Capítulo 36Traduzido por Lanai, Cristianepf e Nata

Sawyer sentia como se seus pés estivessem enraizados no chão por horas, mas foram provavelmente apenas dois segundos no máximo. O silêncio que seguiu o tiro foi quase tão ensurdecedor como o próprio tiro tinha sido. Ele tomou a casa de tal forma que não se podia ouvir absolutamente nada. Nos poucos segundos em que esteve congelado lá, a certeza de que ela estava morta se apoderou de sua mente. Ela tinha partido, e ele nunca mais a veria novamente. Kate estava morta.

Não prestando mais atenção ao que lhe cercava totalmente, ele deixou o talão de cheques escorregar dos seus dedos sobre a cama. Mover-se até a porta e alcançar o corredor era como andar através de um sonho. A realidade se moveu e se ajustou ao redor dele, e sua própria casa tinha a não familiar qualidade distorcida de um lugar que ele só havia visto uma vez, anos atrás, e então esqueceu. Ele sentiu suas pernas se movendo lentamente, mais lentamente do que a situação realmente pedia, mas ele não podia comandá-las e fazê-las se mover mais rápido. Seu corpo estava partido em pedaços, e cada parte tinha perdido toda a comunicação com qualquer outra.

À medida que ia descendo as escadas, ele sentiu sua mão se movendo, como se contra sua vontade, em direção à arma em seu bolso. Ele sabia, mesmo apesar de sua visão estar um pouco embaçada, que não era bom Norman ter certeza a respeito da localização da arma. Se ele encontrasse o que esperava encontrar, ele só poderia contar com ele mesmo.

Perto da entrada da sala de estar, uma expressão de horror começou a se desenhar em seu semblante em antecipação ao que ele iria encontrar. Sua mão se aproximou do gatilho da arma, e ele procurou permitir que sua mente se afastasse um pouco dos seus planos. Primeiramente ele iria checar e ver se ela tinha partido realmente, e se não, ele teria que forçar a si mesmo a finalizar o trabalho. Então, ele teria que seguir rapidamente. Não havia tempo para hesitação, nem segundos pensamentos. A decisão já estava tomada.

Quando ele finalmente alcançou a entrada, ele parou em choque, tendo que reconfigurar a versão das coisas que ele tinha visto tão claramente em sua mente. Isso não correspondia em nada à realidade da qual ele tinha se convencido.

Norman estava estendido no chão, se contorcendo de forma grotesca, sua cabeça tinha se tornado uma massa pulverizada em vermelho. Uma piscina de sangue gradualmente começou a aumentar em torno dele, crescendo notavelmente a cada segundo.

"Cinco... Seis... S-S-sete..."

Ele a ouviu antes de vê-la, e ele finalmente conseguiu fixar seu pensamento, sem acreditar no que via parada muito longe do chão e em pé no centro da sala. Kate estava lá, seus braços e rosto salpicados de sangue, suas mãos cobrindo seus olhos... contando.

"Oito... N-n-nove... dez..." Sua voz saía muito ruim e ela gaguejava nas primeiras letras, pronunciando as palavras com um certo esforço.

Sawyer a via, ainda sem capacidade de entender o que estava vendo, tentando se deixar aceitar a respeito do fato de que ela estava viva. Era como se tentasse se privar do último momento que ele sabia não merecer, e tentava se forçar a recuperar o controle, para não permitir que o colapso o fizesse desmoronar de joelhos no chão à sua frente.

Atravessando a sala em direção a ela, ele a segurou pelos ombros e a sentiu tremendo, convulsivamente. Ele afastou as mãos dela dos olhos e tentou se focar neles, para registrar sua presença. Virando sua cabeça vagarosamente em direção ao corpo no chão, ela disse num tom incerto e quase imperceptível, "Eu tentei pará-lo."

