Capítulo
27 – Traduzido por Ana
"Por que você não falou nada antes?" Perguntou Sawyer, acusadoramente. Ele deslizou, saindo da borda da banheira e se ajoelhou ao lado dela, ficando a apenas alguns centímetros de Kate.
Kate
continuou a olhar para seu braço, mas de uma maneira calma e
imparcial, como se estivesse olhando para o braço de alguma
outra pessoa.
"O que você ia poder fazer se eu tivesse
contado?"
Ele, de fato, não tinha resposta para isso. Balançando a cabeça, ele disse amargamente, "Não posso acreditar que você subiu lá... O que diabos você tava pensando, afinal?"
"Foi
por isso que eu não te contei antes," disse ela
secamente.
Ele abaixou os olhos, tentando se manter calmo. Haviam,
pelo menos, vinte fragmentos e estilhaços de metal espalhados,
quase todos alojados debaixo da pele, formando sombras de inchaços
e saliências. Ele correu os dedos levemente sobre seu braço
e depois pressionou experimentalmente em dos pedaços maiores.
Kate prendeu a respiração com um som sibilante.
"Tá doendo?" ele perguntou.
"Não."
Seus olhos se encontraram e era tão óbvio que ela estava mentindo, que ele até se perguntou o por que dela se incomodar. Devia ser apenas instinto. Ele pressionou um pouco mais forte, determinado a revelar seu blefe. Seus olhos se estreitaram e ela tentou puxar o pulso do aperto dele, mas ele segurou.
"Pára," ela sussurrou rispidamente.
Se sentindo culpado, mas, também meio vingado, ele afrouxou a pressão. Ele finalmente soltou seu braço e ela o encostou no peito, protetoramente, se recostando na banheira e afundando um pouco dentro da água.
"Quando foi a última vez que você tomou vacina contra tétano?"
"Não sei." Ela suspirou. "Faz tempo."
"Mais do que dez anos?"
Ela pensou por um segundo. "Acho que tinha doze."
"Então isso deve ser um sim, né?" ele perguntou com sarcasmo."
Eles se encararam combativamente, imaginando se aquilo ia se transformar numa briga.
Felizmente, para Sawyer pelo menos, a preocupação excedia a raiva. Ele desviou o olhar e ambos ficaram em silêncio por um minuto.
"Esse metal tem que sair daí logo," disse ele pacientemente.
"Eu sei disso."
"Você vai ter que ir pra um hospital."
"O quê??" Ela se sentou rapidamente, a água fazendo ondas contra os lados da banheira. "Você perdeu a cabeça? Não tem como eu ir pra um hospital, Sawyer. Eu fui longe demais pra acabar sendo denunciada por uma enfermeira de alguma sala de emergência que pensa que está apenas fazendo uma boa ação. Esqueça." Ela falou energicamente. "Eu corto meu braço fora antes de deixar que isso aconteça."
"É, bem, pode acabar acontecendo isso, se essas peças ficarem aí por muito tempo, querida!"
"A gente pensa em alguma coisa."
"Parece que você tá muito mais confiante do que eu," disse ele.
Sua indiferença já o estava irritando. Será que ela tinha alguma idéia de como isso era sério? Quase ficava doente só de pensar quão ruim aquilo podia ficar, e ainda assim, ela agia como se não fôsse nada além de tirar uma cutícula.
Ainda perdido em pensamentos, ele mergulhou seus dedos distraidamente na água, sem prestar atençao no que estava fazendo. Levou alguns segundos para ele registrar o fato da água da banheira estar fria.
Ele olhou para Kate, confuso. "Há quanto tempo você tá aí?"
Ela olhou para a água também, como se tivesse se esquecido onde estava. Ele percebeu pela primeira vez que ela estava gelada, com a pele toda arrepiada.
"Eu não sei," disse ela suavemente.
Os dois cruzaram os olhares e ele agora pôde ver o medo que ela havia sido tão bem sucedida em esconder desde que ele entrara no banheiro. Com qualquer outro talvez ela fôsse capaz de seguir com o ato, mas não com ele. Ela estava morta de medo, ele pôde perceber. E embora não fizesse o menor sentido, ver isto fez com que seu próprio pânico evaporasse quase instantaneamente.
