3. Nos trilhos da amizade

Quando meus pais me levaram à estação de trem, eu estava petrificada. Segundo as instruções que Hagrid enviara a meu pai, eu deveria atravessar a parede entre as plataformas nove e dez. Atravessar a parede! Eu, que era feita de carne e osso, teria que atravessar uma parede de concreto. Simplesmente não conseguia imaginar uma forma de ser bem sucedida.

Eu estava mais branca do que o normal e arrastava minhas malas pesadas sobre suportes com rodas vagarosamente pela estação. Meu pai segurava M, a gata que ele me dera, e vinha logo atrás de mim, de mãos dadas com a minha mãe.

Por sorte, ou por destino, comecei a perceber uma movimentação quando nos aproximamos das ditas plataformas. Vi algumas garotas empurrando carrinhos com suas bagagens correrem em direção à mesma parede que eu deveria atravessar. Elas estavam a toda a velocidade e eu fechei os olhos para não ver a trombada, mas me preocupei com o que aconteceria com elas.

Sem ter ouvido nenhum estrondo, abri os olhos novamente e não vi nem sinal das garotas. Elas haviam sumido diante de minhas pálpebras fechadas. Eu custava a acreditar naquilo. Será que elas haviam conseguido entrar na parede?

- Papai, para onde foram as garotas? - virei-me para ele.

- Que garotas, Lily? - ele disse, acariciando M em seus braços.

- Aquelas carregando carrinhos e malas. Como elas fizeram?

- Não tinha ninguém com carrinho aqui, filha.

Foi então que comecei a compreender. Meu pai, com toda sua sabedoria, que só os anos bem vividos proporcionam a uma pessoa, não conseguia ver. Por mais que me apoiasse, ele não era bruxo, nem nunca seria. A distância imposta por essa diferença, embora não tão gritante como ocorria entre Petúnia e eu, doeu fortemente em meu coração. Eu não seria como as outras crianças, veria meus pais muito menos do que gostaria, e eles me entenderiam muito menos do que gostariam. E não havia nada que eu pudesse fazer para mudar isso. Era uma condição permanente e eu ainda não tinha certeza se estava preparada para viver sob ela. Em meu coração, eu sabia como atravessar aquela parede. Simplesmente sabia, mas não queria fazê-lo.

- Mãe, vamos voltar para casa! Eu não quero ir! - abracei-a.

Meu pai se juntou ao abraço e os dois me olhavam com compaixão.

- Lily, eu e seu pai não podemos explicar por que isso aconteceu, mas eu acredito que há uma causa maior.

- Como assim, mãe?

- Uma missão.

Eu a encarei com expressão interrogativa. Nunca havia me considerado uma messias.

- Sua mãe tem razão, Lily. Quem sabe você vai fazer algo por todos nós.

Eu não estava muito convencida. Tampouco admitia chorar com facilidade, ainda mais em locais públicos. Mesmo assim, a luta com as lágrimas do meu coração era uma batalha impossível de se ganhar.

- Vamos fazer uma experiência, Lily. Você vai dessa vez e se não gostar, conversa com o tal Dumbledore e volta para casa antes mesmo das férias. Hein, o que me diz? - minha mãe começou com aquela conversa, como quando as mães nos dizem para se experimentar uma comida antes de se dizer que não gosta dela.

Meus pais me encaravam. Eles depositavam muita confiança em mim. Eu sabia que tinha que ir. Eles também sabiam, e estavam tentando tornar as coisas mais fáceis para mim.

Eu respirei fundo e dei um longo abraço em minha mãe.

- Oh, querida, vamos sentir tanto a sua falta. Você vai nos escrever sempre, não é mesmo? - disse ela, se desmanchando em lágrimas e perdendo a pose que mantivera até então.

- Claro, mãe. Vou escrever, não se preocupe.

Percebi que as despedidas estavam ficando longas demais. Meus pais já começavam a sofrer e eu também. Os papéis se invertiam e, aos poucos, eu fui tomando o lugar racional que era meu e passando a confiança que eles precisavam.

Quando me despedi do meu pai, desandaria a chorar de vez, se não fosse por algumas poucas palavras dele:

- Estamos muito orgulhosos de você, filha. - ele disse quando me deu um dos abraços mais apertados que eu já recebi na vida.

