Capítulo 35 Traduzido por AndreSoares e Cristianepf

Por alguns segundos depois que Sawyer parou a caminhonete, eles não saíram dela. O silêncio da noite os pressionava, interrompido apenas por uma leve brisa e o barulho dos grilos do final do outono. Eles tinham deixado algumas luzes ligadas de salas escolhidas ao acaso, e a casa agora emanava um brilho vívido e confortante. Eles sentaram e olharam pra ela. Kate tremeu levemente.

"Tá frio?" Sawyer perguntou, olhando pra ela.

"Um pouco"

"Acho melhor entrarmos." Ele relutantemente tirou o braço dos ombros dela e ela sentiu falta do peso aquecido dele quase que imediatamente. Ela preferiria ficar sentada ali apenas mais um pouco, no escuro. Por alguma razão, ela não estava com pressa de entrar.

"Espero que você não esqueça sua promessa, certo" Ele disse assim que as portas da caminhonete bateram simultaneamente.

"Que promessa?" Ela perguntou, sem ter a menor idéia do que ele estava falando.

"Você vai continuar com essa fantasia por algumas horas, lembrou?" Ele deu um sorriso bem conhecido enquanto eles caminhavam para a casa.

"Aquilo não foi uma promessa," Ela disse na defensiva, sorrindo." Além do que, você não se cansou após o jantar?"

"Não," Ele sorriu, destrancando a porta da cozinha. "Estava só me aquecendo."

Ela revirou os olhos. "Era isso o que eu temia."

Ele empurrou a porta aberta e se encostou contra a beirada da porta, gesticulando para dentro. "Damas primeiro."

Ela começou a passar por ele e pausou, voltando apenas um passo para se inclinar e dar um beijo nele.

"Obrigada," ela suspirou.

"Pelo quê?"

"Pelo encontro." Eles sorriram um para o outro.

Se afastando, Kate caminhou para a cozinha. Sawyer a seguiu, fechando e trancando a porta. Ele tirou seu lenço da cabeça e o jogou, junto com as chaves, na mesa da cozinha. Abrindo a geladeira, ele examinou o que tinha dentro com interesse.

Kate colocou a cabeça pra dentro da despensa, onde a caminha do cachorro estava. "Gus?"

Ela saiu da despensa. "Isso é estranho... Ele não está lá."

"Provavelmente está no sofá," Sawyer disse, parecendo irritado.

Ela foi até a sala, enquanto ele continuava olhando dentro da geladeira. Ele queria um sanduíche ou uma cerveja? Ou devia pegar os dois? Mas se ele fizesse isso...

"Sawyer!"

O grito de espanto dela cortou seus pensamentos mundanos com a força de uma machadada. Sem se importar em fechar a porta da geladeira, ele se apressou para onde a voz dela vinha, o coração começando a doer dentro do peito.

Ela estava na porta da frente, ajoelhada sobre alguma coisa. Só havia uma lâmpada na sala, e não chegava muita luz até ali. Ele deu um passo mais pra perto. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela falou de novo, parecendo trêmula e magoada, em descrença.

"Ele ainda está quente..."

Ela moveu-se um pouco pro lado, olhando para ele, e ele mal podia distinguir Gus caído imóvel no chão.

"Sinto muito por isso," uma voz vinha da sala de estar. Lentamente, um homem saiu das sombras, apontando uma arma para Kate. Ela deu pra trás, levantando-se do chão apoiando-se em Sawyer, que tentava colocá-la para trás dele para protegê-la. Eles olhavam para o homem em estado de choque.

"Eu gosto de cães... eu realmente gosto. Eu sempre fui um... grande amante de cachorros. Humm... um especialista em cães, se querem saber. Então, não é nada pessoal contra ele. Na verdade, se vocês pensarem bem, é a coisa mais certa a se fazer. Porque, depois que eu matar vocês, quem vai alimentá-lo? Vocês não iam querer que ele morresse de fome, iam?"

Eles continuaram a encaram o homem, agarrando-se um ao outro desesperadamente. O homem era baixinho, usando um suéter com gola v por cima de uma camiseta de botões,vagabunda de cor de caqui. Ele tinha óculos de armação preta e cabelo castanho incontrolavelmente desgrenhado, Ele todas as características para ser um cientista ou um professor. Inconveniente ele parecia um pouco com... Woody Allen.A arma em sua mão tremia um pouco, e era claro que ele não estava acostumado à isso.