Puxando um pouco a parte superior de seu corpo em sua direção, ele pressionou os lábios em sua testa, demorando-se por alguns segundos. Ela fechou os olhos e se apoiou nele, agradecida.
"Vam'bora. Vou te tirar daqui." Ele a ajudou a se levantar e a embrulhou na toalha, tendo cuidado agora em evitar seu braço direito ferido.
Enquanto Kate se vestia, ele desceu para a cozinha e tentou achar algo para comer. Ele não estava realmente com fome, mas parecia que eles deviam fazer um esforço para as coisas parecerem normais. Depois de alguns minutos parado absorto em frente da geladeira aberta, sem ser capaz de se concentrar em nada, entretanto, ele desistiu e deixou a porta fechar.
Ele se sentou á mesa e suspirou, sentindo uma enxaqueca chegando. O que diabos eles iriam fazer? E por que isso tinha que acontecer agora? Ela já não tinha sofrido o bastante ultimamente?
Ouvindo ela entrando no aposento, ele levantou a cabeça. Ela parou no umbral da porta e os dois se encararam sem falar. Ele percebeu que ela segurava uma garrafa de álcool de fricção. Com um profundo suspiro, ela parecia ter tomado uma decisão.
Atravessando até a bancada da cozinha, ela subiu nele e retirou a garrafa de whiskey, agora pela metade, do armário em cima da geladeira. Ele a observou, curioso. Depois de descer, ela puxou uma faca afiada de dentro da gaveta perto da pia. Caminhando resolutamente de volta à mesa, ela ajeitou a garrafa de whiskey perto dela e daí colocou a faca e o álcool na frente de Sawyer.
Ela se sentou na frente dele e desarochou a tampa do whiskey, tomando um grande gole em apenas um movimento simultâneo. Ela fez uma careta com o gosto e lutou para engulir aquilo tudo.
Colocando a garrafa de volta na mesa, ela finalmente virou os olhos na direção dele. A expressão de Sawyer estava cheia de medo.
"Não
me olhe desse jeito," disse ela, cansada. "Você sabe
o que temos que fazer."
"Tinha esperança de ter
um bife envolvido em tudo isso, Sardenta."
Ela lhe deu um sorriso pequeno e amargo. "Sinto muito." Apanhando a garrafa, ela tomou outro gole. "Talvez da próxima."
Ele fechou os olhos por um segundo, desejando adiar esta necessidade o mais que pudesse.
"Não tem jeito disso dar certo."
"A gente tem que tentar, pelo menos. Não temos nenhuma outra escolha." Ela bebeu de novo e continuou. "Eu mesma faria se fôsse no meu braço esquerdo, mas eu sou destra."
"Faria porcaria nenhuma," ele resmungou. Ela não estava certa se ele queria dizer que não a deixaria fazer isso ela mesma ou se ele pensava que ela não seria capaz de fazer por conta própria. Ele mesmo não sabia o que quis dizer, também. Foi só alguma coisa para falar.
"Sawyer," disse ela numa voz suave. "Eu preciso da sua ajuda. Não posso fazer isso sozinha."
Aquele medo havia voltado, espreitando no fundo dos olhos dela.
Ela
prosseguiu, num tom de voz pensativo. "Você lembra na
ilha... uns poucos dias depois que caímos... quando você
me disse que alguma coisa tinha que ser feita com o delegado e que já
que era eu que estava com a arma, devia ser eu a fazer?"
Ele
olhou para ela, mas não respondeu. A pergunta não pedia
uma resposta, na verdade.
"E eu não pude fazer," continuou ela, parecendo assombrada. "Eu mal te conhecia naquela época. Mas, eu fui até você, e te dei a arma, e te pedi para fazer por mim. Você nem hesitou... você apenas a pegou. Como se estivesse esperando que eu aparecesse." Ela sorriu levemente, pela lembrança. "E você fez o que tinha que ser feito." Ela deu uma pausa, tomando outro grande gole da garrafa. "Exatamente como você vai ter que fazer agora."
Ele riu em silêncio, ironicamente. "È, isso por que da última vez tudo correu tão bem, não correu?"