- Bom, então eu... - limpei a garganta antes de continuar. - vou aceitar o contrato de experiência proposto pela mamãe. - terminei com convicção e recebi um sorriso largo dos dois.

- Vá, querida. Hagrid me disse que esse trem nunca atrasa.

- Certo. Digam adeus à Petúnia por mim.

Minha irmã preferira ficar no carro. Ela se recusara a assistir a cena ridícula de uma garota magricela com malas maiores que ela tentando atravessar uma parede, como definiu. Eu estava me sentindo patética o suficiente para não culpá-la.

- Claro, filha. Agora, você tem que ir. - meu pai me disse, entregando-me minha gata, M.

M foi realmente muito gentil por não ter miado quando eu a segurei com toda a força que tinha. Pensando melhor, toda a minha força não deveria ser muita de qualquer forma.

Eu acenei uma última vez aos meus pais e segui um instinto no fundo de minha mente, que me dizia estranhamente o que fazer. Corri em direção aquela pilastra de concreto mais devagar do que gostaria, arrastando minha mala pesada com uma mão e segurando M com a outra. Não parei, nem mesmo quando senti a proximidade da parede, que me acolhia, dando-me um lugar em sua solidez. Apenas fechei meus olhos, enquanto ouvia minha mãe gritar coisas como "Coma direito!" e "Não esqueça de usar agasalho se esfriar!".

Senti um vento no rosto e não pude mais ouvir minha mãe. Ao invés disso, ouvi um barulho intenso de trem a vapor. Quando abri meus olhos, custei a acreditar que a estação continuava além da pilastra que eu atravessei.

Nessa plataforma, crianças e jovens, muitos acompanhados pelos pais. Lamentei por meus pais não conseguirem atravessar a injusta parede e não poderem presenciar minha partida de forma mais efetiva. Eu arrastei minha pesada mala com dificuldade até a fila do compartimento das bagagens, enquanto M me acompanhava sem nenhum miado.

Percebendo minha dificuldade, um jovem ruivo veio na minha direção. Era Arthur, o namorado de Molly. Eu os havia conhecido no Caldeirão Furado.

- Oi, precisa de ajuda? - ele disse, simpático.

- Sim, obrigada, Arthur!

Ele pareceu surpreendido. Encarou-me alguns instantes, tentando se lembrar do meu rosto.

- Você é a Lilian, não é? - ele arriscou, finalmente.

- Sim, Lilian Evans. Lembro de você no Caldeirão Furado.

- Claro! Eu me lembro! Nervosa para o primeiro dia em Hogwarts? - ele disse, enquanto suspendia minha mala e a acomodava no compartimento. - Hagrid disse que você é trouxa... deve ser o máximo!

Eu sorri. Era bom saber que um bruxo se encantava por um mundo simples como o em que eu vivia até outro dia. Arthur parecia ser uma ótima pessoa. Era pena que Molly não estivesse por ali, pois eu também havia gostado dela.

- Ei, Weasley, pode me dar uma ajuda aqui? - um garoto gritou do fundo do trem.

- Desculpe, eu tenho que ir. Dá trabalho ser monitor! - ele pareceu atrapalhado. - Espero ver você na Grifinória! - e saiu correndo para ajudar o colega.

Ser monitor em Hogwarts devia ser mesmo difícil, porque Arthur estava bem atarefado. Eu era representante de classe na minha antiga escola trouxa, mas nunca carreguei malas, nem era responsável por organizar embarques nas excursões, por exemplo.

Ajeitei minha gata em meus braços e entrei no trem, afinal. Ouvi alguns meninos mal encarados me chamarem de magrela. Nada de outro mundo, primeiro porque eu já estava acostumada com isso na outra escola e segundo porque era verdade mesmo. Eu estava usando uma calça jeans bem batida, que acreditei que seria confortável para a viagem, e uma blusinha azul clara justa, que devia deixar minhas costelas e minhas saboneteiras bem salientes. Meu cabelo estava preso em um rabo de cavalo, como de costume. Eu não gostava de usar o cabelo solto. Estava com minha bolsa pendurada, que continha um lanche que minha mãe insistira em preparar, além de algum dinheiro que meus pais me deram, embora eu tenha dito a eles que o dinheiro dos bruxos era diferente.

