4. Grifinória, ainda bem!
Quando o sinal do trem tocou, Remo e eu fomos até o compartimento de bagagens para pegar nossas vestes. Tivemos que tomar cuidado para não sermos atropelados no caminho, pois havia bastante tumulto. Eu não sei como Remo não me perdeu de vista, com essa minha altura de cogumelo. Provavelmente, foi por causa do meu cabelo acaju.
A fila para se trocar no banheiro feminino foi uma tortura. Duas garotas esbarraram em mim e foram correndo para o começo da fila. Quando vi quem eram, tive certeza de que fora de propósito: as primas nojentas do Sirius.
-Nossa, Lilian, ainda na fila?
Remo já se trocara e voltara. Estava com o cabelo penteado de lado e parecia ter lavado o rosto. Minha mãe gostaria do cabelo dele. Ela sempre comentava comigo quando me levava à escola e via algum menino assim, geralmente os mais quietinhos.
Nessas horas, eu odiava ser menina. Por que as garotas maiores demoram tanto no banheiro? Será que eu vou ser assim algum dia?
Minha vez demorou tanto que eu estava quase desistindo e colocando as vestes por cima da minha roupa mesmo. Já estava achando que chegaríamos à escola antes de eu poder entrar no banheiro.
Por fim, a garota da minha frente, que havia demorado uma eternidade lá dentro, saiu. Confesso que tive que dar um empurrãozinho com o corpo para afastar a menina de trás, que estava prontíssima para entrar na minha frente. Vou me lembrar de colocar as vestes bem antes da hora, da próxima vez em que viajar nesse trem.
Quando me vesti com aquelas roupas tão diferentes, tão formais, tão distantes da minha realidade, me senti incrivelmente importante. Importante como aquelas pessoas ricas para as quais papai trabalha. Quase como uma promotora como eu via nos filmes de julgamento.
Saí e Remo estava me esperando. Além de ser simpático e gostar de chocolate, ele devia ser muito, muito paciente. Tanto tempo havia se passado, que nem pudemos voltar à cabine. O trem já apitava, chegando ao seu destino.
Do lado de fora do trem, Hagrid balançava uma espécie de lampião.
- Alunos do primeiro ano! Venham comigo! Alunos do primeiro ano!
- Caramba, que cara enorme!
- Ah, é o Hagrid! Ele é muito legal!
Remo arregalou os olhos. Eu também custara a acreditar na bondade de Hagrid até vê-lo sorrindo.
Hagrid nos conduziu por um caminho estreito até a beira de um imenso lago. De lá, todos contemplaram, maravilhados, a silhueta de um enorme castelo cheio de torres. Será que era o que eu estava pensando? Será que o castelo e a escola eram o mesmo lugar?
Detive-me no lago, encarando-o apreensiva. Não sei nadar. Segurei M com força.
- Vamos, entrem nos barcos! Quatro em cada um! – Hagrid gritou.
Só agora reparara. Havia uma dezena de barquinhos encostados à margem. Remo puxou meu braço, fazendo sinal para que ocupássemos um dos barcos.
Eu entreguei M a Remo, apoiei-me na mão dele e entrei, receosa. Eu nunca gostei de barcos. Eles me deixam enjoada. Nesse ponto, sou como minha mãe.
- Esses dois vão com vocês! – Hagrid disse, trazendo consigo dois garotos envergonhados.
- Oi... eu sou Frank Longbotton. – disse o primeiro, de cabelos pretos cortados como os de um índio.
- Meu nome é Marc Chang. – disse o segundo, de olhos puxados.
- Eu...
- Eu...
Remo e eu começamos a falar ao mesmo tempo. Nós rimos. Ele foi cavalheiro e indicou que eu falasse, devolvendo M aos meus braços.
- Meu nome é Lílian Evans. E esse é Remo Lupin.
Apresentações feitas, logo estávamos conversando. Marc parecia inteligentíssimo e Frank gostava muito de um tal de Quadribol, que eu não sabia o que era, mas acreditei que fosse um esporte, pelo entusiasmo dos meninos.
Hagrid ficou sozinho em um barco. Não caberia mais ninguém com ele, de qualquer forma. Ele partiu na frente e todos os barquinhos o seguiram.
Era incrível. Não havia vela, nem remo, nem motor. E os barcos se moviam todos em perfeita sincronia, deslizando pelo lago sem remexer as águas.
O dia já acabaça e uma clara lua quarto crescente surgia no céu. Logo escureceria por completo.
- Ah, acho que vai ser uma noite linda! Vejam como a lua está brilhante! Adoro a lua! – eu disse. Era encantada pela lua.
- Lílian, pela primeira vez, vou ter que discordar de você. – Remo disse, com gentileza.
- Por quê? Não gosta da lua?
Ele apenas fez um sinal negativo com a cabeça. Como alguém podia não gostar da lua? Tão bela, misteriosa, romântica, hipnotizante... Achei que só os lobisomens das histórias que papai contava não gostassem da lua. Talvez ela traga para Remo alguma lembrança ruim. Decidi não perguntar mais.
Uma agitação nos barcos da ponta chamou nossa atenção. Um barco passara na frente de Hagrid. Aquilo tinha virado uma corrida? A sincronia havia sido quebrada. Estimulados pelo primeiro barco, outros tentavam fazer com que os seus fossem mais rápidos. Poucos conseguiam.
