2. Primeiro Encontro
Eu estava me arrumando no meu quarto. Prendi meu cabelo em um simétrico rabo-de-cavalo e coloquei um vestidinho simples, florido, que eu costumava usar para passear nos finais de semana. Ouvi a campainha tocar, seguida de um quase terremoto lá em baixo. Desci as escadas assustada e qual não foi a minha surpresa: havia um gigante na minha sala e ele quase tinha destruído a porta da minha humilde casa! Eu dei dois passos para trás, com os olhos arregalados e me juntei à minha mãe. Petúnia chorava agachada em um canto da cozinha.
- Calma, Lily! Esse é o Hagrid! Ele não vai nos machucar! - meu pai interveio.
Era um pouco difícil acreditar que um homem barbudo daquele tamanho não nos faria nada de mal, mas eu confiava no meu pai com a minha vida. Ainda hesitante, aproximei-me do gigante, que me estendeu a mão.
- Srta. Lílian Evans? Rúbeo Hagrid a suas ordens!
Em um gesto de educação, eu apertei sua mão e aconteceram duas coisas: uma boa e a outra ruim. Eu senti um calor humano incrível de Hagrid. Quando eu encarei seu sorriso, soube que ele era uma pessoa maravilhosa, incapaz de qualquer maldade. Infelizmente, ele era também muito forte e meu braço ficou dolorido durante uma semana.
Meu pai parecia satisfeitíssimo e minha mãe ainda estava receosa, mas acenou de longe. Nem sinal de Petúnia. Eu estava muito aliviada por ter descoberto que o gigante era uma boa pessoa, pois sabia que ele me ajudaria a comprar meu material escolar.
- Vamos, Lílian? Vou te levar às compras! - ele disse alegremente.
Eu questionei meu pai com o olhar e ele me respondeu, em aprovação. Apanhei uma bolsinha que costumava usar para sair e vi quando papai entregou um bolo de dinheiro para Hagrid, que o guardou. Tive um aperto no coração. Sabia que não tínhamos muito dinheiro e percebi que todas as economias da casa estavam indo embora. Essa tal escola de magia deveria custar mais caro do que podíamos pagar.
Subi correndo até o meu quarto e peguei meu porquinho cor-de-rosa, que continha todas as moedas que eu conseguira juntar até então. Na maioria, troco de lanches da escola. Ele estava tão pesado que eu quase não pude carregá-lo, o que era um bom sinal.
Entreguei-o ao meu pai, confiante. Sabia que não era muito, mas estava feliz por ajudar. Meu pai me fez um carinho na cabeça, em agradecimento, e minha mãe exibia um dos sorrisos mais orgulhosos que eu já vira. Hagrid tinha um olhar bondoso e pediu que eu o acompanhasse.
Fomos ao centro de Londres de metrô, já que havia uma estação perto de casa. As pessoas, em geral, encaravam Hagrid assustadas e as coisas pioravam quando ele tentava agradar ou se irritava um pouco. Paramos em um bar escondido em uma rua movimentada e eu ainda não consigo acreditar que nunca havia notado-o antes, pois já passara por ali algumas vezes.
Hagrid parecia conhecer todos no lugar e alguns me olhavam, curiosos, deixando-me um pouco tímida. Ele deteve-se em dois jovens ruivos que, ao vê-lo, vieram imediatamente cumprimentá-lo.
- Ora, ora, se não é o casal 20 de Hogwarts! - Hagrid abraçou os dois.
- Olá, Hagrid! Trabalhando nas férias? Quem é essa? Aluna nova? - perguntou a moça, que tinha um grande sorriso.
- Sim, sim! Essa é Lílian Evans. Lílian, esses são Molly e Arthur.
- Oi... - eu acenei a eles, tímida.
- Olá, pequena! A que Casa quer pertencer? - perguntou-me o moço, enquanto a garota ainda sorria.
- Casa? Que casa?
- Ah, ela é trouxa de nascença, Arthur. Mas vamos torcer para que fique na Grifinória, não é mesmo?
Eles concordaram animadamente, despediram-se e partiram, deixando-me, ainda cheia de dúvidas. Percebendo minha expressão interrogativa, Hagrid se adiantou.
- Quando você chegar na escola, será sorteada para uma das quatro Casas. Ela será o lugar onde você vai passar grande parte do tempo, onde vai dormir e fazer a maioria de seus amigos. Molly e Arthur estão no último ano da escola e são da Grifinória. Na minha época, eu, err..., era grifinório também.
