Capítulo 34 - Traduzido por Cristianepf
Kate estava ajoelhada no chão da sala, o tecido estava caído sobre ela em dobras sedosas que se espalhavam por todos os lados. Ela estava cortando e enfeitando por quase uma hora agora, e a fantasia estava quase pronta. Agora tudo era questão de continuar e ver se aquilo ia mesmo funcionar. Ela ainda não tinha visto Sawyer, e estava começando a ficar preocupada pensando que ele podia ter dormido em algum lugar lá em cima. Isso, ou ele tinha descoberto a coleção de Playboys que ela tinha visto em um canto mas prudentemente esqueceu de contar à ele. Aparentemente, ele e seu avô tinham muito em comum.
Quando ela estava à ponto de ir procurar por ele, escutou seus vagarosos e pesados passos descendo a escada. Ela olhou para cima e de volta para o tecido quando ele entrou na sala, mas então paralisou e voltou a olhar para ele numa combinação de choque e divertimento. Ele estava descalço, com calças pretas rasgadas e enroladas abaixo dos joelhos. Como camisa, ele vestia uma branca com um tipo de babado perto do pescoço que poderia possivelmente ter sido de uma mulher. Mesmo com o cabelo dele estando mais curto agora, havia o suficiênte para ser amarrado atrás do pescoço. Cobrindo sua cabeça havia um lenço, também amarrado atrás. Mas o melhor era o tapa-olho preto.
Ele estava de pé na frente dela, parecendo zangado mais ainda assim com expectativas, esperando a reação dela.
"O que você deveria ser?" ela perguntou devagar, curiosa.
Ele levantou as mãos e então as abaixou novamente, olhando para outro lado em sinal de irritação. "Que diabos você quer dizer com, o que eu deveria ser, mulher? Eu sou um pirata! Não é óbvio?"
Kate sorriu agora, olhando para o chão e concordando com a cabeça. "Eu sei. Eu só queria ouvir você pronunciar as palavras, Eu sou um pirata."
Ele estreitou os olhos para ela em sinal de aborrecimento. "Muito engraçado," ele disse, atirando-se numa cadeira e tirando o tapa-olho.
Kate percebeu que devia ser mais apoiadora. O ego frágil dele requeria um tipo de incentivo que ela não estava habituada a dar. Mas hoje, ela teria de fazer um esforço extra. Senão, ele nunca ia sair vestido daquele jeito, e seus planos para a noite estariam arruinados.
Levantando-se, ela caminhou até ele e se empoleirou no braço da cadeira que ele estava sentado.
"Está perfeito," ela disse num tom de aprovação.
Ele ainda não respondeu.
"De fato," ela disse pensativa, colocando suas mãos nos ombros dele. "Se você pensar bem, você praticamente é um pirata."
"Como você descobriu?" ele perguntou sarcasticamente. Mas parecia interessado.
"Bem, veja as evidências." Ela começou a enumerar nos dedos. "Você é um criminoso. Rouba de gente rica. Foi abandonado em uma ilha deserta, e você teve o braço esfaqueado por um soldado estrangeiro. Você construiu uma jangada para escapar, e velejou com um grupo de desajustados na vasta imensidão," ela concluiu com ostentação. Colocando os braços em torno dele por trás, ela se inclinou e falou próximo ao ouvido dele. "Isso tudo parece bem pirata pra mim. Tudo que lhe falta é um papagaio."
"Você é cheia dessas bobagens," ele resmungou. Mas ela tinha certeza que ele estava pensado a respeito, e que ele tinha gostado da idéia. Ela praticamente ver as voltas da cabeça dele - Diabos, ela está certa... EU SOU como um pirata.
Rindo secretamente, ela deu um beijo no pescoço dele.
"Ainda não terminou a sua?" ele perguntou, apontando para o tecido.
"Acho que já." Ela levantou e reuniu o amontoado nos braços, colocando-os no sofá. "Mas eu vou esperar até o jantar pra experimentar. Estou faminta, você não?" ela perguntou, indo até a cozinha.
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Ajeitar a fantasia e fazer os mínimos ajustes levou mais tempo do que Kate tinha esperado, então era algo em torno de 10:00 da noite quando ela finalmente subiu lá pra cima. Sawyer estava esperando por ela, impaciente, mesmo que originalmente fosse contra a idéia de sair pra qualquer lugar.
