Capítulo 39 - Traduzido por Ci

Ele não sabia porque estava a evitando, mas era impossivel negar que estava. Depois de descarregar o resto dos mantimentos e guarda-los, ele foi até o quintal sob o pretexto de que as folhas precisavam ser juntadas e queimadas. Mesmo que ele nunca tivesse se dado ao trabalho de fazer isso antes, e não fizesse a menor diferença se elas apodrecessem e se decompusessem onde quer que que caíssem, a idéia de varrê-las tinha lhe ocorrido naquele dia, com uma incomensurável urgência, e ele se lançou à tarefa com aliviado deleite.

Não era só porque ele sentia que precisava de distancia da Kate. Era só que depois de toda aquela elevação emocional que acontecera de manhã, ele estava grato por ter alguma desculpa para um estúpido e tedioso trabalho físico. A casa parecia sufocante e mesmo ele estando mentalmente exausto, seu corpo pedia por um alívio atraves de exercícios. Ele ocupou-se de tarefas do lado de fora da casa, começando da mais distante fronteira do bosque indo na direção cada vez mais próxima a varanda, mais ao leste, propositalmente evitando o lado em que seu quarto estava, onde ele presumia que Kate ainda estava.

Ele esperava que ela estivesse dormindo, mas tinha suas duvidas. Para evitar pensar nisso, ou sobre qualquer outra
coisa a respeito, ele juntava as folhas com uma fúria violenta, destruíndo grama e pedras, juntamente com as folhas, forçando-as a se juntarem às cada vez maiores pilhas que ele pretendia incendiar.

Quando ele finalmente chegou no ponto onde estava pronto para se atear fogo, notou, para sua surpresa, que o sol já estava se pondo. Ele havia perdido a noção do tempo. Havia perdido noção de mais do que só o tempo. Só agora lhe ocorrera que não havia visto ou escutado nada da Kate desde que tinha a deixado segurando o teste de gravidez mais cedo naquela tarde. Isso o fez sentir-se culpado e também um pouco preocupado. Não era normal que ela se isolasse por um período de tempo tão grande, mesmo
quando eles não estavam em seus best of terms (o que era frequente).

Deixando o ancinho cair no chão, com um barulho metálico e monótono, ele foi em direção a casa, tentando manter um ritmo calmo.A cozinha estava quieta e escura, com todas as luzes apagadas e nenhum sinal evidente de preparação de comida.

"Kate?" gritou ele com aspereza. Como ele não conseguia pensar em qualquer outra coisa "eu precisava de uma ajuda por aqui, sabia?" sua voz ecoou vaziamente pelos comodos. Não houve resposta.

Ela deve estar tomando banho, ele pensou com deliberada normalidade. Ele subiu as escadas pesadamente e checou o banheiro, mesmo que soubesse, até antes de chegar no topo, que não havia ninguém ali.

"O que foi que você fez, voltou para a cama?" ele perguntou em tom mais alto, indo até seu quarto e rezando para que ela estivesse na cama.

Ela não estava.

Mas uma das janelas estava aberta, as cortinas desleixadamente puxadas para tras, flutuando para cima e para baixo naquele espaço aberto, ao toque da leve brisa. Sentiu imediatamente um arrepio, efeito de mais do que apenas o ar frio que circulava pelo quarto.

Ele ficou imóvel por um segundo, olhando para a visão nada familiar que aparecia pela janela aberta, permitindo a si mesmo um dilúvio de sensações desligadas de qualquer pensamento racional. Então, dando alguns passos naquela direção, ele se curvou para fora, segurando-se no peitoral da janela, forçando-o, mesmo com o protesto enjoativo que vinha de seu estomago, a olhar para baixo. Seus olhos percorreram o chão abaixo, não encontrando nada além do comum, mas impiedosamente checando duas ou três vezes cada pedacinho de espaço.

"Estou aqui em cima"

Sua voz vinha do que pareciam apenas poucos metros dali, soando quase que divertida. Ele virou sua cabeça, confuso. Ela estava sentada, aparentemente bem e indiferente, na ponta do telhado, encostada confortavelmente na chaminé. "Você achou que eu tinha pulado?" ela perguntou

Ele soltou o ar que segurava em um alívio irritado, sacudindo sua cabeça "Ótima piada, Freckles"

Ela olhou para o outro lado, para o horizonte, com um pequeno sorriso

"O que você acha que tá fazendo aí em cima?"

