Capítulo 33 – Traduzido por Ana Ford
Como Sawyer havia previsto, Kate ficou um tanto distante por alguns dias depois da partida de Jack. Ela tentou bastante não ficar - e ele lhe deu crédito por isso, pelo menos. Mas, foi impossível para ela esconder completamente suas emoções, especialmente agora que ele a conhecia tão bem. Comparado com o desastre que Jack havia deixado em seu rastro na última vez que estivera lá, claro, isto estava sendo brando na comparação. E nem era constante, na verdade. Na maior parte do tempo, ela estava bem. Mas, havia momentos em que ele olhava para ela, quando não sabia que estava sendo olhada, que ele podia detectar uma leve e dolorida tristeza em sua expressão. Isso o deixava ansioso, embora ele soubesse, racionalmente, que não havia razão para se sentir desse jeito. Ainda assim, ele queria que ela corresse e superasse tudo isso de uma vez por todas.
O braço dela continuava a melhorar. Dois dias depois
da partida de Jack, ela já conseguiu retirar a bandagem e
deixá-lo livre. Seguindo as instruções de Jack
ao pé da letra, eles deixaram os pontos no lugar, embora as
incisões parecessem curadas completamente. Parecia que não
ficariam cicatrizes, algo pelo qual Sawyer provavelmente estava mais
grato do que ela. Afinal, ele tinha manejado a faca.
No
terceiro dia após a partida de Jack, Sawyer estava se
espreguiçando indolentemente no sofá, assistindo a um
talk show diurno sensacionalista. Embora estivesse vagamente
envergonhado de si mesmo e embora continuasse se perguntando como
diabos alguém pudesse assistir essa porcaria, ele não
mudou de canal. Duas mulheres gordas escassamente vestidas estavam
gritando uma com a outra e parecia que o encontro se tornaria
violento a qualquer segundo. Ele se endireitou um pouco mais no sofá,
fascinado, a despeito de si mesmo. Bem aí, a televisão
escureceu, a imagem se desvanecendo em um pequeno ponto no meio da
tela e apagando de vez. Ele olhou em volta, espantado. Kate estava
atrás dele com o controle remoto.
"Ei! Eu tava assistindo!"
"Eu sei," disse ela secamente. "Por que acha que eu desliguei?"
"Estava chegando na melhor parte," ele resmungou, aborrecido.
Ela o encarou por um segundo, divertida. Ele notou um brilho de excitação em seus olhos, um tom de travessura, como se ela estivesse para fazer alguma coisa. Ela não ficava assim já a alguns dias. Será que ela queria sexo? ele se perguntou esperançoso.
"Sabe que dia é hoje?" ela perguntou de um jeito misterioso.
Ele pensou por um segundo. "Não é seu aniversário de novo, é?"
Ela virou os olhos. "É Halloween."
"E?" ele esperou.
"Não percebe o que isso significa?" disse ela, olhando-o como se ele fosse um idiota.
"Significa.. que um bando de fedelhos loucos por açúcar vão bater na porta, exigindo doces. E que eu não vou dar," concluiu ele com um olhar satisfeito.
Kate suspirou. "Significa," corrigiu ela, "que nós podemos sair da casa." Ela enfatizou as últimas palavras atentamente e ele viu o brilho de excitação em seus olhos de novo.
"O quê?" perguntou ele, realmente confuso.
"É Halloween, Sawyer! É a única noite do ano que ninguém se parece com o que deveria ser... Todo mundo finge ser outra pessoa, usando um disfarce. Nós podemos ir a algum lugar e ninguém vai nos reconhecer."
"Esqueça," disse ele,
rapidamente, se virando de novo para a televisão, embora ainda
estivesse desligada.
"Por quê?" ela exigiu
saber.
"Como assim porque? Quem é que fica paranóica e praticamente tem um ataque cardíaco cada vez que um helicóptero voa baixo ou um cara do UPS bate na porta? Você quer mesmo arriscar tudo só por uma noite na cidade? Por que eu tenho que dizer, querida, eu pensava que você fôsse mais esperta."
"Ninguém vai estar
procurando por mim essa noite. Os tiras vão ter muito com que
se preocupar só tentando colocar na linha adolescentes fora de
controle... e eu não vou estar reconhecível, no final
das contas." Ela deu uma pausa, e continuou mais calmamente. "Se
eu não achasse seguro, nem consideraria algo assim. Você
sabe disso."