Logo na porta, um velhinho sorriu e me cumprimentou.

- Primeiro ano em Hogwarts, mocinha?

- Sim. - respondi.

- Sou Ernest Claw, o maquinista do Expresso. Você pode entrar e procurar uma cabine para se sentar. Quando, durante a viagem, tocar o sinal, você vai até o compartimento das bagagens e coloca sua veste.

- Certo. Muito obrigada, Sr. Claw.

O trem era composto por várias cabines, que comportavam bem até quatro pessoas. Algumas já estavam cheias e alguns grupos já pareciam entrosados e conversavam animados. Eu avançava, cautelosamente, procurando um lugar disponível.

De repente, levei um empurrão e por pouco não bati com a cara no vidro de uma cabine. Por sorte, fui rápida o bastante para colocar uma mão na frente. M miou alto e quase saltou do meu outro braço.

Os meninos mal encarados que haviam me chamado de magrela passaram correndo aos risos de deboche. Um garoto sinistro de olhar frio e profundo e cabelos muito sujos me olhou com certo ar de desdenho e os seguiu. Apesar de o meu primeiro dia na escola antiga não ter sido muito melhor do que esse, eu comecei a imaginar se a maioria, ou a totalidade, de meus colegas seria desse naipe. Cheguei à conclusão de que Sirius Black, o garoto metido do Olivaras, e seu amigo atrapalhado não eram tão ruins como eu pensava.

Gritos femininos enérgicos vindos do fundo do trem me despertaram de meus pensamentos.

- O que vocês pensam que estão fazendo?? Vocês vão ficar trancados nessa cabine até a hora de se trocarem, entenderam bem? Hunf...

A dona dos gritos veio caminhando a passos decididos na minha direção e então pude reconhecê-la: Molly, a namorada de Arthur.

- Você está bem? - ela me perguntou.

- Sim, estou bem. - ergui a cabeça e sorri, agradecida.

- Lilian, é você! Não se preocupe com esses garotos. Se bem conheço Hogwarts, vocês não vão ficar na mesma casa.

- Obrigada, Molly. Vou procurar um lugar para me sentar.

Molly tinha um grande sorriso e assentiu com a cabeça.

Encontrei uma cabine com apenas duas meninas. Uma, muito loira, tinha cara de quem cheirava algo ruim, e a outra, morena, que falava sem parar.

- Err... com licença, posso me sentar aqui? - perguntei à porta.

A menina loira até me viu, mas como a morena não fez menção de parar de falar, fui ignorada. Decidi limpar a garganta bem alto. Funcionou. As duas me encararam, não muito simpáticas.

- Será que posso me sentar aqui? - repeti.

- Nem pensar, garota. Estamos esperando dois super gatos. - disse a morena, muito rápido. A loira riu.

Eu ergui as sobrancelhas. A menina loira não me incomodava tanto, mas a morena era especialmente detestável. Ela tinha olhos castanhos muito vivos e, infelizmente, tenho que dizer que ela era muito bonita. Ela usava roupas que achei um pouco ousadas. O nariz dela era incrivelmente arrebitado e o sorriso, o mais cínico que eu já havia visto.

Dei de ombros e virei as costas. Não fazia a menor questão de me sentar com elas. Talvez eu preferisse até mesmo os meninos que haviam me empurrado. Achei que havia errado a saída, pois havia uma parede na minha frente. Então, olhei para cima e percebi que a parede tinha dois olhos cinzas arrematados por uma mecha de cabelos pretos.

- Lily! Você por aqui! - "a parede" abaixou o rosto e me deu um beijo na bochecha.

Eu corei, mas dessa vez foi de raiva. Ninguém, nem a menina do nariz empinado, nem os idiotas que me empurraram, ninguém naquele momento era mais insuportável do que Sirius Black. Será que ele não conseguia fazer a gentileza de me chamar pelo menos de Lilian e me cumprimentar com um aceno ou sei lá?

- Oi. - eu disse, seca.

- E aí, como você está? - ele continuou, irritantemente simpático.

