Capítulo 31 – Traduzido por Ana Ford

Depois do susto com as Escoteiras, nenhum deles ficou com muito apetite sobrando. Jack se retirou para a sala e, usando seu celular, encomendou um serviço de táxi para pegá-lo na manhã seguinte e deixá-lo no aeroporto. Ele também fez uma série de chamadas relacionadas com o trabalho, embora Kate tivesse escutado ele baixar a voz de maneira terna em uma delas. Ela parou de jogar fora as caixas de pizza e aguçou os ouvidos para escutar melhor, imaginando se era a pediatra ou apenas sua mãe. Nisso, ela percebeu Sawyer a observando e então retomou a limpeza, usando sua mão livre desajeitadamente.

Eles foram para a sala de estar na falta de alternativas e Jack escolheu uma cadeira que tinha uma distância conveniente dos dois. Estavam assistindo o último jogo do Campeonato, que até mesmo Jack tinha esquecido que era nessa noite. Tinha sido um dia longo.

Kate reparou que a cabeça de Sawyer ficava caindo sem querer e que ele estava tendo dificuldades em manter os olhos abertos. Estava também incomumente quieto, ofertando apenas um ou dois comentários sarcásticos a cada meia hora, mais ou menos, muito menos que seu ritmo usual. Ela sabia que isso era fadiga.

Ele não tinha dormido nada na última noite... estivera preocupado demais com ela. E diferente da maioria das pessoas, cuja irritabilidade aumentava com o cansaço, a de Sawyer na verdade diminuía. Devido ao seu temperamento forte e pavio curto serem sempre tão proeminentemente aparentes quando estava bem acordado, ele tendia a perder a força quando sua energia se esgotava. Ela havia percebido esse fenômeno antes, e por estranho que parecesse, era uma das coisas que ela mais a enternecia nele. Ela sorriu gentilmente para ele quando empinou a cabeça para cima mais uma vez, fazendo um valente esforço para focalizar os olhos na televisão.

Jack, em contraste, parecia excruciantemente alerta. Fixava a tela com uma tensão quase desesperada, sentado na beirada de sua cadeira. E nem era um jogo de final, pensou Kate, se sentindo confusa. Seria um desses caras obcecados com beisebol? Ela não se lembrava dele ter jamais falado sobre isso antes, na ilha.
O fogo estava morrendo, mas nenhum deles parecia notar. Kate considerou tentar colocar mais alguma lenha, ela mesma, mas sabia que isto faria ambos se sentirem culpados e acabava não valendo a pena.

Finalmente, a última jogada foi feita, um arremesso nada dramático e anti-climático do lançador até a primeira base e o jogo acabou. O Red Sox tinha ganhado. Jack pareceu se curvar um pouco e em vez de parecer triunfante ou aliviado, ele parecia abatido e estranhamento magoado. Mas ele não queria que eles ganhassem? Kate não sabia o que pensar.

Para sua surpresa, Sawyer subitamente falou de seu lugar a seu lado. Ela pensara que ele estivesse adormecido, mas aparentemente não estava. Suas palavras não significavam nada para ela, então ela, por alguns segundos não estava inteiramente convencida de que ele não tinha falado dormindo.

"Acho que você e seu velho estavam errado," disse ele, vagarosamente.

Jack se virou para ele. "Perdão?" Mas, ele parecia ter entendido.

"Sobre o Sox nunca ganhar o campeonato," replicou Sawyer.

Jack pareceu surpreso por alguns segundos, mas dái riu amargamente.

"Bem, coisas mais estranhas acontecem, Sawyer." Ele olhou para Kate significantemente e baixou os olhos.

Ela olhou para Sawyer, interrogativamente. Havia um leve traço de sorriso em seu rosto, mas não parecia malicioso.

"Pena ele não estar aqui pra ver isso."