Ele a forçou a se afastar da confusão, pressionando sua cabeça contra seu corpo e puxando ela em direção a ele com seu outro braço, espremendo-a tão fortemente que ele estava provavelmente em perigo de quebrar alguma coisa. Ela continuou a murmurar contra seu ombro, num som monótono e quebrado, "Eu tentei pará-lo... Eu tentei pará-lo... Eu tentei pará-lo." Detendo-se nessa frase, ela repetia como se fosse um mantra.

Afastando-se um pouco dela, ele a sacudiu, comandando em um rouco sussurrar. "Pare com isso!"

Ela parou de entoar as palavras, mas sua expressão não mudou. Ela estava mortalmente pálida, e seu olhar parecia encará-lo mais através dele do que para ele. Seu corpo inteiro se sentia fraco e instável embaixo de onde ele a estava segurando, balançando ligeiramente, e ele pôde ver a consciência hesitando de modo turvo em volta em seus olhos - estava claro que tinha apenas uma tênue linha a qual se agarrar e que ela poderia perdê-la a qualquer instante.

"Kate!" ele disse incisivamente. "Olhe para mim." Ela ergueu seus olhos e foi capaz de olhar para ele por um segundo.

Usando seus dedos, ele friccionou ferozmente afastando uma mancha de sangue no alto de sua bochecha, esperando por uma reação. "Você não vai se atrever a perder a consciência perto de mim, garota... Você está me ouvindo?" ele murmurou trincando os dentes.

Ela não disse nada. Ele pressionou suas mãos nos dois lados de seu rosto e olhou para ela, desesperadamente.

"Kate," ele repetiu novamente. "Você vai ter que me ajudar aqui... Certo? Eu não posso lidar com tudo isso sozinho... Eu preciso da sua ajuda. Agora, você vai ser capaz de fazer isso, ou não?" Ele esperou tenso por uma resposta.

Ela fechou seus olhos por um segundo, dando um profundo, instável suspiro, e então os fechou vagarosamente. Quando ela abriu seus olhos novamente, ele foi agraciado em ver uma espécie de calma aparecendo neles. Um pouco da cor retornou ao seu rosto, e uma desanimada, esgotada expressão tomou conta de sua feição. Colocando seu olhar nele, ela fez um pequeno aceno com a cabeça. O gesto o aliviou e entristeceu ao mesmo tempo. Ela estava com o ar de alguém que já tinha se deparado com essa situação muitas vezes, e que sabia, por experiência própria, que não podia se dar ao luxo de ter um ataque de histeria.

Inclinando sua testa contra o peito dele novamente por alguns breves segundos, ela voltou a cabeça para trás e sussurrou, "Eu vou pegar alguns lençóis."

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Depois que eles tinham coberto o corpo de Norman o melhor que podiam, amarrando-o com força e tentando fazer o possível para não olhar os restos em sua cabeça, Sawyer foi colocar a caminhonete perto da porta. Enquanto ele estava indo, Kate gentilmente empurrou Gus para fora do corredor e estendeu outro lençol em cima do seu corpo imóvel, suas mãos tremendo, e lágrimas borrando sua visão.

Sawyer voltou no instante em que ela estava se levantando. Eles olharam um para o outro silenciosamente e então voltaram para a sala de estar, em direção ao corpo. Kate se posicionou nos pés de Norman, enquanto Sawyer o agarrou embaixo dos seus braços. Juntos, eles o levantaram, ora carregando, ora arrastando o corpo até a porta, atravessando a frente do 'hall', alcançando então a varanda. O lençol já estava encharcado de sangue, o que criava uma trilha no chão, marcando o caminho que eles estavam fazendo. Usando todas as suas forças, eles o suspenderam na traseira do caminhão, onde Sawyer rapidamente o cobriu com uma lona preta.

Pela segunda vez na noite, eles entraram na cabine do caminhão. A mente de Kate se lembrou da festa e do jantar. Como isso pôde acontecer essa noite? Parecia que tinha acontecido há cinco anos atrás, no mínimo. Aquelas pessoas... o casal que aceitou copinhos de gelatina de uma garota caridosa, que tinha dançado em um jantar e então feito sexo num banheiro... quem eram essas pessoas? Elas eram como algo imaginário, versão alucinada deles mesmos. Eles realmente não existiram. Tinha sido um erro se deixar imaginar de outra forma. Por que isso, nesse momento... isso era o que eles eram. Isso era tudo que eles poderiam ser.

