Caída no chão, a jovem espadachim era presa fácil dos Grand Orcs que estavam ao seu redor, olhando com cara de poucos amigos. "Preciso voltar à segurança da entrada do calabouço..." pensava Katrina, olhando com olhos semi-cerrados para os orcs de pele azulada.
No momento que o Grand Orc ao seu lado dera-lhe um golpe com força no tórax, com um sorriso no rosto de prazer por matar mais um humano, Katrina teve tempo de ouvir alguém gritar o anúncio de algum tipo de golpe, mas não pôde distinguí-lo pois já estava sentindo sua vida se esvaindo pelos inúmeros cortes e golpes que recebera.
Neste momento, um anjo aparece acima de sua cabeça, vestido de branco e com grandes asas, cobertas com penas que mais pareciam feitas de prata, que se mesclavam com as nuvens que serviam de fundo para a cena. Este anjo, com bela feições femininas e um semblante de paz, carregava um bidente e este foi apontado para o corpo de Katrina, que sentiu com violência a vida e vigor voltarem ao seu corpo, com suas chagas já parcialmente curadas. E, ao fundo, enquanto abria os olhos e via o anjo desaparecer, ouviu uma voz feminina gritando "Ressuscitar!".
Ao seu lado, bem próxima a ela, estava uma sacerdotisa de cabelos arroxeados como suas vestes, olhar límpido e calmo, com uma fivela de Lua prendendo seus cabelos. Era Elenna, sua prima e amiga desde sempre, que estava recuperando sua vida, aparecendo miraculosamente ao seu lado. Assim que Katrina reconhecera Elenna ao seu lado, notou um ferreiro alto, de compleição forte e ágil, com seus cabelos azulados presos atrás de sua cabeça, com um enorme machado de duas mãos azulado, parecendo ser feito de gelo, em suas mãos, lutando contra os Grand Orcs que a haviam derrotado.
Num dos poucos momentos que pôde ver sua face com mais clareza, pôde notar seus olhos negros e avermelhados pelo surto de violência que ele estava perpretando contra os monstruosos orcs. Seu corpo parecia quase em chamas, e a destruição causada nos orcs era algo incomparável ao que ela fazia, e era ainda mais incomparável ao que os orcs tentavam causar no ferreiro.
"Dorei! Elenna!" exclamou Katrina, ao perceber quem eram o ferreiro e a sacerdotisa que a salvavam naquele momento.
"Olá, Kat!" disse Elenna, com a voz límpida e clara como a de um anjo. "O que está fazendo aqui na Vila Orc? Não pensei que estivesse já tão avançada em seu treinamento."
Elenna parecia estar alheia ao que acontecia com Dorei. Mas Katrina sabia que isso não significava que ela não se preocupava com o ferreiro, mas sim que ela o conhecia. Sabia que alguns orcs não eram preocupação para seu marido.
"Eu achei que daria conta deles com as armas que a Gabi me emprestou! Elas são perfeitas, mas acho que não tenho ainda equipamento de verdade para vir aqui." Olhando de novo na direção de Dorei, Katrina viu que os orcs começaram a fugir e este saíra correndo em seu encalço gritando "Covardes! Cretinos! Voltem e lutem como guerreiros!"
"Querido, deixe-os, e volte aqui para falar oi para minha prima." Disse Elenna, olhando com carinho para seu marido. "Não há razão em perseguí-los..."
Nem pôde terminar a frase direito, pois Dorei já tinha saído correndo atrás do bando que fugia, com o grande machado em uma das mãos e a outra carregando uma poção de cor avermelhada, que parecia ferver em seu frasco alto e fino.
"Esse Dorei, nunca sabe quando é hora de parar..." Falou Elenna, mais como quem fala pra si mesmo do que para Katrina. Levou as mãos de encontro ao seu coração, alisou a aliança que estava em sua mão esquerda e disse, baixinho "Dorei, saudades de você!"
Ao seu lado direito surgiu uma aura circular, indo do chão em direção aos céus, de cor avermelhada, mas que parecia puxar energia para seu centro, e não emitir, como eram os portais criados pelos servidores da Igreja.
Vendo isto, Katrina começou a rir, como se soubesse o que iria acontecer à seguir.
"De novo, Elenna? Ele sempre briga com você quando você o traz assim, desta forma." Disse Katrina, sorrindo e já curada de seus ferimentos e contusões.
"Não ligo. E sei que, no fundo, ele também se diverte com isso." Respondeu Elenna, com um sorriso nos lábios de quem acabara de aprontar alguma peraltice. "Enquanto isso, sente-se e relaxe, que cuidaremos de você até você se recuperar."
Neste instante, o portal avermelhado desapareceu, e em seu lugar estava Dorei, com o machado azulado ensangüentado, com olhar ainda furioso, mas com cara de quem está procurando algo.
