Em toda a fic, a Leah Kate sempre adiciona comentários acima dos capítulos, geralmente respondendo algum comentário anterior e, na maioria das vezes não diz nada pra nós, por isso sempre retiramos. Mas esse, por ser o último, me deu vontade de traduzir e deixar. Me deu uma emoçãozinha extra quando eu li pela primeira vez.

"Só um aviso a vocês – provavelmente vai confundi-los o fato de haver um capítulo 41 na lista, mas é só um postscript que eu já havia mencionado anteriormente, onde eu agradeço e falo mais algumas coisinhas. E então... aqui está. O grande final (e me faz um pouco triste dizer isso... mas também aliviada ;) "

Capítulo 40 – Traduzido por Cristianepf

"Nós gostaríamos de saber se vocês se importa se fizermos algumas perguntas sobre uma mulher que temos razões para acreditar que possa ter tido contato com você."

As palavras ecoavam em seus ouvidos. Não que ele não esperasse – assim que o homem chamou seu nome, ele soube, com uma espécie de certeza telepática, porque eles estavam lá. Ele e Kate haviam tido tantos avisos e falsos alarmes até que eles tivessem que passar pela coisa de verdade. Mas ... porque agora? Por que nesta manhã, de todas as manhãs?

No segundo em que ele notou o homem na varanda, ele tinha sido descuidado com fato importante. Ele não tinha uma arma com ele. Ele tinha o hábito de trazer sempre consigo toda vez que saia de casa, mas por alguma razão insondável, ele não tinha se preocupado em tomar essa precaução hoje. Talvez por ser ainda cedo da manhã, ou talvez o frio o tivesse enfeitiçado, ou estes pensamentos sobre o futuro o tivessem distraído. Mas fosse qual fosse a razão, ele entendia que estava completamente indefeso, no sentido físico – o que significava que Kate também, a menos que ela por acaso tivesse visto pela janela e se armado dentro da casa. Porque esses agentes com certeza tinham armas escondidas, estivessem eles vindo só pra fazer perguntas ou não.

Tudo isso passou pela cabeça dele no espaço de poucos segundos enquanto ele procurava desesperadamente um modo de lidar com a situação. Então, mesmo sem decidir conscientemente, seus instintos assumiram. Enquanto o homem o observava, ele virou casualmente para a caminhonete e pegou um monte de madeira, largando-o na pilha.

Dando uma olhada de novo para eles, ele respondeu com num tom de voz que era um misto de arrastada e charmosa. "Bem... eu tive em contato com várias mulheres ultimamente, se é que me entendem. Vocês vão precisar ser um pouco mais específicos quanto a isso."

A tática funcionou. O mais jovem deles, Agente Reed, dirigiu a Sawyer um leve e conspirador sorriso. "Oh, eu tenho certeza de que vocês lembra desta. Ela é o que gostamos de chamar de "um caso especial."

Sawyer pareceu estar pensando por um segundo, então ele jogou a cabeça pra trás como se tivesse se dado conta de algo. "Ah... eu aposto que sei sobre o que é isso." Ele caminhou para perto deles, colocando a mão na traseira da caminhonete. "É aquela garota, não é? Aquela do avião?" Ele fez uma pausa, como se tivesse tentando algo específico. "Kate," ele disse finalmente, pronunciando seu nome com precisão, como se soasse estranho em sua boca, como se tivesse tirado do fundo da memória. "Até que estava demorando."

O olhar no rosto do homem mais alto parecia confirmar o palpite dele. "Então eu acredito que você tem alguma idéia de como a investigação está indo até agora, certo?"

Sawyer sacodiu a cabeça de leve, voltando a descarregar a madeira. "Nah... na verdade não. Mas eu ouvi que ela escapou de vocês de novo. Isso é verdade?" Ele olhou para eles. "Diabos, pelo que eu lembro, ela provavelmente não pesava nem 50 kg. Estão me dizendo que o FBI inteiro não consegue segurar uma coisinha daquelas?"

O Agente Reed pareceu de alguma forma ofendido com isto. "Não é assim tão simples."

"E porque não?"

"Porque aquela coisinha de alguma forma conseguiu virar um veículo que andava a 80 Km/h, estando no banco de trás, algemada. Ela é emocionalmente instável e altamente perigosa."

Sawyer teve que se morder pra não rir de orgulho. "Acho que são sempre aqueles que você menos espera," ele disse, como se pensasse que a coisa toda era engraçada.

Agente Callahan encarou Sawyer friamente. "Se importaria de descrever o seu relacionamento com a Srta Austin durante os meses que passou com ela na ilha?"

