/ capitulo 02
Pode-se dizer que os primeiros dias foram esquisitos. Não sabíamos ao certo como conduzir uma relação. Como de repente virar namorados depois de sermos amigos próximos por mais de três anos? Sentávamos às vezes em silencio simplesmente admirando a Sheila. Ela que não tinha vergonha nenhuma na cara. Descaradamente abandonava o meu colo pra ficar se roçando nele. Também não a julgo, qual 'mulher' em sã consciência ia preferir meu carinho a aquele que pode ser proporcionado pelas mãos grandes dele?
Sim. Acho que todo mundo já reparou no tamanho de suas mãos. Corresponde. Só posso dizer que tamanho de pé e mão é equivalente. Desde quando eu fico reparando no tamanho das mãos dele? Acho que desde o momento que eu disse que queria ir mais devagar. Tudo bem, já estamos há duas semanas juntos e mal avançamos a segunda base. Quão devagar ele acha que eu queria que as coisas fossem?
"Tu é cara de pau..." – ele ria enquanto mexia no celular.
"O que eu fiz agora?" – me aproximei pra ver de que ele tanto ria.
"Twitar que está passando um tempo com a Sheila..."
Movo meus ombros e sorrio. O que eu podia fazer? Eu que não ia falar que estava aconchegada no sofá com meu namorado que alias era meu par em Glee. Como eu digo em entrevistas, 'meu falso namorado'.
"Quem for inteligente que entenda...'
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Os dias foram passando. Tentar lidar com isso dentro do ambiente de trabalho era cada vez mais complicado. Tentávamos ser o mais estritamente profissionais, mas nas horas livres não tinha jeito, sempre acabávamos dentro do trailer de um ou de outro ou ficarmos de canto conversando/flertando entre a gente.
Não demorou muito para que os olhos percebessem o que estava acontecendo. Ninguém disse nada, mas sabíamos que eles não eram nada bobos ou cegos. Eu, particularmente, tenho andando em um ótimo humor. Não sabia ao certo se tudo se devia a ter tira um certo 'peso' de cima dos meus ombros. Por certo que eu inúmeras vezes me pegava pensando como ia ser minha vida que de certa maneira estava realizada no campo profissional, mas no lado pessoal, apesar das maravilhosas amizades que eu tenho, sempre faltava algo. E confesso que não foi por falta de tentativa.
Há quem pense que sou aquele cara romântico que ficou esperando por alguém estar livre para finalmente correr para os braços dela. As coisas não funcionam bem assim. Sim, eu tinha meus sentimentos confusos, mas não ao ponto de pensar em me 'guardar' pra alguém. Acho que as coisas simplesmente aconteceram.. e de certa maneira tinham que ser assim. Teríamos que ser amigos pra depois termos a confiança necessária de que as nossas imensas diferenças seriam o 'ponto decisivo' para que nossa relação fosse construída. Porque se formos analisar nós éramos muito diferentes... e não precisava ser alguém de fora para constatar isso. Como posso dizer, ela complementava em mim aquilo que eu sabia que precisava ser preenchido. Ela trazia o melhor de mim sempre, me incentivava, me aplaudia e me fazia sentir como se eu fosse realmente uma pessoa especial. Sem interesse, sem cobrança, simplesmente com pequenas ações, pequenos sorrisos e até alguns incentivos. Não se vê muito isso no ambiente que vivemos. Um ambiente de competições, interesse, de pessoas querendo se dar bem a custa dos outros.
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Éramos cautelosos a principio. Começamos a sair em grupos pra comer, de vez em quando eu soltava alguma coisa na internet. Era impossível. Eu precisava compartilhar minha necessidade e eu sabia que de certa maneira existiam varias pessoas que ficariam felizes pela gente. Mas por outro lado, eu preciso preservar tudo isso caso eu queira que dê certo.
Pouco a pouco ele foi tomando mais espaço no meu coração (caso isso seja possível). Não conseguia tirar mais minhas mãos, meus olhos de cima dele. Ficar mais de algumas horas separados havia se tornado algo complicado pra mim. Eu tentava não pressiona-lo, mas já estava impossível. Eu não simplesmente não entendia com alguém não havia conseguido fisga-lo antes. E confesso que isso arranca um pequeno sorriso de mim, fazendo com que eu me sinta mais confidente. Digo isso pelo ambiente que vivemos, pelas coisas que vemos e sabemos, não é nada fácil você ter confiança o suficiente parar saber se vão existir deslizes pela outra parte. Mas ele não saia do meu lado. Não parava de me telefonar quando não conseguia passar a noite comigo. Algumas poucas amigas das quais eu conversava e compartilhava as coisas que se passavam na minha vida teimavam em dizer que eu estava exagerando nos elogios pra cima do meu novo namorado, que eu devia tentar levar as coisas um pouco mais devagar. Mas falar é fácil.
"Que foi?" – estávamos deitados na cama e eu não conseguia parar de olhar pra ele.