"Por que diz isso?" a cabeça de Jack levantou de um ímpeto e com alguma coisa que parecia raiva em sua expressão. Era uma leve força oculta que Kate raramente tinha sentido em sua presença. E parecia ser trazida à tona apenas por Sawyer.

"Aposto que ele esperou muito tempo por esta noite, não é?" continuou Sawyer, num tom pensativo. "Pena que ele pediu as contas uns meses antes."

Jack se levantou e deu uns passos em direção ao sofá. Kate colocou sua mão levemente no cotovelo de Sawyer, alarmada.

"Você acha que conhece meu pai? Você acha que, porque tomou uns poucos drinks com ele, que o conheceu? Não conheceu. Pode acreditar." Ele parecia estar se esforçando para controlar sua raiva.

Sawyer foi apanhado de surpresa à princípio, mas sua própria raiva foi despertada. Ele se levantou. "Acha que não, hem? Porque do jeito que eu lembro, ele parecia pensar que nós tínhamos muito em comum."

Kate olhava de um para outro, assustada. Do que eles estavam falando?

"Olha," disse Jack, num tom baixo, falsamente calmo. "Eu aprecio o que fez... me dando sua mensagem. Embora você tenha esperado até o último minuto possível para isso," ele acrescentou, quase como um aparte. "Mas, se você acha que isso lhe dá o direito... o direito de..." ele parou atormentado.

"O direito de quê?" Perguntou Sawyer, parecendo genuinamente confuso. "Diabo, Doc, eu achei que a gente só tava falando de beisebol! Se eu soubesse que você ia ter um peripaque, não teria falado no velho." Ele olhou em volta admirado. "O que diabos você fez ao cara, afinal? Tô achando que deve ter sido bem grave se só mencionar isso te faz querer entrar no ringue de boxe."

"Seu filho-da-puta," murmurou Jack, indo em direção dele.

"Hey!" Interveio Kate, rapidamente. "Que diabo é isso?"

Jack parou, parecendo culpado. Ambos se viraram para Kate, como se tivessem esquecido que ela estava lá.

Ela olhou os dois, atentamente, intrigada. "Jack?" Ela esperou por algum tipo de resposta.

Mas, ele não explicou. Se virando para Sawyer, ele disse, cansadamente, "Eu compreendo que esta é sua casa, tá bem? E por isso eu tentei ao máximo, durante todo o dia, ignorar seus comentários cretinos."

Sawyer virou os olhos, mas Jack continuou. "Mas, é óbvio que ficar aqui foi uma má idéia pra começar. Então, eu vou apenas chamar um táxi e me registrar num hotel. Acho que vai ser a melhor coisa para todos nós. Sinto muito, Kate," acrescentou ele, percebendo como ela parecia desapontada.

Era claro que o primeiro instinto de Sawyer foi de alívio com essa notícia, mas, aí, ele também, percebeu a expressão de Kate. Ele olhou para ela por um segundo e disse asperamente. "Não se preocupe. Tô indo pra cama." Ele girou a cabeça na direção de Jack. "Então, pode se poupar do trabalho."

Kate olhou para Jack com velada esperança. Ele suspirou alto, mas pareceu ceder.
"Você vem?" perguntou Sawyer para Kate enquanto caminhava para a porta. Havia um desafio em suas palavras, mas ele também parecia preocupado. Ele esperou tenso.

Ela se sentiu péssima, mas já sabia qual resposta daria. Olhando para o chão, disse, "Eu estive dormindo o dia todo, então não estou realmente... não estou realmente cansada ainda," completou ela frouxamente. Ela o procurou com os olhos, tentando atenuar o impacto.

O desapontamento dele com ela foi aparente. "Yeah," disse ele, se virando com um sorriso amargo, como se fôsse exatamente isso que esperasse escutar. "Aproveitem o seu coração-pra-coração, então. Tenho certeza que esperaram por isso o dia todo." Lançando um último olhar de desprezo para os dois de uma vez, ele saiu da sala.