"Estou assistindo ao por-do-sol" ela disse, como se fosse a coisa mais natural do mundo assistir ao por-do-sol do topo de um telhado. "Você deveria ver como é daqui... é maravilhoso."

"Já vi outros antes" ele respondeu, ainda aborrecido

"Mas não esse" ela disse, levantando as sobrancelhas levemente

"Você é como um maldito macaco, sabia? Você se lembra do que aconteceu da última vez que começou a escalar coisa... o que acabou acontecendo?"

Ela revirou os olhos, mas não respondeu.

Depois de um tempo, ela disse incentivando "Você tá perdendo a melhor parte"

"Pode esquecer"

Ela olhou para ele com uma empatia exagerada "Ah... eu não sabia que você tinha medo de altura"

"Medo..." ele gaguejou indignado "Você acha que EU tenho medo de altura? Só porque não tenho o desejo oculto de ser acrobata de circo, como aparentemente você tem?"

"Tudo bem, é uma fobia muito comum. Não tem nada do que se envergonhar"

Ele olhou para ela com desprezo, detectando facilmente o ar de zombaria em sua voz. Ele considerou por alguns segundos e então, devagar, resmungando irritado, ele se inclinou sobre as telhas que margeavam a janela. Um impulso primitivo de jardim de infância apareceu. Nenhuma garota iria dizer que ele tinha medo de alguma coisa.

"Cuidado" ela avisou "tenha certeza de deixar suas duas mãos na superfície pra se equilibrar"

"Eu sei" ele disse com desprezo. Vagarozamente, foi subindo pela inclinação do telhado e chegou até onde ela estava sentada.

"Vai um pouco mais pra cima" ele ordenou, seus dentes cravados, com ansiedade. Ela o fez e ele se sentou no lugar agora vago, contra a chaminé, grato por ter algo sólido atrás de suas costas. Segurando-a avidamente, ele a puxou contra ele, fechando seus braços em torno de sua cintura. Ele respirou profundamente, descansando sua cabeça nos tijolos, ainda não se dispondo a olhar para baixo.

Eles estavam em silêncio enquanto ele got his bearings. Ele também tentava descobrir como começar essa conversa. O fato de que ela estava ali em cima demonstravam mais sobre seu atual estado de espírito do que ela imaginava. Ele só tinha certeza de que se o resultado daquele teste tivesse sido diferente, ela nem iria se arriscar a fazer alguma coisa desse tipo. Era luto e celebração ao mesmo tempo. Ele não sabia o que fazia ele se sentir mais triste.

Ele queria se desculpar pelo jeito que havia a deixado, pela falta de apoio que demonstrara durante toda a provação. Ele pensou que pelo menos ele devia isso a ela. Mas ele não parecia conseguir formar palavras. Ao inves disso, ele foi forçado a se prender em alguma coisa mais neutra.

"Você está bem?" ele perguntou quietamente, grato por eles não estarem olhando para a mesma direção, assim ela não poderia ver seu rosto.

Ela esperou alguns segundos antes de responder, quase como se estivesse tentando decidir "Aham..." ela finalmente disse "Acho que sim. E você?"

"Acabo de passar cinco horas catando folhas... Julgue você mesma"

"Catando folhas" ela disse, balançando a cabeça "Sabia que tinha ouvido alguma coisa estranha. Tava com medo de olhar"

"É" ele murmurou "Bem, pelo menos não era algo que poderia ameaçar a vida de alguém"

Ela sorriu "Você nunca esteve aqui em cima antes?"

"Uma vez" ele disse, depois de pensar "Eu devia ter uns 6 anos. Nunca tentei de novo depois daquilo"

"Por quê?"

"Porque" ele explicou, com um sorriso em sua voz "Minha avó estava me esperando com uma vareta de árvore quando eu desci. Ei, aí está uma idéia" ele disse malicioso "Talvez seja isso que eu tenha que tentar em você"

Kate riu "É... se você quiser terminar em uma cadeira de rodas.."

Sorrindo largamente, ele inclinou-se e tocou seus lábios suavemente contra o pescoço dela, feliz por poder ainda pelo menos faze-la rir quando não podia fazer mais nada

Ela manteve seus olhos fixos no horizonte, assistindo pelas mudas e sutis mundanças de cor que o céu sofria ao mudar da luz do dia para o crepúsculo. O laranja brilhante de alguns momentos atrás haviam se transformado em um brilhante e quase espalhafatoso rosa, para um tom mais escuro, um violeta e então azul mais para o oeste. O que causou as poucas folhas de outono que ainda restavam apareciam ainda mais, em contraste com o verde escuro e imutável dos abetos e pinheiros.

