Capítulo 30Traduzido por André Soares

Kate abriu os olhos e a princípio se sentiu confusa ao olhar o teto da sala... novamente. Isso já não aconteceu uma vez hoje? Ele virou a cabeça suavemente e olhou ao redor. Jack sentado em uma cadeira acolchoada alguns centímetros afastado, olhando ela.

"Ei," ela disse; "Como que eu cochilei de novo?"

"Aconteceu muito rápido," ele respondeu, sorrindo um pouco. "Você estava falando sobre o cachorro, e então você disse que estava se sentindo cansada, e em alguns segundos, você apagou."

"Sinto muito," ela disse, parecendo embaraçada.

"Não sinta," ele disse; "Leva algum tempo para os efeitos dos remédios passarem completamente, e tenho certeza que você não dormiu muito a noite passada, de qualquer forma."

"Não," ela concordou. "Mais do que o Sawyer, de qualquer forma." Ela olhou em volta mais uma vez. "Cadê ele?"

"Ele foi buscar a receita que eu fiz. Eu gostaria que você começasse a usar os antibióticos imediatamente, apenas por precaução. Seu braço estava muito inflamado," ele adicionou, parecendo sério.

"Eu sei," ela disse serenamente.

Houve uma leve amenizada na conversa.

Então Kate começou novamente. "Pra quem...?" Ela desajeitadamente tentou se sentar, usando o apenas o braço esquerdo já que o direito estava bem preso a ela em uma tipóia.

Levantando-se, Jack rapidamente a ajudou.

"Obrigada," ela disse, e seus olhos se encontraram. "Pra quem você fez a receita? Quero dizer, que nome usou pra fazer?"

Jack sentou-se mais perto dela. "Sawyer sugeriu que usássemos o nome Margaret Ford." Quando Kate parecia confusa, ele continuou. "Ele falou que era a tia dele..."

"Ah," ela interrompeu, entendendo agora. "Tia Meg. Ta bem."

"Você a conhece?" Jack perguntou, surpreso.

"Ah sim," ela disse, desejando que ela não o tivesse dito. "Ela esteve aqui a mais ou menos uma semana atrás, visitando." Ela não queria demonstrar que ela e Sawyer soassem tão 'família', mas realmente não tinha outra forma de encarar a visita de uma tia.

"Ela não ficou muito," Kate adicionou, como se isso fizesse alguma diferença.
Jack balançou a cabeça, e ela pensou ter notado alguma tristeza na expressão dele.

Enquanto ela ouvia a fresca chuva de outono batendo nas janelas, ela sentiu uma leve corrente de ar, e por mais que ela tivesse tentado evitar, ela tremeu um pouco. Jack percebeu, é claro.

"Está com frio?"

"Estou bem," ela mentiu.

"Mas está mesmo meio frio aqui," ele disse, ignorando ela. "Onde fica o termostato?"

"É no corredor, mas... tá quebrado. Quero dizer, o aquecedor não está funcionando... atualmente," ela continuou. "Estamos usando somente a lareira."

"Ah."

Ela podia ver que ele parecia preocupado, e isso a incomodava por algum motivo. Parecia um julgamento. Não apenas dela mesma, mas do Sawyer também. Isso a deixava na defensiva, como se ela precisasse justificar coisas.

"Ainda não tinha feito tanto frio," ela disse. "Ele vai consertar isso logo. As coisas andam meio malucas ultimamente."

"Posso imaginar" Jack disse, querendo dizer obviamente que tinha entendido.

Houve outra pausa, e eles se encararam. Tanta coisa que ela queria dizer a ele, mas como poderia algo ser dito? Por onde começar? Não seria mais seguro para ambos que eles nem tentassem isso?

Jack parecia estar experimentando dúvidas similares. Hesitantemente, ele começou a falar.

"Kate. Tem algo que eu queria mesmo dizer a você..."

Nessa hora, ambos ouviram o som da porta da cozinha sendo aberta e então fechada, bem alto.

Jack olhou pra longe, derrotado, com um pequeno e irônico sorriso.

"Nós falaremos mais tarde," Kate o acalmou rapidamente, um pouco antes do Sawyer entrar na sala ainda pingando da chuva.

"Desculpa interromper," ele disse olhando para um e depois para o outro com um sorriso sacana. "Espero que vocês dois tenham se comportado direitinho."