"Relacionamento?" Sawyer perguntou dando ênfase na palavra. Ele riu um pouco, e pegou o machado de onde ele deixado no chão antes, pensando vagamente se poderia usá-lo como arma, se fosse necessário. "Não é bem a palavra certa pra descrever." Ele partiu a lenha ao meio com habilidade. "Tenho certeza de que vocês dois sabem como é. Eu estava sozinho... ela era gostosa... eu andei atrás dela por um tempo, mas nada além disso." Ele levantou os olhos para eles, sagaz. "Vocês sabem aquele tipo de garota que pensa que estão acima de tudo... como se elas estivessem com TPM o tempo todo?"

Agente Reed respondeu com um breve sorriso de confirmação, mas Callahan não mostrou resposta. Ele estava no mínimo na casa dos cinqüenta, seu cabelo começava a ficar grisalho, obviamente um oficial de carreira que fora tirado do sério ao ser posto com um agente inexperiente como o cara que ele tinha como parceiro.

"Em declarações que recebemos dos outros sobreviventes, parece que vocês dois tiveram algo como um cena durante o seu último dia na ilha... que você ficou um tanto violento com ela? O que tem a dizer sobre isso?" ele perguntou ameno.

"Violento, " Sawyer repetiu com sincera desaprovação. "Quem disse isso?" ele reclamou.

Callahan continuou a encará-lo com firmeza, e Sawyer percebeu seu erro. Se recompondo, ele voltou a cortar a lenha, dizendo, "Tá, e daí?... Talvez eu tenha sido... mas foi só porque a vagabunda tentou pegar meu lugar na jangada que construímos para escapar." A palavra entalou em sua garganta, era algo que ele mal suportava chamá-la, mesmo que fosse parte da atuação. Mas não havia lugar pra sentimento ali. Ele tinha que por os detalhes direito. "Vocês tem idéia do duro que eu dei pra construir aquela coisa? E ela chega, pensa que pode manipular todo mundo e fazê-los se virar contra mim, só pra conseguir o que ela quer sem ter tido suado uma gota. O que diabos eu devia fazer, deixar ela pegar meu lugar?"

"Então no meio disso, a condição dela de fugitiva veio à tona para o resto do grupo. Não é isso?"

"Sim," ele disse. "Não era essa a minha intenção, mas eu acho que foi o que aconteceu."

"Por que não era sua intenção?" Callahan perguntou.

"O quê?" Sawyer olhou para ele, confuso.

"Bem, estou presumindo que a identidade de fugitiva dela já estava clara pra você, mas você deve ter deliberadamente manter esta informação só pra você. O que o fez tomar essa decisão?" Ele mantinha o tom falso, mas seus olhos pareciam astutos, quase como os de um falcão.

Sawyer repentinamente ficou nervoso. Ele sentiu que havia uma armadilha nisso de alguma forma, mas ele não podia ver onde. "Acho que eu pensei que isso não era da minha conta," ele disse, levantando o machado de novo. "Que diferença ia fazer pra mim o quanto eles sabiam sobre ela? Eu tinha mais o que pensar."

"Me deixe perguntar uma coisa, Sr. Ford," Callahan continuou, depois de encará-lo por alguns segundos. "Por acaso a Srta. Austin estava a par de seu passado criminal?"

O machado oscilou de leve ao descer, a pergunta o havia pego desprevenido. O machado foi muito pra esquerda na pilha de madeira, atingindo um canto e enterrou no chão. "Merda," Sawyer resmungou, puto da cara e ciente de que estava sendo observado de perto, pelos dois agora. Ele jogaria de vagar, sem ter certeza onde eles queriam chegar com isso. "Por quê? Vocês acham que ela faria o mesmo por mim?" Ele arrancou o machado do chão.

"Nós temos informações de várias fontes que vocês dois passavam muito tempo sozinhos em companhia um do outro, longe do acampamento. Me parece que duas pessoas com passados tão interessantes... com tanto em comum... deviam ter muito o que conversar. Você não concorda?"

Reed também o observava, ainda que esta linha de raciocínio nunca tivesse lhe ocorrido.

Agora Sawyer lentamente entendi onde eles queriam chegar com isso. "Eu não saberia dizer," ele disse irritado. "Não sou do tipo falador."