"Eu sinto muito" Kate disse suavemente, sem voltar sua cabeça para ele

"Sente muito porque?" ele soou cansado novamente

"Por aquilo que aconteceu mais cedo. Pelo que eu disse. Mas aquilo não significa que as coisas estejam diferentes. "Você sabe que tudo que eu disse é verdade.

Ele permaneceu em silencio

Ela girou a cabeça em direção à ele "Sawyer? Você sabe disso, né?" Ela soava quase como suplicante, como se ela precisasse que ele confirmasse isso pra ela.

Ele finalmente falou, com palavras que não chegavam nem perto do que aquilo que ela esperava ouvir.

"Já te disse que eu engravidei uma menina na época de colégio?"

"O quê?" ela perguntou incrédula, virando seu corpo para poder ver seu rosto. Ela esperava que aquilo fosse uma piada, mas sua expressão claramente deixava essa opção de fora.

"Eu mal a conhecia" ele continuou, não encontrando os olhos dela "Ela era uma patricinha rica tentando irritar seus pais por sair com um bad boy. E você me conhece... eu fiquei feliz em ajudar" ele disse friamente

Kate esperou, não sabendo o que dizer.

"Então, quando papai e mamãe descobriram, a mandaram para algum lugar pra cuidar disso. Quando ela voltou, umas semanas depois, ela não estava mais grávida. Nunca mais falei com ela... e ela nunca mais chegou perto de mim. Foi um pouco antes de eu largar a escola..."

"Deus, Sawyer" Kate disse vagarosamente, em um tom de preocupação

"Não gaste sua piedade" ele disse, um pouco ríspido "Não foi uma novela... foram só duas crianças idiotas que cometeram um erro e tiveram a sorte de ter alguém rico o suficiente pra concertar"

Ele parou por um segunto, e então continuou com uma voz mais calma "Não consigo lembrar o nome da maldita garota... nem saberia te dizer se ela era loira ou morena. Droga, ela poderia ser até ruiva até onde eu sei. Mas sabe o que é engraçado? Eu penso na criança as vezes. Ou em como seria a criança. Nunca existiu e ainda assim é a parte em que eu ainda penso." ele riu silenciosamente, irônico "Aposto que você nunca pensou que ouviria isso vindo de mim. Bem patético, né?"

Kate fechou seus olhos contra uma onda de emoções que quase a deixaram tonta. "Não" ela suspirou, colocando sua mão na dele, que se encontrava pressionada contra sua barriga "Não é"

Ele podia ouvir a compreensão e empatia na voz dela e desejou que nunca tivesse contado nada. Não era algo que ele havia planejado compartilhar com ninguém e agora não havia como voltar atrás. Aquilo iria para o crescente arquivo mental que ela mantinha sobre a vida dele, fazendo a impressão que ela tinha dele se arrastar e se agrupar para incorporar o novo detalhe, da mesma forma que tudo que ele descobria sobre ela obscurecia ou clarificava tudo que ele achava que já sabia.
Ele supunha que era assim como todo mundo que você encontrava na sua vida, mas o simples processo de deixar alguém conhece-lo nunca havia significado tanto antes. O fato de não conseguir censurar suas palavras, como fazia com outras mulheres, o deixava nervoso. Quanto mais tempo perto da Kate, mais ele queria falar sobre seu passado e havia ainda uma parte dele que se rebelava contra isso, aterrorizada.

Ele sabia que ela estava tentando encontrar alguma coisa pra dizer, algo relacionado ao assunto, e ele queria evitar isso a qualquer custo. Levantando seus olhos para poder ver o quintal, ele rapidamente procurou por uma distração.

"Tá vendo aquela pilha de pedras ali, na beirada do bosque?" falou com voz tranquila, quase leve.

Kate continuou olhando para o rosto dele por alguns segundos, não disposta a fazer a transição tão repentinamente, mas finalmente o fez, para o bem dele. Ela se virou para a direção para a qual ele gesticulava, seguindo seu olhar.

"Ahm, que que tem?"

"É o que sobrou do poço original, de quando a casa foi construída"

Ela levantou as sobrancelhas levemente, de certa forma interessada "Aquele em que sua vó se jogou?"