Ela engoliu em seco. "Onde nós estamos levando ele?"

Sawyer dirigiu cuidadosamente para fora da garagem. Ele não havia respondido a ela, e ela voltou a se manifestar.

"Nós não podemos simplesmente colocá-lo de volta em seu próprio carro? Talvez eles possam achar que alguém fez isso ali."

"Eles saberão que ele não foi morto ali," ele disse calmamente.

"Como?"

"Porque eles têm muitas maneiras de descobrir essa merda! Você nunca viu uma dessas séries de medicina forense?"

Ele foi devagar até alcançar o ponto onde o carro estava estacionado no lado da estrada.

"Não está mais aí." Kate falou chocada.

"O estúpido deve ter deixado as chaves na ignição... E alguém o roubou." Ele se apressou novamente.

"Pelo menos essa é uma coisa com a qual não temos que nos preocupar mais."

Eles permaneceram em silêncio por um minuto. Kate deixou-o dirigir, não se incomodando em perguntar novamente onde eles estavam indo. Ele devia ter algo planejado.

A próxima vez que ela falou, mantendo seu olhar fixo na janela da frente, foi num suave, contemplativo tom de voz. "Ele colocou-a em sua boca." Ela parou. "Ele colocou a arma em sua boca. Eu tentei tirá-la dele... parar ele... mas já tinha acontecido."

Lentamente, ela se voltou para Sawyer, como se tivesse apenas se dado conta de algo. "Eu não estou certa se ele fez isso... ou se eu fiz."

Ele manteve seus olhos na estrada, mas sua expressão mostrava o quanto estava se torturando. "Ele fez isso," ele disse ferozmente. "Se ele pôs a droga da arma na própria boca, então eu não acho que você precise se sentir mal sobre qualquer coisa depois disso."

Ela não disse nada, e estava óbvio que ela não havia se convencido.

Ele começou a ir em direção de uma trilha suja entre as árvores. Mal era uma estrada... por uns instantes, aparentou ser uma espécie de trilha de caça raramente usada. O caminhão estalou e deu solavancos por alguns minutos, então ele começou a ir mais devagar, em direção a um precipício. Kate não pôde ver o que estava embaixo da descida. Depois da luz da caminhonete, não havia nada além de uma envolvente escuridão.

Sawyer finalmente desligou a ignição. O barulho do motor morreu e o silêncio caiu sobre ele, e a única luz era a da lua. Ele se voltou para Kate.

"Olhe pra mim," ele disse. Ela o encarou, relutante. "Nada disso tem algo a ver com você... e eu não quero que você jamais cometa o erro de pensar que tem. Isso aconteceu por minha causa... só por causa minha. Você entendeu?"

Ela parecia atormentada, "Sawyer..."

"Responda!"

Ela continuou encarando-o por um segundo, mas então cedeu. "Sim. Eu entendi."

"Então diga," ele disse a ela, o olhar dele queimando nela. "Eu quero ouvir você dizer que não é sua culpa."

Ela secou uma lágrima, olhando pela janela.

Ela enxugou uma lágrima, olhando de volta através da janela de trás para o volume debaixo da lona preta.

"Diga," ele insistiu.

"Não é minha culpa," ela sussurrou, e então engoliu em seco, fechando os olhos. Mais lágrimas caíram-lhe. "Não é minha culpa".

"E é melhor que você nunca se esqueça disso," ele disse, sua voz estrangulada. "Não importa o que aconteça, nunca esqueça disso".

Ele abriu a porta e desceu. Tentando se recuperar, Kate o seguiu.

Sawyer baixou a caçamba e juntos eles puxaram a lona para a beirada e alçaram o corpo coberto ao chão. Kate não pode deixar de notar a ironia de que agora, dentre tantas vezes, eles finalmente estavam cooperando em algo.