"Você tá fora de si,"
disse ele, balançando a cabeça.
"Sawyer," disse ela seriamente. Ele se virou para ela. "Eu tenho que sair daqui. Mesmo que só por uma noite."
"Pensei que você gostasse daqui," disse ele amargamente, parecendo magoado.
"E gosto," replicou ela, se ajoelhando a seu lado. "Mas, não importa o quanto se goste de qualquer lugar, não se pode passar ali vinte-e-quatro horas por dia, sete dias por semana, sem enlouquecer em algum momento. Eu não estou acostumada com isso," dise ela, olhando para longe. "Quer dizer, eu já tinha me escondido antes, mas, nunca por tanto tempo. E era diferente... eu tinha tiras atrás de mim, mas, eu não era notícia nacional. Eu podia sair se fôsse cuidadosa. Agora, nem mais esse risco eu posso correr. Esta pode ser minha única chance. Por favor." Ela olhou para ele, implorando.
"Além do mais," ela continuou com ironia, relanceando em direção à televisão. "A julgar pela sua escolha de programas, acho que seria uma boa idéia pra você dar o fora daqui por um tempo, também."
"Você
tá louca se acha que alguma loja ainda tem fantasias sobrando
no Halloween," disse ele, ainda irritado.
"A gente
arruma alguma coisa," disse ela, parecendo entusiasmada por
tê-lo envolvido nisso. "Na verdade, aposto que deve ter
coisas no sótão que podíamos usar. Deve ter pelo
menos dez baús cheios de roupas, todas pré-anos
cinquenta. Você vive numa cápsula do tempo,
Sawyer."
Ele virou os olhos, sem responder.
"Vamos lá," disse ela, agarrando seu braço e tentando puxá-lo. "Você tem algum plano melhor pra hoje? Vai ser divertido!"
Embora duvidasse seriamente da verdade dessa declaração, ele se deixou arrastar por ela da sala. "Acha que tem alguma chance de achar alguma fantasia de estrela pornô por lá?"
"Não conte com isso," disse ela.
"Não custa nada tentar," disse ele cansadamente.
Uma vez no sótão, levou alguns minutos para remover as pilhas de coisas amontoadas sobre os vários baús e depois arrastá-los para que pudessem ser abertos. Eles passaram o tempo espirrando, espanando teias de aranha e exclamando variações da frase "Gus, não! Não coma isso!" Sawyer começou a remexer num velho guarda-roupa perto da janela, enquanto Kate abria um armário de viagem perto da quina da porta.
Depois de uns minutos de silêncio, ele a ouviu soltar um suspiro divertido.
"O que você achou?" perguntou ele curioso.
"Roupas de bebê," respondeu ela, levantando o que parecia um pequenino vestido branco bordado com pequenas pérolas.
Ele riu. "Sem ofensas, docinho, mas, acho que não vai caber."
Ela lhe deu um olhar desdenhoso e fechou o armário.
"Então... você acha que Jack estava certo?" perguntou ela casualmente;
"Provavelmente não," disse ele com um sorriso. "Mas, você vai ter que me dar alguma pequena informação a mais sobre isso."
"Sobre eu ter ganhado peso." Ela olhou para ele acusadoramente. "Eu notei que você não o desmentiu."
"Por favor..." disse ele com desprezo. "Você parece um garoto de 12 anos."
Ela zombou incredulamente dele, colocando as mãos nos quadris.
" Quê?" perguntou ele na defensiva, tentando retificar a situação. "Um garoto de 12 anos sexy!"
Kate levantou as sobrancelhas e esperou, tentando não rir.
"Isso não saiu direito," disse ele, parecendo extremamente desconfortável. "Olha, podemos apenas mudar de assunto!"
"De bom grado," disse ela se aproximando de outro baú.
Mas, Sawyer não era bom em mudar de assunto, mesmo quando era ele quem sugeria mudá-lo. Depois de alguns segundos, ele recomeçou.
"Você acha que, por que ele é um médico, pode dizer se você engordou só olhando pra você? Isso é besteira."
"Bem," disse ela explicando. "É óbvio que eu não tenho me exercitado ultimamente... eu ando comendo constantemente. Além disso, você me vê todo dia, então, não é como se você pudesse realmente julgar do jeito que ele pode."