Kate e Jack se entreolharam. Então, Kate pareceu tomar uma decisão. Ela não podia deixá-lo ir assim. "Eu já volto," disse ela, suavemente, seguindo Sawyer.

Ele estava começando a subir as escadas, quando ela o alcançou. "Sawyer."

Se virando, ele desceu até a base da escada, parecendo exausto. "O quê?"

Ela o fixou, implorando, embora pudesse perceber que ele não queria olhar em seus olhos. "Eu já vou subir." Ela fez um esforço para parecer firme, convincente.

Ele não disse nada, mas, estava se acalmando com ela, percebeu Kate.

"Hey," disse ela, forçando-o a olhar para ela. "Eu não vou demorar, eu prometo."

Expirando lentamente, ele levantou as mãos e tirou o cabelo do rosto dela de ambos os lado. "Se eu descer aqui e pegar vocês jogando Monopólio..." murmurou ele ameaçadoramente.

Ela lhe deu um brilhante e risonho sorriso. Encostando a testa contra o peito dele por um segundo, ela se afastou e sussurrou, ainda sorrindo. "Nada de Monopólio. Entendi."

Eles estavam bem próximos da sala e ela não sabia se Jack podir escutá-los de lá ou não, ou o que poderia entender de tal ameaça bizarra, se pudesse. Mas, ela realmente não ligava.

Dessa vez Sawyer se curvara para beijá-la - um profundo, lento e insistente beijo, com tanta força por trás dele que ela teve que se apoiar no estrado da escada para evitar cair para trás.

Por alguns poucos segundos, durante o auge do beijo, ela ficou tentada a subir as escadas com ele.

Ele finalmente se afastou e pareceu beber em sua fisionomia como se pensasse que poderia nunca vê-la de novo. Talvez, ele pense que não vai, ela entendeu com uma dolorosa tristeza. Ele parecia morto de medo, como se, com Jack ali, tudo estivesse perdido. E não havia absolutamente nada que ela pudesse dizer para fazê-lo se sentir diferente.

Ela tocou seu rosto levemente, dizendo num sussurro, "Dorme um pouco."
Ele olhou ansiosamente para a porta do quarto mais uma vez, apertando a mão dela e se dirigiu para a escada. Ela segurou seus dedos por alguns segundos, somente largando-os quando ele havia subido tanto que fôra forçada a largar.

Ela o observou ir, e daí, respirando fundo, voltou para a sala de estar.

Jack havia finalmente percebido que o fogo estava apagando, então ele passou alguns minutos reacendendo. Kate se sentou perto da lareira, observando-o, tentando ignorar a dor forte que começava a se espalhar por todo o braço. Quando ele empilhou lenha bastante, a chama se levantou, e todo o aposento se aqueceu quase imediatamente.

"Você fez uma boa fogueira," disse Kate, apreciando.

Ele olhou para ela. "Bem, tive muita prática." Se sentando, ele acrescentou, "Acho que todos tivemos, não é?"

"É," concordou ela, suavemente.

Ele a estudou por um segundo. "Provavelmente está na hora do analgésico."

Ela pensou em recusar, mas achou melhor, não. Ele tirou alguns do vidro e lhe estendeu. Ela apanhou o copo que estava lá desde cedo e que ainda tinha um pouco d´água no fundo.

"Vou apanhar mais pra você," ele ofereceu.

"Tudo bem," ela protestou, tomando as pílulas antes que ele pegasse o copo.

Depois de engoli-las, ela esperou um segundo. Parecia que não havia um jeito fácil de começar a conversa.

Numa voz baixa e suave, ela perguntou, "O que foi tudo isso, Jack?"

"O que foi o quê?"

Ela continuou encarando-o, sabendo que ele não precisa que ela esclarecesse nada.

Finalmente, ele suspirou. "Lá em Sydney, Sawyer... encontrou meu pai. Num bar. Deve ter sido poucos dias antes do avião decolar." Ele deu uma pausa. "Ele nunca te contou sobre isso?"