"Então?" Ela perguntou, dando uma voltinha para que ele inspecionasse enquanto ele a olhava maravilhado. Ela estava vestida dos pés à cabeça de violeta, azul e preto, e ela de alguma maneira conseguiu fazer com que todas as cores estivessem harmônicas e no tamanho certo ao mesmo tempo. Usando um pedaço de tela preta, ela criou um véu que cobria seu rosto, deixando suas feições pouco visíveis. Mesmo sob o véu ele podia notar que ela estava usando maquiagem - lápis de olho e rímel, uma espécie de sombra brilhante que combinava com a fantasia, e um batom vermelho escuro.
"Eu sou uma cigana," ela explicou, parecendo envergonhada. "Ou... algo como isso. Foi a única coisa que eu consegui pensar que deixaria meu rosto coberto... ou o velho e manjado fantasma feito de com lençol."
Ainda sem palavras, ele levantou o véu para ver melhor o rosto dela. Embora ele tivesse pensado umas semanas atrás que ele nunca queria ver ela usando maquiagem, ele agora sentia seu pulso acelerar pelo quanto inacreditavelmente sexy ela estava. Ele nunca a tinha imaginado assim, e ele tinha que lutar contra o desejo de jogá-la no sofá e colocar suas mãos nela de uma maneira bem selvagem. Mas ele tinha a impressão que ela não ia gostar nada do gesto - especialmente quando ela havia levado tanto tempo para se aprontar.
"Por Deus," ele disse quase sem conseguir respirar. "Tem certeza que não quer ficar em casa?"
Ela sorriu maliciosamente para ele. "Tenho certeza. Mas se você jogar direitinho, eu fico com ela por algumas horas depois de voltarmos para casa."
"Eu vou cobrar isso," ele sussurrou, levando as mãos até a cintura dela e roçando suavemente seus lábios contra os dela antes de tirá-los, provocando-a. Ela fechou os olhos por um segundo e respirou fundo fraquejando, mas então sorriu e saiu de perto dele.
"Eu sei o que você está tentando fazer, e não vai funcionar. Pegue as chaves."
"Sim, madame," ele disse com um gracejo, pegando as chaves da mesa do corredor. Ela podia comandá-lo como quisesse, enquanto ela estivesse vestida daquele jeito. "De onde veio a maquiagem?"
Ela lhe lançou um olhar de divertimento. "Do porta-luva do seu carro."
Droga. Ele não devia ter perguntado.
"E não se preocupe," ela acrescentou. "Eu não vou te perguntar a quem pertence."
"Ótimo. Porque não tem a menor chance de eu saber de quem é," ele disse brincando, jogando as chaves pra cima e depois pegando.
"Eu acho que não," ela disse, revirando os olhos.
Gus colocou a cabeça no corredor e olhou curiosamente para os dois, obviamente não gostando nada de toda essa história de Dia das Bruxas. Kate o chamou e se ajoelhou, abraçando o cãozinho.
"Eu me sinto tão culpada por deixá-lo sozinho."
"Ele provavelmente vai pensar que estamos dormindo lá em cima," Sawyer disse, tentando apurá-la.
"Cuide da casa, está bem, Gus?" Kate disse ao cachorro. Ele lambeu o nariz dela, e ela levantou, sorrindo.
Ela olhou para a fantasia de Sawyer de novo. "Sabe," ela disse pensativa. "Você realmente precisa de uma espada para completar o conjunto."
"Tenho algo melhor que isso." Metendo a mão no bolso, ele sacou uma arma.
Kate ficou séria e desviou o olhar. "Eu não quero que você leve isso," ela disse em voz baixa.
"Que pena."
"Sawyer." Ela encontrou os olhos dele. "Por uma noite, podemos só fingir que somos o tipo de pessoas que precisa carregar armas pra todo lugar?" Ela parecia triste.
"Mas nós somos." Ele olhou para ela com firmeza.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, sem discutir com ele. "Por favor," ela tentou de novo.
Ele suspirou pesadamente. Com óbvia relutância, ele largou a arma na mesa, já sentindo falta do reconfortante peso dela em seu bolso.
"Obrigada," ela sussurrou, olhando para a arma com pesar.
"Então... está pronta?" Ele perguntou.
Lá estava aquela breve empolgação nos olhos dela de novo.
"Vamos," ela disse.
Dando o melhor de si para ignorar sua tensão, ele a conduziu para fora.