Kate fechou os olhos por um instante totalmente sem graça e desejando que ele estivesse perto o suficiente para tomar uma cotovelada. Mas, de fato, ele parecia estar de ótimo humor. Bem, um bom humor no estilo "Sawyer", de qualquer forma, que é uma linhagem de bom humor bem diferente das quem tem as pessoas comuns. Ele provavelmente estava se sentindo livre de um fardo enorme, já que ela aparentemente parecia estar melhorando.

"Teve algum problema na farmácia?" Jack perguntou ignorando o comentário anterior.

"Nada," ele disse "Apenas uma maldita menina... A garota tava bem mais preocupada com seu piercing no mamilo do que com receitas ilegais."

Kate olhou pra ele fortemente.

"O que?" ele falou num tom defensivo. "Dava pra ver pela camiseta dela!"

Ele deu a volta por trás do sofá e deixou a sacola no colo dela. "E como está a Senhorita Narcolepsia?" Debruçando-se, ele deu uma beijoca em sua bochecha. "Se você continuar apagando assim, vai ter que começar a usar um capacete."

"Não vai acontecer de novo," ela disse sorrindo. "Vai?" ela perguntou ao Jack.

"Provavelmente não. Mas eu pararia com os analgésicos por algumas horas, só para garantir. Com os antibióticos você pode ir em frente e começar agora."

Kate olhou com as sobrancelhas levantadas para o Sawyer. "Você me trás um copo de água?"

Ele suspirou, tentando parecer aborrecido. "Claro, princesa. Pode me chamar de menino de recados." E indo em direção a cozinha, ele levantou sua mão. "Não, não se levante," ele disse pro Jack, que não demonstrou nenhum sinal de que faria isso. "Deixa comigo."

Quando ele se foi, Kate, com uma quase careta, tentou explicar. "Ele fica assim as vezes."

"Eu me lembro," Jack disse, parecendo vagamente que tinha se divertido.

Usando sua mão direita para rasgar a boca da saco da farmácia, que tinha sido bem fechada, Kate tirou a primeira garrafa, e deu uma olhada no rótulo. Hydrocodone. Pílulas pra dor. Ela voltou a procurar no saco e tirou outra garrafa. Essa era penicilina. Ela começou a amassar o saco, mas ainda estava pesado. Ainda tinha mais alguma coisa dentro. Abrindo novamente, ela tirou de dentro uma embalagem plástica meio achatada. Parecia um estojo de pó para maquiar, mas era um pouco maior que o normal. Sua face mostrou sua confusão. Sawyer nunca compraria maquiagem pra ela. Ela virou pra poder ver o rótulo e ficou vermelha no instante em que percebeu o que era. Pílulas anticoncepcionais. Ela deu uma rápida olhada pra Jack, que a observava com uma expressão hesitante e encabulada.

"Sei que não é meu território, Kate... Mas eu não sei se você teria outra chance..." ele disse. "Se você acha que não está bem assim, então me desculpo. Eu estava apenas tentando ajudar". Ele parecia miseravelmente desconfortável.

"Jack," ela sussurrou com uma risada tensa. "Eu... eu nem sei mais o que dizer." Ela olhou pra ele, de maneira suplicante, sentindo o calor radiante em sua face.
"Você não tem que dizer nada. Se decidir usá-las, então apenas tenha certeza de esperar até depois de sua próxima..."

"Eu sei," ela interrompeu rapidamente. Ela sorriu, e olhou pra baixo novamente. "Eu sei," ela repetiu baixinho.

De forma totalmente desarmônica, ela sentiu os olhos se encherem d'água, e ela tentou segurá-las. O fato de que ele pudesse fazer algo assim, por ela, independente do que ele sente pelo Sawyer... era quase que demais. Como que você diz 'obrigada' para uma coisa assim? Ela pensou. Especialmente quando você sabe que não merece?

Ela rapidamente guardou a embalagem ao ouvir os passos de Sawyer voltando do corredor. Ela assumiu a hipótese de que ele nem sabia sobre isso, já que o saco ainda estava grampeado. Contar a ele agora apenas o deixaria muito puto e acabaria com seu bom humor. Ela sabia que, ao invés de entender isso como um favor a ela, ele certamente veria isso como uma tentativa do Jack impedir o Sawyer de procriar. Com um sorriso interior imaginando a reação enfurecida dele, ela decidiu esperar até que Jack tivesse ido para contar a ele.