"Mas certamente," Callahan falou com voz lisonjeira, "Você deve ter ficado tentado a dividir suas experiências com alguém que pudesse em parte compreender? Afinal de contas, deve ter tido horas, que ninguém mais na ilha podia entender suas... circunstâncias especiais. E não seria completamente irracional presumir que ela se sentiu da mesma maneira sobre você.pudesse "

"É, bem," Sawyer disse, ficando furioso. "Pra dizer a verdade, eu não estava procurando uma alma gêmea. Quando eu estava com ela, só estava preocupado em como eu poderia me livrar das roupas dela."

"Entendo," Callahan disse, com um breve sorriso, como se ele não acreditasse em um só palavra.

Sawyer voltou a dar machadadas, enquanto eles o observavam em silêncio por um momento. Esta conversa estava se tornando incrivelmente alarmante, mas a repentina compreensão disso fez seu sangue gelar, fazendo-o esquecer das respostas impensadas. Ele só conseguia lembrar que Kate iria lá pra fora ajudá-lo quando tivesse saído do banho. Ela já devia estar quase lá, não devia? Ao contrário da maioria das mulheres, ela era rápida pra se aprontar. Ela não usava maquiagem, e ela nem mesmo usava secador de cabelos. Todos os músculos de seus corpo faziam uma oração silenciosa pra que algo a distraísse, que ela demorasse a sair pela porta só um pouquinho mais.

"Talvez devêssemos parar a procura por aqui, Sr. Ford," De repente o agente Reed disse, brandamente, como se ele estivesse cansado de joguinhos. Callahan lançou a ele um olhar letal, mas ele não parou. "Fomos informados que a policia local foi alertada por uma mãe preocupada algumas noites atrás, no Dia das Bruxas. Aparentemente seu filho o viu acompanhado de uma mulher que ele acredita bater com a descrição de Kate Austin."

O coração de Sawyer deu um salto, mas ele só torceu os olhos com sacasmo. "Quem, aqueles bastardinhos que estavam depois da meia noite com sacolas cheias de papel higiênico? Com certeza me parecem ser testemunhas confiáveis."

Ele partiu outro pedaço de madeira, desta vez partindo-a bem ao meio, para seu alívio. "Tá, eu tenho uma queda por morenas... isto é crime?" Ele estreitou os olhos para eles, como se tivesse preocupado. "Olha..." ele disse na defensiva. "Aquela garota que eu tava no Dia das Bruxas. Ela disse que tinha dezoito, ok? E só pro caso de vocês irem atrás dela também pra enxê-la de perguntas sem pé nem cabeça como estão fazendo comigo... quero deixar dito que ela me disse que tinha dezoito."

Reed suspirou, parecendo um pouco enojado, mas também desapontado, como se tivesse atingido uma parede de tijolos. "É... nós vamos nos lembrar disso." Ele olhou para Callahan, cedendo a vez, deixando ele tomar o controle de novo.

"Então em outras palavras, o que você estava dizendo, Sr. Ford, é que você não ouviu ou viu traço algum dessa mulher desde que os dois se separaram na ilha... é isto?"

"É," ele disse. "Acho que é isso que estou dizendo."

"Deixe-me perguntar outra coisa, então. Você tem idéia de onde ela possa estar? Ela mencionou algum lugar em particular que o fizesse pensar que ela pudesse procurar abrigo?"

Sawyer fingiu pensar por um minuto. "Lugar específico? O único lugar que ela mencionou foi Disneylândia... ela disse que nunca esteve lá. Talvez este seja o lugar que vocês devam procurar," ele disse com um sorriso malicioso e não amigável.

"Disneylândia," Reed ecoou, claramente pensando que Sawyer estava tirando com a cara deles. Ele bufou como se fosse rir. "Obrigado pela dica."

"Bem, então," Callahan disse, com um ar de finalização. "Suponho que não haja muito mais o que discutirmos aqui. Desculpe incomodá-lo, Sr. Ford, mas temos que checar todas as denúncias de atividades suspeitas pessoalmente. É claro, noventa e nove por cento delas acabam em nada, assim como neste caso aparentemente... mas é o procedimento. Eu tenho certeza que você entende."

"É," Sawyer disse, começando a ficar aliviado. "Sem problemas."

Os dois se viraram como se fossem ir embora, mas então Callahan olhou para trás, como se tivesse acabado de pensar em alguma coisa. "Oh, outra coisa, Sr. Ford. Já que estamos aqui, você se importaria de nos deixar dar uma olhadinha na casa?"

""Dentro da casa? " Ele perguntou, seu momentâneo alívio evaporando num instante. "Pra quê?"

"É só uma formalidade, na verdade. Dessa maneira podemos garantir ao Departamento que não deixamos nenhum detalhe. Por quê? Algum problema?" Ele observava Sawyer com suspeita fria e calculada.