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Por um tempo eles só dirigiram, sem ir a nenhum lugar em especial. Pequenas nuvens, no céu azul escuro, passavam em frente à lua. Uma brisa fazia com que as folhas mortas caídas se agitassem pela rua em frente aos faróis da caminhonete. Havia uma qualidade assustadora na atmosfera, como se até a natureza tivesse consciência de que o Dia das Bruxas fosse diferente de todos os outros dias.
Mesmo que fosse muito frio para isso, Kate mantinha a janela aberta, se deliciando com o simples sentir do ar em sua pele. Era algo que ela tinha experimentado tão raramente nos últimos tempos que ela quase se esquecera da sensação. Ela para as árvores do lado de fora e para as poucas casas que eles passavam com certa ânsia, e Sawyer a observava com o canto do olho.
"Quer sair pra pedir 'Gostosuras ou travessuras'?" ele perguntou.
Ela olhou para ele, distraidamente. "Acho que ninguém vai nos dar doces."
"Eles dariam se eu tivesse trazido a arma," ele disse, rancoroso.
Ela riu. "Apenas continue dirigindo. "
Depois de mais alguns minutos, a floresta se abriu e o terreno ficou plano. Havia um grande prado aberto, cheio de pessoas e carros estacionados. Um palco havia sido montado em uma extremidade, e se ouvia uma música fraca vinda daquela direção.
"Reduza," Kate disse empolgada. "Parece uma festa."
"Eu não conheço aquelas pessoas!" ele argumentou.
"E daí? Deve ter uns cem carros estacionados lá! Eles não vão saber a diferença. Provavelmente estão todos bêbados, de qualquer maneira."
Dando ré um pouco, ele colocou o carro na entrada. "Espero que saiba onde está nos metendo," ele disse com certo temor.
Ele estacionou o mais perto da estrada que pode. Ambos saíram do carro e ficaram ali por um minuto, hesitantes. A banda, uma espécie de fusão entre rock e um ritmo popular, terminou uma música, e alguns gritos podiam ser ouvidos do outro lado do campo.
"Ponha seu tapa-olho de volta," Kate disse, alcançando-o para ele.
Com um suspiro, ele colocou. Ela arrumou seu véu e eles nervosamente começaram a ir para o centro do prado onde grupos de pessoas estavam ou indo para lá. Era uma grande multidão, e a maioria deles parecida ser bem jovem, perto dos vinte anos. Quase todos fantasiados, algumas mais elaboradas que as outras.
Kate se aproximou e pegou a mão de Sawyer. Ele a apertou, sabendo que essa era a primeira vez em meses que ela ficava com pessoas que não conhecia. Embora não era possível que alguém fosse reconhecê-la em seu disfarce, era igualmente inconfortável.
"Uh-Oh, sardenta... não olhe agora," ele disse em um tom brincalhão, lembrando a fobia irracional dela. "Tem um palhaço bem ali."
Ela deu uma olhada para onde ele apontou, sorrindo e parecendo perturbada ao mesmo tempo.
"Como você pode não achar aquilo dá arrepios" ela perguntou a ele.
"Quer que eu vá quebrar a cara dele?"
"Acho que bater num palhaço sem motivo aparente pode chamar a atenção para nós um pouco mais do que deve, não acha? Mas obrigada pela oferta. "
Eles compartilharam um olhar dr divertimento, mas então forma distraídos por uma obviamente inebriante loira que cambaleava até eles com uma bandeja. Ela parecia um pouco com Shannon, Kate pensou com desgosto.
"Hey, marinheiro," ela disse em um tom de flerte para Sawyer, olhando-o de cima a baixo.
Kate parou em frente dele. "Ele é um pirata, não um marinheiro," ela disse rispidamente.
Sawyer olhou para ela com deleite. Era a primeira vez que ele via ela demonstrar ao menos uma pontinha de ciúmes, e ele tinha uma prazer imenso com isso.
"Oh," a garota disse, desapontada pela presença de uma namorada. Mas por sorte, a expansão de sua atenção emocional não era muito longa. Examinando Kate, ela disse entusiasmada em um forte sotaque sulista, "Oh meu deus, eu amei a sua fantasia de cigana! Você é Alfa Delta Pi, certo?"
"Um... é," Kate respondeu, dando pra trás. "Obrigada... Eu gosto da sua também. O que... o que exatamente você devia ser?" A garota estava usando o que parecia ser lingerie roubada do figurino de Moulin Rouge.
"Eu sou uma prostituta!" a garota disse alto enquanto a banda começa a tocar de novo.