- Ah... então essa é a melhor Casa?
- Não... cada casa tem seus pontos fortes. Mas tenho um carinho especial pela Grifinória, só isso.
Hagrid me levou a um terreno atrás do bar. Eu ainda estava pensando sobre as tais casas, quando ele usou um guarda-chuva cor-de-rosa engraçadíssimo para movimentar alguns tijolos e, diante dos meus olhos, a parede se abriu! Além dela, um verdadeiro centro de compras! Eu mal podia acreditar!
- Bem-vinda ao Beco Diagonal, Lilian!
Por todos os lados, pessoas esquisitas passavam, cheias de sacolas e falando alto. Algumas eram bem sinistras e vestiam-se apenas de preto. Elas pareciam ir e vir de uma ruela no fundo do Beco. Nós fomos direto a um prédio branco, muito bonito.
Lá dentro, duendes! Um monte deles! E eu que achava que eles só existiam nas historinhas que mamãe contava quando eu era menor... Não demorei a perceber que se tratava de um banco, pois todos estavam muito concentrados e contavam notas e moedas sem parar.
Hagrid conversou com quem suponho que seja o gerente, parecendo negociar troca de moedas. Então, o duende em questão levou-nos, por um caminho subterrâneo, a um cofre, com montes e montes de ouro dentro. Eu nunca tinha visto tanta riqueza em toda a minha vida!
- Todo esse dinheiro é seu, Hagrid?
- Meu, não... Esse é o cofre padrão para câmbio de moedas. Aqui, no Beco Diagonal, só se aceita dinheiro de bruxo, é claro. Então, estamos trocando seu essas notas de trouxa.
Ficava claro para mim, aos poucos, que os bruxos faziam parte de um universo totalmente diferente, apesar de conviver também entre nós, quero dizer, entre os trouxas. Antes de deixarmos o banco, ouvi Hagrid dizendo ao duende-gerente.
- Por favor, desconte do cofre de Dumbledore tudo o que peguei a mais, sim?
Saindo do banco, a primeira loja a que Hagrid me levou chamava-se Olivaras. Segundo ele, um bruxo precisa, antes de tudo, de uma varinha. Fiquei-me imaginando como as fadas madrinhas dos contos de fada com suas roupas de bailarina e suas varinhas de condão.
Ao entrar, mais um indício da popularidade de Hagrid. Havia uma mulher muito alta, bonita e elegante, que sorriu para Hagrid e o abraçou. Ela estava acompanhada de dois garotos que estavam deixando o dono da loja literalmente de cabelo em pé, experimentando montes de varinhas, derrubando muitas coisas, explodindo algumas e causando bastante confusão.
- Claire Potter! Há quanto tempo! Como está o John?
- Estamos ótimos, Hagrid. E você? - a Sra. Potter era muito simpática e eu gostei dela logo de início.
- Nada mal. São seus dois meninos?
- Não, não. Só um. Tiago. O outro é o amiguinho dele, Sirius Black.
- Black? - Hagrid pareceu ligeiramente preocupado
- Sim, mas esse é diferente, Hagrid. Pode confiar. - a Sra. Potter assegurou.
Ao ouvirem seus nomes, os dois garotos viraram-se de repente. Um deles, de cabelos muito bagunçados, estava em cima de uma cadeira e acabou caindo, perdendo seus óculos. O outro se virou com um sorriso muito brilhante e estendeu a mão para Hagrid.
- Sirius Black. Muito prazer!
Hagrid ficou agradavelmente surpreso. Realmente, o tal Sirius era bastante sociável. Depois que o gigante se apresentou, o garoto começou a me encarar. Eu, que estava oculta na cena até agora, corei violentamente, sentindo agora três olhares na minha direção. Para minha sorte, Hagrid percebeu o embaraço e tratou de me incluir na situação.
- Ah, perdão, me esqueci completamente! Essa é a Lílian, pessoal. Ela também está entrando em Hogwarts esse ano. - Hagrid me apresentou, fazendo a Srta. Potter sorrir para mim.
- Oi, Lily, prazer, eu sou o Sirius! Em que Casa quer ficar? - disse-me o garoto sociável.