"Onde estamos?" ela perguntou.

Ele gesticulou sob seu ombro em direção à beira do precipício. "Desce direto para o lago, algo como uns trinta metros mais ou menos."

Ela estremeceu um pouco. "Que pena este não ter nenhum corpo nele."

Sawyer quase sorriu, uma expressão de amargor em seu rosto. "Foi apenas uma questão de tempo, conosco por perto."

Eles se olharam, horrorizados por conseguirem fazer piadas nesse momento, mas lutando contra uma urgência maníaca de rir.

Sawyer se levantou rapidamente para distrair-se. "Comece a procurar ao redor por pedras... quanto mais pesadas, melhores."

Ela seguiu suas instruções, cegamente, sem perguntar porque ou se permitir em pensar nisso.

Quando tinha empilhado pedras o suficiente o mistério foi resolvido, como ela temia que seria. "Precisamos colocá-las em seus bolsos... em suas roupas, dentro da lona... onde quer que caibam."

Ele começou a trabalhar, e ela o observou, congelada. Ele olhou-a de volta.

"Sawyer, eu não… não consigo fazer isso." Ela balançou a cabeça, em terror. "Eu não acho que consigo fazer isso."

"Então volte para a caminhonete," ele disse impaciente. Ele olhou-a, esperando que ela tomasse uma decisão, sabendo que eles não tinham tempo para desperdiçar.

Tomando fôlego profundamente, ela se deixou cair de joelhos ao lado do corpo. Com uma mão trêmula, pegou uma pedra.

Eles trabalharam juntos, em silêncio, até que o amontoado tivesse terminado. Sawyer recuperou a corda da caçamba da caminhonete e atou-a firmemente ao redor da lona, rodeando-a repetidamente de uma extremidade à outra. Quando ele terminou, eles arrastaram-no os poucos metros que restavam para a margem do penhasco, empurrando e usando toda sua força para mover o agora sobrecarregado corpo.

"Cuidado," Sawyer preveniu-a. "Não chegue muito perto da beirada."

Eles contornaram para o outro lado da lona. Ele estava a apenas um passo da queda, onde um bom empurrão seria o suficiente para jogá-lo.

Kate baixou o olhar para o corpo, atormentada. "Devemos dizer alguma coisa?"

Sawyer olhou-a como se estivesse louca. "O cara apareceu para nos matar e depois explodiu seu cérebro em nossa sala de estar... Eu não acho que ele esperasse que fizéssemos um discurso, chuchu."

Ela suspirou, angustiada.

Agachando-se, ela repousou sua mão sobre o corpo. "Eu sinto muito," ela sussurrou unicamente.

Sawyer esperou alguns segundos, respeitosamente, então disse, "Empurre."

Eles colocaram todo seu peso nisso, e o corpo rolou próximo à beirada e então, de forma repugnante, desapareceu pela descida. Ele bateu na represa suja em uns tantos lugares em sua descida e então eles dois ouviram um sombrio e forte splash à medida em que ele afundou sob a superfície do lago.

Eles ergueram-se, vigiando a água enluarada.

"Vamos," Sawyer finalmente disse, soando exausto. Ele pegou no braço dela. "Vamos para casa."

Kate deixou ele a arrastar da beirada e guiá-la de volta à caminhonete.

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Eles não conversaram no curto caminho para casa. O que poderia ser dito? Estava cada um deles preso em seu inferno pessoal, incapazes, no momento, de compartilhá-lo com o outro.

Quando eles deram a ré para dentro do barracão de novo, Kate foi a primeira a sair da caminhonete. Após bater a porta, ela dirigiu-se por trás para o outro lado quando um movimento repentino vindo de trás da galpão deteve-a em seu caminho. Três garotos surgiram das sombras. Ao verem ela, eles também se detiveram em choque. Os dois mais velhos, que pareciam ter cerca de treze ou catorze anos, estavam vestidos como jogadores de futebol americano, ou melhor, jogadores de futebol americano mortos. Eles vestiam malhas e ombreiras, mas seus rostos estavam cobertos por maquiagem verde e adesivos de feridas e cicatrizes. O garoto mais novo, que provavelmente não tinha mais de dez anos, estava vestindo uma fantasia do Homem Aranha sem a máscara que balançava fracamente em sua mão.