"Oh!" Kate aclamou, lançando um olhar para Sawyer com incrédula ironia. "Bem, é muito convincente!"
"Obrigada!" A garota disse com sinceridade, colocando a mão no peito. "Deus te abençoe! Peguem umas gelatinas coloridas, certo?" Ela tirou da bandeja de papelão copos contendo gelatina laranja e preto-desmaiado. "Elas são realmente forte!"
Kate pegou uma meio hesitante. Sawyer pegou duas.
"Vejo vocês por aí! " Ela disse enquanto ia em direção a um grupo de garotas vestidas de forma similar a dela.
"Sawyer, " Kate disse advertindo-o.
"O quê?"
"Você está dirigindo."
"Querida, você me tem aqui vestindo uma fantasia de pirata, parado num campo com um bando de garotos de fraternidade e garotas de irmandades. Você tem que me deixar ter algo que faça valer a pena."
Ela suspirou, desistindo.
"Vamos virar os copos," ele disse com um sorriso. Kate levantou o véu um pouco e fingiu engolir a gelatina cheia de vodka, secretamente deixando-a cair no chão. Sawyer não notou.
Eles perambularam perto do palco, ouvindo um pouco a banda medíocre, cujos membros também pareciam estar embriagados. Quando os músicos fizeram uma nova pausa, os dois andaram para o lado do campo, lentamente, aproveitando a chance de estarem fora de casa, de estar fazendo algo relativamente normal, misturando-se no campo com pessoas que não tinham uma vida à beira de uma catástrofe, fingindo por um momento que eles tinham algo em comum com elas.
Kate inclinou-se no parapeito da grade que cercava o lugar, olhando para a lua. "É uma linda noite, não é? Ela disse suavemente.
Antes que Sawyer pudesse responder, um berro vindo de outro lado chegou até eles.
"Hey, James! Sally! Esperem!" A voz gritou, mesmo que eles não estivessem se movendo.
"Oh, merda," Sawyer murmurou entre os dentes cerrados.
Kate olhou em volta alarmada.
Saindo da escuridão, um cara gordinho, de cabelo enrolado vinha até eles, fedendo a cerveja e maconha. Era Greg. Usando... chifres de renas.
"Eu sabia que veria vocês dois por aqui!" ele disse contente. "Uma danada de uma festa, não é?"
"Oi, Greg," Kate disse com um sorriso. Mesmo que ele não fosse o que ela tivesse escolhido, era bom ver um rosto familiar. "Eu gosto de sua fantasia."
"Oh, essas coisas velhas?" ele perguntou modestamente, tocando os chifres. "Eu as tenho desde o Natal, e pensei, porque desperdiçar uma boa fantasia quando se pode usá-la duas vezes?"
"Agora porque nós não pensamos nisso, Sally?" Sawyer perguntou sarcasticamente.
Kate o ignorou. "Como foi na Flórida?"
"Flórida?" Greg parecia confuso.
"Você acabou de voltar da Flórida..." ela o induziu "Você estava visitando seu tio?"
"Oh, isso mesmo!" ele disse, como tudo estivesse claro agora. "Eu tomei esse troço de Ginka Boloney e acho que ié pra minha memória... só que, eu não consigo lembrar de ter tomado."
"Gingko Biloba¹?" Kate corrigiu.
"Isso mesmo! Você tem que tomar essa porcaria, também? Mas de qualquer maneira, na Flórida foi ótimo. Aquele meu tio, é um baita fazendeiro. Claro que só o tomate não dá muito, mas a maconha com certeza dá. Eu trouxe um pouco comigo, se vocês quiserem... " ele começou a fuçar nos bolsos.
"Tudo bem!" Kate disse rapidamente, levantando a mão. "Talvez mais tarde."
"Bem, é só vocês me pedirem, ele disse galantemente, "É por conta da casa."
Kate concordou com a cabeça. "Obrigada."
"A única coisa ruim na viagem foi, que eles confiscaram meu passaporte quando eu voltava pela fronteira."
"A fronteira?" Kate perguntou, pensando que tinha entendido mal.
"É... você não vai querer mexer com os patrulheiros da fronteira. Eles querem negócios, pra você ficar sabendo."
Ela decidiu não se aprofundar mais nas perguntas sobre o assunto. Não havia possibilidades daquilo chegar a algum esclarecimento.
"Então, o que vocês dois andam fazendo?" Greg perguntou, obviamente tentando prolongar a conversa.
Kate tentou pensar em algo que eles podiam contar que não significasse perigo. Sawyer não ia ajudar em nada.