No primeiro colocado, ou seja, o barco que causou toda a confusão, os "tripulantes" levantavam e atiravam água, balançando a mini-embarcação.
- Todos quietos! Por Merlin, quem conseguiu fazer isso? Garotos de onze anos quebrando feitiços tão antigos? Esse mundo está perdido! – Hagrid estava muito bravo.
E o barco seguia na liderança. Hagrid foi atrás deles. Nós podíamos ouvir seus gritos.
- O quê? São vocês? Não acredito! John e Claire vão saber disso, ouviu, Sr. Potter!
- Tinha que ser! – pensei alto demais.
Os meninos do meu barco se viraram para mim. Percebi que eles estavam se divertindo com a travessura de Sirius e Tiago, inclusive Remo. Ou, dizendo melhor, especialmente Remo.
- Conhece os marotos ali? – Remo perguntou.
- Ah, mais ou menos... eu os vi umas duas vezes só.
Não quis dar muitos detalhes. Não acho que seja exatamente um orgulho conhecer os garotos mais bagunceiros da turma, que vão levar a maior bronca antes mesmo de as aulas começarem.
A algazarra se tornou mais intensa. Hagrid havia transformado seu barco em uma espécie de lancha e zarpara em direção ao barco de Sirius e Tiago. Mas era tarde demais. Eles já atracavam na outra margem e desciam do barco aos pulos. Com eles, estavam duas meninas que eu, infelizmente, imaginava quem eram. Os quatro se abraçavam, como perfeitos bobos alegres.
Tão impressionante quanto o "feito" deles, foi o som que eu ouvi então. Palmas. Muitas. Acompanhas de assovios e gritos em geral. Era isso mesmo. Todos estavam de pé em seus barcos, aplaudindo Sirius, Tiago, e as insuportáveis primas Black.
Remo estava se divertindo muito. Estranhamente, eu achava que ele vibrava tanto quanto Sirius e Tiago. Tanto que ele gritou, usando as mãos para direcionar a voz.
- Dá-lhe Marotos!
Não era para ser um espetáculo, mas a pequena multidão de alunos do primeiro ano ali foi à loucura.
Ouviu-se primeiro uma vozinha ao longe, que depois se tornou um coro geral, exceto, talvez, por mim e por uns garotos mal encarados.
- Marotos! Marotos!
Em um gesto patético, Sirius e Tiago deram as mãos e inclinaram as costas para frente, em agradecimento. As meninas faziam poses ridículas ao redor deles.
Remo ainda conseguia rir daquela cena deprimente. Ele devia conhecer aqueles dois... aqueles dois marotos. O que mais poderia explicar tamanha proximidade, que até eu podia sentir, quando eles estavam separados por quase um quarto de lago?
- Remo, você conhece Potter e os Black? – perguntei, tentando parecer impessoal.
- Potter e quem? – estava difícil mesmo ouvir com a barulheira.
- Black! – disse mais alto.
Remo se sentou, quieto, me puxando para que eu sentasse junto.
- O que foi? Aconteceu alguma coisa? Você os conhece ou não?
- Não, não conheço. Foi estranho, uma espécie de dèjá vu. Por alguns instantes, senti como se os conhecesse... – ele disse, pensativo.
- Mas já ouviu falar? Você se incomodou com os sobrenomes...
- Dos Potter, nunca ouvi falar. Mas dos Black... Pelo que meu pai conta, não são boa gente. A família Black é...
- Não, o Sirius é diferente!
Foi muito mais por instinto do que pela razão que eu quase me exaltei com o menino que vinha sendo mais gentil comigo desde que eu entrara no mundo bruxo. Mas eu tinha que defender o Sirius. Era quase uma dívida, afinal, ele, bem ou mal, tentara me proteger de algo relacionado ao meu sobrenome também.
Remo ficou meio assustado. Eu contei a ele o episódio do trem e ele deu razão total a Sirius, mas não me disse o motivo.
- Agora, as meninas, essas sim devem seguir a regra da família... – deixei escapar.
Frank e Marc já haviam sentado e estavam ouvindo nossa conversa. Pronto, todos iam saber que eu não gosto das primas Black. Entretanto, essa não parecia ser a parte que mais interessava a eles.
- Quer dizer que tem um Black do bem mesmo?
E lá estava eu, de novo, fazendo a maior propaganda do Sirius, de quem eu não era particularmente tão fã assim. Ou será que era?
Enfim, a festa dos meninos acabara. Vi uma sombra parada atrás deles e depois eles se virarem e seguirem a sombra, cochichando uns com os outros.
Hagrid voltou, ofegante. Os barcos voltaram a andar, devagar e em harmonia.
- Desculpa, pessoal. É a primeira vez que isso acontece... – ele disse, nervoso.
O resto do percurso seguiu com murmúrios em quase todos os barcos. Pelo andar da carruagem, ou melhor, dos barcos, acho que Sirius e Tiago vão se tornar ídolos escolares.
Quando chegamos à outra margem, Hagrid acompanhou nosso desembarque. Parecia inquieto.
- A Vice-Diretora deveria levar vocês. Mas ela foi cuidar de quatro alunos muito especiais. – todos riram baixinho. – Então, vou deixá-los no salão onde vocês esperarão por ela para a Cerimônia do Sorteio das Casas.