Ele se virou lentamente, fingindo estar ocupado em arremessar alguns pedaços partidos de madeira para o lado. "Problema algum. Mas eu acredito que vocês tem um mandato com vocês, tem?"

"Bem," Callahan disse calmamente, "Isso só é necessário se você se recusar a nos deixar entrar. Seria menos demorado e complicado... para todos nós... se você nos deixasse dar uma olhada por ai. Afinal de contas, se você não tem nada a esconder, não tem motivos pra dificultar as coisas, não é?"

Sawyer riu asperamente, balançando a cabeça. "Sem ofensas, mas não estou de bom humor pra cooperar quando eu já disse tudo que eu sei. Agora, como podem ver, eu estou meio ocupado por aqui." Ele gesticulou para a pilha de madeira. "Eu acho que não tenho tempo na minha agenda pra levá-los a um tour. Se querem tomar mais tempo do meu dia, vão ter que fazê-lo um pouco mais oficial. Então voltem aqui com um mandato, e então talvez a gente converse." Ele se virou impaciente, secretamente com temor desesperado no coração.

Houve um momento de silêncio. Ele pôde ver, pelo canto de olho, que os agentes se entreolhavam, com expressões idênticas de cuidado, e controlada satisfação em seus rostos. Eles sabiam que haviam chegado em algum lugar.

"Você quem sabe, Sr. Ford," Callahan disse, com um sorriso frio. "Eu eu devia dizer... Sr. Sawyer."

Sawyer se virou com um rápido olhar de ódio. "Já terminamos aqui?" Ele perguntou com uma voz baixa. "Por que se sim, eu acho que vocês estão abusando da minha boa vontade."

"Terminamos por agora," ele respondeu, ainda com a inabalável expressão no rosto, como se ele tivesse Sawyer bem onde ele queria. "Mas não vamos dispensar sua boa vontade ainda. Eu eu tenho a impressão de que nos veremos em breve, filho."

Ele se virou dando um último olhar penetrante que Sawyer devolveu da mesma forma, sem piscar. Fazendo um ligeiro gesto a Reed, ele se dirigiu a entrada, onde eles estacionaram para fazer uma entrada silenciosa. Reed deu uma rápida olhada a Sawyer, como se ele, também, estivesse avaliando-o, então se virou e seguiu seu parceiro.

Sawyer os observou até que estivessem completamente fora de vista, então continuou lá em choque, deixando as emoções se situarem. Ele sentiu uma imensa onde de alívio por eles terem partido, mas suas últimas palavras não deixaram muito espaço pra deixar a ansiedade completamente. Eles voltariam – não havia dúvidas em sua mente. Era apenas questão de tempo.

E enquanto isso, Kate estava na casa, tomando banho, sem saber de nada disso ainda. Ela ainda estava vivendo no mundo em que eles haviam acordado esta manhã, do mesmo que ele tinha sido recentemente arrancado pelas garras impiedosas da realidade. E agora ele teria de contar a ela. A idéia de que ele teria de ser aquele a despedaçar, com suas próprias palavras, sua frágil prisma de segurança era de alguma forma o pior de tudo... fazia com que ele sentisse vontade de se atirar no chão e não se mover. Mas não havia tempo pra isso.

Ao invés disso, ele foi relutante em direção da casa, com passos pesados e de coração partido, passou pela porta.

Ele esperou por ela, na sala de estar, sentado na cadeira que sempre foi sua favorita, mesmo que ele nem mesmo soubesse o porquê. Certamente não era a mais confortável da peça, mas de alguma forma se acertava com o seu corpo e ele sempre a escolhia. De certo modo, os sentimentos dele por esta cadeira em particular eram parecidos com os que ele nutria pela casa em si, até alguns meses atrás.

Ele a comprou de volta com cautela, mas também com uma necessidade que não se pode explicar, e havia mantido-a em sua posse mesmo que ele quase nunca ficava lá. Os impostos anuais eram abusivos, toda vez que ele ficava lá algo caro precisava ser consertado, e o valor de revenda, a esta altura, devia estar no mínimo o triplo do que ele tinha pago, se não mais. E ainda assim, a despeito de tudo isso, nunca lhe ocorreu desistir da casa. Mesmo quando ele estava desesperado atrás de dinheiro, a idéia de vendê-la se quer passou pela sua cabeça, o que era irônico, considerando o quanto ele sempre odiou o lugar. Era como uma manifestação física de toda a bagagem emocional que ele carregava consigo, uma sólida imposição que o fazia lembrar de tudo que ele sofreu. Não importava quanta dor causava nele, era um mal necessário, e ele aceitava a presença disso em sua vida como uma dádiva, da mesma maneira que ele aceitava, e até precisava, da presença da carta em seu bolso.