Sawyer engoliu, seu corpo inteiro tenso. Tudo que ele conseguia pensar era que ele não tinha uma arma. Ela o tinha feito tirar a arma do bolso. Porque diabos ele a tinha ouvido? Ele deu uma olhada rápida para a mesa do corredor, mas a arma não estava mais lá. Talvez esse cara não fosse um profissional, mas ele tinha conseguido chegar até aquele ponto.

Agora ele os encarava com curiosidade, como se estivesse esperando por alguma coisa. Sawyer podia sentir que Kate tremia levemente.

"E então?" Ele finalmente perguntou. Eles não disseram nada.

Ele suspirou, abaixando a arma por uma fração de segundos quando ele deixa os braços caírem sobre o corpo e sacudia a cabeça em desapontamento. "Inacreditável..." ele murmurou. "Você nem mesmo me reconhece, não é? Ok, talvez eu não seja a pessoa mais... memorável do mundo... Mas você pensa, você sabe, quando você destrói a vida de um cara, ver ele de novo deve trazer qualquer lembrança!"

"Desculpe," kate finalmente sussurrou, segurando as lágrimas. "Eu não lembro mesmo de vocês."

Ele olhou para ela, confuso. "Não você!" ele disse com escárnio. "Ele!" Ele direcionou a arma mais para o Sawyer agora.

Kate olhou para ele, sem entender nada. Sawyer também não parecia entender.

"Ok, é justo," o sujeito continuou, como se cedesse um pouco. "Então talvez você não lembre de mim. Afinal de contas, só nos vimos uma vez. Mas eu aposto que você lembra da minha esposa, certo? Tara? Isso soa familiar?"

Sawyer respirou fundo, inclinando a cabeça para trás quase imperceptivelmente, uma leve recordação pairava em seus olhos. Tara. Tava Rosenberg. E seu marido. Ele lembrava dos dois agora.- da casa deles em Nova York, dos lençóis de ceda da cama deles, da banheira do andar de baixo, Tara nua segurando uma revista, o encontro com o marido em um restaurante elegante... Havia sido um esquema fácil, levando somente alguns dias. Nenhum dos dois foi difícil de convencer. Tinha sido tão fácil que ele quase nem lembrava.

"É, o sujeito disse, concordando com a cabeça, vendo Sawyer registrar o nome. "Eu achei que isso faria a mágica. Afinal de contas, eu tenho certeza de que vocês tiveram bons momentos juntos. É uma pena que não poder trazê-la comigo." Ele parou, pensativo. "É que ela fez uma loucura uns meses atrás. Ela estava dirigindo numa ponte, e então ela... saiu pra fora pelo acostamento. Levou três dias inteiros até os mergulhadores conseguirem, tirar o corpo dela de lá."

Sawyer sentiu Kate apertar mais seu braço.

"Eu sei, certo?" Ele disse, vendo o horror deles. "Não parece uma coisa que Tara pudesse fazer. Mas eu acho que talvez tivesse algo a ver com o fato de que, com um bebê a caminho, era difícil dizer como íamos sobreviver, já que não tínhamos um centavo e eu perdi meu emprego. Ela sempre teve a consciência pesada, mesmo quando ela não tinha nada pelo que se culpar. Eu acho que ela simplesmente se atirou daquela ponte. Claro, isso é só um palpite, porque ela não deixou nenhum bilhete."

Kate fechou os olhos como se estivesse sentindo dor. Sawyer estava petrificado, incapaz de reagir, tentando ver sentido nisso tudo.

"Quem é essa?" o sujeito agora perguntou, olhando para Kate como se realmente não a tivesse notado antes. "Essa é sua esposa, por acaso?" Havia um olhar cheio de ódio, e um interesse perigoso nos olhos dele.

"Não," Sawyer finalmente respondeu, andrajosamente. "Ela não tem nada a ver com isso."

"Oh, desculpe," ele respondeu, com exagerada cortesia. "Ela é outro servicinho? Estou arruinando tudo?" Ele se voltou para Kate. "Você é casada, querida?"

Ela negou com a cabeça. "Não."

"Bem, então." Ela olhou de volta para Sawyer. "Acho que com essa deve ser de pra valer então, huh?"

Sawyer olhava para ele de maneira fatal, respirando com dificuldade.