- Você conhece essa aí, Si? - a menina de nariz arrebitado perguntou.

Notei, pela cara dela, que ela não estava nem um pouco satisfeita. Sirius deu um passo para frente e beijou as duas garotas no rosto.

- Bela! Tudo bom, prima?

Prima? Blargh! Mas percebi que aqueles dois tinham muito em comum, pelo menos fisicamente. E elas estavam esperando... dois gatos? De repente, as coisas se tornaram bastante óbvias. Logo atrás de Sirius, avistei Tiago, o filho descabelado da Sra. Potter. Ele me sorriu e eu retribui.

- Oi, Tiago.

- Oi, Lilian. - ele disse, com a voz rouca, mexendo nos óculos.

As duas garotas estavam com as sobrancelhas erguidas e cara de "O que significa isso, Sirius Black?". Acho que Sirius também chegou à mesma conclusão que eu, e começou a usar seus dotes diplomáticos para contornar a situação.

- Gente, essa é a Lily! Lily, essas são minhas primas: Narcisa e Bela. - ele disse, apontando a loira e depois a morena.

Se o Sirius não tivesse quase o triplo do meu tamanho, eu tentaria lhe dar um soco por ter me apresentado como "Lily".

- A Lily tem sobrenome? - perguntou "Bela".

- Lilian Evans. - eu disse prontamente.

- Bellatrix Black. - ela respondeu, me encarando.

- Narcisa Black. - a loira completou.

Tudo em família. Definitivamente, a idéia do Sirius de apresentar estranhas não exatamente simpáticas umas às outras pelo primeiro nome, ou parte dele, foi um desastre. Espero que ele tenha ao menos se dado conta disso.

- E esses Evans, quem são? Nunca ouvi falar. Você é...? - Bellatrix me perguntou, de forma esnobe.

O sobrenome da minha família era bastante comum, mas pelo jeito dela, achei que ela estava falando de algum tipo de aristocracia. Vai ver os Black eram ricos e poderosos, qualquer coisa assim.

- Bela, que importa quem são os Evans? - Sirius perguntou, sentando-se.

Olhei para Tiago e ele encarava as meninas um pouco apreensivo.

- Que importa, Si? Ora, se nunca ouvimos falar dos Evans, então sua amiguinha deve ser...

- Nem mais uma palavra, Bellatrix! Você não vai ofender a garota, seja como for!

Foi a primeira vez que eu vi Sirius nervoso. Ele se levantou e falou, quase gritando, apontado o dedo na cara da prima.

Eu dei um passo para trás e pisei no pé de Tiago. Ele segurou no meu braço, como um sinal de que estava tudo bem. Senti que ele estava a postos para interferir e segurar Sirius a qualquer momento.

Mas Bellatrix apenas cruzou os braços e passou a encarar a janela. Narcisa mordeu os lábios e segurou o braço de Sirius, pedindo para ele se sentar. Senti a respiração aliviada de Tiago sobre meu ombro.

Tiago passou por mim com cuidado e se sentou, puxando Sirius para que ele fizesse o mesmo. Mas ele passou a mão nos cabelos lisos, fechou os olhos por alguns segundos e me disse, ainda de pé.

- Quer sentar aqui com a gente, Lilian?

- Eu acho melhor não. Mas obrigada, Sirius. - eu respondi o óbvio, agradecendo o convite, a defesa e o "Lilian".

Não havia nada físico se interpondo entre as meninas e Sirius e Tiago, mas naquele momento eu soube o quão eles eram diferentes. E, embora eu não gostasse de Sirius, senti que ele tinha algo de bom no fundo do coração dele. Ele tinha me defendido de algo que eu ainda não entendia bem, mas agiu como se a prima estivesse ferindo seus princípios, seus ideais. E meu pai sempre me ensinou a importância disso, a importância do caráter.

Eu devo confessar que nutria um fio de esperança de que Sirius e Tiago levantassem dali e viessem comigo procurar outro lugar no trem. Ou que, pelo menos Tiago o fizesse, já que não parecia tão íntimo das meninas. Mas, realmente, não teria nenhum cabimento. Eles já tinham se importado o bastante com uma magricela estranha naquele dia.