Enquanto Sawyer chegava ao aposento, ela encarou firme Jack, mais uma vez e tentou transmitir a ele a sua satisfação sem usar palavras. Ela achou que ele entendeu.

Sawyer estendeu a ela a água, e ela a colocou na mesinha de café. Ela sentiu seus olhos nela enquanto ela pegava os antibióticos com sua mão esquerda e tentou abrir a garrafa. Com um suspiro de frustração, ela estendeu a garrafa com as pílulas pra ele."

"Tudo bem, mas espero que você saiba, eu vou cobrar mais essa," ele disse forçando um sorriso. Ele destampou o frasco e balançou até sair a pílula, caindo gentilmente na palma da mão dela.

"Apenas coloque em minha conta," ela disse, sorrindo de volta pra ele.

Kate odeia estar doente ou ferida. Mas ela tinha que admitir, quase que valia a pena apenas para ver o senso de dever relevante que isso deu a Sawyer. Ela sabia que sua irritação era só teatrinho. Ele amava tomar conta dela. De fato, ele nunca esteve tão feliz como antes, provavelmente por ser um prazer tão novo e tão sem precedentes pra ele. Era algo que ela tentava nunca esquecer.

Ela jogou a pílula na garganta e engoliu um pouco da água. Enquanto colocava o copo de volta, Jack falou.

"Sawyer, onde você guarda a madeira?"

Sawyer olhou pra ele como se ele fosse doido. "Por que, você quer construir algo, doutor? Vai nos premiar com uma arca enquanto estiver por aqui?"

"Ele quer usar para a lareira," Kate disse revirando os olhos. "E ela fica ali na varanda, Jack. Mas você não precisa fazer isso."

"Então é você quem vai fazer ?" Perguntou a ela com uma piscada de olho.
"Não, você vai," ela disse enfática.

"É acho que sim, né?"

"Tá legal, Kate," Jack interrompeu, se levantando. "Eu não me importo mesmo. Vocês me deixaram ficar aqui, então é o mínimo que eu posso fazer."

"Você ouviu isso, Sardenta? Ele disse que não se importa."

Kate bufou enquanto Jack saia da sala. Sawyer ajoelhou-se na frente dela, ainda com um brilho nos seus olhos, mas parecendo meio sem graça.

"Achei que você tinha dito que ia tentar não ser grosseiro."

"Acredito que a palavra chave na frase é tentar, docinho."

"Você ainda não entendeu quer não está mais competindo com ele? Você não tem nenhum motivo para ser esse pé no saco. Você, que se você desse uma chance a ele, vocês poderiam até gostar um do outro."

Sawyer abaixou sua cabeça, dizendo quase gargalhando, "Eu não iria tão longe assim."

Kate balançou a cabeça devagar, desistindo. Considerando a falta de sorte e o quão malfadado é seu passado, parece até que se encaixa quando os dois homens mais importantes de sua vida não conseguem se suportar. Se fosse de outra forma, teria sido apenas fácil demais.

Ficando em pé, ela segurou a mão do Sawyer. "Vem comigo."

"O, ou..." ele disse com um temor exagerado. "Parece que eu me ferrei agora."

Ela sorriu, incapaz de se ajudar. "Não exatamente. Apenas preciso de sua ajuda."

Ele ficou colado no chão, olhando intrigado. "Com o que?"

Ela estava totalmente sem graça. Sem olhar em seus olhos, ela disse relutante, "Preciso fazer xixi. E acho que não dou conta de desabotoar a calça com a mão esquerda."

"Ora, ora," ele disse com aquele sorriso sacana, colocando seus braços ao redor dela e a guiando pela sala. "E acontece de eu apenas ser um expert nesse assunto."

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Ele nunca iria admitir, mas mesmo assim, Kate poderia dizer que Sawyer estava ao menos se esforçando bastante para ser um anfitrião educado conforme ia entardecendo. Eles pediram pizzas para o jantar, e ela ouviu, tentando segurar o riso, enquanto os dois discutiam de uma forma bem embaraçosa quem deveria pagar. (Sawyer finalmente venceu, mas Jack insistiu em pagar a gorjeta da entrega.)