"Venha até aqui," ele disse para Kate. Ela não se moveu, e Sawyer não a largou.

"Com licença, moça!" O sujeito chamou, mexendo os braços para chamar a atenção dela. "Você pode não ter notado que eu estou SEGURANDO UMA ARMA. Venha até aqui, agora!"

Ela fez com que Sawyer soltasse seu braço, e seus olhos se encontraram. Lentamente, parou de olhar para ele e se dirigiu até o fim do corredor. Provando ser mais forte do que parecida, o sujeito agarrou o braço dela e a girou, pressionando a arma contra as costas dela.

"O que acham de irmos para a outra sala para ficarmos mais confortáveis, vamos? Você primeiro," ele disse para Sawyer. "Ai dentro." Ele indicou a sala com a cabeça.

Sem tirar os olhos de Kate, suas mãos claramente comichando para atacar o sujeito mas a razão fazendo o melhor para se conter, Sawyer foi para a sala.

Emburrando Kate na frente dele, o sujeito disso. "Meu nome é Norman, a propósito."

"Kate," ela sussurrou entre lágrimas.

"Bom te conhecer, Kate," ele disse, com ironia.

"Você senta ali," ele disse a Sawyer, mostrando uma cadeira. "Nós ficamos com o sofá... está bem pra você, Kate?" ela não respondeu.

Quando todos já estavam sentados, a arma ainda pressionada inconfortavelmente contra as costas de Kate, Normal falou. "Então, vocês, uh... vocês provavelmente estão se perguntando porque eu os trouxe aqui. Bem, eu vou ser honesto... Este é meu primeiro assassinato, e eu pensei que talvez todos devêssemos nos conhecer melhor antes de começarmos. Vocês provavelmente pensam que isso soa estranho, mas levei meses pra encontrá-lo, e eu acho que seria, bem, realmente um pouco anti-climático se tudo acabar tão rapidamente. Entendem o que quero dizer?"

Eles não responderam. Ele suspirou.

Olhando com curiosidade para os dois, examinando suas roupas, ele perguntou. "Então, o que são vocês dois, em algum tipo de culto religioso ou o quê?"

"É dia das Bruxas," Kate explicou com voz trêmula.

Norman pareceu fazer uma ligação dupla. "Hoje é Dia das Bruxas? Hoje, " ele repetiu, incrédulo. "Vocês tem certeza disso?" Ela fez que sim com a cabeça, alarmada.

"Jesus," ele disse quase sem ar, desdenhosamente. "Eu não acredito nisso... de todas as noites. Eu quero dizer, ora vamos... Dia das Bruxas? Eu vindo aqui para matá-los no Dia das Bruxas? Isto é tão clichê... tão banal, e ... e exagerado, entendem? Espero que não pensem que eu planejei assim. " Ele parecia genuinamente embaraçado.

Sawyer se sentou na ponta da cadeira, e Kate maneou a cabeça negativamente, tão de leve que foi quase imperceptível. Era muito perigoso. O sujeito era um canhão prestes a disparar... os olhos dele eram selvagens, insanos. Não havia garantias de conseguir segurá-lo antes dele disparar a arma. Ela tentou fazer com que ele entendesse tudo isso, mesmo que ele provavelmente já sabia.

Notando o olhar que eles trocavam, Norman empurrou a arma mais fundo em Kate, fazendo com que ela recuasse. "Eu prestaria atenção nela se eu fosse você," ele disse a Sawyer. "Ela parece ser uma garota bem esperta. Apesar do fato dela estar com você, é claro. Deve ter sido um lapso no julgamento."

"Se você vai matar a nós dois mesmo, que diferença vai fazer?" Sawyer perguntou calmamente, olhando-o direto nos olhos.

"Não faz muita diferença para mim," ele respondeu. "Era em você que eu estava pensando. Entende, uma coisa sobre armas é que, você pode apontar pra onde quiser. Eu atiro nela aqui," ele disse pensativo, mantendo a arma nas costas dela, "Eu acerto o pulmão dela, provavelmente vai levar uma hora ou duas pra ela morrer. Eu atiro aqui." Ele move a arma até o estômago dela, e Kate segura a respiração e fecha os olhos com força, "e vai demorar bem mais do que algumas horas. E não vai ser bonito. Mas se por outro lado, eu atirar aqui, onde eu estou planejando," ele diz, levando o cano das arma até a têmpora dela, "as luzes se apagam rápido assim." Ele estralou os dedos. "Então, a escolha é sua, de verdade. De qualquer maneira, você vai assistir."