"Ah, Lê! De novo? Nem posso mais andar por aí me divertindo que você me traz de volta." Disse enquanto fincava no chão de terra batida seu machado, guardava a poção em sua mochila e prendia novamente os cabelos que estavam parcialmente soltos do combate. Limpando o rosto com as costas do antebraço, deu um beijo em Elenna, voltou-se para a garota ao lado deles.
"Olá, pequena Katrina! Vejo que resolveu se vestir um pouco mais, heim?"
"Pois é, a hora de mudanças chegou, e achei oportuno me tornar algo mais útil pra todos do que eu era." Respondeu Katrina.
"Bom, eu achava mais... interessante... quando você usava as roupas de Odalisca! Bem mais..." Nisso tomou um tapa em seu ombro, e olhou pra sua esposa. "Ai! Elenna, estava só falando o que acho! Ok, eu vou arrumar meu carrinho, então... Peguei um monte de itens interessantes no chão que esses fracotes derrubaram na fuga."
Dorei se virou para o carrinho de madeira nobre que trazia sempre consigo, que era baixo, robusto e tinha um urso de pelúcia preso na traseira, e começou a revirar os itens que ali estavam.
"Kat, onde está a Alice? Achei que ela estaria aqui treinando com você!" Disse Elenna, olhando ao redor.
"Ela voltou para Prontera à pouco, mas estava aqui sim comigo. Parece que ela precisava voltar à Igreja por alguma razão que não chegou a me falar. Aí, para aproveitar que eu estava por aqui, resolvi ir mais para oeste na vila orc e acabei me deparando com estes Grand Orcs, que estavam em grupo. Separadamente eu consigo lidar com eles, mas estes apareceram muito rápido e eu não tinha mais como me retirar rapidamente daqui."
"E como você anda sem proteção e nem Asas de Mosca, menina?" Disse Elenna, em tom fraternal, mas um pouco sério.
"Acabaram, ué! O que posso fazer se tive que usar quando apareceu aquele que chamam de Orc Herói, com seu séqüito por aqui?"
"O Herói apareceu por aqui?" Exclamou Dorei, levantando-se de sobressalto com a mão no machado que estava fincado à terra, com um brilho nos olhos.
"Ele esteve, mas um grande grupo de guerreiros estava à procura dele, e eu só indiquei onde ele estava. Agora é tarde, amigo Dorei, para ir atrás dele, creio eu." Respondeu Katrina.
"Aff!" Exclamou Dorei. "Bom, paciência. Depois eu procuro por ele. Mas agora estou reparando em você, menina. Pode não estar mais pelada," olhou rapidamente para Elenna, esperando o tapa, que não veio "mas está muito mal vestida para vir até aqui."
"Eu sei, lindo, mas eu não tenho equipamentos bons pra vir pra cá, tampouco a Gabi tinha. Ela só tinha estas espadas mágicas que me emprestou."
"Bom, então eu acho que tenho algo aqui que deve servir. Estive falando com o Hugão, e consegui aprimorar uns equipamentos que eu comprei tempos atrás. Acho que tenho algo que te serve aqui. E tenho umas asas de mosca pra você também, que andei coletando. Pode pegar deste frasco." Disse, apontando um frasco em seu carrinho com pequenas asas dentro, que brilhavam contra a luz do dia.
Dorei voltou a olhar seu carrinho, e dele começou a tirar alguns itens e mostrar.
"Uma bela cota de malha, aprimorada e perfeita pra templárias. Conhece alguma, Kat?" perguntou Dorei.
"Eu vou ser uma! Eu quero!" Começou a pular Katrina com as mãos pra frente, em direção à cota de malha que Dorei carregava, que ainda reluzia em suas mãos, recém trabalhada pelo famoso ferreiro de Prontera.
"Eu sei... Nem sabe reconhecer uma piada quando ouve uma? Por isso que é pega de surpresa pelos orcs aqui! Mas bem, é pra você mesma que eu fiz, depois de saber que você estava virando uma guerreira divina. Tenho outros itens aqui." Disse Dorei, entregando a cota para a garota. "Deixe-me ajudar a afivelar e prender as correias da cota em você."
"Não precisa, eu ajudo, amor." Disse Elenna. "Você trate de parar com brincadeiras e pegue as outras coisas aí!"
"Ok, ok. Coisa ciumenta essa sacerdotisa!" Replicou Dorei, sorrindo e voltando ao carrinho. "Ah, estas botas. Mal dá para acreditar que são tão fortes de tão macias. E este belo escudo reluzente aqui, então? Um primor da arte da forja! Mas, pelo trabalho noto que não foi feito o aprimoramento em Prontera, mas na vila dos arqueiros."
"Cidade dos arqueiros, querido." Comentou Elenna, terminando de ajudar Katrina a prender a cota por cima das vestes de espadachim. "Lembre-se que nosso amado Rei Tristan III e o soberano de Payon a reformaram, para que o tamanho da cidade fizesse jus à sua grandeza."