"Esse mesmo" ele disse com um meio-sorriso "Depois daquilo, eles o fecharam... colocaram as pedras, só para o caso de alguém querer fazer o mesmo outra vez"

"Nós devemos ter passado por ele umas vinte vezes no caminho para o lago" ela refletiu "Eu nunca tinha notado..."

"É dificil de ver a noite." Sawyer pausou em pensamento "Mulher doida... a única razão pra ela ter feito isso era porque meu tio arruinou os grandes planos que ela tinha feito pra ele"

"Se casando?" Kate perguntou, confusa

"Ela passou a vida toda tentando sair dessas montanhas" ele disse tranqüilo, olhando para os picos das montanhas com desprezo

"Nunca conseguiu. Então ela decidiu que se ela não podia sair, pelo menos os filhos dela o fariam. O problema é que nenhum deles tinha vontade de ir a lugar algum. Meu pai acabou ficando aqui na casa, e John e Meg foram para uma cidade ali por perto. Quando ela desistiu deles, eu era a última esperança dela. Sempre me fez prometer que eu não ficaria aqui... e não fiquei. Se bem que eu duvido que ela ficaria muito feliz com os resultados" ele terminou, com um tom irônico

Kate manteve seus olhos fixos nas montanhas também, por um bom tempo. Ela balançou a cabeça, como se algo a intrigasse. "É engraçado como... algumas pessoas passam a vida toda tentando escapar de um lugar sem nunca conseguir, e que outras pessoas dariam de tudo só para poder ficar em algum lugar" ela hesitou, continuando em seguida com uma amarga imparcialidade "Talvez ninguém consiga o que realmente quer"

"Eu não diria isso" Sawyer disse olhando para ela significativamente

Ela voltou-se para encontrar seus olhos e sua expressão suavizou-se. Eles se olharam fixamente calados, os dois sentindo, como sempre, a invisível corrente elétrica que passava por entre eles sempre que seus olhares se encontravam. Era um tipo de droga que não podia ser usada por muito tempo sem a ameaça de cair no abismo.

Kate desviou o olhar primeiro, obviamente com alguma coisa em sua mente. Ela respirou profundamente, esperando, e começou "Eu vivi em tantas casas diferentes... mais do que possa contar. E nunca nada me pareceu mais um lar do que este lugar. Mas não é só o lugar" ela se corrigiu, sentindo um nó em sua garganta, "Se alguma coisa..." ela parou, e continuou em seguida "Se alguma coisa acontecer comigo, eu só... quero que você saiba..."

"Eu não quero escutar" ele interrompeu, falando rapidamente

Ela fechou seus olhos brevemente, aborrecida "Será que dá pra me deixar terminar?"

"Não"

"Por que não?"

"Porque" ele disse "Seja lá o que você esteja prestes a dizer, eu não quero ouvir" ele parou e então adicionou com uma voz mais baixa "Nada vai acontecer com você"

"Sawyer" ela olhou para longe e então suspirou "Não podemos fazer isso"

"Isso o quê?"

Ela voltou-se para ele novamente "Não podemos... viver em um mundo de contos-de-fada em que todo mundo tem um final feliz"

Balançando a cabeça, ela suspirou "Esse não é o nosso mundo. Por que é tão terrível estar preparado?"

Sua face endureceu contra a lógica das palavras dela "Existem coisas para as quais não há necessidade de estar preparado" ele disse em um tom sombrio "E eu não quero ouvir" repetiu com ênfase

Ela continuou o observando, tentando detectar qualquer fraqueza em sua fachada emocional, mas ele não ia deixar transparecer.

"Tudo bem" ela disse, desistindo "Você venceu. Não vamos falar sobre isso"

Ele olhou pra ela emburrado, agora sentindo uma ponta de arrependimento. Por que toda interação entre eles tinha que ser tão carregada de perigo psicológico?

Puxando a para perto, ele a beijou como forma de agradece-la por desistir do assunto. Kate quebrou o beijo prudentemente quando notou que ele ameaçava se tornar muito apaixonado, o que foi uma boa idéia, já que eles estavam suspensos na ponta de um telhado há uns 30 pés do chão onde movimentos em excesso não seriam a coisa mais sábia a se fazer.