Naquela cabine, estavam os ditos "populares" e, pelo meu histórico escolar, meu lugar era bem longe deles.

M se mexeu em meu colo. Sirius estava fazendo caretas e brincando com ela. Quando ele latiu, imitando um cachorro, os pêlos dela se arrepiaram e eu a ajeitei melhor para não ser arranhada.

Eu olhei para Tiago e os nós dois rimos. De relance, via as garotas fazerem pouco caso.

- Bom, eu vou procurar outro lugar. A gente se vê. - eu disse, finalmente.

- Até mais, Lily! - disse Sirius, e acariciou M.

Dei um sorriso meio forçado. Tinha que me esforçar para não me zangar com Sirius, que tinha acabado de me defender, embora fosse particularmente difícil com aquele "Lily". Como tudo tem um lado bom, percebi que Bellatrix se mordia de ódio. Ou ela tinha me detestado mortalmente ou era apaixonada pelo Sirius. Ou ambos, o mais provável.

Eu avancei em direção ao fundo do trem, procurando uma cabine. Esbarrei em um garoto que conseguia ser mais baixo que eu e meio gordinho. Eu pedi desculpas e ele sorriu, mostrando dentes grandes e proeminentes. Senti uma dor no estômago e pensei no lanche que tinha na bolsa. M se mexeu, inquieta, em meu colo. Talvez ela também estivesse com fome.

Todas as cabines pareciam estar cheias. Por fim, encontrei uma que tinha apenas um garoto. Desejei que ele não estivesse esperando ninguém, pois sabia que se eu avançasse mais para o fundo, encontraria aqueles retardados que haviam me empurrado.

- Posso me sentar aqui? - arrisquei.

Sem resposta. Era meu dia de ser ignorada.

O trem apitou, avisando sua partida. O garoto, que estivera encarando a janela, pareceu despertar de repente de um transe e, então notou minha presença.

- Oi! Posso te ajudar? - ele disse, gentil.

- Você está esperando alguém? É que as outras cabines estão cheias...

- Não, não. Pode sentar. Como é o seu nome?

- Lilian... Lilian Evans. - eu disse, um pouco receosa, depois do que se passara na outra cabine.

- O meu é Remo Lupin. Muito prazer, Lilian.

Eu entrei na cabine e me sentei de frente a Remo. Coloquei minha gata ao meu lado e ela logo se entregou a um cochilo.

- É o seu primeiro ano em Hogwarts?

- É, sim.

- O meu também. Seus pais são bruxos? - Remo perguntou, interessado.

- Não, eles são trouxas.

- Puxa! Deve ter sido um choque!

Nós rimos. Remo era muito agradável.

- Sabe, eu sou meio a meio. Meu pai é bruxo, minha mãe é trouxa.

- Nossa! Como eles se casaram?

- Meu pai veio do leste, dos Bálcãs. Ele era refugiado de uma batalha mágica que destruiu o povoado dele. Ele foi parar na Itália, onde conheceu minha mãe. Meu avô, pai dela, gostou tanto dele que incentivou o casamento. Só depois descobriram que meu pai era bruxo. Também foi um choque. - ele explicou, rindo.

- Então, você é italiano?

- Sim, mas vim para cá pequeno.

- Ah, por isso você não tem sotaque...

Remo era daqueles poucos garotos que, apesar de ter a nossa idade, consegue se comportar tendo a nossa idade. Diferente da maioria dos meninos, que se comporta como se tivesse cinco anos a menos. Ou seja, ele era daqueles poucos garotos que conseguiam conversar civilizadamente com uma garota. Sem parecer político em campanha. Sem te chamar por apelido sem autorização ou te beijar no rosto.

Ele tinha cabelos castanhos claros e olhos cor de mel. Seu rosto era bonito, mas carregava profundas olheiras. Estava usando uma calça jeans batida como a minha e uma camiseta meio desbotada. Notei que ele tinha mais pêlos nos braços do que o comum.

- Doces, queridos? - uma velhinha abriu a cabine, mostrando um carrinho com diversas guloseimas.

- O que tem de chocolate? - Remo perguntou, animado.

Eu sorri, satisfeita. Sou chocólatra, como minha mãe diz.