"Não," disse ela, chocada. "Eu.. eu não tinha idéia." Ela desviou olhar, pensativa. "Mas, você disse... você não disse que seu pai tinha morrido em Sydney?"

"É," disse Jack, parecendo um pouco enjoado. "Ele morreu. Deve ter sido pouco depois disso."

Lentamente, ela disse, "Então, isso significa que Sawyer..."

"Foi, provavelmente uma das últimas pessoas a falar com ele," Jack completou para ela. Ele quase parecia que queria rir. "Que ironia, hã?"

Kate sorriu forçada, os olhos ainda tristes.

"Mas, a despeito de tudo, estou contente por ele ter estado lá," disse Jack meio de má vontade. "Já que meu pai, aparentemente, seguindo sua rotina de auto-piedade, deve ter começado uma conversa sobre como sua vida estava ferrada... e ela naturalmente acabou girando sobre mim." Ele abanou a cabeça, imaginando a cena. "Até posso ouvi-lo." Depois de alguns segundos, Jack se levantou e continuou. "De qualquer forma, o que ele disse à Sawyer... o que ele disse sobre mim... Era algo que eu precisava escutar. Algo que eu vou lembrar até o dia da minha morte. Se eu tiver sorte, as únicas palavras de Sawyer que vou lembrar até o dia da minha morte," ele acrescentou com um olhar atravessado.

O confronto de ainda agora finalmente começava a fazer sentido para Kate, as peças entrando nos lugares. Ela assentiu com a cabeça.

Jack continuou. "Sinto muito pelo que aconteceu antes. Eu nunca deveria ter reagido daquele jeito... Realmente, eu não sei o que deu em mim." Ele pensou por um segundo. "Talvez seja por que ele está certo... meu pai deveria ter ficado para ver esse jogo. Ele esperou a vida toda para ver isso. Se não tivesse sido por mim, ele poderia ter ficado."

"Não entendo," disse Kate, confusa. "Você nem estava lá quando ele morreu...Como poderia ter impedido isso?"

Por um momento, ele não disse nada e pareceu estar debatendo consigo mesmo se queria explicar ou não. Finalmente, chegou a uma decisão. Falando o menos possível, contou-lhe numa voz prosaica. "Ele estava operando sob influência alcoólica no hospital onde ambos trabalhávamos e ele cometeu um erro. O paciente morreu. Era o único que sabia o porque e durante a investigação, eu o entreguei. Ele perdeu o emprego e ... quase tudo o mais."

"Jack." Kate sussurrou, horrorizada e empática ao mesmo tempo. Ela não tinha a menor idéia. Por um momento, a enormidade daquilo pesou nela, a entorpecendo, e ela não sabia o que mais dizer.

Eles permaneceram sentados em silêncio.

Ela acabou falando numa voz suave. "Foi a coisa certa a fazer."

Então, com um fio de ironia, ela acrescentou, "Imagino o quão ridículo essas palavras possam parecer vindas de mim."

Jack negou levemente com a cabeça, "Não são, na verdade."

Ela baixou os olhos, esperando por um segundo. Havia algo que ele precisava perguntar e já que a conversa dado margem a isso naturalmente, parecia ser uma hora tão boa quanto outra qualquer.

"Falando em fazer a coisa certa," ela começou.

"Kate," disse ele com medo, obviamente vendo onde ela queria chegar.

Mas, ela foi em frente. "Na última vez que você esteve aqui... escutei você dizer a Sawyer que achava que eu devia me entregar. Que era minha melhor opção. É isso..." Ela parou, depois se obrigou a continuar. "Ainda acredita nisso?"

Ele suspirou, era claro que ele preferia fazer qualquer coisa no mundo do que responder esta pergunta.

"Honestamente, no abstrato... Sim. Se eu estivesse lendo a história do seu caso ou escutando sobre isso no jornal ou no Procurados da América... então eu diria que você está sendo louca em não se entregar."