Lily? Lily? Quem esse garoto pensava que era? Só meus pais me chamavam assim... Que absurdo! Além disso, eu já tinha ouvido algumas vezes que ele se chamava Sirius e acho que não fazia nem cinco minutos que estávamos ali. Na verdade, Sirius era bem simpático, mas acho que ele se considerava um pouquinho importante demais.
Se ele estava também entrando na escola, deveria ter a minha idade, mais ou menos. Então, ele era alto. Muito alto. Tudo bem que eu sempre fui meio baixinha, mas comparando-o aos garotos da minha classe, ele era quase um Hagrid. Eu tive que olhar para cima para falar com ele.
Ele tinha cabelos pretos muito lisos e brilhantes. Eram compridos demais e caíam-lhe sobre o rosto de quando em quando. Sua pele era muito branca e seus olhos eram de um cinza muito bonito e iluminado, vívido, como eu só havia visto em olhos de bebê até então. Não eram somente os olhos dele que lembravam um neném. Ele tinha feições delicadas e o nariz e a boca pequenininhos. Apesar de muito alto, ele não era magro em excesso e devo dizer que tinha um porte no mínimo atraente. De meus muitos anos em escolas trouxas, como eles dizem, eu conhecia bem esse tipo de garoto. E ele significava problemas.
- Na Grifinória. - respondi, afinal, séria, arrancando um sorriso de Hagrid.
Sirius também parecia feliz com a resposta e deu um leve tapa nas minhas costas. Bom, leve para ele porque quase me desmontou.
- Garota esperta!
Eu dei um sorrisinho amarelo. Estava longe de cair de amores por esse tal de Sirius, mas irritar Lílian Evans profundamente seria uma proeza que ele não conseguiria. Não naquela tarde.
Sirius começou a conversar freneticamente com Hagrid, como se o conhecesse há anos. A Sra. Potter também entrou no assunto. Ela parecia gostar muito de Sirius.
Desviando o olhar, percebi que o outro garoto, que caíra pateticamente da cadeira, agora me encarava como um bobo. Suspeitei de que ele viesse fazendo isso nos últimos minutos.
Se não me engano, ouvi a Sra. Potter dizer que ele se chamava Tiago. Os negros cabelos dele estavam, ou eram, muito, muito despenteados. A julgar pela bagunça que ele e o outro estavam fazendo na loja, acho que os cabelos combinavam com ele. Eu não saberia mesmo dizer se eram lisos, encaracolados, ambos, ou o que fosse, tal era a situação em que se encontravam. Ele era também alto, não tanto como o outro, mas ainda me fazia sentir uma anã. Suas feições eram uniformes, com destaque para sua boca, de um avermelhado forte. Era branco e magro e seus olhos eram castanhos e expressivos. Seus olhos... sim, ele usava óculos! Acho que tinham caído quando ele despencou da cadeira.
Já que nós dois estávamos excluídos da animada conversa do trio, dei alguns passos a frente para tentar falar com Tiago. Senti que chutei alguma coisa. Eram os óculos dele, que, aliás, estavam bem judiados. Apanhei-os e levei até ele. Acho que o garoto era meio lento, porque ficou me olhando alguns segundos antes de entender que eu só queria entregar-lhe os óculos.
- Ah, sim, meus óculos! Muito obrigado! - ele disse, afinal.
- Lilian Evans. - estendi a mão.
- Tiago Potter - ele a apertou com força.
O dono da loja, o Sr. Olivaras, aproximou-se de nós e abriu uma caixinha para Tiago, indicando-lhe que pegasse a varinha em seu interior.
- Acho que finalmente a encontrei, Sr. Potter.
Quando Tiago ergueu a varinha, foi envolto em uma luz dourada e, mesmo eu, que ainda não havia desenvolvido minha magia, soube que ele seria poderoso com aquela varinha.
- É essa! - exclamou Tiago.
- Muito bem, Sr. Potter! Pena de fênix, Azevinho, 25 centímetros. Excelente para Transfiguração. Parabéns!
Enquanto Tiago foi abraçar sua mãe, Sirius experimentava outra varinha recomendada pelo Sr. Olivaras. O resultado foi esplêndido. A varinha soltou fagulhas brilhantes e eu senti um vento frio na nuca.
- "timo, Sr. Black! Pêlo de Unicórnio, Salgueiro, 25 centímetros. Também ideal para Transfiguração.
Eu não sabia o que era Transfiguração, mas devia ser bom, porque Sirius e Tiago se abraçaram brevemente, satisfeitos. Pelo andar da carruagem, achei que também ganharia uma varinha.