Com seu corpo ainda angulado de lado para o dele, ela formou um O com os lábios e expirou, assistindo enquanto um tênue vapor branco subiu a sua frente e se desfez no ar. "Tá ficando frio" ela observou "Dá até pra ver a respiração"

Ele fez o mesmo experimento, assistindo a seu proprio vapor subir e desaparecer "Me dá vontade de fumar" ele resmungou

"Achei que você já tinha fumado o suficiente por hoje" Kate disse amargamente. Então algo prendeu sua atenção na direção oposta da qual eles estavam olhando "Olha aquelas nuvens chegando... vai cair uma tempestade"

"Tá vindo do Sudoeste"

Kate mordeu a parte de dentro de sua bochecha para tentar não sorrir "Na verdade, ali é o Noroeste" disse gentilmente

Ele ficou calado por um segundo, mentalmente calculando. Lançou um olhar irritado para ela "Você adora esses momentos, não é?"

"Adoro mesmo" ela acenou com a cabeça, agora incapaz de segurar o sorriso. Ele virou os olhos, mas ela sabia que ele não estava realmente irritado.

Para permitir que ele reavesse um pouco de dignidade, ela permitiu que ele desse alguma informação que ela não tinha ainda.

"Neva alguma vez por aqui?"

"Claro que neva" ele disse, como se a resposta fosse óbvia "Mas não tão cedo como agora"

Ela olhou novamente para o jardim, seus olhos varrendo a extensão do lago e o poço. "Eu adoraria ver esse lugar quando neva"

ela disse suavemente

"E vai ver" ele a observava

Ela não encontrou seus olhos. Sorrindo tristemente sussurou "É..."

Depois de um intervalo de tempo, Sawyer suspirou. "Você ainda não se cansou desse por-do-sol por hoje? Será que dá pra gente voltar lá pra dentro?"

Ela olhou de relance para ele "Tá..." mas ainda assim, permaneceu imóvel.

"Tá esperando pelos helicópteros, é?" ele perguntou, tentando instiga-la

Ela parecia se desfazer de seu devaneio. "Por alguma razão, eu tive esse desejo doido que a gente poderia ficar aqui em cima pra sempre"

"Sinto muito desaponta-la, shortcake, mas meu traseiro já tá dolorido. Ele apontou para a janela "Primeiro as damas"

Ela lançou outro sorriso distraído em sua direção enquanto descia o declive das telhas, habilmente. Ele observou intensamente, segurando sua respiração, até que ela entrasse pela janela. Inclinando-se para fora, ela tirou seus cabelos de sua frente e olhou de volta pra ele "Você vem?"

Ele se moveu insignificantemente e parou novamente, desejando que ela não estivesse olhando. Ele havia escalado um maldito rochedo na ilha, não? Então por que estava tão nervoso?

"Você quer que eu volte e te ajude?" ela perguntou brincando

Olhando para ela, ele se virou e desceu pelo telhado com uma vagareza dolorosa, feliz quando pode finalmente abaixar suas pernas ao nível da janela. Ele ficou de pé dentro do quarto, encostando-se na parede e respirando pesadamente, sentindo o sangue correr por suas veias

"Isso acelerou seu coração" ela perguntou, com os braços cruzados em sua frente, ainda se divertindo com a situação.

Com um rápido e imprevisível movimento, ele a agarrou e levantou contra ele. Ela trancou suas pernas em torno de seus quadris e os braços em torno do pescoço dele, instintivamente, surpresa e quieta por um momento.

"Não só isso" ele murmurou junto a sua orelha, com as sobrancelhas levantadas perversamente.

"Ai meu Deus!" ela gemeu, jogando sua cabeça para trás e rindo "Você é tão nojento!"

Mas de qualquer modo, ela não criou nenhum tipo de protesto quando ele a carregou e a jogou na cama.

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Sawyer estava confuso quando abriu os olhos. Demorou alguns segundos para perceber que, na luz daquela manhã cinzenta, ele estava vendo seu quarto de um ângulo diferente. Eles estavam dormindo com os pés na cabeceira da cama, e a principio ele não conseguia se lembrar de porque... até que sentiu o tabuleiro do Banco Imobiliário em baixo dele, fazendo ele lembrar da sequência de eventos da noite anterior.