"Nada..."
Ele franze as suas sobrancelhas e desliza suas mãos pelas minhas costas nuas. Era domingo de tarde, ninguém ainda havia conseguido sair da cama para fazer qualquer coisa.
"Está com fome?" – enquanto ele falava sentia suas mãos descerem mais ainda.
"Um pouco..." – mas pra falar a verdade a fome não me incomodava nesse momento.
"Quer fazer alguma outra coisa?" – ele voltou a subir suas mãos ate tocarem meu rosto.
"Pra falar a verdade não..." – o vejo sorrir de voltar e aproximar o seu rosto do meu. Fecho os meus olhos e abro meus lábios lentamente ao sentir os seus se aproximarem dos meus. Busco folego, sinto seu hálito, sua língua desliza encontrando a minha e o seu corpo se aproxima ainda mais do meu. A vantagem de se estar na cama era que altura não era um problema. Na horizontal todo mundo tinha alguma vantagem. Tive que fazer algumas compras depois que começamos a sair mais juntos, alguns saltos altos que resolviam ligeiramente a nossa diferença de estatura viraram um artigo essencial no meu guarda roupa. Às vezes ele brincava que eu parecia uma anã, mas logo tornava a dizer que as mulheres pequenas sempre foram um fraco, como se fossemos um 'artigo' afrodisíaco. Que despertavam algo que nem ele sabia explicar. Era fácil ele conseguir me envolver num abraço, me colocar no colo e fazer comigo o que ele bem quisesse. E confesso que isso na cama trazia algumas vantagens pro meu lado.
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O fim do ano foi se aproximando, já estávamos alguns meses juntos e eu já me sentia um completo idiota. Meus amigos diziam que de dez palavras que eu soltava pelo menos três eram Lea. Zoavam com a minha cara, faziam palhaçadas, mas eu não conseguia evitar. Mal colocava meu pé em casa, aparecia mais pra pegar alguma roupa ou resolver algumas coisas da banda. Até pedia desculpas pelo sumiço, mas eles entendiam. Dando uma de psicólogo o Jared dizia que eu finalmente estava suprindo a minha carência de um relacionamento amoroso e que finalmente estava liberando todos os hormônios acumulados em mim ao longo dos anos.
Em entrevistas quando me perguntavam sobre relacionamentos, sobre o que eu já havia feito por alguém, confesso que por muitas vezes eu me sentia um completo idiota por não ter respostas boas pra isso. Com as pessoas que eu me envolvi tudo era basicamente ir pro cinema, jantar e passar um tempo junto. Nunca namorei alguém que eu convivesse praticamente 24 horas por dia quase todos os dias da semana. Muito menos alguém que realmente já conhecia os aspectos do meu passado, que eu não me orgulho, mas que colaboraram pra pessoa que hoje eu sou. Não preciso ter mais vergonha de admitir o que já fui, o que já fiz. Até parece que depois que comecei a trabalhar esses problemas as coisas começaram a melhorar e tomar um rumo ainda melhor na minha vida.
"Estou muito orgulhosa de você..." – ainda estávamos na tour quando ela me disse isso. Há pouco eu havia decidido falar sobre o meu passado e utilizar isso para ajudar pessoas que possam estar passando pelas mesmas dificuldades que eu enfrentei. Acho que era o mínimo que eu podia fazer. Retribuir o que foi feito por mim. Porque eu não tenho ideia de onde eu estaria hoje caso não tivesse recebido a ajuda que recebi quando mais precisei.
Agora abro meus olhos, ainda faltavam alguns minutos para que precisássemos acordar pra voltar ao trabalho. Olho para o lado e a vejo num sono profundo, vestindo uma das minhas camisas com o seu rosto voltado pro meu lado. Me pego sorrindo com a cena, penso se devo acordá-la, mas prefiro me levantar um pouco. Saio andando pela casa e uma gata corre em minha direção e começa a se roçar nos meus pés. Me abaixo para apanha-la, vou à cozinha, verifico se faltava agua ou ração, tudo estava ok. Coloco-a de volta ao chão, pego uma caneta e decido deixar um recado na porta da geladeira.
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O alarme toca disparadamente. Me estico na cama e noto que ele não estava mais ali. Tento me acostumar com o pouco de claridade que entrava pela cortina do quarto e, meio zonza de sono, saio andando pela casa procurando-o.
"Cory?" – com a voz ainda tomada de sono tento chama-lo. Silêncio. Nenhum sinal dele. Vou andando até a cozinha ver se ele estava por ali. Pisco duas vezes e logo sorrio.
'Babe... fui buscar um café da manhã especial para nós dois. Não quis te acordar, você parecia estar sonhando comigo. Me espere ainda na cama que eu não demoro.'
Ao ouvir o barulho de chaves na fechadura da sala corro de volta pra minha cama. Certas coisas não era preciso pedir mais de uma vez. Certas manhãs eu sabia que iria quere repetir a 'dose' provavelmente pra sempre.