O Sorteio das Casas? Tinha me esquecido das Casas... Será que era decidido na sorte? Eu sempre tirava os menores números no dado...
Entramos no castelo e atravessamos algumas masmorras, frias e molhadas. Inexplicavelmente, alguns alunos pareciam adorar o lugar. Depois, subimos alguns lances de escada e Hagrid nos deixou em uma sala grande com armaduras medievais.
- Já sabe sobre as Casas, Lílian? – Remo perguntou.
- Não muito. Conheci algumas pessoas que eram da Grifinória e só.
- Ah, acho que a gente não tem muito com o que se preocupar. Da pior Casa, já estamos fora.
- Como assim?
- A Sonserina é a Casa que abriga os bruxos mais perversos. Mas lá, só se costuma aceitar os chamados sangue-puros. Como nossas famílias têm trouxas, estamos livres.
Fiquei pensando naquilo. A família Black, pelo que eu pude perceber, não tinha uma reputação muito boa... Será que Sirius ia parar nessa tal de Sonserina?
Uma senhora um pouco mais nova do que a minha falecida avó, de aparência séria e severa com os cabelos amarrados em um comportado coque surgiu na porta da sala. Dois garotos e duas garotas a acompanhavam.
- Atenção, por favor!
Ela só precisou dizer uma vez. Imediatamente, as pessoas pararam, e fizeram o máximo de esforço possível para não encararem as "novas estrelas" da escola, que se juntavam ao grupo. M também não ousou se mexer em meu colo.
- Meu nome é Minerva McGonagall. Sou Vice-Diretora de Hogwarts, Diretora da Grifinória e Professora de Transfiguração.
Ela falou muito rápido. Parecia muitíssimo mais brava do que minha professora de matemática. Mesmo assim, eu a admirei desde aquele momento, pois ela se fazia respeitar sem nenhum esforço.
- Eu serei breve. Estamos atrasados. Tenho apenas algumas recomendações. – ela continuou. – Primeiro, quero que saibam que o que ocorreu no lago será devidamente punido. Esses alunos estão, inclusive, ameaçados de expulsão.
Houve um murmúrio na sala. Expulsão? Essa escola era mais rígida do que eu pensava. Os "infratores" se entreolharam.
A Vice-Diretora voltou a falar e todos se calaram.
- Muito bem. Em minutos, vamos entrar no Grande Salão para a Cerimônia de Seleção. Eu vou chamar seus nomes em ordem alfabética e vocês virão até mim para serem selecionados. Quando tiverem a resposta, deverão se dirigir à mesa de sua Casa.
Ela fez uma breve pausa.
- A Casa a que vocês pertencerem será onde vocês viverão, dormirão e farão amigos. Todo ano, é realizado um campeonato entre as Casas. Por cumprirem corretamente suas tarefas, vocês ganham pontos para suas Casas. Desobedecendo as regras, vocês perdem pontos. Entenderam? – ela terminou, olhando para Sirius e Tiago.
Todos assentiram e os meninos se entreolharam novamente.
- Bem, sigam-me.
Minerva McGonagall saiu da sala a passos rápidos e nós a seguimos, da forma mais organizada que conseguimos. Alguns rostos estavam apavorados. Sirius e Tiago riam, um pouco nervosos. Bellatrix e Narcisa conversavam animadamente. Ninguém diria que eles estavam ameaçados de expulsão.
- Tomara que fiquemos na mesma Casa, Lílian. – Remo me disse com um sorriso e fez um carinho na cabeça de M.
Quando entramos no tal Grande Salão, levei um baita susto. O local era muito iluminado e havia velas suspensas no ar por toda a parte. Será que estávamos ao ar livre? Olhei para cima e podia-se ver o céu lá fora, agora uma bela noite enluarada. Nas próximas noites, seria lua cheia, minha lua preferida.
- Remo, olha só o teto! Que coisa linda!
Ele olhou para mim, quase virando os olhos. Estava pálido e suava.
- Você está bem? – perguntei, preocupada.
- Sim, só um pouco nervoso.
Acho que ele mentiu. Pensei no que poderia fazer. O menino parecia prestes a desmaiar.
Passamos paralelos a quatro grandes mesas e, ao fundo, uma mesa na horizontal, onde deviam estar, imaginei, os professores da escola. No centro dessa mesa, um senhor me sorriu. Dumbledore, o velhinho maluco que fora me visitar no dia em que eu descobri que era bruxa.
Eu tentei apontar para Remo com os olhos, indicando que ele estava passando mal. Talvez ele pudesse curá-lo com um feitiço, ou sei lá. Ele pareceu um pouco preocupado, ergueu as mãos e encostou uma palma na outra, devagar.
Acompanhando as mãos dele, olhei para o teto. O céu desaparecera. Fora substituído por um bonito desenho de feiticeiros medievais.
A Vice-Diretora se virou, de repente, para Remo.
- Sr. Lupin, o senhor está bem? - ela perguntou, alarmada.
E Remo estava bem, surpreendentemente. Sua cor havia voltado. Ele apenas confirmou com a cabeça e engoliu em seco.
Continuamos andando até que McGonagall parou, indicando que esperássemos. Ela colocou um banquinho com um Chapéu velho em cima em frente à posição de Dumbledore.