"Ok, ok. Mesmo assim quem fez o trabalho neste escudo não foi o Hugão, mas o Antonio, isso é o que importa! Mas o trabalho foi bom do mesmo jeito. Agora vamos lá, Kat, calce estas botas e me dê estes sapatos que você está usando. E pode deixar o equipamento que você está usando comigo que eu entrego pra Gabi quando for pra Prontera." Disse Dorei, entregando o restante do equipamento novo para a garota à sua frente, que mal continha sua excitação ao ver os itens novos.
Katrina vestia o equipamento novo com felicidade, e orgulho de ter um casal tão belo e tão unido por ali, e lembrou-se do tempo que muitos homens a seguiam, com as mais indecorosas propostas. 'Seja minha esposa, e te darei um castelo!', 'Passe uma noite comigo e te dou estes diamantes', entre outras, mas nenhuma dessas propostas era interessante. A única que ela se interessaria de verdade era a que Dorei havia feito para Elenna, que nada mais era do que querer passar a vida juntos, para o que desse e viesse. Simples e direta, como o belo e ágil ferreiro que estava ali à sua frente. Mas não sentia inveja, ou ciúmes. Apenas admirava o casal secretamente.
"Obrigada, Dorei!" Disse Katrina, terminando de entregar os equipamentos que usava para ele, e prendendo o grande escudo novo em seu braço esquerdo. "É realmente mais pesado e mais poderoso que o broquel da Alice. E percebo que estou mais preparada, posso sentir que este escudo possui a mesma característica do broquel da Alice. Ele está..."
"Com o poder do Sapo de Thara." Completou Dorei a frase de Katrina. "Isso mesmo, comprei a carta em Prontera de um mercador que estava com um monte de cartas à venda. Comprei também as mais interessantes pra você. Por isso que eu disse que era perfeito para uma Templária. Sua energia vital e seu poder divino serão realçados com estes equipamentos, também equipados com cartas próprias. Depois me fale se precisar de algo mais, que eu procuro. Mas acho que agora precisamos seguir viagem. Vamos, amor?" Disse, virando-se para Elenna, que estava organizando seu carrinho. "Não precisa arrumar!"
"Mas está uma bagunça seu carrinho, amor!" Empilhando as poções, separando amuletos e outros itens do carrinho de Dorei.
"Claro! Eu o uso não só pra carregar as coisas, mas também como arma! Por isso fica assim, mas nada quebra, relaxa! Deixa isso aí, dê seus poderes pra Katrina e vamos esmagar uns mortos vivos!" Disse com um sorriso levemente sádico nos rostos, enquanto colocava o machado elemental no carrinho e pegava um enorme machado com as lâminas formando uma cruz, que parecia brilhar só de estar empunhado pelo guerreiro. "Vamos lá que quero mostrar o que a Igreja tem a dizer para estas criaturas pervertidas!" Levantou a Cruz Impiedosa aos céus e a fitou contra a luz, e depois olhou para o norte.
"Estamos indo para Glast Heim, Kat." Disse Elenna, pousando suas mãos no topo da cabeça de Katrina, e cerrou os olhos. "Odin, dê seu poder à esta guerreira, através de meu poder pessoal, e ajudem-na em seu processo de iluminação e crescimento!" Abrindo os olhos e olhando para Katrina, Elenna recitou.
"Receba a bênção, a agilidade e a glória divina. Que, através de minhas mãos em suas armas elas possam distribuir sua justiça e luz." Levantando as mãos aos céus, clamou pela graça divina e seu poder. E, à menção da exclamação a seguir, "Magnificat!" ela fechou os olhos e deu um beijo na testa de sua jovem prima.
Katrina recebeu as bênçãos de olhos fechados, enquanto sentia seu corpo se fortalecer e se aprimorar, e agradeceu em seguida à Elenna.
"Não precisa agradecer a mim. Agora temos que ir, priminha. Se cuide, tudo bem?"
"Se cuida, menina! E qualquer coisa fale comigo!" Completou Dorei, também sorrindo. "Vamos lá, querida!" Disse, girando a enorme cruz em uma das mãos.
"Vamos, apressado." Disse, Elenna, enquanto tirava de suas vestes uma gema azul, que esmagou em sua mão e atirou ao solo, dizendo "Portal!"
O pó em que se transformara a gema azul caiu no chão, formando um círculo azul e surgiu um portal azulado translúcido em frente à eles, onde Dorei entrou em um pulo com seu carrinho. Elenna piscou para Katrina e sorriu, entrando no portal logo em seguida.
Quando o portal desapareceu após a entrada de Elenna, Katrina olhou ao redor e se viu sozinha. Diferente de se sentir triste, olhou para a Alfange de Gelo em suas mãos, tocou com a mão do escudo na sua cota nova e correu em direção à oeste, na vila dos orcs, pronta para continuar seu aperfeiçoamento.