Então, antes da comida chegar, ele até tentou fazer com que o cachorro aceitasse a presença de Jack. Não deu muito certo; o Gus parecia ter criado uma aversão imediata ao Jack a primeira vista que não iria ser remediada por nenhum esforço futuro. Mas pelo menos abriu mão da hostilidade, resignando-se a presença do doutor com um ar de subjugada, mas desconfiada, tolerância.

Quando o jantar chegou eles se sentaram na mesa da cozinha com as caixas abertas na frente deles, e Kate fingiu que estava com muito mais apetite do que estava realmente sentindo pois assim nenhum deles iria se preocupar com ela.

Jack assistia achando engraçado como Sawyer tirava cada pimenta, cebola, cogumelo e azeitona para fora de seu pedaço, e então pegava mais da carne.

"Você tem algo contra os vegetais, Sawyer?"

Kate suspirou. "Ele tenta evitá-los sempre que possível."

"Nem de todos eles," ele disse se defendendo. "Eu acabei comendo aquele treco de alcachofras, não foi?"

Surpresa, ela sorriu pra ele, quase orgulhosa. "Você realmente acertou o nome dessa vez... Mal posso acreditar."

Eles compartilharam um olhar dissimulado cheio de referências ilegíveis e de significados ocultos. Jack parecia confuso.

Kate se virou para ele, tentando explicar. "Ele geralmente chama de aspargo, e eu sempre tinha que dizer pra ele que era alcachofra..." ela diminuiu o tom, de modo brusco, notando que Jack ainda não parecia ter entendido. "Acho que você teria que ter visto."

"Aparentemente," ele disse, balançando a cabeça.

"E então Jack," Sawyer perguntou depois da pausa ter durado bastante. "Você conseguiu seu trabalho antigo de volta?"

"É, no mesmo hospital," ele respondeu. "Eu até fui promovido, na verdade. Evidentemente ajuda se eles pensam que você está morto." Ele sorriu ironicamente.

"Estou certo que ser famoso não fez mal nenhum," Kate disse, dando uma pequena mordida e mastigando devagar.

"Eu não chamaria exatamente de 'fama'," ele disse desconfortavelmente.

"Não chamaria de fama?" Sawyer perguntou sarcasticamente. "Barbara Walters certamente não concorda com você. Vi você na teve paquerando ela a uns meses atrás."

Kate revirou os olhos, mas Jack estava preparado dessa vez.

"Na verdade, ela só queria falar sobre você, Sawyer. Ela desejava saber se você era solteiro ou não."

Kate e Sawyer pararam de mastigar juntos e olharam pra ele com expressões incrédulas.

Jack baixou sua cabeça e deu um sorriso triunfante. "Brincadeirinha."

Kate riu, e mesmo Sawyer parecia ter se divertido, mas ele tentou encobrir isso com um longo gole de cerveja.

"Você arrumou uma namorada?" Ele perguntou poucos segundos mais tarde em contra-ataque.

Kate ficou horrorizada. "Sawyer," ela disse baixo, quase rangendo os dentes.

"Que foi? Estamos apenas jogando conversa fora."

"Bem, mais ou menos," Jack respondeu desconfortavelmente. Kate olhou pra ele e então ele baixou os olhos rapidamente. "Estou vendo alguém atualmente, mas não é nada... tão sério assim." Ele tomou uma bebida.

"Ela é enfermeira?" Sawyer perguntou com um leve ar zombador no tom de voz.

"Não. Ela é hum... é uma pediatra. Você vai comer aquele último pedaço?"

Sawyer empurrou a caixa na direção dele, sem desejar mudar de assunto ainda.

"Uma pediatra e um cirurgião," Ele disse com uma voz em tom de brincadeira. "Parece um conto de fada, não é Sardenta?"

Kate afunilou seu olhar para ele como advertência, mas então parou quando ela viu Jack olhando pra ela com curiosidade. Estaria ele imaginando como ela recebeu as novidades? Ela realmente não sabia o que pensar sobre elas. Ela deveria estar aliviada, certo? Não seria a mais racional das reações, dadas as circunstâncias? Agora ela começa a temer pela conversa que ela tinha prometido que eles teriam mais tarde, ao invés de querer que ela aconteça.

"Como está sua mãe?" ela perguntou, para poder pensar em outra coisa.