"Nós agora temos um cachorro," ela tentou.
"Não brinca? Eu sou mais de gatos. Mas... hey, James," ele disse olhando para Sawyer. "Você lembra daquele cachorro que você tinha que resgatou aquelas crianças da mina abandonada? E que foi parar na televisão, e fizeram uma grande parada, e o governador até veio e deu ao cão uma medalha?"
"De que diabos você está falando?" Sawyer perguntou, confuso.
"Ou talvez eu tenha visto isso em Lassie," Greg disse, coçando a cabeça.
Kate estava imensamente agradecida pelo véu que cobria o rosto dela. Ela conseguia disfarçar a risada tossindo.
"É melhor a gente ir andando, não é Sally?" Sawyer deu a dica.
"Bem, foi bom ver vocês," Greg disse, dando um tapinha nas costas de Sawyer. "Hey, antes de vocês irem, eu tenho uma adivinhação pra vocês. Eu acabei de ouvir de um dos meus parceiros que está na banda...vocês vão quebrar a cabeça com essa. Ok, prontos?... O que o homem nu disse pro elefante?"
"Well, it sure was good to see you," Greg said, slapping Sawyer on the back. "Hey, before you two leave, I gotta joke for you. I just heard this from one of my buddies in the band... This'll crack you up. Okay, you ready?... What
Greg esperava com alegre expectativa.
Kate deu de ombros enquanto Sawyer revirava os olhos.
"Desistem?" Ele disse... É muito bonitinho, mas consegue pegar amendoins com ele?
Eles continuaram a encará-lo sem entender.
"Espere um pouco," ele disse, pensativo. "Acho que era o elefante que dizia pro homem nu. Ah, bem," ele disse, desistindo. "Acreditem, é muito engraçado."
"Tchau, Greg," Kate disse, quando Sawyer começou a arrastá-la dali.
"Cuidem-se vocês. Você fica mesmo bem melhor quando não está um palito, Sal!"
Ela lançou um olhar incrédulo para Sawyer enquanto ele a guiava para o centro do campo, de volta para o meio da multidão. Ele parecia que se esforçava para não rir.
"Já chega," ela disse com firmeza. "Eu vou fazer regime."
No entanto, antes que ele pudesse ter a chance de responder, dois caras – meninos, na verdade – esbarraram neles, caindo no chão entre os dois. Eles rolavam numa furiosa e agitada briga, trocando socos, e em questão de segundos, já havia dúzias de pessoas pulando sobre eles, e não se sabia se tentavam apartar a briga ou fazer parte dela. Algumas garotas gritavam, e quando a multidão se fechou atrás dela, Kate percebeu que não enxergava mais Sawyer.
Ela tentava sair daquele circulo de pessoas, esperando que longe dele pudesse achar Sawyer, mas rapidamente ela ficou desorientada e nem sequer sabia pra que direção estava indo. As pessoas continuavam a empurrar, e ela experimentou uma sensação de pânico que ela tentava desesperadamente bloquear. Tentando fazer a mente funcionar, ela mordeu o lábio tão forte a ponto de tirar sangue.
De repente, ela sentiu mãos agarrando-a por trás pela cintura, puxando-a. Agindo por instinto, ela se virou e tentou bater nele, usando toda sua força mas sentindo que em reposta só era agarrada com mais força.
"Sou eu!" Sawyer gritou, e ela finalmente enxergou o ridículo lenço vermelho na cabeça dele. O tapa-olho tinha se perdido em meio a bagunça.
Sentindo uma onda de alívio tão palpável que quase a fez ter um colapso, ela se deixou ser guiada por ele pela multidão barulhenta até uma área vazia, um pouco afastada do caos.
Ela se sentou no chão, sendo segurada pelos braços dele. Ele ficou atrás dela, respirando devagar.
"Você ainda acha que foi uma boa idéia?" ele perguntou.
Ela não disse nada. Estava tentando fazer com que seu coração parasse de bater acelerado.
Uma voz feminina se fez ouvir em meio ao barulho, gritando injuriada, "Espero que estejam felizes agora seus idiotas, porque a Becky acabou de chamar a polícia! "
Kate olhou para Sawyer. "Acho que essa é a nossa deixa, né?" Através do véu, ele distinguir um sorriso triste.
Com um suspirou, ele ficou de pé, estendendo a mão. Ela pegou, e eles caminharam até a caminhonete.