"Então, por que diabos me perguntou?"
"Sei lá, Sawyer," disse ela, calmamente, futucando no baú. "Esquece."
"Aposto que você aceitaria a minha palavra se eu fôsse médico, certo?" Ele olhou cortante para ela.
Ela suspirou. "Devia nunca ter falado nada."
Ele a ignorou, aparentemente refletindo profundamente. "Ei, tive uma idéia... talvez seja assim que minha fantasia deva ser. Eu arrumo um avental de médico... talvez um estetoscópio, uma prancheta."
Kate olhou rápido para ele, imaginando se ele estava falando sério. Ela pareceu vagamente interessada, apesar de tudo.
"Gostou da idéia?" perguntou ele maliciosamente, piscando para ela.
'Não," disse ela num tom firme, incapaz de impedir um sorriso.
"Diabos, esqueça o Halloween," continuou ele pensativamente. "Talvez eu deva só usar pela casa. Deixar você toda nervosa e preocupada."
"Você tem um sério problema," disse ela, corando levemente.
"Pena você ter uma queda por médicos," acrescentou ele, pesarosamente. "Acho que minha profissão nunca vai se equiparar."
"Sua profissão?" ela riu. "E qual, exatamente, ela seria? Con-man profissional?"
"Não arrumei um nome, ainda," ele disse. "Tô pensando nisso."
"Sabe, é sorte eu não ter ninguém pra te apresentar. O que eu diria a eles sobre o que você faz?"
Ele considerou. "Você podia dizer a eles ... que eu estou em entresafra."
"Entre golpes, você quer dizer," disse ela, não exatamente brincando.
Se irritando, ele olhou atentamente para ela. "É, bem, não te vejo reclamar sobre a comida que isso compra... ou a eletricidade ou a água quente, ou sei lá mais o que."
"Esse dinheiro não vai durar pra sempre," disse ela suavemente, sem encontrar seu olhos.
"Valeu pela dica, Pudinzinho," disse ele com desdém. "Mas, sou eu quem está gastando, então, acho que eu sei o quanto vai durar melhor do que você."
Kate, no entanto, pressionou. "E o que você vai fazer quando acabar? Roubar mais algum?"
"Tem idéia melhor?"
Eles se olharam seriamente, toda a brincadeira havia evaporado sem eles sequer se darem conta disso.
"Você podia arrumar um emprego," ela sugeriu, olhando de esguelha. "Você já teve algum emprego de verdade, antes?"
"Yeah, eu já tive um emprego de verdade! O que diabos você acha?"
"Eu não sei, Sawyer!" ela protestou com sinceridade. "Como posso saber? Você nunca fala sobre o seu passado!"
Ele desviou os olhos, zangado. "Olha, eu vou fazer o que tiver que ser feito, tá bem? Deixa que eu me preocupo com o dinheiro." Ele olhou para ela, seu rosto suavizou uma pequeniníssima parte. "Você já tem problemas de sobra."
Comovida, ela baixou os olhos, se sentindo arrependida.
Atravessando o aposento, ela se abaixou na frente dele, no chão, forçando-o a olhar para ela, embora pudesse perceber que ele queria ficar de mau humor. Eles se olharam nos olhos por alguns segundos, se desculpando sem palavras.Daí Kate se inclinou para beijá-lo. Bem quando ele estava começando a se deixar levar, entretanto, ela se afastou, distraída com a caixa atrás dele.
"Ei, olha aquilo!" disse ela, parecendo intrigada. Ela pegou um antigo chapéu de cowboy preto Stetson. Tirando a poeira, ela o colocou na cabeça de Sawyer, ajeitando-o corretamente e se inclinou para trás para observá-lo contemplativamente. Ela aprovou com a cabeça, achando sexy e hilário ao mesmo tempo, do mesmo jeito que os óculos tinham ficado. "Vai ficar bom!" disse ela.
Ele ficou aborrecido. "Detesto
estragar tudo pra você, Freckles, mas, isso não é
uma fantasia. É um chapéu."
Ela olhou
dentro da caixa de novo, desta vez puxando um espalhafatoso boá
rosa de penas, que ela imediatamente enrolou em volta do pescoço
dele, com um floreio. "Agora é uma fantasia,"
disse ela, se levantando para admirar a obra.
Ele arrancou o boá e o atirou para o lado enquanto ela ria.