Para minha surpresa, o Chapéu velho tinha uma espécie de boca e começou a cantar uma canção sobre as Casas da Escola. Pelo que entendi, os alunos seriam escolhidos segundo sua personalidade. Talvez, então, eu ficasse na mesma Casa de Remo, pois éramos bastante parecidos. A menos, é claro, que gostar ou não da lua fosse um fator relevante. De qualquer forma, o mais estranho era que o tal Chapéu é que ia nos escolher.
Quando o Chapéu terminou, todos bateram palmas e Sirius e Tiago assobiaram. Eles já vinham dançando durante a canção, que nem ritmo tinha direito.
McGonagall pegou um pergaminho e começou a chamar os nomes escrito nele.
- Black, Bellatrix!
A garota insuportável sentou-se no banquinho e McGonagall colocou o Chapéu em sua cabeça. Não levou nem meio segundo para ele dizer bem alto.
- Sonserina!
Ela saiu sorrindo e se sentou na ponta de uma mesa cheio de gente estranha, mas que a recebeu muito bem.
Tomei um susto quando vi um fantasma rondando a mesa deles. E eu que não acreditava nas histórias do papai. O fantasma estava muito bem vestido, se é que se pode dizer isso, e parecia assustador e desprezível ao mesmo tempo. Mas olhou com aprovação para a recém-chegada.
- Black, Narcisa! – McGonagall chamou mais um nome.
O Chapéu ficou alguns poucos segundos na cabeça da loira azeda e depois anunciou.
- Sonserina!
A menina correu e abraçou a prima. As duas davam gritinhos histéricos e pareciam felicíssimas.
- Black, Sirius!
Então, era a vez de Sirius. Ai, será que ele também ia para a Sonserina? Eu tinha certeza de que ele era diferente. Torci para que ele conseguisse outra Casa.
Remo aguçou os olhos para ver a seleção de Sirius. Marc e Frank também. Bellatrix e Narcisa nem piscavam. Fiquei na ponta dos pés e vi que Tiago roía as unhas.
Sirius se dirigiu, hesitante, ao banquinho e sentou sem conforto. Quando McGonagall colocou o Chapéu na cabeça dele, ele fechou os olhos.
Passaram-se vários minutos. Reparei que Dumbledore estava ligeiramente apreensivo e Hagrid olhava desconfiado.
Finalmente, o Chapéu se decidiu, proclamando em alto e bom tom.
- Grifinória!
Sirius gritava como louco. Ele correu e quase pulou no colo de Tiago quando o abraçou. Até eu, que já estava me acostumando com a peça, custei a acreditar, mas ele beijou a McGonagall e também o Chapéu velho, levantando-o bem alto. Para melhor definir, ele parecia um jogador de futebol quando marca um gol no final do jogo, garantindo o campeonato.
McGonagall ficou visivelmente constrangida. Acho que ninguém jamais havia feito uma, digamos, comemoração, assim na Cerimônia de Seleção. Mas eu pude ver um risinho no canto dos lábios dela enquanto Sirius festejava.
Já Dumbledore não disfarçava nenhum pouco. Exibia um sorriso radiante. Hagrid, por outro lado, parecia surpreso. A mesa da Grifinória também estava surpresa, mas se levantaram e aplaudiram.
Eu estava realmente feliz por Sirius. Ficar na Grifinória deve ter sido uma conquista e tanto para ele.
- É, Lílian, você estava certa! – Remo me disse, sorrindo.
Mas nem todo mundo estava contente. Antes que Sirius chegasse à mesa da Grifinória, todos se viraram ao ouvir um estridente grito sonserino.
- Naaaaão!
Bellatrix saiu de sua mesa, correu e puxou o braço de Sirius, que olhou para ela, incrédulo.
- Não, Si! Seu lugar é conosco! Você não pode ficar nesse lugar com... com essa gente!
- Bella, cai na real... Me deixa. Depois a gente se fala...
Sirius estava tentando não levá-la a sério. Não sei como ele é com as outras pessoas, mas a impressão que tenho é que ele não perde a paciência logo de imediato com a prima.
McGonagall ia interferir, mas Dumbledore, que observava tudo com as sobrancelhas erguidas, deu-lhe um olhar significativo e ela se conteve.
- Vem, Si. Vamos para a Sonserina. Seu lugar é conosco, com a sua família. Vai ser muito melhor para você! Anda, vem! – ela gritou e o puxou mais forte.
- O meu lugar é onde eu escolhi, Bellatrix! E já faz tempo que eu sei o que é melhor para mim! E é longe da minha família! Longe das idéias doentias de vocês! – ele gritou a plenos pulmões e se soltou com violência, machucando o braço dela.
Mais um segundo de discussão e haveria uma briga feia. Dumbledore interveio bem a tempo.
- Srta. Black, por favor, volte a sua mesa! – ele disse, com firmeza.
Ela voltou, hesitante, para a mesa da Sonserina sem virar as costas para Sirius e se sentou com dificuldade. Narcisa acariciou o cabelo da prima.
- Acho que esse episódio mostrou a eficácia do nosso velho Chapéu Seletor, pois acabamos de ver que tanto a Srta. Bellatrix Black quanto o Sr. Sirius Black foram mandados para os seus devidos lugares. E quero lembrar uma coisa muito importante dita pelo Sr. Black. Ele escolheu onde queria ficar. É assim que mudamos o rumo dos acontecimentos. É assim que provamos quem somos. Por nossas escolhas.