Enquanto ele permaneceu lá sentado esperando, sua mente tentava lembrar as informações que ele sabia da história da casa. Seu bisavô tinha de alguma forma feito fortuna durante a I Guerra mundial –ninguém sabia como, mas considerando a natureza da família, Sawyer suspeitava de que não havia sido com nada muito ético. Ele havia se chegado lá com intenção de operar sua própria mina de carvão, instalando sua noiva na casa recém construída em 1918. Infelizmente, ele não tinha se preocupado em saber quanto de carvão realmente havia por ali, e descobriu que não era muito. Pra piorar, sua jovem esposa faleceu após dar a luz a seu primeiro e único filho, o avô de Sawyer, Adam. Sua vida e fortuna ruíram, o frustrado homem nunca voltou a se casar, e mal pode ver seu filho se tornar adulto, morrendo em seguida e deixando a casa para ele.

Seu avô foi um conquistador por anos, trazendo para casa sua noiva, Josephine, quando os dois estavam na casa dos trinta. A história de sua avó foi uma saga de dor e sofrimento, mas ela sempre foi vaga quanto aos detalhes, e então Sawyer não sabia exatamente como eles se conheceram e se casaram. Tampouco sabia sobre os anos que passaram na casa juntos – só que eles estavam profundamente, provavelmente até perigosamente, enfeitiçados um pelo outro. Havia algo escuro e confuso no passado deles, uma impressão que ele tinha desde criança, mas ele nunca soube o que era. Ele admitiu que era o tipo de coisas que você só se torna realmente interessado quando já é tarde demais para saber as respostas.

A história catastrófica de seus pais, obviamente, era familiar para ele. Sua breve estada aqui havia se transformado em tragédia, e parecia que, com eles, a casa havia tido o suficiente de histórias de amor conturbadas. Exceto que obviamente não era o certo a se dizer, como os últimos meses com Kate pareciam provar.

Sawyer sorriu quase amargo ao pensar em tudo isso. Como poderia uma simples casa, que emoldurou duas histórias, circundada e abrigada humildemente pelo corredor dos Apalaches conter tanto drama humano? Certamente não eram todas as casas que haviam testemunhado o andamento de tal ciclo de miséria, corações partidos e paixões. Que diabos havia com esse lugar? Ou talvez fossem os homens desta família fossem amaldiçoados, assim como as mulheres que eles inevitavelmente atraiam.

Foi o suficiente para fazê-lo pensar, não sem uma ponta de seriedade, se a casa em si podia manter alguma impressão do que havia testemunhado. Será que as pessoas que viveriam ali no futuro poderiam pressentir algo das vidas que passaram por esses aposentos, os destinos que haviam se desenrolado aqui? Ou seria só um espaço vazio, em branco, ecoado de silêncio, como agora parecia para ele enquanto esperava que Kate descer as escadas para ele lhe dizer que o tempo deles ali havia acabado? Ele estava possuído por essa repentina vontade de queimar tudo, de se livrar de todos os traços disso, de uma vez por todas, pra que ninguém mais pudesse pensar que estava a salvo lá, que podiam ter um futuro ali. Mas não havia tempo para isso.

Seus pensamentos foram interrompidos pelo som dos pés descalços dela nas escadas. Ela desceu suavemente e estava indo em direção à cozinha quando notou a presença dele. Parando, ela sorriu. "Não consigo encontrar meus sapatos," ela explicou. Ele a encarava, sem saber o que dizer. Por que ela tinha de ser tão linda?

Entrando na sala, ela sentou sobre os pés no sofá em frente à ele. Com uma toalha, ela continuou secando os cabelos. "Já terminou? Eu disse que ia lá ajudar."

"Não," ele disse calmamente. "Não terminei." Havia alguma coisa sobre o jeito que ela estava sentada que martelava em sua memória. Ele não conseguia saber o que era. Então ele percebeu num flash repentindo. Esta era a exata posição que ela tinha estado na sua primeira noite na casa, depois dela ter pulado a janela e ter voltado do banho. Tudo era igual – a maneira como ela sentou sobre os pés, o jeito que ela estava secando o cabelo, até mesmo o olhar que ela lhe lançava que era um misto de desafio e piedade. A única diferença era a posição dos móveis.

Seus movimentos começaram a ficar mais lentos enquanto ela o estudava. Um nervoso palpite passou pela sua face, e ela lentamente largou a toalha no colo. "O que tem de errado com você? Aconteceu alguma coisa?"