Sawyer se sentou pra trás na cadeira, parecendo impotente e enjoado. Ele não tinha a menor idéia do que fazer. Qualquer movimento que ele fizesse podia colocar Kate em risco

Eles ficaram em silêncio por alguns segundos. Norman parecia estar bravo consigo mesmo. "Dia das Bruxas," ele murmurou. "Eu não consigo esquecer isso."

"Você quer marcar outra data?" Sawyer perguntou com selvageria, sem poder se controlar. Kate lançou a ele um olhar de aviso desesperado.

"Isso é hilário," Norman disse com sarcasmo. "Eu aposto que ele é mesmo um comediante, certo?" ele perguntou a Kate.

Ela não olhou para ele.

"É... eu nunca fui bom com piadas. Eu sou um cientista... geralmente não são os caras mais engraçados que você conhece. Eu desenvolvi esse plástico especial que a CIA usa para... bem, eu não devia falar sobre isso." Ele pausa. "Mas é claro, já que vou passar o resto da minha vida na cadeia por assassinato, eu suponho que realmente não importa muito agora, não é?" ele bufou. "O que vocês sabem... Eu acho que eu sou engraçado."

Ele pensou por um segundo, o rosto dele se suavizou pela recordação. "Tara sempre achou que eu fosse, de qualquer maneira. Ou ao menos ela disse que achava. Talvez ela só estivesse tentando me fazer sentir melhor." Ele revirou o bolso com a mão livre e tirou uma carteira. "Você quer vê-la?" Ele alcançou a carteira para Kate. Relutante, ela a pegou.

"É a primeira foto aí." Ela ainda não abriu. "Vá em frente." Ele a encorajou.

Respirando fundo, trêmula, Kate abriu cuidadosamente a carteira e encontrou as pastinhas de plástico transparente, deixando aberto na primeira. Ela olhou para a foto, triste.

"Ela é linda," ela disse em um sussurro.

"Era," Norman corrigiu, amargo. "Era linda. E eu sei o que você está pensando, " ele continuou. "Como uma mulher como essa pôde casar com alguém como eu? Certo?" ele disse, cravando os olhos em Sawyer.

Kate olhou para ele. "Eu não estava pensando isso de maneira alguma," Ela disse gentilmente.

"É? Bem, você é a única, então. Devia ser o primeiro pensamento que ocorria quando eles nos viam juntos. Eu sei que deve ter sido o que ele pensou, " ele disse, "Quer dizer, vamos ser honestos... Porque qualquer mulher ia dormir com um cara como eu, quando ela podia ter um cara como aquele?" Ele se voltou para Kate. "Quer dizer", você é uma linda mulher... me diga a verdade... você dormiria com um cara como eu?"

Ela não conseguia encontrar palavras. "Eu..." ela gaguejou. "Eu não sei nada sobre você."

"Mas que resposta educada," ele disse, torcendo os olhos. "Obrigado por isso. Mas falando sério, você sabe que não dormiria. E por quê? Porque você pode ter caras como ele. Quer dizer, como eu vou competir com isso? Eu passei a maior parte da minha infância construindo maquetes de dinossauros... e lendo revista em quadrinhos, e ... e jogando Dungeons & Dragons. "ele lançou um olhar sarcástico para Sawyer. "Você alguma vez já jogou Dungeons & Dragons?"

"Não," ele disse, rangendo os dentes.

"Como eu pensei." Norman sacudiu a cabeça. "Entende o que quis dizer?" ele perguntou a Kate. "Até o nome dele é legal. Sawyer," ele disse invejoso. "Quão legal é isso? Com um nome como Norman, eu realmente tenho alguma chance?"

"Não é o nome verdadeiro dele," Kate disse calmamente, sem conseguir pensar em outra coisa.

"Mesmo?" ele perguntou, intrigado e esperançoso. "Qual o nome verdadeiro dele?"

Ela olhou para Sawyer, sem querer responder, mas ela não tinha opção. "James," ela sussurrou.

"James," Norman deu um tapa com desdém. "Isso é ainda mais legal que Sawyer! Eu não consigo ganhar de vocês, gente" ele parecia sem esperanças.