Ambos estavam exaustos para se importar em cozinhar, então eles reviraram a cozinha pra encontrar qualquer coisa e comiam não se importando muito com o gosto das coisas. Tinha sido um dia e tanto e Sawyer queria que ele terminasse cedo, antes que outra catástrofe emocional pudesse acontecer, mas Kate havia dormido por 14 horas no dia anterior e tinha outros planos
Ela tentou fazer ele jogar Banco Imobilíario com ela de novo, usando a desculpa de que eles não haviam terminado nenhum jogo ainda e que ela estava determinada a leva-lo à falência. Como ele não mordeu sua isca, ela declarou que iria jogar sozinha então, o que o fez soltar um "pfft", censurando-a. Enquanto ela abria o tabuleiro em cima da cama, ambos notaram que um dos cantos estava mastigado, circulado por uma fileira de pequeninas e suspeitas marcas de dentes caninos.
O olhar de tristeza no rosto de Kate fez com que ele se convencesse a juntar-se a ela, mesmo que ainda um pouco aborrecido.

Parecia que ela tinha planejado aquilo.

Mas aparentemente ela estava mais cansada do que pensava, porque ele não achava que tinham jogado muito até que ambos desmaiaram em cima do tabuleiro. Droga, ele pensou. Eu tava ganhando!
Fazendo um esforço para se levantar da cama, ele juntou algumas cartas que haviam ficado presas a seu braço. Foi cambaleando até o banheiro, olhando para a janela, mas então parou e olhou para fora mais atento.
Esfregando seus olhos embaçados pelo sono, olhou de novo, pensando que talvez sua visão estivesse ficando pior. Mas o cenário não mudava, mesmo com o foco aumentado.

"I'll be damned" ele respirou

Indo de volta para a cama, ele cutucou o ombro de Kate. "Hey"

Ela contraíu-se defensivamente, como sempre fazia quando alguém a acordava e pareceu irritada quando o viu. "Quê?" ela resmungou, fechando seus olhos novamente.

"Vem aqui ver isso"

Sem abrir os olhos, ela se espreguiçou um pouco e respirou profundamente "mmmmm..."

Impacientemente, ele enganchou sua mão em baixo do cotovelo dela e a levantou.

"Sawyer," ela protestou irritada "O que você tá fazendo?"

Ela mexia os pés enquanto ele a conduzia à janela. Uma vez ali, no entanto, sua atitude mudou, assim como a dele anteriormente. Ao levantar os olhos para o vidro, seu corpo se acalmou e ela suspirou. Os dois ficaram olhando para a paisagem.

Não era exatamente neve - ou pelo menos não o tipo de neve em que a maioria das pessoas pensava quando ouvia a palavra "neve". Era mais como uma geada muito forte ou uma leve poeira de flocos, o suficiente para cobrir a superfície de tudo, fazendo toda aquela visão - a grama, árvores e telhado - brilhar com pedacinhos de cristal. Os primeiros raios de sol, finalmente saindo por detras das nuvens fizeram com a fraca luz refratar e ser espelhada em milhares de direções.

"É lindo" Kate sussurou

Sawyer virou-se para assistir ao rosto dela. O cabelo dela estava bagunçado e seus olhos ainda inchados do sono, mas suas bochechas já estavam coloridas com um rosa que parecia irradiar de debaixo de sua pele.
Ela estava com uma expressão de choque acima de seu queixo, e ele levantou os dedos para tocar, experimentalmente.

Ela se virou para ele com um ar questionador.

"Acho que você dormiu em cima da batalha" ele disse, com um olhar divertido

Ela riu e olhou para as partes do jogo ainda espalhadas na cama.

"Acho que terminamos 0 de 3"

"Um dia desses a gente termina..." ele disse

Acenando com a cabeça lentamente, sua expressão tornou-se mais séria. Ela se encostou no peito dele, virando-se para poder olhar pela janela de novo, sentindo o jeito que o calor do corpo dele era emanado atravez do fino tecido de sua camiseta.

Depois de alguns segundos sem se mexer, ela disse simplesmente "Obrigada"

"O quê?... você acha que eu fiz isso?" Ele olhou para o gelo.

"Quis dizer... Obrigada por me deixar ficar aqui" Ela se afastou e olhou para ele "Não me lembro se já tinha te dito isso"

Ele engoliu, não sabendo o que dizer. "É, bem... você meio que se convidou, Freckles. Não era como se eu tivesse escolha"

Sorrindo como se aquilo fosse exatamente o que ela esperava que ele diria, ela o beijou deixando suas mãos ao lado do corpo, assim só seus lábios se tocavam.