Ele continuou a observá-la, incapaz de dizer qualquer coisa, mesmo que ele se forçasse a falar.

"Sawyer," ela o insentivou, ficando mais preocupada.

Ele inspirou fundo e pesadamente, então expirou e fechou os olhos por um segundo. Quando ele os abriu de novo, olhou nos olhos dela.

"O FBI esteve aqui. Eles acabaram de ir embora, tem uns 10 minutos."

A expressão dela não mudou imediatamente, mesmo assim o rosto dela perdeu um pouco a cor. Engolindo em seco, ela desviou o olhar, então tentou forçar um sorriso. "Eu acredito que não tem nenhum chance disso ser uma piada de mal gusto, tem?"

Ele não respondeu. Ela já sabia a verdade. Concordando suavemente com a cabeça, ela disse "Eu acho que não."

Eles permaneceram em silêncio por alguns segundos. Ele deu a ela a chance de se ajustar àquela realidade, da mesma maneira que ele tinha feito depois daqueles desgraçados partirem. Ela se esforçava em vencer as emoções, da mesma maneira que ele.

Ela encolheu os ombros de leve, numa nada convincente tentativa de demonstrar desinteresse. "Não é uma grande surpresa, certo? Nós sabíamos que isso ia acontecer eventualmente. Eu nem acredito que não aconteceu antes." Ela olhava para ele. "Por que eles se foram?"

"Eles não tinham um mandado pra entrar na casa."

"Eles vão voltar," ela disse suavemente, com uma franca simplicidade que o deixou enjoado.

"É," ele sussurrou, não vendo razão alguma pra não concordar com ela. Ela conhecia esse terreno melhor do que ele.

Ela permaneceu pensando, olhando ociosamente em torno da sala, tentando conter as emoções, para tomar as rédeas do desconsolo que ela sentia. Ele podia ver o esforço nas feições dela, por mais doloso que fosse ver, ele não podia desviar o olhar.

"Kate..." A voz dele soava estrangulada.

Ela olhou para ele quase que advertindo-o, implicitamente dizendo a ele que lhe desse espaço.

Mas ele não podia. Não dessa vez.

Ignorando seu olhar, ele levantou, e percorreu os poucos passos que os separavam, sentando-se na mesa de centro e puxando-a para junto dele no mesmo movimento. Ela resistiu a princípio, mantendo seu corpo rígido e tenso, mas então cedeu, deitando em seu ombro. Ele a abraçava apertado, pressionando-a contra ele, seus dedos enlaçando o cabelo dela ainda molhado. Enterrando a cabeça no pescoço dela, ele sussurrou roucamente, "Querida, eu sinto muito." Um leve tremor percorreu o corpo dela, e as lágrimas vieram, quentes contra seu ombro. Este termo carinhoso em particular, que ele nunca havia usado exceto se fosse por provocação, seriam o suficiente para fazê-la perder a compostura, mesmo sem todo o resto. Ela se permitiu ficar desesperada por alguns momentos, e então respirou fundo.

"Não é sua culpa." Levantando a cabeça, ela olhou para ele com firmeza e seriedade. "Teria acontecido mais cedo ou mais tarde."

"É," ele disse suavemente. "Mas não significa que eu não possa lamentar isso."

Kate concordou num gesto de cabeça, secando outra lágrima que se recusava a não cair. "Então eu acho que, é isso." Ela forçou as palavras saírem, claramente contra sua vontade. "Você não tem que..." ela parou. "Eu espero que você não pense que tem obrigação de..."

"Eu vou com você," ele a interroupeu, sabendo o que ela pensava. "E não quero ouvir uma só palavra a respeito disso."

Ela lhe lançou um olhar de gratidão, e ao menos dessa vez, aceitou as palavras dele sem argumentar. "Certo. Mas nós temos que ir agora mesmo."

"Eu sei, ele disse suavemente.

Eles se entreolharam intensamente por alguns segundos, ainda sem se mover. Ele retirou uma mecha de cabelos que estava presas na bochecha ensopada de lágrimas dela. Ela fechou os olhos.

Quando voltou a abri-los, tinham uma sólida determinação, uma mudança que ele pôde ver imediatamente. Ela desviou o olhar, pensando.

"Precisamos de malas," ela disse num tom simples e sem sentido. "Mochilas, bolsas, malas de viagem... Tudo que você puder encontrar. Mas quanto mais leve melhor, ok? Eu vou começar a pegar coisas. Temos que andar rápido." Ela se levantou revigorada, e ele estava maravilhado como ela podia se animar assim, como ele achou que ela faria. Antes que ele pudesse se afastar dele, ele pegou sua mão e levou a seus lábios por um segundo.