"Isso é diferente," respondeu Kate mansamente. "Não estou te pedindo pra atirar em mim. Pelo menos, não ainda. Vamos só... começar com a faca e ver como as coisas ficam, primeiro."
Sawyer virou os olhos em desprezo. "Tudo é piada, né?"
Ela bebeu outro gole, sem responder.
"Me dá isso," disse Sawyer, estendendo a mão e agarrando a garrafa. Ele tomou um longo gole, o suficiente para firmar-lhe os nervos, e, esperançosamente, suas mãos. Ele a devolveu para ela.
Expirando amargo, ele pegou a faca.
"Esteriliza primeiro," avisou Kate.
"Eu sei disso."
Ele derramou um pouco do álcool em um lenço e começou a passar de cima a baixo pela lâmina afiada da faca da cozinha. Ela o observava, aparentemente hipnotizada.
"Tá pronta?" ele perguntou depois que acabou, esperando que ela tivesse mudado de idéia e decidido não continuar com aquilo.
Se virando na cadeira, presumivelmente para que não tivesse que assistir o procedimento, ela estendeu o braço na mesa, com o pulso colocado diretamente em frente a Sawye. Ela ainda agarrava com força a garrafa de whiskey em sua mão esquerda, embora a essa altura, já estivesse quase no fim.
"Vai em frente," murmurou ela, numa voz tremida.
Ele tinha que tentar mais uma coisa. "Você sabe que isso provavelmente vai deixar cicatrizes, certo?"
Ela assentiu com a cabeça, de forma curta. "Anda logo."
Engolindo em seco e lutando contra uma onda de náusea, ele cobriu o pulso dela com sua mão esquerda para impedir o braço de se mover. Segurando a faca pelo meio da lâmina para conseguir um tipo de alavanca e também para que não balançasse, ele encostou a extremidade na pele dela, bem embaixo de um dos fragmentos de metal alojado. O sangue começou a jorrar imediatamente, e logo ele não podia mais ver o que estava fazendo. Ele o enxugou e continuou tentando desenterrar o estilhaço de sua carne. O braço dela se contraía convulsivamente, mas ele trincou os dentes e o segurou no lugar. Ela olhava para fora do aposento, com o rosto petrificado, respirando com dificuldade.
Quanto mais ele avançava, mais sangue jorrava dela. Ele não conseguia acompanhar o trabalho de enxugá-lo. Ele abriu um buraco de bom tamanho na pele de seu braço, mas a peça de metal que ele estava apanhando parecia estar se desintegrando em fragmentos cada vez menores.
Toda vez que ele o segurava, aquilo se quebrava em estilhaços ainda mais minúsculos. O lenço estava agora vermelho-vivo e empapado, e o sangue ainda corria em jorros do braço dela sobre a mesa. Ele foi forçado a cavar mais fundo dentro de sua pele com a faca, sem nem mesmo ser capaz de ver claramente o que estava fazendo.
O braço estava tremendo seriamente agora, sua mão com o punho fechado. Escutando um gemido abafado, ele finalmente se forçou a levantar os olhos para seu perfil. Ela estava mordendo os lábios, seu rosto fantasmagoricamente pálido, totalmente desprovido de qualquer coloração, fôsse qual fôsse. Lágrimas silenciosas desciam por seu rosto, e esforço que ela fazia para se manter quieta fazia com que todo o seu corpo vibrasse, com o que parecia uma corrente elétrica.
Aquilo era mais do que ele podia suportar. Batendo com a faca na mesa, ele soltou o pulso dela.
"À merda com isso!" disse ele zangado.
Ela se virou para ele, olhando aliviada e traída ao mesmo tempo. "Sawyer..."
"Não vai dar certo!" gritou ele. "Olha pra isso!" Ele levantou-lhe o braço, forçando-a a vê-lo.
"Parece como se tivesse passado por um maldito moedor de carne!"
Ela empalideceu ainda mais e se virou, nauseada.
"Se eu continuar desse jeito, você vai sangrar até morrer. Foi uma idéia estúpida."
"Eu não vi você aparecer com outra melhor!" ela disparou.
"Eu não tive a chance de pensar sobre isso, ainda." disse ele, na defesa.