Ela fez que sim com a cabeça numa tentativa de ser objetiva, tentando evitar que lágrimas de se formarem.
"Mas, estando sentado aqui, na sua frente, te olhando. E você não sendo algum número em série ou um rosto num cartaz de procurada... Você sendo apenas...Kate," Ele sorriu tristemente. "Então, o pensamento de você desperdiçar os melhores anos de sua vida na prisão me deixa com o estômago virado."

"Então, isso é um sim ou um não?" perguntou ela com um leve sorriso, as lágrimas mais próximas de caírem.

Ele pensou, mas tudo que disse foi, "Talvez eu não seja a melhor pessoa para responder essa pergunta."

Ela decidiu deixar por isso mesmo. No fim das contas, provavelmente nem fôsse uma pergunta cuja resposta ela realmente quisesse saber.

Por um momento, eles ficaram em silêncio. O crepitar do fogo e o tique-taque do relógio em cima da lareira eram os únicos sons na sala.

Jack olhou em volta, com curiosidade. "Esta casa deve ser bem antiga."

"Foi construída em 1918," disse ela, um pouco orgulhosamente. As palavras soaram engraçadas a seus ouvidos e ela percebeu, após alguns segundos, que eram as mesmas que ela e Sawyer trocaram na primeira noite que ela ficara lá. Que estranho que agora cabia a ela informar a alguém mais sobre a idade da casa, naquele jeito conhecedor de proprietária.

Ele continuou a examinar o aposento. "Vou me arriscar numa grande adivinhação e dizer que foi você quem arrumou a mobília."

Ela riu. "Bom palpite. Você não teria acredito como estava feio, antes."
"Se Sawyer tinha arrumado, posso imaginar."

Ela não disse nada por um minuto, mas depois começou num hesitante. "Eu sei o quanto isso parece louco, Jack... Como tudo isso pode parecer pra você." Era bastante claro que ela não estava mais falando da mobília. "Eu queria que houvesse algum jeito que eu pudesse explicar... que fizesse sentido."

Ele parecia estar pensando profundamente. Depois de um curto lapso, ele olhou para ela com olhos magoados e, de certa forma, acusadores. "Por que não veio até mim, Kate?"

O que ela tinha esperado dele era o tipo de resposta a qual ela estava acostumada no passado, algo como, "Você não tem que explicar," ou uma frase tranquilizadora similar. Mas, esta pergunta ela não havia previsto e não conseguia esconder o fato de ter sido apanhada de surpresa.

Ele deve ter percebido o quão surpresa ela ficou, por que ele se apressou em explicar. "Eu sei que não é uma coisa que eu devesse perguntar, mas achei que já que tinha me feito de idiota essa noite, eu não tinha nada mais a perder. E eu queria saber," ele terminou simplesmente. As palavras que ficaram pairando no ar, não ditas, foram Você me deve essa, pelo menos. Ela pôde sentir a presença delas mesmo ele não as tendo dito.

Fechando os olhos brevemente, ela falou numa voz calma. "Sawyer quis saber a mesma coisa quando apareci aqui."

"E o que você lhe disse?"

Ela pensou em dizer que não se lembrava ou que não tinha dito nada, mas, valia o esforço? Jack não a pressionaria, ela sabia, mas qual era a vantagem de esconder dele?

"Eu disse que ... não queria te envolver nisso."

Jack olhou para ela, quase achando graça. "Acho que essa não vale mais."

Kate sorriu um pouco. Inspirando profundamente, ela tentou terminar isso honestamente. "E eu disse a ele que..." Ela parou, desejando que não fôsse tão brutalmente doloroso. Ela não sabia como prosseguir sem feri-lo.

"Que você não sabia se podia confiar em mim?" completou Jack, com um leve sorriso amargo.

Ela baixou os olhos, tanto aliviada quanto desacoroçoada pela exatidão de seu palpite. Ela não disse nada. O que poderia dizer?