"Ela está... melhorando," Jack falou devagar. "O dia começou pra ela descobrindo que meu pai tinha morrido terminou com ela ouvindo sobre a queda do avião... ela basicamente perdeu nós dois ao mesmo tempo. Foi meio duro pra ela se ajustar em me ter de volta – por todo o choque. Mas, ela está melhorando, eu acho."

"Sinto muito," Kate quase sussurrou. "Isto deve ter sido tão terrível pra ela." Sawyer baixou seu olhar para o prato, em silêncio. Ninguém falou nada por alguns segundos.

Kate pensou pela primeira vez que talvez ela e Sawyer eram realmente pessoas de sorte, de uma certa forma, já que eles não tinham ninguém que se importasse com eles o suficiente para sofrer assim.

Enquanto desesperadamente ela tentava pensar num assunto que não fosse nem embaraçoso e nem doloroso pra nenhum deles, a decisão sobre o assunto foi tomada para ela por umas batidas na porta da frente da casa.
Jack não parecia imediatamente preocupado, mas Kate e Sawyer se entreolharam com um temor paralisante.

"Bem, pelo menos dessa vez sabemos que não é o Jack," Sawyer disse, levantando-se ao mesmo tempo que Kate.

"Você acha que ele deveria se esconder também?" Ela perguntou quase sem fôlego, automaticamente caminhando pra dispensa.

"Não havia tempo hábil pra pensar muito. "Sim," Sawyer disse. "Apenas o fato dele estar aqui poderia ser suspeito o suficiente para deixá-los alerta."

"Jack!" Ela fez gestos pra que ele a seguisse, o que ele fez, rapidamente.

"Qual o plano?" ele perguntou, parecendo um pouco perdido.

Sawyer puxou a porta do porão e então ergueu-se, alcançando algo numa prateleira alta acima da máquina de lavar. Era uma arma. Ele entregou ela pra Jack, olhando em seus olhos, pensando com ironia como as posições se inverteram desde a última vez em que se viram na ilha.

Jack hesitou. Kate o assistia, fascinada e torturada. Mesmo que no momento estivessem numa pressa frenética, esse momento parecia persistir e estava quase congelado. A decisão de Jack teria o poder de mudar sua vida pra sempre. Ou ele defenderá ela, correndo todos os riscos que virão com isso... ou ele não o fará.

"Você vai pegar ou não?" Sawyer perguntou impacientemente. Bateram novamente na porta.

Jack pegou a arma. Kate expirou um pouco trêmula.

"Você vai primeiro… e eu desço ela pra você." Com seu braço direito numa tipóia, ia levar muito tempo para Kate tentar manobrar para descer as escadas.

Jack chegou ao fundo em segundos, num piscar de olhos, Sawyer já tinha segurado ela pela cintura e descido ela para as mãos estendidas de Jack. Ela levantou os olhos pro Sawyer, engolindo as lágrimas. Eles nem tiveram a chance de falar nada.

Ele fechou a porta por sobre a cabeça deles e ela e Jack foram imediatamente mergulhados na escuridão. Ela ouviu o Sawyer trancar a porta e recolocar o tapete, e então foi em direção a porta da frente.

Ela se colocou de costas para a escada, meio sentada e meio em pé, precisando dela como apoio. Jack manteve suas mãos em seus ombros a guiando. Não havia nem mesmo o mínimo sinal de luz. Era a mais sufocante e absoluta escuridão imaginável. Ela já tinha experimentando isso antes – de fato foi quando Jack tinha estado lá da última vez. Naquela vez, ela foi distraída pela conversa na cozinha, e ela tinha fechado os olhos e escutado. Agora, ela luta contra uma crescente maré de pânico.

"Eu sinto muito mesmo, Jack," ela disse, sua voz tremia muito.
"Você não tem motivos pra isso. Se tem alguém la fora, então a culpa é minha. Eu tinha que ter sido mais cauteloso." Ele soava amargurado.

"Não," ela disse, balançando veementemente a cabeça, mesmo sabendo que ele não veria isso.

"É tudo por minha causa. TUDO isso," ela disse alto.

"Psiu... Kate, tente respirar bem profundamente, certo?"

"Escuta, Jack..."

"Apenas puxe bastante ar, e então deixe ele sair..."

"Me escuta!!"

Ele parou e suspirou, esperando.