Com algumas lágrimas nos olhos, ela tentou sorrir para ele. "Comece a procurer, ele sussurrou.

"Estou indo," ele disse, se levantando. Ela se correu lá pra cima, deixando a toalha esquecida no sofá.

Numa atitude que ele sabia que era absurda, Sawyer a recolheu para colocá-la na despensa.

Depois de encontrar as malas, ele estava parado em frente à sua cômoda, impotente. Que diabos ele devia pegar pra levar? Como você planeja algo assim? Era como se eles estivessem sendo forçados a sair de férias de última hora, e indesejadas. Ele nem sabia se iam pro norte ou pro sul. Ele devia pegar roupas pro frio ou pro calor?

Ele decidiu ver se kate tinha alguma idéia, se ela tinha algum palpite, então ele atravessou o corridor e entrou no banheiro.

Para sua surpresa, ela também estava imóvel, quase paralisada, observando atentamente a pequena caixa em suas mãos.

"hey, tenho que te perguntar uma coisa," ele começou. Ela lentamente virou a cabeça para ele, uma expressão engraçada em seu rosto, mesmo que ela parecia não tê-lo escutado.

"Onde você conseguiu isso?" ela perguntou.

"Consegui o quê?" Ele perguntou, confuso. Ele olhou mais de perto o que ela estava segurando. Piscando, ele pôde ver que era o teste de gravidez. "Eu comprei numa farmácia," Ele disse a ela, como se isso fosse óbvio.

"Que tipo de farmácia?" A voz dela ainda era sarcástica.

"O que você quer dizer com que tipo?" ele perguntou, perplexo. "Quantos tipos você conhece? É a única na cidade... a mesma que minha mãe costumava ir. Um velho é dono dela."

"Um velho," ela repetiu, desdenhosamente "Isso faz sentido."

"De que diabos você está falando?"Ele perguntou, agora completamente desnorteado.

"Isso ta vencido." Ela falou com ênfase. "Venceu a quase dois anos. E se eu não tivesse jogado seu aparelho de barba no lixo agorinha, eu nunca ia saber."

Ele ainda não conseguia entender ande exatamente ela queria chegar. "E daí? Eu tenho certeza que é uma prateleira que não verifica com frequência. O que você é, um desses consumidores vigilantes? Que diferença faz?

Ela olhou para ele em choque, como se ele não pudesse assim tão estúpido. "Eles não estão bons quando vencem, Sawyer. Eles não funcionam." Ela subitamente parecia assustada ao invés de brava.

Ele recuou um pouco com a cabeça, as palavras importantes fazendo sentido. Eles continuaram a se entre-olhar sem dizer nada.

"Provavelmente não importa," Kate disse finalmente, como se estivesse tentando se convencer, assim como ele. "Tenho certeza que está tudo bem. Quero dizer, eles só botam essas data para poderem vender novos a cada ano e fazer mais dinheiro, certo?"

Ele levou um segundo pra responder. "É, " ele disse, não convencido. "Malditos caras da Corporação."

Nenhum deles nem de longe acreditava nisso, e eles não podiam se enganar. O silêncio parecia se estender, as implicações disso se tornando insuportáveis.

Kate sacudiu a cabeça amargamente. "Não temos tempo pra isso agora," Ela olhou em volta com ar de exaustão. "Podemos cuidar disso depois. Agora temos que nos concentrar em dar o fora daqui."

Ela deu a ele um último olhar intenso, e então passou por ele. Ele continuava parado na porta.

"Sawyer", ela disse com firmeza.

Ele se forçou a virar para ela.

"Termine de fazer as malas."

Com esforço, ele voltou para o quarto.

Kate deu a última volta na casa, checando, com profunda tristeza em seu coração, por qualquer coisa que eles pudessem ter esquecido. Na verdade, ela só queria ver os quartos mais uma vez. Cada um deles continha tantas memórias, produzidas e finalizadas, era verdade, num curto período de tempo, mas não deixava der ser doloroso ou significativo por causa disso.

Enquanto ela rapidamente olhava cada quarto, as imagens surgiam em sua mente, colidindo umas contra as outras e disputando espaço. Ela viu os dois colocando o papel de parede no quarto que ela usava para dormir, tentando desesperadamente (e sem sucesso) quebrar qualquer tensão entre eles. O pequeno quarto de baixo da escada do primeiro andar, trazendo de volta a lembrança da noite em que ela entrou pela janela, exausta e miserável, e a maneira que Sawyer entrou pela porta, bêbado, sem camisa, com um taco de baseball na mão. Ela sorriu de leve com a imagem em sua cabeça.