Se levantando, ele puxou algumas toalhas de
papel da gaveta, enrolando uma em volta do braço, ainda
sangrando, dela, tanto para diminuir a hemorragia como para tirar
aquilo da vista deles. Ele se sentia como um fracassado e sabia que
ela também se sentia assim. Eles estavam tão indefesos
como duas crianças de dez anos estariam, na mesma situação.
Eles só tinham um ao outro para recorrer por ajuda e nenhum
dos dois era capaz de lidar com uma coisa como essa.
"Bem,
pensa, então." ela disse. Sorriu amargamente. "Estou
bêbada demais pra ser de qualquer ajuda agora, afinal. Vou
subir e me deitar. Se pensar em alguma coisa, me avisa."
Ela se levantou, um pouco vacilantemente. Ele começou a ajudá-la, mas ela se afastou. "Tudo bem."
Antes de sair, ela se virou em direção a ele. "Sinto muito," disse ela, mansamente. "Por tudo isso."
"Não
é culpa sua." respondeu ele. Isso não era
tecnicamente verdade, mas não havia vantagem em fazê-la
se sentir mais culpada ainda sobre isso.
Depois que ela
desapareceu pelo corredor, ele ficou sentado sem se mover por alguns
segundos, tentando desesperadamente pensar em algum tipo de solução.
Finalmente, ele pareceu decidir algo. Limpando o resto de sangue da
mesa, ele se levantou lentamente, com um ar de resignação.
Kate dormia desasossegadamente, transitando naquele inquietante espaço entre a vigília e a inconsciência. Ela não estava certa se estava sonhando ou não, e as visões que a atormentavam eram fragmentadas e destituídas de qualquer coerência. Ela se agitava se torcia, e de vez em quando seu corpo inteiro sofria um abalo abrupto com a sensação de estar caindo.
Lutando para sair de um desses pseudo-sonhos, ela se alarmou ao ver o que parecia o impreciso contorno de alguém sentado na cama. Pulando para trás em terror, ela sentiu mãos agarrarem seus ombros gentilmente, a fazendo se reclinar de volta.
"Sou eu... sou só eu," a voz de Sawyer ressoou tranquilizadoramente.
O resíduo do álcool ainda embaralhava seus pensamentos. Ela tentou clarear a mente, esperando que a névoa se dispersasse antes de dizer alguma coisa.
Ela sentiu a mão de Sawyer na sua testa e depois no seu rosto. "Parece que você tá com febre." disse ele, preocupado.
"Provavelmente é so o whiskey," disse ela sua voz ainda pastosa.
"Pode ser," ele respondeu, pouco convencido.
"Que horas são?"
"Quase duas," disse ele.
"Você ainda não foi pra cama?"
"Tava ocupado."
"Fazendo o quê?" perguntou ela. Ela deu uma paus. "Você teve alguma outra idéia?"
"Pode-se dizer que sim," ele murmurou.
Ela
esperou, cansada demais para gastar palavras perguntando de novo.
Ele
suspirou, prosseguindo com relutância.
"Te consegui uma consulta. Com um médico."
" O quê?" Ela lutou para se sentar, se segurando nele para se equilibrar e esperando que a tontura passasse. "Nós já falamos nisso, Sawyer! Eu te disse, não vou correr o risco de ser reconhecida. Não vale a pena. Não por isso." Ela balançava a cabeça, enfaticamente.
"Oh, tenho certeza que ele vai reconhecer você, docinho. E não acho que vai ser um problema." Ele parecia estranhamente amargo.
Kate o observou através da luz que vinha da sala, confusa. Lentamente ela foi entendendo o que aquele olhar no rosto dele significava. Só havia uma pessoa que ela conhecia que conseguia despertar essa expressão de desprezo misturada com ciúme.
"Ah, meu Deus. Você não fez isso," ela sussurrou.
Ele
continuou olhando para ela miseravelmente, confirmando suas
suspeitas.
"Você chamou Jack."
Ela disse isso como uma afirmação, não uma pergunta.
Sawyer
desviou o olhar em direção a porta. Forçando as
palavras, ele respondeu. "O avião parte hoje á
noite. Ele deve chegar aqui amanhã, em alguma hora."
Kate
afundou no travesseiro, sem saber o que dizer.
O silêncio estava tão pesado que ela conseguia sentir as batidas do próprio coração.