Fez se uma pessoa. Era incrível como aquele velhinho transbordava sabedoria. Sirius ainda respirava fundo.
- Agora, Sr. Black, sua Casa o aguarda! – ele disse, com alegria.
A mesa da Grifinória voltou a se levantar para receber Sirius e todos aplaudiram. Dessa vez, eu também me juntei ao coro de palmas. Só a Sonserina não se mobilizou. No rosto de Bellatrix, um misto de ódio e tristeza.
Sirius sentou-se e, bem relacionado como era, logo estava conversando com todo mundo.
- Bom, vamos continuar a seleção. – Dumbledore disse, afinal.
A Vice-Diretora, já um pouco impaciente, mas com um sorriso quase bondoso, continuou a chamar os nomes dos pergaminhos. O Chapéu se decidiu rápido sobre a maioria deles.
- Bright, Esther!
- Lufa-Lufa!
- Brown, Janet!
- Corvinal!
- Bullstrode, Raph!
- Sonserina!
- Chang, Marc!
- Corvinal!
Acenei de longe para meu companheiro de barco, que ia para uma mesa ao fundo.
- Crouch, Bartô!
- Lufa-Lufa!
- Diggory, Joseph!
- Lufa-Lufa!
- Evans, Lílian!
Chegara a minha vez. Remo me sussurrou "Boa sorte".
O banco era um pouco alto para mim e minhas pernas balançavam no ar. Quando o Chapéu me foi colocado sobre a cabeça, não vi mais nada. Ficou tudo escuro. Acho que ele era grande demais para mim. Eu ouvi uma vozinha na minha cabeça enquanto acariciava minha gata para tentar me acalmar. .
"Vejamos... Suporta a dor. Tem uma mente e tanto. Mas essa coragem e esse coração pertencem a... "
- Grifinória! – anunciou o Chapéu, afinal.
Eu ia para a Grifinória! A Casa preferida de Hagrid, Molly, e Arthur. A Casa de Sirius. Pude ver Remo me sorrindo quando a Vice-Diretora tirou o Chapéu da minha cabeça.
A mesa da minha Casa parecia ter gostado do meu ingresso e comemorava bastante.
- Lílian, que bom que você veio para cá! – Molly me disse, sorrindo. Arthur estava mais ao fundo da mesa e acenou, animado.
Meus pés saíram do chão. Eu estava flutuando. Literalmente. Senti apertarem minha cintura como quando se usa um cinto pequeno no último botão. M miou em desespero.
- A Lily é nossa!
Olhei para cima. Dois olhos cinzas e algumas mechas lisas de cabelos pretos me sorriam.
- Sirius, pára! Me põe no chão! – eu disse, balançando os pés.
Eu tive receio de que ele me largasse com força no chão, como acontece nos desenhos animados que eu gostava de assistir na televisão. Mas, ao invés disso, ele abaixou delicadamente até que meus pés estivessem seguros no chão e, por fim, soltou minha cintura, deixando-me respirar melhor.
Algumas pessoas me encaravam, incertas, mas a maioria continuava festejando. Eu me virei para ralhar com Sirius, mas ele já estava sorrindo, de braços bem abertos.
- Lily! Estamos na Grifinória! – ele me deu um abraço forte seguido de um beijo bem estalado na bochecha.
Foram mais alguns segundos sem respirar. Quando aquele garoto maluco ia parar de me beijar e me chamar assim? Comecei a pensar que ter ficado na Corvinal ou na Lufa-Lufa não teriam sido más idéias.
- Vem, senta aqui, Lily! – ele me puxou pela mão, me arrastando para o lugar ao lado dele.
- Esse é meu amigo do segundo ano, o Thomas Jordan. Thomas, essa é a Lily!
- Lílian, por favor. – tomei coragem de dizer e cumprimentei Thomas, que parecia ter acabado de conhecer Sirius, com um breve sorriso.
Sirius me olhou, pensativo, por alguns segundos. Depois, desandou a falar de novo.
- Lily, aquele lá no fundo é o Arthur, monitor. E essa na sua diagonal é a Molly, também monitora. Eles são namorados. A Diretora da nossa Casa é a McGonagall, a velhinha do Chapéu ali. Parece brava, né? A gente vai ficar numa torre e...
- Ora, ora, belos olhos, senhorita! – a cabeça de um fantasma me disse.
Não tive opção. Segurei forte no braço de Sirius, que me olhou, divertido.
- Esse é o Nick-Quase-Sem-Cabeça, Lily! Nosso fantasma-mascote!
- Por favor, Sr. Black... Sir Nicholas, o fantasma da Grifinória, seu criado, Srta...
- Evans. – respondi, com os olhos arregalados e sem conseguir largar o braço de Sirius.
Ele fez uma breve reverência e eu e todas as meninas gritamos. Sua cabeça pendeu para o lado e ele a recolocou no lugar. Agora entendia porque Sirius o havia chamado de Quase Sem Cabeça.
Nick se desculpou e saiu flutuando. Quando eu percebi que ainda segurava o braço de Sirius, soltei-o rapidamente. Ele riu.
- Fiskar, Barbara!
