficando entre a armação e a parede.

Sawyer cruzou o aposento em segundos e alcançou a armação onde ela estava.

"Eu estou bem," ela disse, calmamente, mas com um pouco de tremor na voz.

"Eu disse pra você não subir lá, não disse?!" O coração dele batia tão forte que era quase de dar pena, e seu pânico se expressava em forma de fúria.

Ela suspirou. "Você poderia deixar a bronca para depois, e me ajudar a descer daqui?"
Ele retirou o colchão, e depois as armações de cama, criando espaço bastante para ele entrar. Subindo no tambor de fios como ela havia feito, ele a levantou por baixo dos braços. Da maneira que você pega uma criança de dois anos, ele pensou absurdamente.

Só quando ele a colocou no chão, sob a luz da janela, que ele notou o sangue.

"De onde isso está vindo? " ele perguntou alarmado.

"É do meu braço," ele disse, mostrando a ele brevemente. "São só uns pedacinhos... Eu escorreguei pela armação da cama, e tinha uns cantos cortantes. Não é nada demais," ela disse casualmente. "Já passei por coisas muito piores."

Ele soltou o ar, tentando se acalmar.

"Você precisa lavar isso com água oxigenada. "

"Eu vou," ela disse, alcançando a porta. Ela olhou para a lamentosa tentativa de casinha de cachorro na saída. "Boa sorte com isso," ela disse, tentando não rir.

Alfinetado pelo sarcasmo dela, Sawyer continuo com o projeto por mais tempo do que ele deveria, esquecendo tudo o mais no desejo de conseguir fazer algo finalizado. Quando ele finalmente parou, era quase noite.

Ele entrou, apanhando um cerveja. "Kate?" ele chamou.

"Estou na banheira," ele ouviu ela gritar de volta, sua voz vindo do banheiro no andar de cima.

Ele subiu até o andar superior, abrindo a porta sem cerimônia. Todos os vestígios de timidez física entre eles tinha se tornado uma coisa do passado. Bem, para ela ao menos. Ele nunca havia tido.
"Conseguiu terminar?" ela perguntou, sem olhar pare ele. Algo na voz dela soava engraçado.

"Não completamente," ele murmurou. Ele não queria ser muito específico. Isso ia deixá-lo irritado de novo. "Como está seu braço?"

"Está bem," ela disse, virando-se para ele com um leve sorriso.

Ele sentou na beira da banheira, pressionando a lata de cerveja contra a nuca dela de maneira brincalhona. Ela enrijeceu o corpo e se afastou da lata, como ele sabia que ela faria. Ela manteve os braços na cruzados na frente do peito, cobrindo o próprio corpo.

"Vamos ver," ele disse.

"Ver o quê?" Ela perguntou inocentemente.

"Ver o quê. O seu novo piercing no umbigo, querida," ele disse com sarcasmo. "De que diabos acha que estou falando? Seu braço!"

"Eu já disse que está tudo bem."

A maneira como ela respondeu o alertou imediatamente.

"Eu não perguntei se está bem, eu pedi pra você me deixar ver."

"Você não perguntou. Se você está por essas."

"Tudo bem, então, eu disse pra você me deixar ver. Você vai deixar ou não?"

Ela olhou para ele com firmeza por alguns segundos, o suficiente para preocupá-lo consideravelmente. Inclinando-se, ele pegou o pulso dela e, de forma gentil e firme, afastou do corpo dela e virou-o para luz.

Ele fitou fixamente o braço com crescente temor.

De cima a baixo no braço dela, do cotovelo até o pulso, estavam alojados pequenos fragmentos de metal enferrujado.