"Eu sei que não faz mais diferença agora,mas... pra constar? Você podia." Ele a observou atentamente.

Ela passou a manga rapidamente pela bochecha, onde uma lágrima havia caído, a despeito de sua vigilância.

"Não estou querendo te incomodar, Kate," disse ele gentilmente. "Só me ocorreu mais cedo imaginar... Se você tivesse me procurado, isso seria nós?" Ele olhou em volta do aposento de novo, com um ar pensativo. "Seríamos nos a ter um cachorro, um termostato quebrado e a tia visitando?" Seu tom era quase de brincadeira, mas seus olhos deram a impressão oposta.

"Você merece tanta coisa melhor do que eu, Jack," disse ela, balançando a cabeça, sua voz ameaçando quebrar.

"Mas, Sawyer, não?" ele perguntou, com uma rápida risada.

"Não," ela disse, com um sorriso sincero. "Ele não. Nós merecemos um ao outro. Os olhos dela encontraram os dele com um traço de alegria em sua expressão.

Felizmente, Jack não tinha perdido seu senso de humor, tampouco. "Me desculpe, Kate, mas não me parece muito promissor."

Ainda sorrindo um pouco, ela desviou o olhar. "Eu não quis dizer isso. É só... é difícil de explicar."

"Ajudaria se eu matasse alguém?"

"Jack." Sua voz era quase um sussurro.

"Sinto muito," disse ele, parecendo sincero. "Sou o primeiro a admitir que não nunca fui bom em perder."

"Você não me perdeu."

Ele não respondeu a isso diretamente, já que, obviamente, não era verdade. "Talvez esteja louco. Quero dizer, talvez eu esteja apenas imaginando que havia alguma coisa pra começar. Eu pensei que havia... ou pelo menos, potencial para isso. Mas, talvez estivesse errado."

"Você não estava errado," disse ela, sem encontrar os olhos dele.

"Eu acho que era só porque sempre foi tão fácil falar com você," ele continuou, quase para si mesmo. "Como se sempre tivéssemos nos conhecido. Ainda parece assim. Entende?"

"É," ela concordou suavemente. "De certa forma, eu sempre te conheci."

Ele pareceu confuso com isso, mas não pediu para ela esclarecer.

"Uma cois é certa, entretanto." Ele olhou diretamente para ela. "Nunca conheci ninguém como você."

Ela desviou o olhar, amargamente. "Devia estar grato por isso."

Ele continuou olhando para ela, pensativamente, até que ela se virou para ele.
"Não estou," disse ele simplesmente.

Ele então olhou para o fogo por um minuto. Depois de um intervalo, ele falou de novo, mas sua voz soava diferente - cansada, mas também calma, quase tranqüila.

"Você está feliz, Kate?"

Ele continuou a olhar as chamas, esperando por sua resposta.

Ela decidiu ser completamente verdadeira. "Tão feliz como posso ser, considerando... o jeito que as coisas são."

Ele assentiu com a cabeça.

"Você está apaixonada por ele, não está?"

Ele levantou os olhos, precisando ver a confirmação em seu rosto bem como ouvir a resposta.

Ela engoliu em seco e se sentiu prestes a chorar de novo. Inspirando profunda e tremulamente, ela encontrou seu olhar. "Yeah." Ela parou, e seu rosto se suavizou um pouco. "Estou."

Era claro que sua resposta era dolorosa para ele, mas, ele conseguiu dar um pequeno, frágil sorriso. "Então, é isso que importa, certo?"

Ela esperou um segundo e fez que sim com a cabeça. "Certo."

O silêncio pesou entre eles e Kate notou, pela primeira vez, que estava exausta. Jack pareceu notar no mesmo instante.

"Foi um longo dia," disse ele empaticamente. "Acho que talvez devêssemos ambos tentar dormir."

"Vou te mostrar o seu quarto," disse ela calmamente, se levantando.

Uma vez no andar de cima, ela acendeu a luz do quarto no qual dormira e descobriu, para seu constrangimento, que não havia lençóis na cama.