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Ela estava quieta na viagem de volta. Considerando tudo, eles tiveram sorte, mas ainda não era assim que eles dois queriam que a noite terminasse. Tendo uma idéia, Sawyer pegou uma estrada diferente antes deles irem pra casa. Pelo fato de Kate não estar familiarizada com o caminho, ela nem notou que mudaram de direção.
Ele entrou num estacionamento de cascalho de um pequeno restaurante e à moda antiga, isolado no meio do nada. Só havia mais um carro lá.
"O que é isso?" Kate perguntou quando ele desligou o motor. "Um restaurante?"
"Fique ai," ele disse misteriosamente, saindo pra fora do carro. Ele fez a volta e abriu a porta para ela, com um galanteio cômico que a fez rir.
"Está aberto?" ela perguntou a ele, descendo do carro.
"As luzes ainda estão acesas," ele disse, olhando para o prédio.
Eles se aproximaram da porta. Não havia nenhuma placa dizendo aberto ou fechado, mas porta estava destrancada, então eles entraram.
Sentada numa mesa perto da registradora, pintando as unhas, estava uma magra, desagradável e de aparência cansada, mulher velha vestindo um uniforme de garçonete. Ela levantou a cabeça quando ouviu o sino da porta, e ao notar as fantasias, revirou os olhos e sacudiu a cabeça com desgosto. Suspirando alto, ela levantou e pegou dois menus do balcão.
"Fumantes ou não?" Ela perguntou sem cerimônia ao se aproximar deles. O crachá a identificava como Grace², o que não podia ser mais inapropriado.
Sawyer olhou em volta. "Só tem uma sala grande, não é?"
"Bem, as pessoas se sentem melhor se eu pergunto," ela disse irritada. "Espertinho," ela acrescentou, alcançando os menus para eles. "Sentem onde quiserem." Voltando para a mesa, ela se deixou cair na cadeira e voltou a sua manicure.
Sawyer olhou para Kate, sem palavras. Ela escolheu um cantinho, para que ambos tivessem o mais distante de tudo.
Eles deslizaram pelo banco almofadado e ficaram se olhando. Mesmo que fizessem isso na mesa da casa de Sawyer centenas de vezes antes, eles ainda se sentiam estranhos. Era a primeira vez que eles estavam saindo juntos, como uma casal normal. Eles estavam dormindo juntos por um mês, mas este era o seu primeiro encontro. Ambos pareciam perceber isso ao mesmo tempo, e Kate sem jeito baixou a cabeça para olhar o menu.
"Achei que você ia entrar em um regime," ele disse provocando-a.
Ela lhe lançou um olhar insolente, fechando o menu. "Vou pedir só um café."
Quando a garçonete foi até eles, ele pediu café para os dois.
"Isso é tudo" ela disse com rancor, guardando seu bloquinho de notas.
"Isso é tudo, Grace," Sawyer repetiu com um brilho nos olhos, devolvendo a ela os menus.
Ela balançou a cabeça indignada, como se ela não pudesse acreditar que tinha de lidar com aquela porcaria. Alguns segundos depois ela retornou e pousou pesadamente as xícaras em frente deles. Sem nenhuma palavra ela serviu o café e saiu, voltando para a cozinha.
Sawyer levantou as sobrancelhas para Kate. "Eu acho que ela gosta de mim," ele disse em tom de confidência.
Ela sorriu. "Não é bem o que parece."
Cuidadosamente, ela colocou o véu sobre a cabeça e bebericou o café, fazendo careta ao notar o quão forte estava. Sawyer a observava, ainda fascinado pela transformação da aparência dela.
"O quê?" ela finalmente perguntou, ficando inconfortável com o exame detalhado que ele fazia.
"Só me perguntando se vou ter meus três desejos ou não."
"Você está falando de um gênio, não uma cigana," ela disse com ironia.
"Ah," ele disse, se sentindo um idiota. "Então o que uma cigana faz?"
"Eu não sei... " ela considerou. "Eu acho que... lê a sorte, ou olha numa bola de cristal?"
"Ok, então," ele disse. "O que você vê no meu futuro?" ele olhava para ela atentamente, não completamente brincando.
Ela ficou quieta por um minuto, olhando para a mesa, e então deu um sorriso triste. "Nós não vamos fazer isso, lembra?"
"Fazer o quê?"
"Pensar no futuro," ela sussurrou.
Ele estava desapontado com ela, mas nem sequer podia explicar porque. "É," ele disse calmamente, desviando o olhar.