Voltei os olhos para a seleção. Parece que também houvera uma breve pausa depois da minha escolha.
- Corvinal! – anunciou o Chapéu.
- Hitful, Courtney!
- Sonserina!
- Hook, Elis!
- Grifinória!
Todos aplaudimos a nossa nova colega. Era uma menina de cabelos bem pretos e rebeldes e olhos incrivelmente amarelos, atentos como os de um falcão. Sirius pareceu adorá-la.
- Oi, Elis, tudo bem?
- Então, você é o famoso Black? – a garota disse. Parecia levemente irônica.
Elis tinha um jeito austero, mas, na verdade, era bastante simpática. Logo, ela e Sirius estavam conversando, animados, sobre o tal Quadribol. Como eu era leiga no assunto, voltei-me para a seleção.
- Hook, Newton!
- Meu irmão... – Elis nos disse.
- Será que vai vir para cá? – arrisquei.
- Espero que não. Ele não me daria sossego...- ela disse.
Sirius riu. Eu imaginei Petúnia na Grifinória e ri também.
- Vocês tem irmãos? – Elis perguntou, casualmente.
- Sim! – eu e Sirius respondemos, juntos.
- Eu tenho uma irmã. Mas não acho que ela seja literalmente uma bruxa... – eu disse quando percebi que Sirius não queria falar muito mais sobre sua família.
- Ah, sua família é trouxa?
- É. – respondi, cautelosa. Percebi Sirius atento.
Mas todos que ouviram se interessaram e começaram a me perguntar todo o tipo de coisa. Eles ficavam maravilhados com os fatos mais simples da minha vida. Arthur, só de ouvir a palavra "trouxa", veio sentar-se perto de nós. Sirius respirou aliviado. Elis também. Seu irmão tinha ido parar na Corvinal.
- Jordan, Robert!
Foi a vez de Thomas esticar o pescoço, atento. Na certa, era seu irmão.
- Corvinal!
Thomas soltou um suspiro de desapontamento. Diferente de Elis, acho que ele queria o irmão por perto. Sirius bateu nas costas dele.
- Joshnet, Alice!
- Corvinal!
- Jorkins, Berta!
- Grifinória!
Todos nós aplaudimos. A menina tinha cabelos castanhos e bochechas rosadas. Ela sentou-se ao meu lado.
- Oi, tudo bem, qual é o seu nome?
- Lílian Evans...
- Oi, Lily! Eu sou a Berta. Prazer. Ainda bem que ficamos na Grifinória, não é mesmo? Ai, eu não podia nem pensar em ir para outra Casa e...
Ah, não! Uma "Sirius"! Socorro! Tudo o que eu queria fazer era apresentá-los e sair do meio deles. Pensando bem, nem seria necessário apresentá-los.
- Então, amiga, me conta! Eu vi você de papo com o grandão aí do seu lado. Como você conheceu esse gato?
- Bem, eu...
- Poxa, Lily, nem apresenta, hein? – Sirius, muito modesto, ouviu a palavra "gato" e se identificou na hora.
- Oi, prazer, eu sou o Sirius! – e, tradicionalmente, beijou a garota, que ficou com um sorriso idiota na cara durante meia hora.
Era Betinha para lá, Si para cá e Lily para todo lado, ia-ia-ô. Não teve jeito. Eu acabei ficando no meio dos dois. Mas, no fim, gostei da Berta. Ela era engraçadíssima e sempre tinha algo de curioso para contar.
- Longbotton, Frank!
- Grifinória!
Fiquei feliz por ter Frank, um dos meus companheiros de barco, na Grifinória. Sorri para ele e ele acenou. Sentou-se ao lado de Elis, que pareceu preferi-lo a Sirius.
- Lovegood, Paul!
- Corvinal!
- Lupin, Remo!
Virei para a seleção, apreensiva. Sirius me olhou, intrigado. Remo tinha que vir para a Grifinória, tinha que vir. Cruzei os dedos.
- Grifinória!
Aplaudi muito. Fui das mais animadas. Tive até vontade de dar um daqueles assobios iguais aos do Sirius.
Quando Remo chegou à mesa, me abraçou forte. Mas não impediu minha respiração como Sirius, é claro.
- Lílian, que bom!
Nós sorrimos. Era muito bom ter Remo por perto.
Sirius nos olhava com um sorriso, carinhoso. Mais uma vez, não foram necessárias apresentações.
- Parabéns, cara! – ele bateu nas costas de Remo.
Quando Remo se virou, eu, novamente, tive a sensação de que eles já se conheciam. Era uma estranha cumplicidade estampada no olhar deles.
- Valeu! – Remo disse, afinal.
- Sirius Black. – ele estendeu a mão.
- Remo Lupin. – ele apertou com uma mão e depois juntou a outra, como num gesto de antiga amizade.
Remo sentou-se na nossa frente. Ele se deu tão bem com Sirius, que eu chegava a me sentir excluída da conversa. Até ele! Por que será que todo mundo se deslumbrava com o idiota do Sirius menos eu? Ou será que eu apenas não percebia?
- Malfoy, Lúcio!
- Sonserina!
Sirius fez uma cara de nojo.
- Malfoy, Shirley!
- Sonserina!
Sirius pensou um pouco, mas não fez a mesma cara.
- McMillan, Albert!
- Lufa-Lufa!
