Considerações iniciais: é só mais um texto achado numa pasta empoeirada do computador. Pela forma como foi escrito, deve ter uns dois anos. Mas não importa, o destino disso é ser deletado daqui um tempo, talvez. Talvez seja base para algo melhor. Isso devia ter uma continuação, ou ser só um rascunho, eu nem lembro.


Existe alguma considerável magia por detrás de um Carnaval?

Cabarés, bares e praças estão cheios.

Mesmo assim, alguns ainda estão sós.

A galeria parecia vazia: apenas poucas almas que realmente gostavam daquele lugar – e do que nele havia – observavam as obras ali expostas.

Quem, diabos, em pleno Carnaval, estaria numa galeria de arte?

Ele estava, e se sentia só.

-Impressionismo... gosta dessas cores e borrões?

Ela perguntou sem retirar os olhos do enorme quadro de Monet.

Ele – que rabiscava numa folha amarelada – parou o carvão entre polegar e indicador, voltando o rosto à moça. Demorou até responder, imaginando de onde, diabos, aquela mulher aparecera. Voltou-se para a folha, e continuando os rabiscos, respondeu sem encará-la.

-Gosto de vermelho. Gosto das cores. Gosto dos borrões – sutil e subjetivo. Os rabiscos tomavam forma de lírios e tulipas.

Ela permaneceu ali.

Era inquietante, incomodava.

Incrivelmente, passaram toda a tarde conversando. Ela desenvolvia todo tipo de assunto, descontraída, um tanto arrogante, desajuizada e sem qualquer senso de ponderação. De qualquer forma, ele só conseguia prestar atenção naqueles lábios vermelhíssimos. Ludibriantes, lascivos.

-Nunca uma moça posou pra você? – ela manteve aquele sorriso ladino nos lábios, quase como se debochasse do pintor novato.

Com as bochechas um pouco coradas, respondeu um "não" um tanto acanhando.

-E por acaso... precisa de uma?

Retirava os cabelos negros da frente do rosto que teimavam em atrapalhar-lhe. Aaron era um garoto de rabiscos, que tomava forma aos poucos – e isso se refletia em sua arte. Ele não fazia desenhos com base em círculos e linhas. Círculos e linhas limitam demais, os rabiscos dão mais liberdade.

O cabelo dela, preso por um pente com adornos em estilo oriental, num coque meio solto. Alguns fios e mechas de cabelo pendiam pelo rosto e pela nuca. A seda do quimono vermelho prensada contra os seios, a maquiagem destacando os olhos verdes e... não. Sem batom. Não era necessário.

Aaron se distraía, pegando-se mais concentrado nas cores da Pandora real, do que nas cores da Pandora rabiscada. Era pecado desejá-la – ele o sabia melhor que qualquer outra pessoa. Quem sabe, justamente por isso, a desejou com todo seu âmago. O pecado é vermelho.

Maduro demais para conflitos sociais.

Inocente demais para conflitos pessoais.

E os olhos azuis – tristonhos, acanhados – do rapazote lhe percorriam todo o corpo alvo, esguio, até os lábios. Sempre aqueles malditos – e tentadores – lábios rubros.

Ela sorriu...

...maliciosamente.

Os lábios dela não eram quentes como aparentavam – e como Aaron pensava. Eram como as ruas antes do Carnaval:

gelados, abandonados.

O mesmo valia para o pintor: era tão frio e solitário quanto sua modelo. Era estranho perceber que ambos eram dotados da peculiar habilidade de afastar as pessoas a seu redor – sem intenção, motivo ou desejo para tal.

Por um momento, por um segundo, por um único e singular instante, eles se sentiram aquecidos por aquele beijo tímido – da parte de Aaron – e atrevido – da parte de Pandora.

Colocou-lhe uma máscara e antes que ele pudesse perguntar o porquê daquilo, ela já o puxava pelo pulso, descendo as escadas com pressa, se emaranhando entre outras máscaras, e outros tons. Mesmo entre a gama de cores, o vermelho dos lábios dela ainda se destacava.

Não precisavam dos lençóis: o corpo dela aquecia-o, e era recíproco.

Os tais lençóis, por sua vez, estavam largados num canto, manchados – assim como o resto da cama – de vinho, sangue, suor e outros fluidos corporais.

Repousando nos seios fartos, o rosto do pintor calmo, corado. Não saberia explicar o que sentia, mas era bom, quente... Os dedos dela permaneciam num movimento constante de carícia. O ateliê nunca estivera tão quente e aconchegante.


Esse é um navio que nunca zarpou.