Sawyer tinha saído e dirigia-se para a casa, sem ter notado as crianças. Kate observou-os, aceitando a situação, quase calmamente, como mais um aspecto da distorção surrealista dessa noite. Conforme as crianças a encaravam, um dos garotos mais velhos pareceu se tornar consciente de alguma coisa e, com um olhar perturbado, ele cutucou seu companheiro, dando-lhe um olhar significativo, então se voltou novamente em direção à Kate, dando um passo para trás. Ela ainda era incapaz de se mover ou de falar. Tudo isso parecia estar acontecendo em câmera lenta.

Finalmente, percebendo que Kate não o estava seguindo, Sawyer olhou para trás, perguntando-se por que ela estava demorando tanto. Ele então percebeu as crianças pela primeira vez e caminhou devagar em direção à caminhonete, alarmado e chateado.

"O que vocês estão fazendo aqui? Isto é propriedade privada!"

"Brincando de Gostosuras ou Travessuras," um dos meninos mais velhos disse inocentemente, fechando bem sua bolsa de papel para esconder os rolos de papel higiênico dentro.

"O diabo que estavam..." Sawyer respondeu. "Já passa de meia noite."

Os dois mais velhos se entreolharam, tentando pensar em outra linha de defesa. A atenção de Kate, entretanto, se fixou no garoto mais novo que não havia tirado os olhos dela desde que ela descera da caminhonete. Apesar de ele ser pálido e ter cabelo ruivo cacheado ele lembrava-a, surpreendentemente, de Walt. Seus olhos eram profundos poças de inescrutabilidade e ele parecia mais sábio e inteligente do que uma criança tem o direito de ser. Ela sentiu calafrios descerem pela sua espinha enquanto encarava-o.

"Do que é a sua fantasia?" ele perguntou calmamente.

Sentindo-se confusa, como se estivesse sonhando acordada, ela murmurou, "Eu sou uma cigana."

Ele não parou de encará-la por um segundo, seus olhos permaneciam fixos, sem pestanejar, nos dela. "Você pode ver o futuro?" ele perguntou com uma seriedade mortal.

Kate sacudiu a cabeça vagarosamente, sentindo-se incapaz de romper o misterioso feitiço que essa criança lançava sobre ela.

Ele olhou-a tristemente, quase com pena. "Eu posso," ele sussurrou.

Seu fôlego prendeu em sua garganta e ela engoliu em seco, sentindo que estava prestes a cair.

"Aaron, cala a boca!" um dos meninos mais velhos resmungou, rispidamente. "Ele é meu irmão mais novo... Ele é meio estranho," explicou ansiosamente para Kate. "Ele não costuma falar. Ele vai pra uma escola especial e tudo mais."

"É melhor vocês sumirem daqui agora ou então todos vocês vão ir para uma escola especial!" Sawyer gritou, movendo-se em direção à eles ameaçadoramente.

Eles se viraram e se esquivaram dele, indo em direção à Estrada. O mais velho que tinha acabado de falar agarrou o braço do irmão, mas o garotinho se desvencilhou e correu de volta para Kate. Ele puxou a fantasia dela e gesticulou para que ela se agachasse. Ela o fez, ainda sentindo como se isso fosse algum tipo de alucinação, e ele sussurrou em seu ouvido. Depois ele rapidamente correu de volta para seu irmão, que socou-o cruelmente nas costas, resmungando com raiva, "Retardado!" Os três foram embora em direção à estrada, os dois mais velhos rindo e empurrando um ao outro em brincadeira, fingindo que eles não ficaram assustados.

Kate observou-os irem. Sawyer tocou-a no braço e ela sobressaltou-se levemente.

"O que foi isso?" Ela voltou-se para ele, inexpressivamente.

"O que ele disse?" ele reformulou sua questão.