Ela se permitiu a fazer uma pausa bem apropriada, examinando o lugar com curiosidade.
"Você tem algum trocado?" ela perguntou de repente, como se tivesse tido uma idéia.
"Por quê?" ele perguntou, desconfiado.
Ela gesticulou para o outro canto da sala, onde estava uma jukebox antiga debaixo de um neon da coca-cola.
"Não," ele disse rapidamente.
Ela não acreditou nele. "Você tem sim."
"Sinto muito... estou sem trocados."
Ela continuo encarando-o, séria. "Eu prometo que não vou fazer você dançar, ok?"
Ele pensou por um segundo, pensando de podia confiar nela. "Jura que não?"
"Sim," ela disse, revirando os olhos. "Me dá logo o dinheiro."
Com certa resistência, ele tirou a carteira e lhe deu uns trocados. Parecendo que sentia pena por ele, ela atravessou o lugar em direção a jukebox enquanto ele a observava com interesse.
A música Crazy começou a tocar quando ela deu volta e sentou de novo, country era familiar para ele por causa de sua infância.
"Patsy Cline?" ele perguntou, pensando que ela devia ter apertado o botão errado.
"O quê? Você não gosta dela?"
"Nunca pensei muito nisso," ele respondeu com sinceridade.
"O cara que me ajudou a me esconder na Austrália... ele amava Patsy Cline," ela disse, perdida em recordações.
"Aquele que te deu abrigo na casa dele? " Sawyer perguntou, ficando bravo mesmo que isso tivesse acontecido no passado.
"Sim," as expressões dela ficaram um pouco obscuras. "O fazendeiro."
"Você e ele não estavam... você sabe..." Sawyer disse, parecendo enjoado. "Estavam?"
"Sawyer!" ela disse, aborrecida. "Ele estava na casa dos sessenta, no mínimo!"
"Bem," ele respondeu em sua defesa. ""se eu estivesse com meus sessenta, mesmo assim eu tentaria dormir com você. " Ele lhe lançou um sorriso travesso.
Ela fechou os olhos por um segundo. "Não tenho dúvida que isso é verdade."
Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, e ela murmurava a música baixinho, batendo os dedos na mesa, fazendo o melhor para parecer miserável.
Sawyer parecia atormentado. Finalmente, ele exalou alto, com resignação. "Está bem! Mas só até o final da música, entendeu?"
Ela sorriu para ele, seu exagerado desânimo sumiu em um instante. Levantando, ela o puxou da mesa. "Fechado," ela concordou.
Afastando-se da mesa um pouco, ele olhou em volta do restaurante, cautelosamente.
"Ninguém está vendo." Ela lhe garantiu.
Kate colocou os braços em volta do pescoço dele e balançou lentamente no ritmo da música, mas ele dava o melhor de si para resistir.
"Você não está mexendo os pés!" ela protestou.
"Você não disse nada sobre eu ter que mexer meus pés."
"Como exatamente você definiria dançar?"
"Eu estou aqui, não estou? Isso já deve bastar."
Ela pressionou o corpo contra o dele, encostando a cabeça em seu ombro, e ele levou as mãos até o final das costas dela, encantado pela maneira como sentia a pele dela pelo fino tecido da fantasia. Ele continuou a descer as mãos mais e mais, surpreso por ela estar permitindo.
Quando a música acabou, ela encostou seus lábios de leve contra os dele e então os retirou antes que ele pudesse realmente beijá-la, dando a ele exatamente o mesmo tratamento que ele tinha dado a ela mais cedo ainda em casa. Sentando na cadeira, ela olhava para ele com um sorriso maldoso. Ele tentava fazer seu pulso voltar ao normal.
Quando ele se sentou de volta na cadeira em frente dela, no entanto, ficou claro que ela não ia ajudá-lo nem um pouco naquela nobre missão. Em alguns segundos, ele sentiu um pé descalço roçando lentamente em sua perna, massageando gentilmente, incluindo até os dedos na ação. Ele estava impressionado, mas não disse nada. Eles continuaram a se encarar de maneira desafiante enquanto o pé dela subia cada vez mais. Ele engoliu em seco quando ela atingiu o colo dele, e ele sentiu se agitar em resposta. Cristo, o que ela estava fazendo?
"Está tentando começar algo, sardenta? " Ele perguntou suavemente.
"Talvez." Ela deu de ombros.