- Na minha loja, o bruxo não escolhe a varinha, Srta. Evans. É a varinha quem o escolhe. Comece provando esta aqui. - ele disse, abrindo uma caixinha.
Aquilo era estranho. A varinha iria me escolher? E como "provar" uma varinha?
Desajeitada, ergui a varinha mais ou menos da mesma forma que havia visto os garotos fazerem.
De repente, a caixa que o Sr. Olivaras segurava despedaçou-se toda. Assustada, devolvi-lhe a varinha.
- Bom, vamos tentar essa outra! - ele disse, mostrando-me uma varinha menor.
Lá ia eu de novo. Segurei a varinha como antes, mas dessa vez, eu me senti leve e majestosa. Meus cabelos esvoaçavam e as cores se intensificaram. Aquela só podia ser a minha varinha.
- Ah, aí está ela! Pena de Fênix, Bordo, 19 centímetros. Perfeita para feitiços!
Agora sim, estava começando a me sentir bruxa. A Sra. Potter veio até mim e me cumprimentou.
- Parabéns, querida. Lembro-me de quando comprei minha varinha como se fosse hoje. É um momento especial na vida de qualquer bruxo.
- E então, garotos, como estamos? Podemos ir? Já comprei tudo. - um homem muito elegante entrara na loja.
- Pai! - gritou Tiago e juntou-se a ele.
- Tio! - Sirius abraçou o Sr. Potter.
- Hagrid, como vai? - ele perguntou, educadamente.
- Bem, John. Linda família.
- Muito obrigado, Hagrid. Então, querida, vamos?
- Vamos, Johnny. Tchau, Lílian. Foi um prazer conhecê-la. Até logo, Hagrid. - ela despediu-se. - Tiago, Sirius, não vão dizer "tchau" à nova amiguinha?
Sirius se prontificou, agindo como se fosse meu colega desde o maternal.
- Até mais, Lily! A gente se vê em Hogwarts! - ele disse, simpático, e me deu um beijo no rosto.
Isso mesmo! Ele me deu um beijo no rosto. Não tive reação. Nem consegui responder. Fiquei chocada e minha face deve ter ficado da cor de meus cabelos. Decidi ficar calma e acreditar que era um costume dos bruxos, embora eu achasse mais provável que fosse um costume de Sirius Black. Fora isso, tinha o "Lily"... Grrr... Será que eu precisaria dizer a ele que não gostava de ser chamada assim?
- Tchau, Lílian. Até Hogwarts. - Tiago se aproximou de mim, fazendo me esquecer de Sirius.
Ai, meu Deus, será que ele também ia me beijar? Será que ninguém ali tinha um saco para eu colocar na cabeça?
Mas, felizmente, ele não beijou. Apenas nos encaramos por uns breve segundos e senti que ele estava hesitando.
- Até Hogwarts, Tiago. - eu sorri brevemente e acho que ele se deu por satisfeito.
Os Potter e Sirius deixaram a loja e eu me virei para Hagrid.
- Para onde vamos?
Hagrid me levou em um dos meus estabelecimentos preferidos: uma livraria. É claro que eu não conhecia nenhum dos livros que estávamos comprando, e também nenhum que estava à venda, para falar a verdade. Mas o lugar era fantástico. O ambiente, o cheiro, tudo.
Honestamente, acho que Hagrid teve alguma dificuldade para me tirar dali mas, quando conseguiu, fomos a uma loja de roupas. Todas as chamadas vestes ficavam largas e desajeitadas em mim, mas eu já estava acostumada: era mirrada e magricela, como Petúnia costumava dizer. Foram necessários alguns ajustes, mas nada que não fosse resolvido com algumas sacudidas de varinha pela habilidosa "costureira".
Depois de mais algumas lojas, nossa jornada estava completa. Foi bem a tempo, pois eu acho que não conseguiríamos carregar nem mais uma pena em nossas sacolas.
Hagrid me levou de volta para casa. Chegando lá, tive uma agradável surpresa. Meu pai segurava uma linda gata seamesa com um laço no pescoço e olhos verdes como os nossos.
- Encontrei uma utilidade para seu porquinho cor de rosa, Lily!
Abracei meu pai e minha mãe. Petúnia ainda estava na escola. Tinha tanto a contar a eles que ficaria acordada a madrugada inteira.