"Ele disse..." Ela fez uma pausa, confusa. "Ele disse, Escolha o que tenha todos os pássaros. Ao menos foi isso o que soou."

"O que diabos isso quer dizer?"

Ele sacudiu a cabeça, vagarosamente. "Não faço idéia," sussurrou.

"Loucos bastardos..." Sawyer disse remungando, em tom letal. "Eu odeio crianças."

Kate olhou para o chão. "Vamos," ela disse. "Vamos entrar."

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Tendo eles entrado, Kate começou imediatamente a trabalhar, enchendo um balde com sabão e água e pegando tantos panos quanto conseguisse encontrar. Sawyer foi pegar um tanto de madeira para acender uma fogueira, para ver se espantava o opressivos calafrios da casa.

Kate ajoelhou-se no chão da sala de estar esfregando o sangue. Ela considerou mudou suas vestimentas, mas não havia por que destruir outro conjunto de roupas. Esta já teria de ser jogada fora. Ela somente era grata pelo tecido ser escuro o suficiente para esconder o sangue que ela sabia deveria estar salpicado por toda a roupa.

Após um tempo, ela sentiu um ligeiro cheiro de fumaça e ouviu o primeiro crepitar da fogueira. Quando, após alguns segundos, Sawyer ainda não tinha se juntado a ela, ela deu uma olhada, imaginando o que o detinha. Ele estava observando as chamas como se estivesse hipnotizado. Ela não conseguia lembrar ter visto tanta dor em seu semblante anteriormente. Recurvando-se sob suas pernas, ela arrumou o cabelo solto, tirando-o de seu rosto, e observou-o, miseravelmente.

Finalmente, ela não conseguiu agüentar mais. Ficando de pé, ela andou até o lado dele e ficou parada perto à ele, olhando para o fogo.

Ele pareceu estar esperando por ela. Lentamente, ele alcançou seu bolso de trás e tirou algo de dentro. Ela mal pôde vê-lo com o canto dos olhos, mas não tinha dúvidas sobre o que era.

Puxando o papel enrugado e frágil de dentro do envelope, ele o desdobrou provavelmente pela milésima vez, suas mãos tremiam suavemente. Kate esperou, silenciosa e sem se mover, enquanto ele a relia outra vez para si mesmo, seus olhos escaneavam o papel com a familiaridade de alguém que olha para os traços de um rosto que conhece desde a infância.

Ele dobrou-a uma vez mais e recolocou-a dentro do envelope. Kate voltou-se para ele, encontrando seu olhar. Parecendo incomodado e vulnerável, ele a estendeu em direção à ela. Ela olhou a carta, depois meneou com a cabeça, relutante. Lutando contra as lágrimas, ela lhe disse, "Você tem de fazê-lo por si só." Foi uma das coisas mais difíceis que ela teve de dizer, mas era a verdade. Ela não poderia fazê-lo por ele.

Ainda que ele estivesse desapontado por sua respostas, ele claramente esperava isso e parecia saber que não havia outra maneira.

Kate observou seu rosto de perto. Era isso que ela desejava, que ela havia lhe pedido nesse dia na varanda... para parar de procurar, para deixar passar, para desistir. Não lhe foi possível fazer uma promessa à ela então, mas os eventos de hoje à noite tomaram a própria decisão por ele. Tudo tornou-se catastroficamente cíclico. Ela sabia, sem sombra de dúvida, que este era o fim da estrada de uma busca de uma vida pelo homem que destruiu a vida dele.

Trincando os dentes e respirando forte, ele amassou firmemente a carta em sua mão e com um rápido e não hesitante movimento atirou-a ao topo da lenha. Ela entrou em chamas imediatamente, o fogo flamejou mais intenso por uns poucos segundos até que o papel se reduziu à cinzas.

Sem tirar seus olhos da labareda, Kate alcançou a mão de Sawyer e segurou-a com força. Ambos continuaram a observar o fogo no ponto em que a carta esteve, por um longo tempo depois de que dela nada tivesse sobrado.