Depois de alguns segundos, ele suspirou, se recompondo. "Não que eu não saiba da verdade... quer dizer, eu sabia que ela poderia me trair. Você pode culpá-la? Mas eu nem mesmo ligava. Eu sei que parece difícil de acreditar, mas eu realmente não ligava. Contanto que ela estivesse comigo, eu não me importava com o que ela tinha feito quando eu não estava por perto. Bastante patético, não é? Mas eu a amava. Eu a amava tanto que..." a voz dele ameaçou a parar. "Que eu teria feito tudo para fazê-la feliz." Ele engoliu com dificuldade, afrouxando um pouco a pressão da arma.

Sawyer se admirava com a dor no rosto de Kate ao ouvir o sujeito. Lá estava ele, segurando uma arma contra ela, e ela estava sentindo pena do desgraçado. O coração dela era tão grande que tinha espaço pra dor dos outros além da dela. Ele a encarava, firme, irracionalmente acreditando que podia protegê-la só de se concentrar todos esses pensamentos nela, se concentrando em tudo que ela significava pra ele.

"Você tem a mínima idéia de como é isso?" Norman perguntou a Kate. "Amar alguém mesmo quando você sabe que não tem nenhuma razão racional pra isso?"

"Na verdade, eu sei," ela disse suavemente, encontrando os olhos dele, tentando fazer uma conexão. "O amor não é racional. Se você é cientista, então você devia saber disso."

"Eu acho que sim," ele concordou. "Eu só acho que nunca imaginei que chegaria a algo assim. Eu imaginava, que um dia ela se cansaria dos outros caras, e apreciaria o fato de eu estar por perto. Quem sabe? Talvez ela poderia apreciar," ele disse amargamente.

"Eu só queria cuidar dela, entende?" ele perguntou, quase chegando às lágrimas. "Dela e do bebê. Nós tentamos por muito tempo ter filhos, mas nunca aconteceu. Então finalmente, finalmente... ela engravida, mas só depois de tudo ter ruído e nós termos parado de tentar. E vocês provavelmente estão pensando, como eu tenho certeza de que era meu? Porque depois dele, não houve ninguém mais além de mim." Ele direcionou um olhar acusador para Sawyer. "Depois dele levar tudo, ela quase nem saia de casa. Até perdermos a casa também, já que não podíamos fazer os pagamentos."

"Era uma menina," ele continuou, quase em reverência. "O bebê, eu quero dizer. Nós já tinhamos feito um daqueles... como se chama?"

"Um ultra-som," Kate completou, parecendo assombrada.

"É, um desses. E até já tinhamos um nome escolhido. Elizabeth. O que você acha?" ele perguntou, como se realmente quisesse saber a opinião dela.

Kate lhe dirigiu um frágil tentativa de sorriso. "Elizabeth é meu nome do meio."

"Não brinca?" ele perguntou, surpreso. Ele a encarou por alguns segundos, o braço que segurava a arma tremendo de leve. Sawyer a observava também, se perguntando se isso era verdade. Ela certamente parecia sincera.

"Você é Irlandesa?" Norman perguntou de repente, ainda olhando intencionalmente para Kate .

Ela pareceu confusa, sem saber como responder.

"Porque a maioria das pessoas que tem sardas são Irlandesas. Ou ao menos tem um ancestral Irlandês. Isso não é... cientificamente comprovado." Ele admitiu "É só algo que... uma coisinha que eu notei."

"Acho que meus bisavós eram Irlandeses, " ela disse, devagar, tentando soar calma.

"Viu?" ele perguntou, satisfeito "Foi o que pensei."

Ele se voltou para Sawyer, interrogativamente. "Ah, e antes que eu esqueça, eu tenho que perguntar... agora que estou aqui. Você me roubou $200,000 dólares, que eram tudo o que eu tinha. Aquilo foi alguma piada? Quero dizer, não teria mais graça roubar de alguém que fosse realmente rico, que tivesse ficado só levemente abalado? Ou você só sai por aí limpando as pessoas completamente."

Sawyer parecia levemente surpreso, a realidade chegava até ele gradualmente. "Ela disse que você tinha milhões guardados... Que você era esse cientista brilhante, como o Bill Gates da Química, ou algo do tipo."

"Ela disse isso?" Ele perguntou, comovido. "Ela disse que eu era brilhante?"