Alarmado, ele notou que a garçonete retornava pra encher as xícaras de café. Ele tinha certeza de que Kate ela retirar o pé agora, mas ela não o fez. Ao contrário, ela pressionou mais, e ele notou uma ponta de perigo nos olhos dela, indicando que ela talvez estivesse se divertindo um pouco demais com tudo isso.
"Com licença, senhora?" Kate perguntou de repente, deixando-o alerta. A garçonete olhou para ela. Imitando o sotaque sulista da garota da festa de antes, ela continuou. "Você tem um banheiro por aqui?"
"É só para empregados," a garçonete disse.
"Eu entendo." Kate baixou a voz, um sinal de acanhamento e modéstia sulista. Ela mexeu com o cabelo. "É que ... eu bebi muito essa noite, senhora. Eu tenho certeza que vai me entender. "
A garçonete a encarava como se nem de longe entendesse, e como se na verdade estivesse ofendida pela idéia de que ela pudesse entender. No entanto, ela suspirou, cedendo. "No final do corredor depois da cozinha, à esquerda."
"Obrigada, senhora." Kate disse, levando a mão no peito. "Deus a abençoe."
A garçonete olhou para os dois e se retirou de volta para a cozinha.
Sawyer olhou para Kate surpreso. "Quem diabos é você?"
Ela sorriu para ele, sem responder. Levantando, ele se inclinou para sussurrar no seu ouvido, "espere uns minutos. Então me encontre lá."
Sem lhe dar tempo para protestar, ela desapareceu no corredor.
Ele continuou sentado lá excitadamente em choque. Esse era um lado dela que ele nunca havia visto antes, contudo tinha que admitir, ele suspeitava que existia. Talvez infelizmente, era uma coisa que ele reconhecia muito bem - aquela atração pelo perigo que acompanha quem vive nos extremos, além das regras, fugindo sempre que pode. Eles repudiavam seus passados criminosos, mas talvez uma pequena parte deles que sempre fosse ser atraído pelo perigo, aquele risco excitante amplificava e engrandecia a realidade. Possivelmente uma vez que você adquire esse gosto, não há retorno, não importando quão horríveis circunstâncias tivessem te levado a começar com isso.
Mas ele certamente não estava com humor para pensar em dilemas agora. A sensação do pé dela no seu colo ainda estava lá, e ele olhava ansiosamente para o relógio que ficava acima da porta. Quando exatos dois minutos haviam se passado, ele a seguiu pelo corredor.
Depois de uns quinze minutos, a garçonete e alguns clientes foram alarmados por um gemido alto que veio da direção do banheiro. Foi rapidamente silenciado.
A garçonete se apressou até lá, desnorteada, e esmurrou a porta. "O que aconteceu?"
Houve uma prolongada pausa no qual barulhos de pés arrastando e sussurros podiam ser ouvidos do outro lado. Ela bateu novamente, irritada.
A porta foi abrindo lentamente, com dignidade, e Kate saiu, ruborizada. Num tom de voz ofendido, ela disse, "Vocês tem aranhas do tamanho de lagostas. Sorte que ele sabia como matá-las."
Sawyer a seguiu, sorrindo orgulhoso. No que ele pensou se um gesto discreto, levantou o zíper das calças.
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Quase morrendo de rir, eles deram um jeito de subir na caminhonete e se mandar antes que alguém quisesse interrogá-los mais á fundo. Kate sentou perto de Sawyer e se recostou sobre ele pacificamente. O véu tinha sido acidentalmente deixado pra trás na mesa do restaurante, e a maquiagem dela estava praticamente toda escorrendo, mas não importava agora. Eles já estavam quase em casa.
Quando eles se aproximavam da entrada, Sawyer diminuiu a velocidade para desviar do carro estacionado no lado da estrada.
"Parece que alguém teve problemas com o carro," ele disse.
"Devíamos parar?" Kate perguntou, preocupada.
Ele olhou para o carro, que estava escuro e aparentemente abandonado. "Já deve ter conseguido uma carona" ele disse, aliviado.
Ele passou pelo carro e dirigiu o espaço que ainda faltava pra a entrada. Olhando para trás pela janela, Kate observava o carro até que ele estivesse fora da vista, então se virou lentamente de volta.
Mesmo que ela não soubesse a razão, a visão daquele carro lhe proporcionou uma sensação ruim que lhe doía no estômago.
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- Gingko Biloba¹: um medicamento que é usado para auxílio ao tratamento de distúrbios de memória e concentração, e umas coisinhas mais.
- Grace²: Graça.