Na cozinha, a despeito de tudo que aconteceu lá depois, foi onde fizeram sua primeira refeição juntos que agora ela pensava com uma grande sensação de perda... a maneira como ela praticamente teve de forçá-lo a comer, e a maneira que ele fingia que mal tinha apetite. A refeição, pelo que ela lembrava, havia sido interrompida por um helicóptero que voando baixo, e esse pensamento repentino a trouxe de volta a realidade e fez com que ela se movesse mais depressa. Ela checou mais uma vez pra ter certeza de que a cafeteira não estava ligada, e então pegou a arma extra que tinha na prateleira e colocou na calça, as duas ações incompatíveis não a abateu por mais estranho que parecesse.

Sawyer esperava por ela no hall de entrada, atrás da porta. Ele já havia terminado de tirar toda a madeira da caminhonete. Não haveria uso para ela agora.

Ele a observava enquanto ela parava pra colocar a arma na mochila que ele tinha encontrado, por alguma razão fascinado pelos movimentos dela. Sua mente divagava em memórias também, mas ao contrário dela, ele não via os dois. Somente ela.

Ele estava pensando em como ela estava quando sentada no balcão da cozinha, suas pernas balançando, no vestido que ele a viu supersticiosamente encaixotar pra levar há alguns momentos atrás quando ela pensou que ele não estava vendo. Ele relembrou de como ela mergulhou no lago, primeiro os pés, como um garoto, e do hábito que ela tinha de revirar os olhos quando ele dizia algo nojento, e a maneira como ela sempre ficava vermelhinha no alto da paixão, logo depois de gemer e ficar sem energia nos braços dele.

Ainda era difícil pra ele assentar em sua mente sobre o fato de que ela era dele. Ele sabia que não era politicamente correto, ou pior, não era seguro pensar dessa maneira, mas não havia como evitar. Nenhuma racionalidade ou procura interior teria efeito algum na tenacidade desse pensamento. Para o bem ou para o mal, era uma idéia que formara raízes no seu coração, como uma vinha crescendo a partir dele. Ele teria de ver onde isso o levaria.

"No que vocês está pensando?" ela perguntou de repente, olhando para ele.

Surpreso pela pergunta, ele disse a ela, "Só estava pensando que foi bom não termos concertado o maldito aquecedor, afinal de contas. Teria sido dinheiro posto fora." Ela sorriu e fechou a bolsa, sem responder. Ele não soube dizer se ela acreditou ou não.

Levantando-se de novo, Kate deixou os olhos silenciosamente vagar pela escada e corredor, um conhecido pesar tomando conta dela de novo. Finalmente, ela voltou a olhar para ele. Soando como uma criança magoada, ela disse simplesmente, entre lágrimas, "Isso é bem difícil"

Ele pôs suas mãos em seus ombros, tentando pensar em algo reconfortante. "Vamos voltar," ele disse suavemente.

"Promete?"

"Yeah," ele disse.

Eles sorriram com tristeza um para o outro, fingindo acreditar. Ambos sabiam que eles nunca voltariam.

Ele se inclinou para beijá-la, demoradamente, a despeito da pressa, com uma adorável atenção a cada detalhe, gradualmente aumentando a pressão nos seus lábios enquanto ela levantava mais a cabeça em direção a ele, cobrindo sua boca inteira de novo e de novo até que ela colocou as duas mãos nos lados do rosto dele e se afastou. Depois de um segundo ela abriu os olhos.

"Está pronta?" ele sussurrou.

Por um breve segundo, algo passou pelos olhos dela lembrando-o, fortemente, do dia que eles estavam sentados na janela, e ela viu os gansos passando acima deles. Foi um olhar inquito e ansioso, com uma ponta de impaciência, ou o que possivelmente podia ser chamado de empolgação. Aquilo havia o deixado perturbado da primeira vez, e ainda o entristecia agora. Mas, diferente da outra vez, hoje ele sentia que era irradiado dela pra ele, transmitido de alguma forma, então era algo que ele podia compartilhar com ela. Kate parecia sentir isso também, afagando sua mão dedos trêmulos.

Ela concordou com a cabeça. "Vamos embora."

Sem olhar para trás de novo, ela colocou a mochila em seu ombro e abriu a porta, saindo pra rua.

Depois de olhar em volta pela última vez, Sawyer a seguiu até a varanda, fechando a porta firmemente atrás dele.

FIM

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