Ele agora parecia divagar um pouco, sua visão ficando presa em alguma coisa do passado, seus olhos não se focalizavam na sala. Era possível que ele estivesse drogado, ou no mínimo muito bêbado. Sawyer novamente considerou tentar arrancar a arma dele, mas antes que ele pudesse decidir, Norman pareceu acordar do seu devaneio e disse, prosaico, "Acho que podemos levar o show adiante, huh?"

Com um movimento rápido, ele levou a arma das costas de Kate até sua têmpora, engatilhando-a e se pode ouvir um clique. "Você quer contar até três, ou eu devo contar?"

Sawyer ficou tenso, usando todos as suas forças para não dar uma voadora no sujeito, que quase certamente faria com que a arma disparasse. Se ele pudesse ter certeza de que a bala só acertaria a ele, então ele o faria sem hesitar. Mas era mais provável que atingisse a direção para onde estava apontada... a cabeça da kate.

"Espere," Kate implorou fracamente.

"Pelo quê?" Norman perguntou, fazendo um esforço para continuar firme. "O que você faria se alguém matasse a pessoa que você ama e destruísse sua vida inteira? Não ia querer fazer com que ele pagasse? Não ia?" ele repetiu quando ela não respondeu.

"Sim," ela disse, uma lágrima escorreu pela bochecha dela. "Eu iria. Mas... Norman?"

O som do seu próprio nome pareceu afetá-lo, como ela parecia ter previsto que o afetaria. Ele parecia alerta.

"O quê?"

A voz dela balançava um pouco. "Tem uma coisa que você precisa saber, primeiro. Antes de você tomar essa decisão. Você poderia me ouvir, por favor? Só por um segundo?

Era óbvio que ele estava reconsiderando, pensando se terminava o serviço agora ou a deixava falar primeiro. Para Sawyer, parecia que o tempo havia parado.

Finalmente, com torturante lentidão, ele tirou a arma de sua têmpora e pôs de volta atrás dela. Kate fechou os olhos, deixando o ar sair.

"O que é?"

Ela se virou para ele, encontrando o olhar dele, forçando-o a encará-la. "Você já fez algo terrível antes?" Ele não respondeu, e ela continuou. "Algo que te tortura a cada dia... Algo que é tão ruim, que é a primeira coisa que você pensa quando acorda de manhã, e a última que lembra antes de dormir à noite? E você nem pode escapar disso em sonho, porque você tem que reviver em seus pesadelos?"
A voz dela era interrompida, perturbada. "Você já fez algo assim? Porque eu não acho que tenha feito, Norman. Eu acho... que você é uma boa pessoa, que leva uma boa vida." Ela falava lentamente e deliberadamente. "Mas no segundo que você puxar o gatilho, nada disso vai contar mais. É como se nunca tivesse acontecido... é isto e o máximo de diferença que vai fazer. Como se aquela fosse uma outra pessoa... Uma vida diferente que você nunca vai poder voltar, não importa o quanto você tente, ou o quanto tempo você viva."

Ele estava ouvindo, atraído pelas palavras dela, pela força de convicção por trás delas. Sawyer a observava também, hipnotizado e atormentado, momentaneamente esquecendo o perigo da situação. Lhe ocorreu, com certeza, que se alguém ia salvar a vida deles esta noite, seria ela, não ele.

"Ele matou minha esposa," Norman sussurrou, sua face transparecia dor e confusão. "Ele a matou."

Kate engoliu em seco, e mais lágrimas escorrera pelo rosto dela, mas sua voz permanecia calma e firme. "Mas não há nada que você possa fazer pra trazê-la de volta. E o que você pensa que vai fazer você se sentir melhor... o que você pensa que vai fazer doer menos, ou que vai fazer ser mais fácil de agüentar... não vai. Vai fazer ser mil vezes pior. Agora você não pode nem imaginar, nem comparar... como vai ser, viver o resto da sua vida, sabendo que outro ser humano deixou de existir por sua causa. Por causa de uma decisão que você tomou. Que... as luzes se apagam para alguns, e que foi você quem desligou o interruptor. Você não tem como saber como é," ela disse, a voz dela pausava um pouco. "Mas nós sabemos," ela olhou para Sawyer, incluindo ele. "Então por favor, acredite quando eu lhe digo... que este é o momento mais importante de sua vida. Porque se você tomar a decisão errada agora..." ela balançou a cabeça de leve. "Você não vai ter uma segunda chance. Nunca mais."