- Panold, Phillip!
- Sonserina!
- Parkinson, Daniel!
- Sonserina!
- Patil, Marie!
- Corvinal!
- Pearl, Judie!
- Lufa-Lufa!
- Pettigrew, Pedro!
O Chapéu pareceu hesitar e sair de órbita, mas após alguns segundos, anunciou em modo automático:
- Grifinória!
O garoto gordinho e baixinho se dirigiu a nossa mesa. Ele olhava fixamente para Sirius, idolatrando-o. Abaixei os olhos. Remo olhou para mim e eu disse a ele que estava tudo bem.
Pedro sentou-se longe de nós, mas ainda encarava Sirius. Não sei o que havia de errado com ele, mas não suportava olhá-lo por muito tempo.
- Pomfrey, Papoula!
- Lufa-Lufa!
- Potter, Tiago!
Sirius se levantou. Eu me virei, atenta. Onde será que o menino atrapalhado de cabelos bagunçados ia ficar?
- Grifinória! – disse o Chapéu, sem muita demora.
Sirius correu e abraçou Tiago, antes que ele pudesse se aproximar da mesa. Talvez ninguém mais tenha reparado, mas havia lágrimas nos olhos de bebê de Sirius.
Tiago chegou à mesa praticamente carregado pelo amigo.
- Bem-vindo, Tiago! – eu disse, simpática.
- Legal, Lílian! Todos nós na Grifinória! Ainda bem!
Tiago cumprimentou Remo e a afinidade também foi imediata. Logo, os três conversavam como amigos de sempre. Eu comecei a pensar que precisaria de uma amiga, pois ia ser muito difícil disputar a atenção dos meninos.
- Prickman, Juliette!
- Sonserina!
- Pullman, Susan!
- Grifinória!
Nossa nova colega tinha olhos levemente puxados e cabelos bem lisos. Os meninos gostaram dela. Para infelicidade deles, ela sentou-se longe de nós.
- Redart, Rose!
- Lufa-Lufa!
- Shung, Lin!
- Corvinal!
- Snape, Severo!
Um garoto franzino de cabelos bem oleosos se dirigiu timidamente ao banquinho. Ele andava curvado e encontrou meu olhar quando se sentou. Foi um olhar familiar e eu me esforcei para lembrar se já o tinha visto antes, mas minha memória me traiu.
Novamente, foi como se o Chapéu falhasse. Há algumas semanas, antes de conhecer a magia, eu explicaria o fato como "bateria fraca". De qualquer forma, suponho que se gaste algum tipo de energia em analisar a personalidade de tanta gente. É para isso que os psicólogos ganham dinheiro, como papai dizia.
- Sonserina! – decidiu o Chapéu, afinal.
Sirius e Tiago olharam com desdém quando o menino de cabelos ensebados ia, cabisbaixo, para a mesa da Sonserina. Ele ainda se virou para olhar na minha direção e eu sorri, mas ele parecia totalmente desolado. Achei esquisito, nenhum aluno ficou insatisfeito assim, será que ele não escolheu direito?
- Sprout, Daisy!
- Lufa-Lufa!
- Sulix, Finchley!
- Lufa-Lufa!
-Sugar, David!
- Lufa-Lufa!
- Treawley, Sibila!
- Grifinória!
Sibila sentou-se ao lado de Berta. Ela era do tamanho de Remo, bem magrinha e usava óculos enormes.
- Young, Ernest!
- Corvinal!
E com o garoto, que era bastante pálido, terminou a seleção do ano. A Vice-Diretora retirou o banquinho e o Chapéu. Dumbledore se levantou e todos olharam, atentos.
- Que comece o banquete! – ele disse, apenas.
Para meu encanto, surgiram montes de comida sobre a mesa. Pratos, antes vazios, enchiam-se de delícias, maravilhando a todos.
Eu tirei vantagem de não ter tendência a engordar e me fartei. Confesso que exagerei nos doces, especialmente tudo que tinha chocolate. Vi que Remo fazia o mesmo.
Os outros meninos comiam como trogloditas. Berta também. Sibila só beliscou e Elis, estranhamente, nem tocou na comida.
Quando todos já estavam satisfeitos, Dumbledore bateu palmas e os pratos foram limpos.
- Muito bem, a Cerimônia está encerrada. O ano letivo está oficialmente, aberto. Por favor, dirijam-se a seus dormitórios.
Dizendo isso, Dumbledore cochichou algo com McGonagall e sumiu por uma porta escondida atrás da mesa.
- Alunos do primeiro ano! Venham conosco, rápido! – Molly anunciou para a mesa da Grifinória. Arthur acenava, nos chamando.
Eu me levantei lentamente. Havia comido demais. Podia ouvir Remo, Sirius e Tiago conversando, animados, atrás de mim. Ainda não havíamos saído do Salão quando uma voz severa os interrompeu.
- Sr. Black e Sr. Potter! Os senhores vêm comigo! – McGonagall disse, austera.
- Por quê? – Sirius perguntou, indignado.
- Bem, agora que estão na Grifinória, eu sou responsável por vocês. E vamos conversar sobre o que aconteceu essa tarde no lago.
- Oh-oh... – Tiago disse.
- Sr. Lupin, com licença, sim?
- Claro. Até mais, pessoal!