"Acho que vou tomar um banho" ela disse enquanto ele abria seus olhos novamente "Não tomei um ontem"

"Boa idéia... Tenho certeza de que você tá começando a atrair moscas" ele disse teasingly

"Você acha mesmo que alguma mosca poderia sobreviver numa casa gelada que nem essa?" ela perguntou, com as sobrancelhas elevadas

Ele fez um som exagerado, como se ela houvesse o ferido profundamente, o que fez ela rir.

"Eu tenho que ir pegar mais madeira, espertinha"

"Sabe, você podia simplesmente concertar o aquecedor..." she hinted.

"É, mas a madeira é de graça" Ele virou a cabeça para o lado e sorriu para ela enquanto Kate rolava os olhos "Ainda tenho um pouco atrás do galpão, só preciso partir e trazer até aqui"

Kate se dirigia a porta "Tá bom. Depois do banho vou sair e te ajudar a empilhar."

Ela estava no corredor quando algo fez com que ele a chamasse.

"Ei?"

Colocando sua mão no batente da porta, ela tomou um ar de quem estava escutando "Ahm?"

Sawyer olhou para Kate intensamente por alguns segundos, tentando decidir o que era que ele queria dizer a ela. Inclinando a cabeça como um garotinho, ele colocou sua mão atrás do pescoço, frustrado.

"Esqueci o que eu ia dizer..." ele murmurou, quase timidamente

Kate sorriu compreensiva. "Bem, tente lembrar. Você pode me dizer mais tarde."

Ele observou enquanto ela se virou e começou a descer pelo corredor novamente. A porta foi fechada e ele pode ouvir a água começar a cair.

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Ele descarregava as madeiras na parte traseira da caminhonete como se elas nao pesassem nada. Ele sentía-se estranhamente revigorado - mesmo nao tendo tomado uma só gota de café antes de sair. Era uma energia que era completamente natural, em parte devido ao ligeiro e frio ar daquela manhã, mas parte devido à algo ainda nem sequer definido. Talvez fosse simplesmente o efeito do tempo alterado, mas tudo parecia novo de alguma forma. Ele estava cheio de planos para o inverno todo e seus pensamentos se extendiam também para a próxima primavera e verão.

É claro que ele ia concertar o aquecedor. Ele só estava brincando com ela, o aquecedor seria essencial quando o frio de verdade chegasse. Também havia outras coisas. O galpão precisava ser reformado, talvez substituido por um maior. A casa em si precisava de uma pintura. E ele também pensava em colocar uma cerca em volta de todo o perímetro da propriedade, para obter segurança extra. Eles até poderiam ter um portão trancado no fim da estrada. Ele pensou em tudo isso com exaltação enquanto tomava a respiração pelo ar frio.

Quando terminou de descarregar toda a lenha, ele adiantou-se para o banco do motorista, ligou o motor, contornou devagar até o galpão e até a área da casa perto da cozinha. Assim que desceu da caminhonete e bateu a porta, sua atenção foi voltada para um movimento na lateral, perto da varanda.

Parados na porta da frente, tentando examinar pelas janelas, estavam dois homens de meia idade, com ternos escuros.

Sawyer gelou, todos os músculos de seu corpo ficaram tensos e rígidos. Ele podia escutar um pesado zunido de sangue em seus ouvidos enquanto tudo parecia ficar em slow motion.

"Posso ajudar em alguma coisa?" ele chamou com a voz irritada, desesperado para tira-los de perto da casa.

Eles se viraram e depois de avista-lo, se entreolharam. Um deles acenou com a cabeça rapidamente e então desceu os degraus, dirigindo-se ao encontro de Sawyer. Suas mãos estavam fechadas, cravando suas próprias unhas em sua pele, tentado se estabilizar o suficiente para ganhar um pouco de compostura. Por favor, Deus, faça com que eles sejam Testemunhas de Jeová, ele rezava silenciosamente. Inferno, eu vou até deixar eles me converterem se precisar

"Você é James Ford?" um deles, o mais alto, perguntou

"Yeah" ele disse, conseguindo parecer menos assustado do que estava "Que é que você quer?"

"Sr. Ford, meu nome é Robert Callahan, sou do FBI" ele mostrou rapidamente um distintivo em sua carteira e Sawyer deixou de lado suas tolas esperanças, sentindo-se tonto.

"Esse é meu parceiro, Phillip Reed" ele olhava astuta e suspeitosamente para Sawyer

"Gostariamos de lhe fazer algumas perguntas sobre uma mulher que acreditamos ter tido contato com o senhor recentemente"