Norman olhou em volta da sala, sua determinação claramente se enfraquecia. Seu lábio inferior tremia de leve, e sua mão esquerda estava fechada.

"Você veio aqui para fazer isso para sua esposa... por Tara," Kate disse suavemente. "Mas se você realmente a amava tanto quanto você diz que ama, então você provavelmente sabe que ela não ia querer isso." Ela pausou. "Você sabe o que eu acho? Eu acho... que o que Tara realmente queria que você fizesse, era recomeçar. E talvez, de uma maneira, era isso que ela estava tentando te dar a chance de fazer."

"Eu não quero recomeçar sem ela," ele disse, parecendo uma criança magoada.

"Eu sei," Kate disse em um tom de compreensão. "Mas não tem outra maneira."

"Como eu poderia, mesmo que eu quisesse? Não me sobrou mais nada. Ou você não se lembra desta parte?"

"Você pode ter seu dinheiro de volta," ela disse em um tom firme. "Você conseguiu encontrá-lo... você ao menos pode ter seu dinheiro de volta."

"Eu não quero o dinheiro. O dinheiro não significa nada."

"Tara se atirou da ponde por causa desse dinheiro. Ela se matou por causa dele," Kate disse com severidade "Então como você pode dizer que não significa nada?"

Ele parecia estar considerando as palavras dela.

"Ela ia querer que você o pegasse de volta."

Ele finalmente olhou nos olhos dela de novo, e parecia que ele tinha tomado algum tipo de decisão, mesmo assim ele não disse nada. Kate continuou olhando para ele por mais alguns segundos, e então fez que sim com a cabeça. "Sawyer," ela disse com cuidado. "Você está com seu talão de cheques?"

"Está lá em cima." Ele tinha o pressentimento de que não seria uma boa idéia mencionar o fato de que ele não tinha nada perto de $200,000 dólares. Ao menos não em um só conta.

"Você vai deixá-lo ir pegar?" ela perguntou a Norman.

Toda a intensidade anterior tinha morrido de seus olhos, mas uma nova idéia estava crescendo neles. Ele falou em uma voz estranha, baixa, emocionada. "Sim. Vá pegá-lo."

Sawyer se levantou, um pouco inseguro, mantendo os olhos na arma ainda pressionada contra as costas de Kate. Norman acrescentou, "E pro caso de você ter a brilhante idéia de trazer uma arma com você, você deve saber que ela estará morta antes mesmo de você conseguir me colocar na mira."

Kate olhou para baixo, ainda lutando contra o medo, e então para Sawyer. "Vá pegá-lo," ela sussurrou.

Eles se entreolharam por alguns segundos, e ele se perguntava se ela alguma vez já havia estado tão linda quanto ela parecia pra ele agora, ainda em sua fantasia ridícula de cigana, sua maquiagem quase toda escorrida, o caminho deixado pelo lápis de olho unido às suas lágrimas. O olhar dela penetrava em seu coração, a combinação de vulnerabilidade e da pura e simples bravura em sua expressão eram suficientes para fazê-lo perder o ar. Pela primeira vez, ele pensou no quão mais forte ela era que ele, e quão mais esperta. Se os eventos desta noite tivesse sido deixado nas mãos dele, ambos já estariam mortos.

Tirando os olhos dos dela, ele se obrigou a ir até as escadas. Seus joelhos estavam fracos e era como conduzir seus passos sobre areia.

Lá em cima, ele freneticamente pegou uma arma de sua mesa de cabeceira, ignorando os avisos daquele louco desgraçado. Se era estúpido ou não, ele não podia se conter. Era parte de sua natureza. Ele a manteria escondida, só usando se ele achasse que não tinha outra escolha.

A seguir, ele encontrou o talão de cheques, como ele devia. Enquanto ele rapidamente o folheava para ter certeza de que ainda havia cheques sobrando, sua mão congelou ao ouvir um tiro ensurdecedor ecoando pela casa.

Dungeons & Dragons é um jogo cuja temática gira em torno da Fantasia Medieval. Utiliza um conjunto de dados composto de 6 tipos, tendo 4, 6, 8, 10, 12 e 20 faces, podendo ser necessário também um de 100 faces (que é obtido jogando dois dados de 10 faces).