"Só um segundo," disse ela. Indo até o armário da sala e, com dificuldade, puxou os lençóis com o braço esquerdo.

Jack pegou o volume que estava em seu braço, quando ela voltou ao quarto e começou a fazer a cama. Incapaz de se conter, Kate começou a ajudá-lo no outro lado.

"Eu faço isso, Kate," disse ele delicadamente. "Não se preocupe com isso. Já fiz camas antes, sabe."

"Eu sei," disse ela, recusando-se a parar. "Eu só me sinto uma idiota. Deveria ter feito logo quando lavei os lençóis ontem, mas, em vez disso, enfiei no armário..." Ela parecia aborrecida consigo mesma.

"Você realmente vive aqui,não é?" Ele parecia divertido e triste, ao mesmo tempo.
"O quê?" ela perguntou, intrigada.

"Quero dizer, você não está apenas ficando aqui. Esta é a sua casa." Tinha alguma coisa que soava resignada e derrotada no jeito como ele falou essas palavras.

Ela encaixou o lençol em volta da quina do colchão, percebendo que ele estava certo. Era a primeira vez que a idéia lhe ocorrera e isso lhe deu um sentimento que ela nunca havia experimentado antes.

"Acho que sim," disse ela num tom de voz pensativo.

Eles continuaram a fazer a cama, um em cada lado, puxando as cobertas e as encaixando, dobrando-as in ritmo perfeito e combinado. Era uma cooperação fácil, amigável e ela se lembrou por um breve instante do dia que ela e Sawyer estavam empilhando lenha na varanda e a vibração de excitante e elétrica competição que os havia levado a tentar ultrapassar um ao outro. O contraste não podia ser mais impressionante.

Quando terminaram, não parecia haver nada mais a ser dito. Eles se disseram outro boa-noite, mas Kate parou no portal, lembrando-se de algo.

"O que era que você queria dizer, mais cedo? Quando Sawyer voltou com as prescrições e interrompeu você?"

"Oh," disse ele, lembrando agora. "Eu só... queria pedir desculpas."

"Pelo quê?"

"Por uma coisa que eu devia ter pedido há muito tempo atrás. Logo depois de ter acontecido, na verdade."

Ela olhou como se não tivesse uma pista do que ele estava falando.

"Eu a acusei de tentar envenenar Michael. Ou dei a entender uma acusação o que é a mesma coisa. E sinto muito por isso. Eu nunca deveria ter pulado para essa conclusão. Eu te conheço bem demais para isso." Ele lhe deu um olhar aberto e sincero.

A expressão de Kate, entretanto, gradualmente mudou de curiosidade para vergonha e miséria. Ela olhou para o chão, atormentada. Ela podia aceitar as desculpas e deixá-lo continuar pensando que ele estava errado. Mas, num nível quase masoquista, ela precisava que ele soubesse a verdade para provar que tinha razão. Especialmente agora.

Ele a observou, sem entender por que ela parecia tão incomodada. "O que foi?"

Ela falou suavemente, mas sem gaguejar ou hesitar. "Foi minha idéia." Ela olhou para ele "Eu disse para Sun fazer isso."

A princípio ele pareceu não acreditar nela, mas, então a desilusão se acomodou. Ele balançou a cabeça, sem ser capaz de esconder o quanto estava desapontado.
"Sinto muito," ela murmurou.

Ele respirou fundo e expirou, renunciando a alguma coisa. "Não sinta. Está tudo no passado, não é?" Obviamente não se referindo apenas ao envenenamento, mas ao que havia entre eles, estava agora no passado.

"Yeah," disse ela, tentando dar a ele um sorriso, mas não se saindo muito bem.

"Boa noite, Kate."

"Noite, Jack," ela respondeu tristemente. Ela quebrou o olhar pelo que parecia ser a última vez e fechou a porta atrás dela.