Sirius e Tiago acenaram, desanimados, e seguiram a vice-diretora, relutantes.
- Acho que eles vão se dar mal... – Remo observou.
- Será que vão ser expulsos?
- Ah, nem fala... Tomara que não.
- É, tomara que não. - por tudo e por nada, eu não suportava a possibilidade da expulsão de Sirius e Tiago.
- Vamos, vamos, sigam-me! – Molly gritava, enérgica.
Saindo do Salão, não saberia refazer sozinha o caminho que traçamos. Só sei que havia escadas. Montes delas. Fatigada, eu me esforçava para não perder os passos rápidos de Molly e Arthur de vista.
O mundo mágico é mesmo incrível e os bruxos podem fazer coisas extraordinárias. Sendo assim, eu realmente não entendo por que raios eles não têm um elevador nesse lugar. Pelo que pude contar, foram sete andares que subimos sem descanso e sem conversa.
Por fim, paramos em frente a um retrato de uma dama, digamos, um pouco acima de seu peso ideal.
- Chegamos à Torre da Grifinória. Esse quadro guarda a entrada de nossa sala comunal. – Arthur disse, com simpatia.
- A senha para entrar é Asa de Fada. – Molly disse, séria. Remo fez uma careta e Arthur pareceu ligeiramente desconcertado.
A dama do retrato se mexeu. Eu nunca tinha visto um quadro se mexer, mas foi exatamente isso que ela fez. Ela se inclinou brevemente em reverência e a moldura do quadro se deslocou da parede, revelando um buraco com luzes ao fundo.
Era uma passagem secreta, como aquelas que eu ouvia falar que existiam mesmo nos castelos e casas antigas.
Seguimos os monitores parede adentro. O que eu vi ao entrar foi o ambiente mais aconchegante que conheci. Grandes poltronas e sofás vermelhos, uma lareira impressionante, um tapete belíssimo. Aquela era a sala dos meus sonhos.
- Essa é a nossa sala comunal. Aqui vocês podem estudar à vontade e interagir com todos os outros membros da Grifinória. Reuniões importantes sobre nossa Casa também podem ser realizadas aqui. – Arthur disse, paciente.
- Vocês, do primeiro ano, devem estar na sala comunal todos os dias às oito. Às dez, vocês devem se recolher aos seus dormitórios. – Molly ditando as regras.
- Aproveitem, pessoal. No meu tempo, vínhamos para cá às seis sem conversa. – confessou Arthur, rindo.
- Durante as aulas, vocês devem estar... nas aulas. Por isso, ninguém pode permanecer na sala comunal no horário das classes. A entrada na sala comunal é exclusiva aos alunos da Casa. Vocês são proibidos de trazer alguém de outra Casa ou informar a senha a qualquer pessoa que não seja da Grifinória, mesmo se tratando de parentes próximos. Fui clara?
Molly fez uma pausa e olhou longamente a Elis, que tinha um irmão na Corvinal. Eu duvidei que ela pensasse em trazer o irmão aqui, de qualquer forma.
- Certo. Se desobedecerem a essas regras, serão punidos e pontos serão retirados da nossa Casa. Se quisermos ganhar o campeonato das Casas, precisamos todos colaborar! – ela continuou, em tom de discurso.
- Agora, aposto que estão todos precisando de uma boa cama depois de toda aquela comilança, acertei? – Arthur disse, descontraído.
Acertou mesmo. Minhas pálpebras já estavam pesadas.
- Meninas, para a direita. Venham comigo! Meninos para a esquerda, com o Arthur! Vocês dormem no primeiro andar.
Berta foi a primeira a subir, conversando animada com Susan Pullman. Elis ia séria e Sibila acanhada.
- Tchau, Lílian. Boa noite! – Remo me disse, com voz falha.
Talvez ele estivesse passando mal novamente, pois estava pálido como na entrada da cerimônia. De qualquer forma, achei que Arthur cuidaria bem dele.
- Tchau, Remo. Até amanhã. – sorri, sonolenta, lutando para não bocejar.
Ah, não, mais escadas... eu estava chegando no meu limite. Não devia ter comido tanto. Eu e essa minha gulodice.
- Bem, aqui é o quarto de vocês. Nunca, jamais, deixem um menino se aproximar, nem mesmo da escada. Vale até o que tiverem aprendido na aula de Defesa Contra as Artes das Trevas para impedi-los. – ela disse, séria.
Nós arregalamos os olhos e engolimos em seco. Só o nome dessa tal aula me dava arrepios.
Logo depois, quando havíamos entrado no quarto, Molly deixou escapar um sorriso divertido.
- Boa noite, meninas! – ela disse e fechou a porta com cuidado.
Berta se dirigiu, decidida, à cama do meio. Na verdade, era onde já estavam as coisas dela. Mas, de qualquer forma, se nos fosse permitido escolher, creio que essa teria sido a decisão dela.
Minha cama era ao lado direito da dela, perto de uma janela. Agora, percebia claramente que estávamos em uma torre, pois o quarto era circular.
Havia um criado mudo onde eu poderia arrumar minhas coisas quando estivesse com menos sono. Notei, com carinho, que havia uma espécie de caminha para a minha gata ao lado da minha cama. Eu deitei M lá e ela adormeceu na hora.
Rapidamente, coloquei meu pijama de forma automática e fiz o mesmo.