"Ache alguma coisa, então," disse-lhe ela, voltando para o baú que estivera olhando antes.
"Mina de ouro," ele a ouviu murmurar alguns minutos depois. Ela levantou alguns leves e transparentes tecidos dobrados, em tons de violeta escuro, azul e preto.
"O que você vai fazer com isso?" perguntou ele, intrigado.
"Você vai ver," disse ela em tom de segredo, separando-os. Havia um fulgor de antecipação em seus olhos e ele não pode deixar de se deleitar com isso, já que raramente ela ficava desse jeito. Ela era linda o tempo todo, claro, mas, ficava ainda mais linda quando estava feliz. Havia uma espécie de brilho em volta dela enquanto ela continuava a procurar pelo baú e ele se viu incapaz de afastar seu olhar.
Enquanto ele observava, ela levantou uma caixa pelo fundo, debaixo de algumas toalhas de mesa antigas. Puxando a tampa com curiosidade, ela delicadamente pegou uma fotografia de cima de uma pilha.
Reparando que ele a observava, ela se moveu para perto dele, ainda carregando a caixa. "Estes são os seus avós?" perguntou ela, se sentando a seu lado.
Ele deu uma espiada na foto de
dois jovens com roupas de 1930. "Não sei dizer," ele
falou evasivamente.
"Como não sabe dizer? Não
acha que deve ser capaz de reconhecer seus próprios
avós?"
"Bem,quando eu conheci eles, já eram velhos," disse ele em defesa. Já que ela ainda segurava o retrato, ele o pegou e olhou mais atentamente. "É," disse ele quietamente. "São eles. Os pais de meu pai... Adam e Josephine Ford."
Kate se curvou sobre seu braço, examinando mais de perto. "Uau," ela suspirou. "Você parece exatamente como seu avô." Ela examinou Sawyer pensativamente. "Quer dizer, se ele tivesse mais cabelo e barba."
"Era o que sempre diziam... que eu tinha puxado à ele. Mas, não me lembro dele de verdade. Ele morreu quando eu tinha três... Por isso meus pais ficaram com a casa."
"A semelhança é incrível," disse ela de novo, olhando para o rapaz de terno preto do retrato.
Ela começou a remexer nas outras fotos da caixa, puxando algumas aleatoriamente. "Sua avó era linda."
Virando um retrato de um grupo de adolescentes
muito jovens de braços dados, ela leu atrás: "As
meninas e eu depois da noite na cadeia."
Sawyer
levantou as sobrancelhas. "Ela esteve na cadeia?"
Kate virou o retrato de novo e o examinou mais detalhadamente, piscando para decifrar as palavras em um cartaz que uma das moças segurava. " Igualdade para as mulheres.." Ela sorriu ao entender, olhando para Sawyer. "Ela era uma sufragete."
"O que diabos é isso?" perguntou ele, parecendo confuso. Lhe soava como uma espécie de culto.
"O movimento do
sufrágio feminino?" perguntou Kate, olhando como se ele
fôsse um idiota. "Está brincando?"
"Oh,"
disse ele, entendendo agora. "A coisa do voto?"
"É, a coisa do voto," repetiu Kate, sarcasticamente. "Ela não devia ter mais do que catorze ou quinze," ela calculou, olhando o retrato de novo.
"Acho que meu avô tinha uma queda por criminosas, também, então," disse ele brincalhão. Mas, soube quase instantaneamente que não deveria ter dito aquilo.
Kate olhou rápido para baixo, parecendo magoada.
Droga... Será que ele nunca ia aprender a morder a língua? Ele suspirou.
"Tá ok," disse ela antes dele pedir desculpas. Ultimamente com os dois, a intenção sempre substituía o ato. Ela lhe deu um leve sorriso, desculpando.
"Você ia ter
gostado dela," disse ele, num tom brando. "Ela tinha uma
propensão pro dramático."
Kate ouvia com
interesse, esperando que ele continuasse.
"Ela sempre pensou que era uma beldade Sulista, mesmo tendo vindo de uma cabana de um quarto, nas montanhas da Georgia. E ela estava determinada que nenhum de seus filhos ia se casar, por que queria manter os dois em casa pra cuidar dela. Quando o meu tio fugiu e se casou com Meg num capricho, ela ficou tão contrariada que se jogou pelo poço pra fazer uma desmontração."
"Sério?" perguntou Kate, impressionada.