Ela parara agora no corredor, entre os dois quartos. Tomando um segundo para se recompor e colocar as emoções em ordem, ela atravessou o aposento e abriu a porta de Sawyer.

"Pare de fingir que está dormindo," disse ela depois de fechar a porta. "Eu sei que não está."

"Sabe uma ova," ele murmurou dentro do travesseiro.

Ela sorriu, sentando na beirada da cama. "Venha me ajudar a me despir."

"Ah, bom," disse ele, se levantando devagar e acendendo o abajur perto dele no criado-mudo.

"Esse é o tipo de trabalho que eu não me importo em fazer."

Com inesperada delicadeza, ele tirou seu jeans. Ela começou a remover a tipóia para tirar a camiseta, mas ele a impediu.

"Espera um pouco." Com uma manobra complicada que ela não pôde nem acompanhar, ele conseguiu tirar tanto sua camiseta quanto seu sutiã sem nem encostar na tipóia.

Ela olhou para ele surpresa. "Você age como se já tivesse feito isso antes."
Ele riu em tom de segredo. "Quer mesmo saber?"

"Não," disse ela rapidamente, com um sorriso torto. "Jamais me conte esta estória."

Ele começou a ajudá-la a colocar a parte de cima do pijama, quando parou, reparando o lado de seu bícep.

"Jesus... olha pra isso! Parece que você levou o coice de um maldito cavalo." Ele se referia ao hematoma que se formara onde as três injeções foram aplicadas.
"Jack disse que podia acontecer. É normal."

"Normal," ele murmurou com desprezo. "Talvez se ele não tivesse enfiado as injeções como se tivesse jogando dardos."

Ela suspirou.

Talvez se sentindo mal pela observação, ele se inclinou e beijou a área machucada, tão levemente que causou a ela cócegas. Ele enfileirou beijos até seu ombro, chegando ao pescoço, gradualmente aumentando a pressão.

"Sawyer," disse ela em tom de aviso.

"O quê?" ele perguntou, afastando seu cabelo para que pudesse ter um acesso mais fácil à área debaixo de sua orelha.

"Tá brincando? Jack está do outro lado do corredor!" ele sussurrou.

"Daí?"

"Você é terrível," disse ela, sacudindo a cabeça e rindo como se não estivesse surpresa.

"Nós podemos deixar baixinho, não podemos?" perguntou ele com um brilho no olhar.

Enquanto voltava a beijá-la, ela tentou arrazoar com ele.

"Nós dois estamos exaustos... Meu braço tá numa tipóia e eu estou tão alta com os analgésicos que provavelmente nem vou conseguir sentir alguma coisa.

"Então, acho que não vai ter que se preocupar em fazer barulho, vai?"

"Eu não acredito," ela gemeu, ainda rindo. Ela se afastou dele, segurando-o à distância com o braço bom. Ficando mais séria, ela disse firmemente, "Eu compenso amanhã. Eu prometo."

"Tá," disse ele sarcasticamente, se jogando de costas na cama. "Se você não decidir fugir com o Doc, quer dizer."

"Como você pode sequer brincar com uma coisa dessas?"

"O que te faz pensar que é uma brincadeira?"

Se jogando por cima dele, ela se inclinou em seu peito, olhando diretamente em seus olhos. O medo não saíra deles ainda, não completamente.

"Quando você vai meter nessa sua cabeça que eu já fiz minha escolha? Eu fiz no segundo que subi por aquela estúpida janela... E se você não fosse tão pateticamente inseguro, talvez já tivesse entendido isso."

Ele virou os olhos um pouco, mas estava escutando atentamente.
Pronunciando as palavras claramente, energicamente, ela falou pouco mais acima do que um sussurro.

"Eu não vou para lugar nenhum."

Ela se apoiou nele para beijá-lo e suas objeções anteriores foram completamente esquecidas.

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Se Jack escutou alguma coisa naquela noite, ele se recusou a admitir isso, até para si mesmo.