"Se eles encontrarem esse lugar... essa dispensa... então eu quero que você me dê a arma. Vamos fingir que fizemos você como refém, certo? Que eu fiz você descer até aqui..."

"Pode esquecer," ele disse imediatamente.

"Não!" ela disse com vigor. "Por favor, Jack... por favor. Não há escolhas. Eu não vou deixar você se colocar em perigo por mim... eu já errei assim antes, e..." Ela começou a chorar, lembrando do Tom. "Não vou deixar isso acontecer de novo. Eu não vou deixar você morrer de novo."

"Você não está falando coisa com coisa, Kate," ele disse gentilmente, preocupado. Ele levantou suas mãos e ambas tocaram sua face.

"Promete pra mim," ela implorou.

"Tudo bem," ele concordou, querendo dizer qualquer coisa pra deixar ela calma. "Eu darei a arma pra você. Eu prometo. Mas tenho fé que isso não vai acontecer. Agora, precisamos ficar quietos, certo?"

Ela reclinou em seu ombro, tentando reprimir seus sentimentos. Tinha tanta coisa que ela queria dizer a ele, mas como eles teriam chance agora? Ambos esperaram, tensos e desesperados, pelo que pareciam ser horas.

"Consegue ouvir algo?" Kate sussurrou.

"Não," ele respondeu honestamente. O silêncio era ensurdecedor de tão devastador.

Finalmente, quando ela pensou que iria explodir e começar a gritar incontrolavelmente se ela tivesse que esperar mais tempo, houve sons de passos acima. As tábuas rangiam ameaçadoramente.

Kate levantou a cabeça, quase no limite de alcançar a arma.

A tranca foi aberta e a tampa levantada. Eles olharam pra cima, piscando dolorosamente com o fluxo repentino de luz

"Podem vir pra cima," Sawyer disse cansadamente. "A barra ta limpa."

Sentindo-se aliviada pois já estava no limite de um colapso, Kate passivamente permitiu que eles invertessem o processo realizado antes, Jack levantou ela para Sawyer dessa vez. Ela agarrou-se a Sawyer, bem apertado, ainda preocupada com o que ele tinha encontrado. Ela olhou pra ele, com uma interrogação nos olhos, ainda não confiante para falar. Ele a beijou suavemente e então a direcionou para a cozinha. Ela ouviu Jack subir as escadas e os seguir.

Os três pararam abruptamente. Sawyer gesticulou apontando a mesa da cozinha, onde estavam duas pequenas caixas de papelão amareladas. Jack e Kate se entreolharam, e então olharam novamente para o Sawyer, confusos

"Biscoito das Escoteiras," ele disse, num tom cínico e exausto.

Eles continuaram encarando ele, depois olharam de volta pras caixas, e então olharam pra ele de novo. Kate parecia não entender o absurdo que tudo aquilo significava. Certamente que todo esse drama pelo que acabaram de passar não foi só por conta disso, foi?

Jack estava se ajustando rapidamente. Ele balançou a cabeça, quase contemplativamente. "Vi que você pegou os docinhos com pasta de amendoim."

"Algum problema com esses?" Sawyer perguntou.

"Pra dizer a verdade, eu prefiro mesmo os amentolados."

"Com certeza," Sawyer disse com desprezo.

Jack finalmente soltou uma risada silenciosa e aliviada. Sawyer tinha um brilho no olhar, apesar do estresse remanescente.

Kate se moveu em direção à mesa, sentindo que seus joelhos iriam entortar se ela continuasse de pé. Ela mergulhou na mesa e deitou sua cabeça em seus braços, ainda em dúvida se ria ou se chorava. Essa noite poderia ser mais surreal? Ela sentiu uma mão dando uns tapinhas entre suas omoplatas, de modo tranqüilo e reconfortante.

A parte terrível era que ela nem sabia com certeza de quem era a mão.

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N.T.: Narcolepsia é uma condição neurológica caracterizada por episódios irresistíveis de sono e em geral distúrbio do sono. É um tipo de dissonia. O sintoma mais expressivo é a sonolência diurna excessiva, que deixa o paciente em perigo durante a realização de tarefas comuns, como dirigir, operar certos tipos de máquinas e outras ações que exigem concentração. Isso faz com que a pessoa passe a apresentar dificuldades no trabalho, na escola e, até mesmo, em casa. (Wikipedia)