"Não era um poço muito fundo," disse ele sardonicamente. "Mas, todo o condado veio ver tirarem ela. Exceto a Tia Meg, que já estava lá e não deixou que a tirassem até que a minha avó concordasse em parar de bancar a criança e aceitar o fato que ela não ia embora de jeito nenhum. Ela até baixou um papel pra minha avó assinar, assim ela teria tudo por escrito. Depois disso, ficaram as melhores amigas. Quando a minha mãe se casou e entrou pra família, ela morria de medo das duas."
Kate sorriu, imaginando tudo isso. Ela olhou ternamente para Sawyer.
"Eles costumavam contar essa
estória o tempo todo," disse ele, ainda perdido nas
lembranças. Daí ele pareceu triste.
"Tinha me
esquecido como era," disse Kate, suavemente.
"O quê?" ele perguntou, olhando para ela.
"Ter uma família," ela sussurrou.
Ele demorou um segundo e desviou o olhar.
"Eu também."
Eles ficaram sentados sem falar por alguns segundos, pensando em tudo que haviam perdido e em tudo que nunca tiveram.
Kate puxou outro retrato da caixa, sem realmente pensar no que estava fazendo. Ela olhou o verso primeiro, lendo alto. "Feira Estadual do Tennessee, 1936 - O dia que nos apaixonamos." Ela o virou para a frente, melancolicamente. E ficou paralizada por um segundo, sua expressão mudando para o de choque. "Oh, meu Deus," disse ela em tom baixo, trazendo a foto para perto dos olhos, tentando pegar a pouca luz que entrava pela janela.
"Que foi?" perguntou Sawyer, um pouco preocupado. O que podia haver num retrato de setenta anos para deixá-la tão perturbada?
Ela continuou com os olhos fixados na foto por alguns segundos, mas, de repente levantou os olhos, "Veja o que ela está vestindo," disse Kate espantada.
Ele olhou, sem entender. Era um vestido. E daí? Mas, parecia estranhamente familiar. E nisso lhe ocorreu num flash que este era O vestido... aquele que Kate tinha vestido vários dias durante as primeiras semanas que tinha ficado lá. Ele se sentiu singularmente assombrado.
Kate parecia passar por uma reação diferente, entretanto. Ela parecia quase sonhadora. "Esse é o vestido que eu estava usando na primeira que vez que nós..." ela parou, claramente sem certeza de qual frase usar nessa situação.
"Primeira vez que nós o quê?" perguntou ele com um sorriso petulante, momentaneamente esquecendo o quão esquisito era tudo aquilo.
Ela espremeu os olhos para ele, tomando a foto de sua mão. "Você sabe o que eu quis dizer."
Ele pensou mais um pouco sobre isso, se sentindo crescentemente perturbado.
"Você não acha romântico?" perguntou Kate. "Que foi? Por que tá parecendo tão assustado?"
Com relutância, ele disse, "Eu tava pensando... Se você faz sexo com alguém usando as roupas da sua avó, não é como se estivesse fazendo sexo com a sua avó?" Ele pareceu vagamente enojado.
Kate o alcançou e lhe deu uma pancada no peito, sua visão sentimental estraçalhada. "Você tinha que estragar tudo?"
Aí ela
sorriu para ele, recolocando o retrato na caixa e se levantando. Ela
colocou a caixa de volta no baú e fechou a tampa. Pegando a
pilha de tecidos, disse para ele "Vou procurar um tesoura... vê
o que o você pode fazer com essas coisas. Continua procurando.
Vai escurecer em algumas horas," acrescentou ela,levantando as
sobrancelhas.
"E aonde vamos na nossa grande noite fora
afinal?"
"Não sei," respondeu ela. "Isso faz parte do divertimento, não faz? Vamos só... ver o que a gente consegue."
Eles se encararam por alguns
segundos mais e ele se maravilhou com o quanto ela parecia uma
criança. Seu entusiasmo era contagiante, por que ele se viu
antecipando a chegada na noite, apesar de seus temores
iniciais.
"Vem, Gus!" ela chamou enquanto começava
a descer as escadas. O filhote trotou alegremente atrás dela,
com o focinho e as orelhas cobertas de teias de aranha.
Sawyer os observou saindo, se permitindo, por alguns momentos, pelo menos, se apoiar no que ele tinha e não no que havia perdido.
